As agulhas 2

Não fosse o excesso de móveis, o espaço entre as duas poderia ser território de paz. Avizinhadas nas tarefas, mas pressionadas por sentimentos diversos, desordenados, se ignoram…

Isabel tricota, e Lucia mastiga as pontas de um lápis a fazer as palavras cruzadas do jornal.

As cadeiras floridas colocadas lados a lado, e a mesa entre elas abarrotada de livros e bugigangas pode ser o bom divisor. Desordem. De qualquer forma toda a sala está fora do lugar, num vendaval de incoerências. Os livros empilhados no tapete, e as revistas já empoeiradas pelo descaso. Pela janela escancarada sobe/entra o som de marteladas. E o sol não chegou embora já perto das onze horas. Enfadonho domingo. Restrições, conversar, ou pensar, ou assistir televisão, escutar música, olhar nos olhos uma da outra, tudo irrita. É a pandemia. Com energia, também bastante irritação Lucia abre o livro, Lê um parágrafo. Achei interessante, sublinhei, estou sendo engolida pelo texto, talvez te engasgue também. Escuta.

A conhecida capacidade dos pensamentos, descoberta pelos médicos, de dissolver e distrair conflitos profundos, morbidamente enredados, que nascem de regiões abafadas do eu, repousa provavelmente apenas na  natureza social e exterior, que liga o indivíduo com outras pessoas e coisas; mas  infelizmente aquilo que lhes confere força curativa parece ser o que reduza sua capacidade de serem pessoalmente experimentados.”

Estou sempre a te dizer Isabel, esta picuinha e choramingo que emprestas a perda, deste ou aquele momento, ou ao que poderia ter sido  se, se, se… Não aconteceu, está lá do outro lado do quintal, no jardim, enterrado na cabeça maluca daquele vizinho, nas extrapolações da tua fantasia. Não são reais. Não são tuas, e mesmo assim te fazem sofrer, não compreendo. Não compreendo. Mais vezes penso nas histórias, mais entendo, e me avizinho da certeza dos teus insistentes equívocos. A tragédia te ronda, mas nada é autentico. Isabel levantou os olhos, interrompeu o trabalho, deixou escorrer lágrimas sentidas, e não respondeu. Lucia continuou a leitura:

“A menção casual de um pelo no nariz vale mais do que o mais importante pensamento, e ações, sentimentos e sensações transmitem, ao se repetir, a impressão de que se participou de um acontecimento pessoal mais ou menos notável, por mais comuns e impessoais que sejam.”

Lucia, escuta uma vez, não compreendo a tua dificuldade em aceitar o que tento explicar, diz ela, num tom de voz escabelado, não posso aceitar o equívoco.  Isabel retruca levantando mais a voz e ataca numa peroração de dor. Eu estava preparada, certa e animada para uma conversa diferente, franca quando estendi meu olhar e minha mão para ele. Concordei, afinal, com a possibilidade de um namoro, um encontro/entrega quando ele me assalta a emoção dizendo, ‘vou ter que sair!’. E logo. Talvez se ausentasse por uma semana ou duas… Continuou dizendo que tinha o número do celular, ligaria para dar detalhes. Tomou a cerveja num gole, e saiu. Já te contei mil vezes.  Não consigo entender. Eu nem tive tempo para falar. O que fiz de errado? E voltou a chorar. Outra vez Lucia se impacientou. Vou terminar o que Robert Musil escreve sobre esta interferência do externo, do mundo, das circunstâncias em nosso eu, em nosso íntimo, que de tão íntimo (e sorriu), desconhecemos. Céus!

“‘É pena, mas é assim’, pensou Ulrich. Lembrou-se daquela impressão totalmente profunda, excitante, diretamente ligada ao eu, que se tem ao cheirar a própria pele. Ele se levantou e abriu as cortinas do quarto. A casca das árvores guardava a umidade da violenta. O sol brilhava, as pessoas moviam – se com animação. Era primavera no asfalto, um indefinido dia primaveril no outono, como só as cidades conseguem produzir magicamente.” (p.83) Robert Musil O homem Sem Qualidades

Não me olhes deste jeito disse Lucia, fecha o livro. Tudo que sei fazer é mesmo ler histórias, em voz alta, não exatamente criativo. O meu jeito de dizer aquilo que já foi dito. Tudo já foi sentido, feito e dito. Reafirmo. As leituras, os livros, no meu entendimento, a melhor conversa / a melhor cura. No entanto, talvez, eu também te compreenda… De que resolve um amontoado de palavras se não sei, com precisão, fazer uso delas! Eu diria, de que vale a vida se eu sequer entendo do prazer de ser eu, apenas eu? Sim, porque depois do prazer do corpo, de cada pedacinho sentido, usufruído, posso, minimamente, entender o outro. A outra pessoa, aquele desastrado interlocutor que queres amar, e, céus! Pensa Isabel, eu também quero amar misturar cheiros, e minhas vontades. Distribuir abraços e receber beijos. Atormentados beijos de desejo, mas seguro a fantasia, e contenho ímpetos. Queria te dizer. O dia de esquecer, te apaixonaras, perdidamente, por ti mesma, o mundo ficará afinal azul e rosado e perfumado. Estou errada? Eu me sinto uma louca a te dizer isso, minha amiga, mas não sei dizer diferente, e cansei de escutar… Lucia se levantou. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

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