sono deprimido

Tem um sono deprimido presente a se espalhar bocejando, amolecendo o corpo: não dorme, apenas estica os braços, sente dor nas costas, no corpo sem exercício, sem vontade. Tem um sono apertado e insone a reclamar. Razão tem minha amiga que vai e volta, volta e vai desapegando disto e daquilo, agarrada nas curvas das calçadas, nas caminhadas, no gosto alegre do novo, e do agora. Este verbo ter traiçoeiro e injusto, este indefinido um… Fico a pensar nestas danadas escolhas! Livros lidos, e naqueles impossíveis, inacessíveis perdidos nas estantes. Nos que deveriam ser relidos. O livro Pantera no Porão de Amós Oz deu uma sacudida neste meu jeito novo de reclamar / ou me queixar: por que não trazer a infância para se esticar no papel? Por que não posso contar histórias possíveis e as impossíveis? Por que cortar o tempo sentindo dor? Hoje, agora: todas as possibilidades possíveis, nada impede. Nem o vírus, posto que sigo em casa, fechada em sonhos como antes, como será amanhã. E razoavelmente bem. Se infeliz, bem, se estou infeliz deve ser este apego ao sono deprimido, a ausência. Não de ontem. Nem qualquer saudade, mas a que guardo de nós dois. Ausência do agora. Deste silencio imposto não porque envelheço, mas porque não chegas, não dizes, desapareces. E o novo? O novo se espreguiça também. Preciso assumir o passo e caminhar, caminhar, e caminhar. De mal com as panelas, aborrecida com os cheiros, cansada de mim mesma. Preciso de mar, de sol, da pimenta, da proibição e da valsa. Como está se saindo meu amigo nos Estados Unidos gelado, naquela América gelada, na neve e no vento? Como será o calor? E a primavera? O outono e a incerteza… Quero uvas, pêssegos e um hoje, um agora/amanhã, um instante florido. Flores. Bom que Marina mergulha nas aquarelas delicadas dos jardins. Invejo este jardim florido no papel das tintas, no perfume das rosas colhidas, na delicadeza limpa e imperiosa das cores. O gosto do café me desagrada. O chá não conversa. O vinho faz doer a cabeça. O whisky não chega perto. Azeitonas recheadas. Tomates com azeite e sal. Todos os verdes possíveis. Onde estará aquela alegria natural? Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2021 – Torres

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