enxurrada

“Buenos Aires, 17 de maio 199 Elizabeth, gorda amada: Estou perdido no mundo. Não sei sequer que horas são, meu relógio de pulso, sem pilhas, nome do norte do mundo. Estou sozinho no meu apartamento (no meu, não no nosso), sei que é tarde pela inflexão do sol. E que é muito tarde porque estou famélico e o frio aperta mostrando que estou sem me alimentar. Aqui estou desordenado. […] todas as outras cousas da casa foram para o novo apartamento da dona N. e escrevo-te na mesa da cozinha, no pouco que aqui restou intacto. Creio – creio – que eu também restei intacto.

Intacto, mas começo a sentir o tiroteio.

Ontem recebi uma enxurrada de cartas. O porteiro as havia guardado no nosso apartamento para m’ as dar em mãos… Por conta, isso atrasou-as em uns dez dias. Talvez tenha sido bom. Se as tivesse recebido antes, talvez não tivesse enviado tantos telegramas de amor e saudade. (Ou teria enviado adeus, sem saudades???)

Li cada uma delas. E por ordem cronológica, a partir do selo do envelope. O Problema é, saber com qual das cartas fico, a qual respondo? Agitei-me no início, com as duas primeiras cartas, quando me propões ou sugeres arrumar a mala, deixar tudo, e ir viver contigo aí algures ou alhures. No meu remoto e ignoto inconsciente, me vi chegando a Porto Alegre, logo a Torres, malas nas mãos e tu me recebendo com o sorriso que te faz melhor que tudo o que és, e é um muito. Li essas cartas-convite sentado junto ao bureau. Quando, em seguida, chegou a vez de outra carta, mudei de lugar. Fui direto ler na cama, onde ainda permanece teu cheiro, nosso cheiro, mas no fundo só o teu perfume. Li a carta de rompimento deitado para que o golpe do infarto fosse menor. Em poucos minutos passei da euforia de sermos definitivamente um do outro, a depressão de não mais te ter, não mais te ver, jamais voltar a te sentir. Esquizofrênico amor o nosso. Esquizofrênicas as tuas cartas, ou o conjunto delas. Em qual delas posso confiar? Na da mulher que me ama e que me induz ao amor total não só com seu jeito, seu corpo, seu sexo, sua boca, sua alma e sua fala, mas também com suas cartas de entrega e busca, de intimação ao amor total ao viver juntos? […]

Petrópolis / Rio de Janeiro

Búzios / Rio de Janeiro

O amor vai feito furacão: acorda o corpo. A palavra Eu, um detonador de sentimento sem arrazoado, a balançar… Ninguém consegue mudar o lugar em que fomos colocados. Outro país, outra casa, outro tempo passado/ voltado / revirado. E não importa. Há quem nos olhe, e há quem nunca nos viu, nem percebem que passamos e nos devoramos, meu amado! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

Torres, 199 – datas – nesta foto a desordem do tempo – tanto tempo, e foi ontem

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