estas coisas de escrever,
eu nunca soube do começo,
impulso inacabado.
estas coisas de escrever…
esperar pincéis
lápis,
a voz
instrumentos! mais do que apenas olhar!
estas coisas de escrever,
eu nunca soube do começo,
impulso inacabado.
estas coisas de escrever…
esperar pincéis
lápis,
a voz
instrumentos! mais do que apenas olhar!
As baleias estiveram em Torres: dezoito ou vinte. Esguichavam, nadavam com seus filhotes. Vieram parir em Torres, nas águas mornas e mansas deste mar. Entre os lobos marinhos, as rochas. As baleias estiveram em Torres.
Passo o tempo arrumando os detalhes. Penduro os quadros, encero os móveis, lustro as pratas. Espaço no armário… Roupas passadas, empilhadas. Luzes para a meia-luz. Os marceneiros, as prateleiras, quase prontas. Ordeno o tempo e a casa: chegas amanhã, ou no final de setembro? Nunca sei ao certo. Exaspero. Outro telegrama:
“Só quando rapaz é melhor amar sem paz; mas já, mais tarde, como agora, quero tranquilo comer amora pra que todos vejam Gaal me namora, menamora.”
Leio, releio. São versos…
O que farei para que não leves os pedaços quando partires outra vez? Antecipo a dor, antecipo.
Encero, limpo, lustro, espero. O que faço? Vem logo, amor, meu!
Compro violetas. Plantas verdes, samambaias na luz de fresta das janelas. O verde sacode na ventania desta primavera. Outro telegrama:
“Quando a quem ama só resta telegrama, até mesmo o beijo escreve-se com o desejo de que o papel tenha gosto de mel; saudade aperta, mas abraço não deserta mesmo que no dia 12 não esteja aí, estarei ao teu lado, contigo, todos os momentos.”
“Para que perdure andar do amor de abraços beijos toques alma, terminantemente proibido refrigerantes, comida salgada, álcool em suas várias modalidades; além todas manualidades exclusivas vida íntima. Gafa.”
Um detalhe, outro. O riso perpassa. O desejo aquece. Palavras brotam, crescem no caderno de notas: para cada nova palavra nova leitura encadeada: um jogo.
“Apaga incêndios, contém emoções, evita suicídios, homicídios, afogamentos. Enfim, explica aí. Quem interessar possa que não se aflijam além limites porque poucos dias mais chegarei. Beijos. Saudades.”
“Retido. Retido. Faço mil planos contigo para julho, também, depois tentando sonhar preciso Gaal pra vencer letargia tomou conta de mim; estarei aí nomáximo primeira semana de julho esperando até lá te cuides: corpo e alma, cabeça já que coração é ingovernável mesmo. Mil beijos, milhões de abraços. Gafa.”
“Adiamentos viagem aumentam saudades. Vontade sentir-te estar contigo; demora não é desamor ao contrário. Tardo por querer ganhar tempo extraviado anos não te conheci. Beijos.”
Cada palavra, cada nova palavra, desgoverno. Todavia, no entanto, contudo, como diria aquela professora nossa amiga, tudo isso, ou, isso tudo, vem de atraso, atraso… Releio, repasso. Outra via, outra guia… Espio o mar cinzento. Elas se foram, as baleias.
