jornal chegando na porta

Assinar um jornal. O único possível. O ideal seriam três diferentes editorações, opostas / outros formas de /dizer/ organizar/ narrar o que acontece: a pandemia. Versões opostas. Esta narrativa televisiva parece uma lavação constante de cabeça, os jornalistas e seus cabelos molhados, roupas ajustadas a festividade do momento, e tanta plástica! Retocam os olhos, a boca. Escondem o pescoço em golas fartas. A ideia: não apenas ouvir, mas distrair com este visual psicodélico e artificioso. Assinar o jornal, mesmo retrógrado, e antiquado, resolveu a primeira necessidade. Cada detalhe do dia deve ser acompanhado da leitura certa. De uma determinada manchete. Depois, risadas perfeitas. E sempre seguir a boa culinária: todas aquelas opções de restaurantes / nenhuma disponível para meu gosto. Justifico: um dos motivos desta inquietude / desregulado sentimento deve ser, certamente, fome. Saciar a vontade ensandecida de comer deve ser um bom método. Se falta, inventar. Comer a maça dividindo em muitos pedaços, saber o valor nutritivo da banana, saborear uma folha de alface como se fosse a delícia escolhida e dar preço/valor a cada garfada. Da salada de tomates o colorido do amor, com tiras amarelas de pimentão. Lavar roupa diariamente, perfumar a casa com obsessão. Verificar os lençóis com suas dobras bem passadas. Arejar os travesseiros. E limpar, limpar, lustrar, polir. Os livros lidos enfileiras na estante fora de casa. Cuidar os ácaros, os mosquitinhos, os insetos, e as conversas dos vizinhos. Ah! Se fossem mais silenciosos eu poderia imaginar coisas fantásticas. Não. Eles falam e se movimentam como pessoas comuns, banais e pouco interessantes. Entram e saem, gargalham. Carregam sacos enormes de batatas (isso é estranho! Estarão abrindo um restaurante clandestino no prédio?! Ou vai haver falta de batatas, de arroz, de feijão, não percebi se carregavam pernil ou algum barril de vinho, água sim. Carregamento clandestino: olho para minhas garrafinhas! Melhor fechar bem as cortinas e guardar qualquer imaginação. Não olhar pelas janelas, não sentir os cheiros duvidosos de queimado, não escutar. Os discos de vinil, sim, os discos de vinil, os que restaram do incêndio devem ser a distração ambiciosa das próximas semanas. Afinal, caminho por pedras e medos cheios de angustias, pelas saudades doloridas: carrego as nostalgias, e me descuido do elementar. Abri a porta desanimada, bom! Bom! Que susto! Tu vieste me festejar com margaridas e rosas, cravos perfumados. Eu me alegrei. Naturalmente encabulada não te beijei, (proibido beijar), não te abracei (não aglomerar), e ainda estavas vestido. Não falei, encabulada eu me agarrei nas flores e se não fosse a tua mão empurrar a porta, ela teria se fechado. Apressada na angústia de ser eu mesma, desconcertada de ser tua, tão abertamente entregue, chorei. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Torres

música musique

A mesure que nos prenons conscience de cette vie intériure inconsciente, nous avons besoin d’ un changement correspondant dans nos formes d’ art. Pour admetrre que la fantasie et la mémoire se sont pas des activités distinctes, mais la clé même denotre vie secrète, il faut changer de point de vue, se libérer des anciens moules, adopter une technique qui embrasse les dimensions nouvelles du caractère et de l’intuition. Il faut que la musique aussi s’étende au-delà des sons familiers, et qu’elle se libère des structures passées, quélle cherche des sons qui corespondent à nos humeurs et à nos sensations contemporaines.” (p.193) Anaïs Nin – Journal 1947-1955

contar /enumerar/ esticar

Não acerto o corpo, termino sem enredo, distraída, desviando. O cenário: prateleiras, ordem dos armários, a quantidade. O impecável. Descrever a casa, a menina, a mãe, o rapaz. Silenciosa tranquilidade do pai. Escadas. Explicar risadas. O fogo das lareiras. A lua deste inverno. O gosto da comida. Venezianas limpas, escovadas. As janelas, a biblioteca. As cortinas pesadas. Sofás com almofadas soltas. As flores, verdes. Voltar para casa. Ser acolhida. As bonecas. As inúmeras ausências. Não sei da tragédia. Não estava em casa quando as coisas ruins aconteceram. O proibido escondido. Tragédia e lágrima. Ou não percebi. Folheava revistas, Despetalava flores. Corria na calçada, subia nas árvores. E dormia bem cedo. Beth Mattos – março de 2021 – Torres

