Niels Lyhme de volta

De volta com Jens Peter Jacobsen: meta e retorno. A volta pela ladeira florida do campo que pode me levar de volta. O cuidado da palavra embalado no prazer do corpo: sexual, excitante, sensual. As certezas se chocam, e se espatifam pelo chão… Quase não respiro. Um dia enfiada na cama a refazer os trajetos mentais necessários para voltar. De volta para mim… E a doçura vai me conduzir. Elizabeth M.B. Mattos – Torres 2021 , volto a Belo Horizonte, e, amo o amor, gosto do verdejado a cada volta possível…,todas tantas voltas.

Pouco a pouco o passado foi se esbatento, a saudade diminuindo: ela ainda vinha em certas tardes silenciosas, ao crepúsculo, quando o adeus do sol iluminava a parede do quarto solitário, e o chamado distante e monótono do cuco, cessando de repente, ampliava o silêncio; – então chegava de repente uma saudade que invadia tudo, que penetrava no coração; mas ela não o afligia mais, ela vinha tão suave, tão de leve, que era até meio doce de sentir, como uma dor amortecida.” (p.91) Peter Jacobsen – Niels Lyhme

rotina desorganizada

Existe rotina desorganizada? Beth Mattos se chama o processo, solidão povoada, conversas intermináveis, nunca conclusivas. Silêncios prolongados, céus! Não se pode querer tudo, no meu mundo (como diz Alice) tenho tudo, ou tenho nada, mas agito a memória! E apreendo, aprendo sem decorar/esquecendo, escrevo notas mentais…Detalhes curiosos! Eu vi, eu rabisquei, eu procuro, eu encontro, eu lembrei. Eu. Hoje estou a comemorar estes feitos. Agradecer aos filhos que me cutucam, falam, espreguiçam, querem saber, e longe, tão longe! E aqui ao meu lado também, socorrem. Todos a minha volta, numa roda de azuis, de alaranjados, iluminados como os netos: sinto conquista. Acho que estas sensações são a tal felicidade. Em/ no meio estrangulado da pandemia, ânimos acirrados, e, de tanta controvérsia…Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2021 – Torres, menos frio

solidão solitária

“No íntimo de toda alegria há uma presença” Paul-Eugène CHARBONNEAU

Eu leio e me pergunto: como sobrevivo sem a minha “presença” necessária…, sem os companheiros perfeitos/e os perdidos. Uso o plural, não tive a plenitude nem a grandeza, aquele encantamento de um único / certo amor…, não lamento, mas constato. Fico a me dividir e a me recriar, imagino, invento prazer de amar de amor, e esperar…,ou a me encantar com a luz, com o escuro, com a xícara preferida, ou a carne mal passada, depois o assado no molho de vinho. O frango. Legumes cozidos, e coloridos. Fico a me reinventar no amor redescoberto, fiel ao grande encontro, as violentas paixões. Alegria: incontestável felicidade, o encontro de gente com gente, o desenho acastanhado nos avermelhados do mundano, o inconsequente. Eclosão do coração: alegria de transbordar, palavras que se cruzam, advertências e desencontros fazem girar o mundo…, pois é. “Verdade que cada um de nós está só no mundo, mas jamais estarão sós dois seres que se encontram sozinhos na profundidade de seu mistério. Eis por que são conduzidos pela alegria.” (p.17) Charbonneau A crônica da Solidão

E num repente a chave: solidão indispensável: fortaleza que protege a fraqueza. E volto aos pequenos afazeres agarrada na rotina. O pequeno trabalho, a festa de todos os dias: eu comigo. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2021 – Torres – …,às vezes, estar/partilhar/conviver e estabelecer/determinar/ escolher o amarelo certo meio as galhadas verdes e o brilho rosado me desarruma. Nadar, saltar, correr, superar. …importante, como escolher a roupa certa, embelezar o corpo, cuidar o prazer já é competir.

tangível

Deixo acontecer encolhida, alerta: não interfiro, por um tempo… Depois escrevo/escrevo bilhetes, cartas, pondero. Será que ele quer descobrir como eu reajo a certas ideias de resiliência? Ou ele deixou implícito que quis compartilhar seus tesouros comigo, aquelas formas tangíveis diante de nós como evidências de força e confiabilidade, mas, simultaneamente, surgiram os tesouros intangíveis e imensamente mais fascinante…, e estes não podiam ser dividivos.

Qualquer que fosse sua ideia, eu queria então, como de outras vezes, condescender, queria retribuir, da forma mais discreta possível, a cortesia que ele me fazia de forma tão sutil. Se aquilo era um jogo, uma espécie de meio indireto de descobrir algo que talvez o guardião ou censor de meu inconsciente estivesse ansioso para me esconder dele, bem, eu farei o possível para participar desse jogo, este jogo de adivinhação ou o que quer que fosse.

Assim mesmo, passado, presente, pretérito ou futuro, ou nunca, ou um risco, ou um “assim eu sou” silêncio – invento, respeito, apago, recomeço, invento outra vez. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2021 – Torres

alarido

Em meio a folhagem escura está aquele brilho dourado dos frutos. E o rio se encontra com o mar, e toda aquela areia… Palavras se encontram, umas com as outras, num alarido festivo, mas ainda faz frio. Conheces a casa, não é mesmo? Apenas não me reconheces com estas meias de lã enroscadas nos calcanhares. Sou eu, sou eu neste inverno torrense. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2021