Pato Juca

JUCA PATO

Soube que no passado houve um pato chamado Juca. Morava numa lagoa linda. Um caraterística especial: voava para trás. Único e inigualável. Lembrei de te apresentar a ele […] Outra razão, não menos importante, linkada no nosso pato aí atrás, é sugerir que, sem desafiar o relógio que vai sempre andar para a frente e será frustrante, empreendas voos para trás em todos os horizontes: do físico, do emocional, dos tabus… as pedras dos mandamentos, símbolo da humanidade cristã, foram quebradas e restauradas a novos costumes. Segue  o Pato Juca. Voa para trás como uma fonte de sabedoria e experiência. Brilha. Despe vestes pesadas e aprisionadoras. Curte a plenitude que quem por ser UNICO sabe voar para trás.

Sou apaixonado pelo Pato Juca desde os 6 anos de idade. Acho que fazem 66 anos. Me esqueci de te dizer que ele sofre ameaças, dos que também moram na mesma lagoa. Os jacarés Alcides e Héracles. Ambos querem jantar nosso Pato Juca. Eles são conhecidos pelo codinome TEMPO.

Pato Juca segue lépido, ÚNICO e jovem. Já os jacarés… estes lagarteiam ao sol e se tornaram vegetarianos… o ÚNICO nocauteou o TEMPO.” JMCLKYZ (maio de 2021)

Preciso das tuas histórias. Preciso do teu tempo. Preciso desta alegria. Das tuas caminhadas. Das tuas idas e vindas. Do desaparecer, e depois chegar num repente. Deste tudo que me dás, desta alegria de viver. Das tuas cartas, deste teu jeito. Dos teus castanhos ‘olhos azuis’. Beth Mattos maio de 2021 – Torres – na beira da Lagoa do Violão

O nome dado originalmente a Héracles foi “Alcides“, em homenagem a seu avô Alceu, pai de Anfitrião. O nome alternativo de Héracles (que quer dizer “À Glória de Hera”) foi uma tentativa sem sucesso de apaziguar o ódio de Hera, louca de ciúmes pelas infidelidades do marido.

Minha madrinha Vera na casa da rua Vitor Hugo – Petrópolis – Porto Alegre –

Lagoa do Violão – Pato Juca

não tens olhos azuis

Quereria se pudesse querer, quereria te amar de amar. Quereria te ver… Inventei vento, chamei palavra: apreendi a me despir, vestir. Pintar a boca, desenhar os olhos, puxar o cabelo. Dancei. Troquei flores de lugar…Desarrumei a cama, inclinei o corpo. Consertei o tempo, fiz preguiça, aprendi amornar o leite, fazer o chá. Abracei o cheiro do teu corpo. Entendi o disfarçado e guloso olhar… Apago vírgulas, retiro reticências, abro parênteses, deixo exclamações. Não tens os olhos azuis. Nem encabulado jeito de tocar… Recuo. Já sei, não vou / não posso nascer outra vez / pensar outra vez. Começar recomeçar. Riscar, apagar… Com certeza também tu inventaste / imaginaste a leveza de ser e não ser: o limbo. Somos a brincadeira de gostar / de querer desejo… Teus olhos não são olhos azuis. Eu não tenho olhos azuis… Não sou eu, nem és tu. Não somos.

Saudade sinto de ti, meu querido! Aquele aperto com lágrima de chorar, despejo na floreira. Toco piano, pincelo verde, esparramo vermelho, o azul, não tenho. Fecho o sol. As escalas se repetem organizadas. Escrevo histórias perfumadas de tristeza. Apenas hoje, eu prometo. Amanhã volto pra mim… SAUDADE daquela esquisita dependência de só te querer.

Só os míopes conhecem o contraste prodigioso que existe entre a visão confusa e a visão nítida

Tu e eu, nós dois na embriaguez… lentes invertidas, perdidos anos. Vontade louca de… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

amontoado de escombros / resíduos

Sou lenta, tu sabes. Certos termos, explicações flutuam, voltam, e me cercam… Persigo. Talvez tenhas razão quanto a minha distância do mundano, e do frívolo. (ainda estou a pensar) Procuro olhar com insistência. Quero devagar. Abro mão do que não seja essencial, mas me perco nas palavras. Cometo equívocos. No bonito dos desenhos coloridos da tua voz, no jeito amistoso, generoso do teu carinho sensual eu… Esta coisa da beleza atrapalha, e o tempo e o pensar se esgota numa tarde, ou acorda no prazer/gozo/tesão, mobilidade, fantasia do querer, ou desaparece porque é raso. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

