comigo ou sem migo = o mundano da vida

Rio de Janeiro 1976/ 1975 – Viúva Lacerda – Largo do Humaitá

Espetáculo, palco e vida na plateia, contigo (escolha minha/ gostaria que tivesse sido tua), sigo a linha e a tua voz, tuas inquietudes positivas, teu agora… e esta tristeza enfiada no quarto, na sala, distraída e revolucionária. (24 de março de 2021 – vacinada em Torres)

Aquarela de Marina Pfeifer / março de 2021 -Florianópoles – mastercopy do aquarelista John Yardley

1.

Reli as confissões, não exatamente confissões, estas deixo com Santo Agostinho, digamos, relatos atropelados, tuas grandes e boas histórias salvas na minha memória. Claro, não te perdi em nenhum momento, e te encontro/reencontro em outros tantos momentos esquecidos, agora lembrados, (por que não fui seduzida, desencaminhada, ou achada por tuas artimanhas?). Colei o que escreveste, às pressas, na minha memória, arejei nomes e lugares. Aborrecida por não ser eu contigo. Nem eu comigo como sugeres. Não protagonizei nada. E, casualmente, fatalmente, estávamos, tu e eu, nos mesmos corredores. No mesmo palco, com os mesmos holofotes. Escutar tua voz, acertar os intervalos. Dançar, escutar Roberto Carlos, (Eu te proponho!) ou mesmo Aznavour, ou…, céus! Elis Regina. E dançar, assistir filmes arrastando as cadeiras, jogar cartas, e praia e praia e sol e sol. Fizemos tudo juntos, separados pela rede.

2.

Se agora aos setenta, bem, por/com sorte, aos oitenta, me fazes retomar / repensar / cuidar destas vontades reprimidas, deste tesão (vontade grande / desengonçada) guardado. Se alucino durante a reclusão confusa desta pandemia, sem data, sem atino, eu te gosto. Se pudesse esquecer tudo, pegar tua mão e fugir, se contigo ou sem tigo, eu sairia da tristeza? (Vamos lá rir de nós dois, consertar o passado, ouvir música no escuro.) Um beijo, dois, ou três beijos escondidos no breu da noite escura/preta/ estrelada; ah! O concerto de violinos, alegria musical, engraçada (?), não, alegria séria, seríssima, e ousada. Transgressora e, um pouco, ou muito satisfatória. Escondida de mim, escondido de ti mesmo, de todos, dançaríamos ou não, dançar não, mas provar desta estranheza de fazer o proibido, que pode ser livre, um agora, ora… Ou um escândalo amoroso…, eu espero: amorosidade = generosidade. Cúmplices. Numa adolescência compreensível. Com fantasia, agarrados no impossível, suados pela caminhada, desconcertados neste conserto com música, a música das tuas canções.

Investigo. Converso com Poirot, embora ocupadíssimo, abre a porta. Num envelope com data entrego mais uma mecha dos meus cabelos. Explico o assassinato, e num sorriso confiante, digo que foi teu conselho resolver este caso descabido. Ele me olha integrado. Resolve me atender. Explico que estava familiarizada, com o trabalho de Maigret, mas devido a preciosa indicação… Eu entregava minha vida aos seus cuidados. Contei em detalhes a tentativa de suicídio (não aconselhada por ti), e, logo, imediatamente, rechaçada por mim. Da tristeza do momento. Preocupação de deixar a pobre peluda, minha Ônix, desacorçoada a recomeçar a vida com outro dono, coloquei o problema da cozinha, dos quilos excedentes, e desta vontade ensandecida de te beijar, numa espera lenta de reviver a vida. Ele me fez sentar. Escutou paciente. “A sedução física, funciona e se mantém no mental…, imaginário.” Explico apressada, amor avassalador, leio em voz alta as cartas escritas por ti. Reflexões, e vou logo perguntando: Como posso curar esta loucura sem cometer outros assassinatos, sem invadir portões, seduzir cães para roubar-lhes o dono? Sempre os cães! E querer o que de fato/razão não me pertence. O gramado, o jardim, o calor, as alucinações. E já suada e ansiosa. Com medo da pandemia, das sirenes, e da polícia, que sem máscara me interpelaria… Sou eu mesma que cometo estas loucuras? Desatinos de morte? Quem está envolvido? Tantos desparecimentos determinantes e não mencionados / descobertos. Serei apenas eu a responsável? Preciso de ajuda.

3.

Aquela tristeza aguda da melancolia  trava qualquer alegria, e o ânimo se espicaça apático. Estou a me questionar o que significa alegria? Saúde.  Estarei doente? Uma coisa feia escondida dentro de mim, alguma coisa que não se explica. Dores de cabeça  ou qualquer coisa presa na cabeça, nos olhos, nos pés,  neste estado  permanente de desconforto… As boas e as péssimas energias. Frestas / portas   abertas…Toda força  desaparece, quero voltar para mim. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021

Foto de Ana Moog – março de 2021 – Praia da Cal – Torres

2 comentários sobre “comigo ou sem migo = o mundano da vida

  1. Pingback: do amor que sinto por ti | amoras azuis

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