observatório subterrâneo

“Artista?

Isso mesmo, artista. Acho que você pensa que é um artista. É o que muita gente pensa. Que negócio é esse de artista?

Um observatório subterrâneo, retrucou Van prontamente.

Você deve ter tirado isso de algum romance moderno, disse Dick, pondo de lado o cigarro depois de poucas e ávidas tragadas.”(p.140) Vladimir Nabokov Ada ou ardor

Foto de Ana Moog / outubro de 2020

Cinzento e amolecido este domingo. Eu te escrevo sem saber exatamente o que dizer. As leitura seguem lentas, lentas, interrompidas, sem fim, sem rumo… Estou no meio de Nabokov. Terminei Lolita -, e me impressionou. Ele sacode com sensibilidades adormecidas. Adormecida: como eu me sinto, digo assim para não desdobrar a palavra desanimada. Perdi uma faísca no meio deste novo e heroico caminho. Não terminei Fala, memória, livro autobiográfico, impressionante. Empacada com o volume O original de Laura -, uma aula magna de ser escritor / poeta e colorista, não esquecer que Nabokov teve aulas de desenho, pintura e era um botânico apaixonado. O que posso te dizer nesta carta apressada? Abandonei Robert Musil (claro que voltarei, resgatarei) tendo certeza que todos desfilam no precioso livro O Homem sem Qualidades. São 864 páginas a serem degustadas, letras miúdas, e cada parágrafo tem o o vigor de um livro inteiro. Não é possível descartar a ordem, a força de vontade, o envolvimento total. E me dou conta que O Idiota de Dostoiévski guarda a principal influência / impacto. Eu me demoro a pensar. Ah! Estes russos danados de importantes. De certo aqueles longos invernos são excursões preciosas para eles. “Aqui é uma escuridão. Estás vivendo no escuro.” (p.241), e o volume tem 681 páginas. Estou escorregando envolvida com ventanias torrenses, vozes das calçadas, dores que sinto nos ossos. E tanto tempo enfiada nas cobertas. Estás a pensar que misturo todos, e não sei nada de nada. Concluo o mesmo porque espio os três volumes da tetralogia de Yukio Mishima Neve da Primavera: paixão e poder, morte e reencarnação – estes são os emas. A leitura como um túnel escuro. Tão negro! Não enxergo. Interminável. A luz ofusca, atrapalha, e o tempo fica / se transforma em grão de areia. Eu me perco de mim mesma, eu me perco na tua lembrança. Não porque te amo (não quero ser piegas), mas por responderes/significares a paz , a danada da paz que eu busco. E por me trazeres de volto ao mundo. Então eu te espero. E neste esperar arrastado, não faço nada: nem leio, nem escrevo, nem respiro. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres

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