Na verdade, porém, a futilidade é uma coisa lúgubre. Não sei se você já viu estas chagas medonhas que roem o nariz, que abrem um buraco no rosto. Vistas sem levar em conta o rosto, o nariz, a boca, a expressão humana, enfim, essas chagas têm um luxo de cores a que não recusaríamos uma certa beleza exótica. Postas no homem são um horror. Pois assim é a frivolidade. / O que existe na frivolidade é mais doença do que saúde; mais fixação do que mobilidade; mais morte do que vida. Eu disse fixação. Explico – me melhor: todos nós sofremos na vida certos golpes psicológicos, um susto, uma surpresa maravilhada, uma descoberta dolorosa, que deixam em nós um resíduo. Ora, tudo em nossa vida vai depender da possibilidade de assimilação desses resíduos. Se conseguirmos dissolvê – los na substância de nossa pessoa, então esses sinais de nossas experiências serão fecundos. Haverá uma experiência propriamente humana, um lucro. Se eu transformar em sangue, em alma, as pedras de meu caminho, terei doravante antenas sensíveis que antes não possuía, serei capaz de intuições que antes me faltavam. Farei versos, descobrirei novos planetas, ou terei simplesmente um harmonioso equilíbrio que me permitirá a dilapidação da vida. / O frívolo, ao contrário, é aquele em que o resíduo das experiências encaroçou. Tem pontos sensíveis, botões, teclas de comando, e são movidos de fora para dentro, como os mecanismos. Aperta -se um botão e ele diz ‘bom dia’ encarquilhando os músculos da face. Aperta -se outro botão e ele faz um discurso, se é ministro, ou atira os cabelos para trás, se é moça de vinte e cinco anos.”(p.127)

[…] “Agora eu vejo que é com amor que a gente conhece as coisas, separando – as, distinguindo – as, mas trazendo – as todas unidas e banhadas na mesma atmosfera. E se não existe o amor? Então o universo inteiro se torna um heteróclito amontoado de escombros.”(p.131)

E agora, Miguel, eu te pergunto, onde, como, e por que tiveram os homens pela primeira vez a ideia de ver aquele fluido azulado um símbolo de felicidade eterna. Sinto hoje, pensando no céu dos santos, a mesma vertigem. Antiga. A felicidade precisa de um chão. A felicidade precisa de uma ancoragem nas coisas. Queria um céu com esta mesa, aquela cadeira, o retrato de mamãe. O céu com Eunice. Com o vestido novo de Eunice. / Como fazer agora, se é o próprio chão, e as coisas que nele se firmam, que me dão vertigens, e uma desesperada sensação de vazio? O mundo inteiro está em crise. Tudo é nuvem, e passa, e se transforma. A única coisa que me parece sólida e palpável é a dor que carrego dentro de mim. / Miguel, eu tenho coragem de dizer: se esse céu dos santos existisse, eu não o quereria! Eu seria profundamente infeliz, infeliz ao quadrado, infeliz como um danado, neste transparente lugar onde não coubesse a paixão da minha dor. / e foi isso que fez de mim a futilidade, que dona Alice acha pouca coisa. Foi isso que Eunice conseguiu fazer. Matou em mim o próprio desejo de felicidade. Não sei se exite céu; mas inferno existe. E eu já estou no inferno.” (p.133-134) Gustavo Corção Lições de Abismo

Significado de Mundano

adj.
1. Diz-se de quem não possui virtudes;
2. Diz-se da pessoa que se entrega ou tem tendência para se entregar aos deleites e regalos do mundo;
3. Respeitante a mundo (numa perspetiva material e efêmera); que é terrestre ou profano;
4. Referente à vida que se opõe à espiritualidade, dando maior relevância aos prazeres e recompensas materiais;

Significado de Fútil

adj.m. e adj.f.
1.
Característica de quem ou do que é irrelevante; particularidade de quem é insignificante; que dá relevância a coisas sem importância ou vãs;
2. Diz-se do que ou de quem possui uma aparência que provoca desconfiança; que possui características ardilosas, que é enganador;
3. Que é desprovido de âmago ou de princípios; de caráter infantil ou tolo; que é superficial ou frívolo. Google

por quem eu me apaixono

“,…por quem eu me apaixono“, tu perguntas? Pelos homens inquietos. Pelos reflexos, pelos desvios. Pela doçura de um filho. O som de um piano, de uma voz. Eu me apaixono pelo sonho das filhas. Também pelos sorrisos, e por todos os olhos azuis que se arregalam. Eu me apaixono pela dificuldade do caminho, depois pelo gosto dos morangos. Eu me apaixono pela saudade, também pelo desejo de sonhar o sonho, o gozo. Toda e qualquer imaginação, eu me apaixono. Choramingo as perdas, danadas e tristes. Todos os abandonos, voluntários, involuntários. Eu me apaixono…Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021- Torres

damasco com ameixa

tornar-me parceiro para contribuir “vou abrir o céu das janelas, apagar a luz, quero tocar /desejar e sentir “viver esta fantasia” e assim, dobrar o prazer de ser tu menino e de ser eu, tua menina – juntos, acreditar

Assombra, e me espanta. Hipnotiza e seduz. Surpreende! Este querer facetado… Escondido, escancarado, outras vezes, aflito…

Desajeitada amizade a sacolejar… Sacolejar festiva. Alegria de seres tu, e de ser eu.

(sem pensar no como, nem no porquê)

Respiras no teu campo de anêmonas o meu jardim de jasmins e margaridas.