E. M. B. Mattos – Torres
(Clichy, 8 mars 1933)
Anaïs :
C’est par erreur que j’ai gardé votre livre de Nietzsche, est un erreur très heureuse, car j’ai eu l’occasion de jeter un coup d’oeil sur Ecce Homo […]
Ce soir, en tout cas, étendu sur mon lit, j’ai fait une découverte, ou tout au moins réaffirmé une découverte qui dormait au fond de moi.. La voici: quand on entreprend un travail, quand on écrit un livre, il faut en écrire plusieurs à la fois. Ne pas les écrire, comme on le pense habituellement, mais les laisser passer. Car c’est quand vous êtes dans les affres de la création que vous créez, si je puis le dire, multilatéralement. Celui qui se trouve bloqué pendant la création est envahi par des idées étrangères et devrait les accueillir avec faveur sans chercer à les détourner ou les supprimer. ( Et c’est le péché universel des artistes) Ainsi donc, comme je vous en ai déjà informée, je prête oreille et language à ces instrusions, je vais laisser pousser les divers livres qui ont déjà pris racine en moi et, à mesure que le temps passera, ces notes, ces expressions hâtives, s´entasseront dans leurs dossiers repectifs pendant que j´acrèverai la tâche prescrite, pour qu ún jour je les regarde et voyez! Ce seront les lvres que je voulais écrire! Que sont ces livres? Principalment, la saga de June Tropique de Capricorne […] Comme il est maintenant si claire pour nous, grâce à l’ étude de GIde sur Dostoïevski, que chaque livre contient le germe du suivant, prenos consciemment avantage de cette condition de la création, L’ auteur est comme un arbre au milieu de ses création, elles sont l’ atmosphère qui le bagne, il lui pousse des racines à mesure qu’il croît, et c’est de ces racines que croissent l ‘ leur tour les arbres à venir, non de fleurs ou des glands. OU bien, pensez à une serpent : un serpennt n’ abandonne pas son ancienne peau d ‘ en avoir créer une nouvelle. Le livre qui vous écrivez est cette peau dont vous vous dépouillez. Le livre important, la nouvelle peau, est toujours celui qui n’ est pas né, ou s” il est né, celui qui reste invisible. La vie dans la matrice, l´embryon. Et de même que chaque enfant est, naissant, le résultat miraculeux du hasard, un être entre une indifité de possibles, de même livre qui vient au jour n’est qu ‘une entre plusieurs formes d’expressions; le grand écrivain est comme un monstre qui engendrerait toute une portée de prestiges au lieu d’un seul! H.V.M. (p.128-129 -130) Henry Miller – LETTRES À ANAÏS NIN






CORRE, RAIO DE RIO, E LEVA AO MAR
Primeiro Tempo
Fui ver o mar quando cheguei.
Aberto! Perfumado, inquieto!
Barulhento. Colorido.
O frio, contudo, não me permitiu molhar os pés.
Na casa, aproveito o calor e o fogo alto da lareira. Cozinho o pinhão e o feijão do jeito que têm de ser feitos.
O café, sem pães nem geleias açucaradas.
No fim da tarde, caminho pela cidade.
Que bicho mais louco é o homem! Depredador, nocivo, cruel.
O mar com areia e pedras. A Ilha dos Lobos.
A Lagoa do Violão, sem aguapés: poluída.
O rio Mampituba, escuro, botos seguindo cardumes; o mesmo rio. Os molhes que facilita a entrada dos barcos…
Daquele lado eu gosto, o cheiro é outro: barcos pesqueiros, canoas. Lembro a vida do começo da barranca.
Os molhes: mar e rio juntos.
Beleza importa, sim. Não a das pessoas, mas dessa natureza que sobrou. Essa, pode ser beleza.
É um equívoco, a cidade.
Como fez frio! Meus sonhos de Cambará do Sul e São José dos Ausentes na sombra. Será que eu quero a neve? Será que eu ainda quero alguma coisa?
De volta para casa estico as pernas no balanço da varanda. Pelo envidraçado, vejo objetos que se movimentam pelo chão: meias, copos, garrafas e livros; ou imagino esta dança? Se estivesses comigo! Certamente, tudo estaria arrumado…
A casa está numa desordem permanente.
Sigo com as pernas esticadas, pensando em abrir a última garrafa de vinho, comer o último pedaço de peixe, e as últimas uvas que sobraram no pote verde.
Levanto para buscar o que vou comer.
*
Tenho que encontrar os documentos; o corretor deve pegá-los logo, examinar. Preciso entregar o imóvel ainda esta semana, inclusive, já reservei o hotel.
— E tu não estás aqui para me ajudar!,pondero.
— Se me perguntares como consigo tirar as coisas das gavetas, das caixas, eu não saberei te responder.
Volto aos papéis, documentos, inquietações, fotos, desânimo. Esquisito, isto tudo faz trânsito pelo chão. O meu mundo aberto, no tapete, grudado nas portas, como se os lembretes fossem solução.
Quando a noite chega e o lobisomem aparece, vou para a cama: durmo, durmo, durmo. Não faço nada. Estou doente.
Estas sucessivas mudanças adoecem meu espírito e o meu corpo.
*
Choveu e ventou a noite inteira. Separei alguns vasos em caixas de plástico, tudo o mais está pronto.
Que manhã escura! A chuva e o movimento sacudido das samambaias arrastam o verde. Retirei as avencas das frestas, elas, como eu, detestam vento.