cobra rastejando nos degraus

Por onde a cobra rasteja, atenção… Olhar fixo, curva sinuosa do corpo: poder de engolir elefante e pedras. Dramaticamente feiosa, cuidado! O domador se enrosca no corpo gelado, atenção aos que a veem passar, acelerando, disfarçada, com raiva. Cuidado com a cobra rastejando… Beth Mattos – março de 2021 – Torres

avesso da realidade

A vida se mistura na fantasia. Estamos/ficamos, nós os dois, a sonhar amarrados no avesso da realidade: juntos. Fantasia. Na fantasia da fantasia nos debruçamos. Trepida a paixão. Sem desenho, sem contorno. Curioso! Arranho estreitos conceitos cotidianos… O sentido exato/preciso das coisas saltam como pipocas.

Poderei tocar nas teclas do piano, será música? Tantas vezes tentei! Eu imagino a dança: corpo colado, apertado, olhos fechados. Dançar. História exigente, não apenas conhecer um ao outro, mas transpor a barreira, descobrir o avesso, desfazer a bainha, acertar os desvios/ e desmanchar a costura mal feita. Que o caminho se faça pelas pedras sem sangrar os pés. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Torres

zero importância

Pequeno feito, zero importância, apenas sensação: consegui mover a pedra, ou seja, tenho força, ainda posso, não posso deixar de fazer, tentar, tentar e seguir. As conclusões apertadas: ainda não tenho gavetas arrumadas, papelada catalogada, livros por autores, ou qualquer coisa assim que seja ordem. A rainha de tirar o mundo do lugar, de inverter, e da desordem. Enorme confusão invertida, direto para o cansaço. E as comidas conciliatórias me engordam. Nenhum plano objetivo. Talvez a releitura de velhos, velhos textos acalmem a impertinência deste esvaziamento atual. Ou recomeçar a limpeza, verificar os cheiros. Cavoucar a floreira, amaciar a terra com uma enxada. Ver flores, brinquedos nas nuvens e, esta maravilhosa chuva. A chuva que carrega no vento as tristezas abusivas e lava as janelas. Como eu gosto! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – ainda em Torres

atrevida

Esvaziamento de sentimentos: nem bons, nem ruins, nada. Desanimando manso. Atrevida sensação de impossibilidade. Depois, passou tanto tempo! Não é  possível! Possível marola: tempestade. Desânimo dobrado. Enfiado nas  gavetas de tantos achados. Nas caixas. Nos livros. Se o lápis começar a se movimentar e colorir, eu vou brincar. Agora vou passar um café  e olhar / procurar do prazer ao prazer… Beth Mattos / março de 2021 / Torres 

trasferível

Cheiro, relações traçadas… Prolixas, exuberantes, misturadas. Recomendar um livro, dizer um poema, pintar um quadro, ouvir música. Intransferível assimilação amorosa.

Sonhei um sonho sonhado. Lenços voando. Linhas ocultas. Esta ex- posição, ou posição posterior, ou anterior, esta vitrine para outro, não importa. Surpresa agradável ou não. Quando / como a comunhão? Os mesmos caminhos. E falamos / falamos.  E não sabemos se somos entendidos. Não sabemos. Não é o que achamos ser o melhor, mas a linha cruzada entre o nosso olhar e o do outro. Uma onda. Como surfar eu imagino. Depois, passa a vertigem. Viver: estar no lugar certo com o humor certo, a pessoa certa. Então, a sensação de felicidade. Beth Mattos

março 2021

O mês  de março se estica com morte e doença…  Queixas e dores. Prostração. Higiene, distanciamento. Quietude, paciência. A música do rádio, a notícia apertada. Sorriso comedido. Palavras esmaecidas e frágeis, medrosas. A natureza agradece o descanso, e se fortalece. Logo dançaremos  noites, manhãs  e tarde até  cansar. Hoje, doloridos de tanto dormir, dormir e dormir: sono de tanto tempo! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Torres