Na tua boca o sabor de chocolate, e na minha o damasco com ameixas…

Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – o vento sossegou, brotou sol, e o frio se aquietou

vantagens

Há vantagens nos desejos, e vantagem na satisfação dos desejos – porque eles se tornam maiores.” Roger Martin du Gard cita, p.212 André Gide – Os Thibault – A Primavera

eu te amo

quando eu digo eu te amo tem o recheio inteiro / completo da confidencia, do cuidado, do urgente e do sem tempo que se encaixa em dois minutos da tua vida apressada, dois minutos roubados. Quando me dizes te cuida eu me completo e sinto / e sei do claro e lógico querer, prazer alegre do gozo… Eu me faço forte, livre e solta, sem amarras. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 no meio da ventania que grita

por que

Por que não escuto melhor o tempo de fazer coisas… Por que não organizo as horas de te amar e deixo invertida a vida… Sem rumo, no rumo certo, ansiosa e calma/tranquila a te esperar, sou eu.

Nada é melhor do que o hoje feliz; nada é mais alegre do que a tua voz-palavra que me abraça…

E a vida se completa, e a vida se desdobra livre e forte. Nada é mais perfeito do que esta distância medida e calma de te amar. Elizabeth M.B. Mattos – maio ventoso de 2021 – Torres

abrir a porta

22 de maio de 2021 sábado – Depois de boa chuva, dia bonito. Cinza o céu, mas brilhante. O frio saiu devagar. Dormi bastante. Um pouco aqui no quarto grande, outro pouco na cama do quarto pequeno, aperto. Angústia diminuí. O medo me espreita. Conflito entre ser e não ser eu mesma: esquisito o que eu sinto. Deves estar atento a tua rotina, também a fazer isso e aquilo. Fico a imaginar tua vida. Os cães, o verde, a granja, o gramado, as mãos. Exóticos voadores, e tu, claro, tua vida… Por que gostaria de sempre te encontrar aqui: eu me sentiria / eu me sinto a salvo em casa. Transgredir dói /surpreende. Qual o sentido, como explicar. Exasperas. Quieta, eu te espreito. Lembro do carro estacionado. Do noivado desfeito. Da professora. Dos estudos escabelados. Dos voos milionários, de ousar…, e depois, inúmeras recuadas. Dos não vou, não posso, não… Por que a casa protege, nem sei exatamente o quanto. O quintal, os espinhos das buganvílias. E o certo é medo. O neutro? Lugar neutro. Precisamos ir tão longe para beber outro café? Eu te convido para almoçar. Jogo uma toalha e peço uma comida do bom restaurante. Os vinhos já temos. Podemos logo sentar com cerimônia, mesa posta. Compro flores. Prometo não ficar/ser ansiosa. Falar pouco, e escutar. Ligo o rádio / ou Mozart, talvez violinos. E se quiseres ir ficando ficar… A caverna não tem portas para fechar, não posso te prender. Deixo a bagunça como ela é, coloco os óculos para te ver melhor, minha roupa de inverno, fico com as meias de lã, e te conto histórias, ou leio em francês. Gide e seu magnífico “Les Nourritures Terrestre” : […] embrasse la vie comme qualquer chose qu’il a faille perdre (abraça a vida como se fosse qualquer coisa que fosse escapar/ perder naquele momento mesmo)/ Agir sans ‘juger’ si l’action est bonne ou mauvaise. (Agir/fazer sem julgar se esta ação é boa ou ruim) Aimer sans s’inquiéter si c’est le bien ou le mal. (Amar sem se inquietar / angustiar por ser o bem ou o mal) Nathaniël, je t’enseignerai la ferveur. (eu te ensinarei o fervor/ o entusiasmo / ímpeto ou a impetuosidade) Mes émotions se sont ouvertes comme une religion. (Minhas emoções se abriram / estão abertas como uma religião que inunda toda a alma) Peux-tu comprendre cela: ( Tu podes compreender isso:) toute sensation est d’une ‘présence’ infinie. (sensação, a sensação como uma presença infinita)/ Nathaniël je t’ enseignerai la ferveur. Nos actes s’attachent à nous comme sa lueur au phosphore. ( os nossos atos / o fazer se ‘agarra’/ se prende a nós como a luz fluorecente/ eles estão ali todo o tempo) Il nous consument, il est vraie, ( eles nos consomem, apertam, agitam, é verdade) mais ils nous font notre splendeur. (mas eles são o nosso esplendor) / On n’ est sûr de ne jamais faire que ce que l’on est incapable de faire. (difícil traduzir: não temos certeza de que somos incapazes de fazer,) ASSUMER LE PLUS POSSIBLE D’HUMANITÉ, voilà la bonne formule.“( ASSUMIR, (presumir) sempre que possível, humanidade (o jeito humano de ser). Estou divagando e apostando no teu francês, tirando o meu do bolso. Quero ter dez anos mais do que tu, ou quinze e ter certeza que podes chegar, não importa a hora, e entrar sem bater. Faço um café, sou menos inglesa, ou um chá, ou bebemos uma taça de vinho, ou água com limão. Vens / chegas para fazer uma visita porque eu gosto de ti e porque tu gostas de mim: aprendemos a rir juntos. Rir de nós mesmos. Ou apenas ficar perto, por ficar…Um beijo Elizabeth M.B. Mattos