‘ensolarar’ deslocar com iluminar fazer andar…

A leitura desloca o pensamento, muda de lugar, altera por um minuto um sentimento, despeja do outro lado, esparrama outras coisas… Do jeito que abro as janelas, abro o sol, ou melhor, deixo ele se refestelar. Abro o vento, e assim, eles remexem na poeira da casa, investigam, sacodem os sentimentos de tempos adormecidos, remexem, para meu espanto, nosso espanto… Eu me imobilizo diante da mágica, ou acelero, paradoxalmente, o fazer. Depois, volta tudo ao antes. Fecho as janelas, guardo o que restou e, pouco a pouco, a poeira volta, quieta e se instala, exatamente, onde estava. O livro tem a mesma mágica. Surpreende, arrepia, ou me ‘arranca’ da imobilidade, e festeja, sacode, mas não aguento muito tempo. Largo o texto, retenho um aqui e um ali, e, infelizmente, esqueço… Dói a perda, enerva esta falta de memória, esta surpresa perdida. A leitura esquecida. Esvazio o copo sedenta, passo um outro café, daquele jeito antigo mesmo, uso um coador… Estico os dedos para a cuca, depois como uma maçã. Preciso caminhar, esticar as pernas, sentir o corpo, voltar ao normal, ou voltar a dormir. Uma aventura entre ler, jogar cartas, estudar, escutar música e apagar tudo outra vez. A roupa já está seca, o ferro perto / espera. E a televisão? O horror de sempre… Bom, novidade?! Um tapa estalado na raiva! São as dores desacomodadas e o gesto desastrado. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres

Milton Hatoum é um dos nossos grandes escritores / grande mesmo, porque perfeito. Ficamos a ler outros como J. M. Coetzee, perfeito a pensar, a escrever, a ser (mas leio uma tradução, mesmo que lesse o original, outra língua, não os mistérios e as reentrâncias onde navego / escorrego e estudo, o português. Hatoum é o prefeito no meu mar.

“Olhei para a beira do cais e reparei nos homens-rãs: os rostos visíveis através do vidro da máscara negra, o braço apontando para o horizonte; e, então, aquele som que soara suavemente, como o som de uma flauta, parecia vir de uma silhueta esbranquiçada, sem contorno definido, quase colada à linha da selva, mergulhado de vez em quando nos raios solares, sumindo nas brumas do chuvisco e reaparecendo como um corpo luminoso, alvo, talvez estático, ou se movendo tão lentamente que era impossível saber se vinha em nossa direção ou se distanciava do porto.” (p.65) Milton Hatoum Relato de um certo Oriente

Nascido em Manaus em 1952. Milton Hatoum ensinou literatura na Universidade do Amazonas e na Universidade da Califórnia em Berkeley. Estreou em 1989 com o romance Relato de um certo Oriente, seguido de Dois Irmãos (impressionante de maravilhoso, sério e bem escrito este romance) em 2000, ambos ganhadores do Prêmio Jabuti de melhor romance. Em 2006, Cinzas do Norte venceu os prêmios Bravo, Jabuti e Portugal Telecom de romance do ano.

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