lavar as mãos

Tenho sido autoconfiante até a tristeza. Pergunto-me quando foi que adquiri o hábito de lavar as mãos depois de cada raspão com a humanidade, para não ser contaminado. As pessoas diagnosticam esse hábito como uma meticulosidade exagerada. (p.129)

A velhice é uma doença apropriada tanto para o espírito como para o corpo, e o fato de que a velhice é uma doença incurável significa que a existência é uma doença incurável. (p.187)

A memória é como um espelho-fantasma. Às vezes mostra coisas distantes demais para serem vistas; outras vezes as mostra como se estivessem aqui. (p.210) Yukio Mishima Mar da Fertilidade – Vol.4 – A Queda do Anjo

Último volume da tetralogia MAR DA FERTILIDADE, A Queda do Anjo finaliza com brilho este monumento da moderna literatura japonesa. Mais do que isso: são os últimos escritos de Yukio Mishima, este verdadeiro samurai do século XX, escritor genial e dos mais lidos no Ocidente.

“O Mar da Fertilidade se lê como uma vertigem. A artistificação da vida, o esteticismo exacerbado e quase paranoico de Mishima vão aí até as raias da pura genialidade.” Paulo Leminski

Nada nunca para sempre fica do mesmo jeito que pretendemos. E a aspereza do que é ascético não conflita com o agradável enfiar os dedos no mel que é a sobremesa da vida. O mel tem disto. As mãos não ficam aptas para um cumprimento mas desejamos lamber, sugar, sorver tudo que é prazeroso. Seria egoístico? Talvez. Lembro-me da infância jogado na lama sob a chuva displicente em frente de casa com minha irmã e meus amiguinhos e amiguinhas. Nossos pais atentos mas permitindo o enlamear sabedores da beleza que é a infância suja na inocência. Melhor assim. Crescemos adultos limpos já sem o viço da ignorância das consequências. Quero-me limpo e quero-me sujo. Contaminado com saúde. Despreocupado e humano. Desatento mas cheio dos protocolos. A criança em mim sorri, lá no fundo, sabedora que é mais sábia do que meus atos comedidos. Afinal tenho que ser adulto. Comportado. E, de repente, saliente…. um sorriso entredentes se esmera para brilhar dentro da máscara. Quem me conhece sabe que meus olhos traem este brilho oculto pelos pés-de-galinha assanhados. Fernando José Valente de Senna Júnior:

4 comentários sobre “lavar as mãos

  1. Nada nunca para sempre fica do mesmo jeito que pretendemos. E a aspereza do que é ascético não conflita com o agradável enfiar os dedos no mel que é a sobremesa da vida. O mel tem disto. As mãos não ficam aptas para um cumprimento mas desejamos lamber, sugar, sorver tudo que é prazeroso. Seria egoístico? Talvez. Lembro-me da infância jogado na lama sob a chuva displicente em frente de casa com minha irmã e meus amiguinhos e amiguinhas. Nossos pais atentos mas permitindo o enlamear sabedores da beleza que é a infância suja na inocência. Melhor assim. Crescemos adultos limpos já sem o viço da ignorância das consequências. Quero-me limpo e quero-me sujo. Contaminado com saúde. Despreocupado e humano. Desatento mas cheio dos protocolos. A criança em mim sorri, lá no fundo, sabedora que é mais sábia do que meus atos comedidos. Afinal tenho que ser adulto. Comportado. E, de repente, saliente…. um sorriso entredentes se esmera para brilhar dentro da máscara. Quem me conhece sabe que meus olhos traem este brilho oculto pelos pés-de-galinha assanhados.

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