meu jeito

a florzinha

I

Escrever, o meu jeito de dizer as coisas, ou não dizer. Eu me criei numa casa onde as pessoas conversavam. Os adultos se reuniam para dizer o que pensavam sobre política, educação. Valores. As vozes tinham opinião.

Hoje, tramas de novelas televisivas, seriados, filmes, crimes são o tema. Os valores que preocupam são o das roupas, cosméticos, perfumes ou restaurantes. O clube é a passarela, os jogos pretextos, ou são os únicos textos?

As casas se esvaziaram porque homens e mulheres trabalham: as crianças estão nas creches, nas escolas entre outras crianças (parece bom isso), e voltam para os pais na hora de dormir.

Crescer não é mais preocupação; sem expectativas o aprendizado é competitivo entre iguais porque o mundo se faz a sua moda. O mundo das pessoas grandes atraente, sem ambição de sonho impossível. A criança já nasce dominando, impondo. O centro.

Quartos adaptados as suas necessidades: guarda-roupa, brinquedos já o mundo adulto em miniatura. O velho significa o usado.  Texto antigo, altera – se o quadro. A pintura outra, o jeito misturado com isso, mais o medo prisioneiro.

 

Ao escrever crio, por princípio, um mundo só pra mim. Apreendo a escutar. Observar, marcar leituras, esperar. Palavras vazias, ou tomadas de tantos sentidos! Luto por novos significados, tento me fazer entender, e termino por dizer não importa o quê. Não há tempo. Nem para convencer, muito menos para ser convencida de alguma coisa. A coisa acontece depressa demais.  A receita pronta não exige riscos. E estamos espremidos na rua, no bairro, no grupo certo.  As janelas não são abertas, são desenhadas de vento e sol e beleza necessária.

Estou trancada, protegida contra mim mesma, e tenho medo do ridículo. De um modo geral, aplaudimos o que já foi ovacionado. Lemos os livros que jornais, revistas, propaganda, crítica mencionam. Lemos o explicado, o premiado. Caminhamos no rumo certo, sem entrar nas picadas nem por atalhos.

Não há o que descobrir, o mundo foi devidamente revirado… As estantes de livros inúteis possibilidades: poeira. A música, a pintura, a escultura… Onde está o homem, o grito, o desejo? Reticências por todos os lados.

Quando dançamos ferimos os pés…

Estamos sem dançar sem abraçar sem acreditar e sem respirar, virou tudo do avesso.

II

A casa tinha uma enorme biblioteca. Meu pai e minha mãe, sempre com livros sobre as mesas, entre as mãos. Um enorme sofá com listas azuis e brancas, uma poltrona grande. Pés de luzes de alabastro, uma grande mesa redonda com gavetas que se encaixavam na circunferência. Uma cadeira de couro, com braços de madeira, tapete sobre forração. Silêncio. E as portas janelas que se abriam para um alpendre arredondado com três degraus. E o gramado. Aprazível. A lareira com rosáceas desenhadas em madeira e um acabamento em mármore cinzento.

Ali/dali eu ouvia as vozes a encher a casa. Abajures iluminavam numa meia luz de beleza quando a noite chegava. As revistas tinham lugar de destaque: eram francesas, alemãs, e traziam as mais belas casas que se podia imaginar. Esta beleza perturbava, porque entrava pelos olhos, pelos poros… A sala nos pertencia, nos impunha e se agigantava. Quantas vezes desejei me sentar, cruzar as pernas, corpo ereto e conversar/participar. Advogar, ponderar, escolher o melhor autor ler em francês, saber geografia e história, acompanhar jornais. Escutar e compreende. Saber. Educação precisa do cenário. Não nos damos conta do quanto apreendemos pelo olhar, sem falar, pelo cheiro, pelo toque.

Esta casa fez/era é a diferença.

A delicadeza das xícaras de café, dos copos e das bandejas polidas. Palavras atravessam paredes.

As palavras do meu pai, da minha mãe, e das tantas pessoas na casa. As histórias. Eu não sabia usar aquele vocabulário todo, dizia as coisas por aproximação: o que causava risos.  O dicionário me atrapalhava; não sabia se era s ou c ou se juntava as duas letras, ou que som teria aquele r, talvez fosse com h, tinha novelos inteiros de dúvidas. Eu me perdia a procurar o assunto que se esgotava: eu não compreendia o sentido inteiro. Não perguntava, e quando o fazia, a cada resposta, uma longa explicação, e elas me levavam a novas pesquisas…

Escrever parece a solução perfeita para a ansiedade.

Eu era apenas criança bonita, tranquila e obediente, e sabia escutar.

Talvez esta seja uma das vantagens de ser o último filho: aprende-se pelo cheiro, pela espera, por medo ao ridículo. E a turbulência, o movimento alimenta. Gosto do resultado. É isso.

***

Lembro de duas camas com pontas altas nas beiradas, e a colcha descia até o tapete. Não lembro dos brinquedos. De caminhar silenciosa e dormir cedo. Brincar com os dedos no escuro. Dormia no mesmo quarto da tia, irmã da minha mãe. Colecionei pedras, tampas, e gostava das bonecas de papel. E esfolava joelhos nas correrias. O quintal, os jacarandás, e os cães. Logo iniciei pequenos diários, colava figuras bonitas. De roupas, de flores: detalhes das revistas picotadas. Ilustrava cadernos. As irmãs guardavam/tinham bonecas cobiçadas. Um dia ganhei uma tão linda! Preciosa. Francesa, Chapeuzinho Vermelho: cestinha nos braços, capa vermelha, cabelos loiros naturais. Eu deveria ter quatro ou cinco anos. Esta boneca ficou intacta na lembrança. A mãe voltava de um longo/grande/enorme período no estrangeiro. E aquele avião tinha se espatifado no Morro do Chapéu, uma tragédia terrível anuviou Porto Alegre. Minha amiga perdeu a mãe, eu fiquei órfã junto porque ficou tudo escuro na rua Vitor Hugo. A mãe ainda estava em Paris nesta data. A boneca chegou com ela, de certo eu me consolei. Elizabeth M.B. Mattos – relendo o passado: junho ventoso e quente, entrou um inverno morno, esquisito e…, deve chegar uma chuva. 2020 – Torres

a estatueta da mãe a lul

 

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