ordem desesperada

Ada não tinha livre aceso à biblioteca. […] Nas suas próprias estantes, é claro, Ada mantinha obras de taxonomia botânica e entomologia […] Depois disso, Van punha à disposição de Ada em diversos esconderijos seguros tudo o que ela desejava ler, ou poderia ter desejado ler.” (p.106)

Biblioteca e leituras com sabor, cheiro, gozo: libidinoso pictórico. Não se trata de leitura com letras, mas pintura sonora: o milagre e Nabokov.

Depois que o pobre bibliotecário pediu sua ‘démission éploré’ em 1 de agosto de 1884, romances e poemas, bem como obras científicas e filosóficas, começaram a vagar sem rumo e sem que ninguém o notasse. Atravessavam gramados e passeavam ao longo das cercas-vivas à semelhança dos objetos carregados pelo Homem Invisível na deliciosa narrativa de Wells, aterrissando no colo de Ada onde quer que eles tivessem marcado seus encontros amorosos. Ambos buscavam nos livros o máximo de excitação intelectual, como o fazem os melhores leitores, ambos encontraram em muitas obras famosas nada mais do que pretensão, tédio e falsas informações. Ao ler pela primeira vez aos nove ou dez anos um conto de Chateaubriand sobre dois irmãos amorosos, Ada não entendera bem a frase ‘as duas crianças podiam, por isso, se abandonar ao prazer sem nenhum receio‘. (p.108) Vladimir Nabokov ADA OU ARDOR

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Quando falava muito alto, ela o fazia calar colando a boca na dele,[…] como se ela de há muito fizesse amor em todos os nossos sonhos.” (p.99)

“A ternura arredonda o verdadeiro triunfo, a gentileza lubrifica a libertação genuína: essas emoções não se identificam com a glória ou a paixão nos sonhos. […] Suas vibrações suscitavam o pensamento de que, ao final de vinte e seis passos, ele reencontraria sua jovem cúmplice, cujo delicado odor de almíscar estava ainda preservado na palma da mão – afetando Van com uma espécie de pasmo radioso: será que aquilo aconteceu mesmo?” (p.101)

Ao voltar para nós penso nestas leituras… Enquanto te sentavas concentrado abrindo os livros riscados com minha letra escabelada, rias/lias/concentrado e amoroso, amavas. Biblioteca desesperada por ordem. Conchas e cheiro de maresia, e /mas/ em seguida/ logo o mar nos abraçava, nós nos derramávamos nos olhos um do outro. Ias para as canchas e eu caminhava até a beira do rio Mampituba salgando os pés. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres

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