do amor que sinto por ti

Amor deveria ser desmaterializado, como fantasma, imaginação. O amor não deveria ser justificativa disso ou daquilo, nem andar solto por aí a enfeitar cadernos, ou estar nas gavetas. Do amor, se amor fosse o nome deveria ser servidão necessária, completa e obscura. A servidão que abre espaço para o outro ser e respirar e fazer até crescer. O amor tem / deve ser silencioso, manso e cuidadoso, quieto. Agigantado fica musculoso, cheio de poder! Toca o céu, mergulha fundo demais ou no escuro ou na luz, devastador. Engole tudo e termina acaba por triturar aniquilar o que pretende amar. O amor não deve existir como astro, ou como selo, ou como explicação para toda e qualquer loucura. Se colocar no lugar da pessoa a fantasia colorida, saímos a dançar. Desaparece o desejo físico, o tesão. Desaparece o alucinado desejo de querer se satisfazer/ ou satisfazer. Permanece / fica/vira encenação para ser aceito/a entre todos, para exibir no baile, nas calçadas, entre amigos, no bar. O performático atuar / representar destrói qualquer possibilidade de satisfação, tira do foco / exclui o sentimento. Tira do foco o desejo, a tesão. Se necessários / importantes são estes artifícios: passeios imperdíveis, viagens extraordinárias / incríveis/ cenários suntuosos, cuidado! Desconfia. O sentimento desaparece. Os pretextos se transformam em essência. Fantasia e malabarismo nada acrescentam. A igreja, o altar, os convidados, a pompa da cerimonia, a tal mencionada / sonhada viagem, o banquete, e as pessoas também são acessórios luxuosos, supérfluos. Este cenário camufla / esconde / atrapalha / abafa os gritos, as risadas: tira a fome, afoga, aprisiona no vazio. Eliminam a dor. As palavras matam, assassinam. Se fosse possível desmaterializar o sentimento, desvirtuar (tirar o véu da virtude/destas mentiras formais / convencionais), deslocar, eliminar palavra. Nós nos jogaríamos um nos braços do outro naquele gramado, naquela praia, naquela praça, naquela cama. Tu e eu, eu e tu. Vejo, sinto, pressinto, sinto outra vez, desconfio do amor. Já tirei a roupa, já me deixei tocar e beijar. Subi as escadas, desci as escadas. Vesti o estampado de verdes e avermelhados, o mais curto, depois o mais longo. Usei decotes insinuantes. Uniformes e meias escolares. Andei nas pontas dos pés, unhas pintadas de vermelho (porque eu gosto). Calcei os sapatos com saltos altíssimos, e as sandálias brancas. Encontrei as botas… Sentei sem modos, cantei nos teus ouvidos desafinando. Ensaboei o corpo para que tu pudesses sentir o perfume e me pentear depois da chuva. Embarrados, afundando os pés e cavando com mãos para plantar cravos, violetas no canteiro das rosas. Ah! O que choramos, o que gargalhamos já esquecemos. Não é amor, somos nós dois do jeito que somos. Inventamos. Experimentamos. Desafiamos, descobrimos o corpo um do outro. O mundano dos excessos a escandalizar os vizinhos puritanos deixamos / permitimos o tesão desejo alucinar. Homem / mulher/ criança juventude/ velhice / desesperança ou…, tudo igual. Exausto sentas na frente da televisão, aumentas o som, procuras o canal dos jogos, os teus preferidos, abres a cerveja nem tão gelada… Vou saindo devagar e eu te espio, dormes na cadeira, os sapatos jogados, a camisa aberta (esqueceste de fechar os dois botões, o rasgão do arame farpado parece maior… E ontem estavas tão elegante para viajar!

Ah! Esqueci de te dizer que comprei os chocolates para a Páscoa – terás o que distribuir. Não sou a mulher mais bonita, não sou a mulher mais inteligente, não sou intelectual, ou especializada, se vasculhares nas minhas gavetas e remexeres e procurares vais encontrar pedaços engraçados/divertidos de te amar, desejar, fantasiar e fugir… Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Torres (já estou na praia, outra vez)

https://amorasazuis.com/2021/03/24/32956/

O fantasma da Ópera (The Phantom of the Opera é um musical composto e co-escrito por Andrew Lloyd Webber, baseado no romance homônimo de Gaston Leroux. As músicas foram compostas por Andrew Lloyd Webber, com letras de Charles Hart e letras adicionais por Richard).

2 comentários sobre “do amor que sinto por ti

  1. Intensa você. Amei as meias escolares e a subida e descida da escada. Sim… amor não terá nunca uma definição suficiente senão vivida.

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