Este ritual de caixas oprime. A escassez oprime.
Oprime o desejo contido. A cópia, o modelo estereotipado. Oprime o diabo do espelho. Oprime o segredo, a preguiça. As incapacidades, as ilusões frustradas, a idiota vaidade. Este mesquinho egoísmo e esta opaca mediocridade.
Oprime não termos a compreensão nem o espetáculo inteiro, só o palco do teatro. Vazio. As diferenças de linguagem. Por que não aceitar o prazer de estar outra vez em movimento?
O homem chegou com o caminhão, o corretor, e com os novos proprietários. Todos aguardam o som da minha voz. E, o pijama apertado escandaliza pela hora avançada do dia. Ninguém fala, então o motorista grita o endereço e pergunta se pode começar a recolher a mobília. Eu abro a porta por inteiro.
SEGUNDO TEMPO
Escurecia, quando terminei de colocar o que restava na minha caminhonete.
No quarto do hotel, portas-janelas abertas: o mar, a montanha. O preto da noite. Aquietei-me bebendo e fumando, e disse pro silêncio o que restou.
O silêncio. A possibilidade de ler. Estudar o que posso estudar. Aceitar o limite de ser apenas mulher comum. Mulher igual a todas as outras mulheres comuns.
Falsificar lembranças, explicar o isto e o aquilo. Não há necessidade. Limito-me a esquecer.
Não vou me afobar nem me afogar.
Afinal, não importa o palco, mas o espetáculo inteiro.
Então, encontrar a casa é o fazer perfeito: aquela onde perdemos e achamos coisas, cheiros, onde o gato entra. A invenção inteira.
Não um quarto de passagem.
*
Escritores usaram esse método – masmorra, para poder pensar e escrever sem distrações. Pessoas e coisas nos atrapalham no pensar e interiorizar o que somos. Beijo, sexo, carícia, chocolate, morangos e álcool; tudo o mais desgasta. Perde-se o tempo de crescer, de ser alguém. A escravidão.
Depois, tudo repetido, nunca o original. Se existe o único, é o autismo. Será que eles têm, tiveram razão? Quando escrevem estão inteiros na loucura. Verdade e fantasia e loucura.
Então o menor quarto, a menor casa, os mares sonhados, ruidosos, mutantes, o terreno.
A segunda garrafa. A segunda noite. A segunda voz.
Tropeçamos nas coisas, e na ignorância de nós mesmos, paradoxalmente imóveis. Falta atenção, cuidado com nosso próprio sentimento!… Ficar, assim, com joelhos esfolados!
Convicções.
O jogo das leituras. Essas pequenas parcerias possíveis!
Abro as últimas folhas da história que precisa ser lida, e vou assinalando equívocos em vermelho.
A mão que se estende, exige troca.
Não há surpresa amorosa, nas pessoas.
Revólveres, granadas, venenos e torturas.
Nada de flores. Pão ou leite.
Nenhum perfume.
O fétido das ruas.
*
É melhor vender a casa.
É melhor o quarto do hotel, despojado, o mar.
Elizabeth M.B. Mattos – (velhos textos) setembro de 2022 – Torres
Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjetiva!
Qual “leva ao mar”! Tua presença esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
1 541.3 III, Barrow-on-furness. Poesias de Álvaro de Campos, Ficções do Interlúdio. Obras Completas de Fernando Pessoa. Editora Nova Aguilar, 2001.
Final da tarde, sem franja, nem recorte. Sensação esquisita de dia terminando. Ou de certa ausência. Talvez o florescer do cuidado! Valorizo. Esquisito porque ainda tem luz entrando por todos os lados, viajo. Agito tanta coisa por dentro! Esquisito prazer de escutar tuas palavras: explícitas, claras. Particularmente mansas e agregadoras. Obrigada. Vou tirar as coisas dos limites / inventar outras para sacudir a vontade / a impaciência. Largar esta apatia roendo. Esconder a tal seriedade que monta / sobe, avança domina e leva / carrega a graça de confessar. O humor desaparece. Ah! Preciso dominar a poeira / o cheiro / a quietude e avançar, eu também, entrar na luz. As mesmas calçadas. O mesmo descaminho: sensação esquisita. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres com a saudade miúda de outro tempo / outro lugar. Conhecida saudade da menina daquele tempo…

a vida surpreende nas surpresas da memória: a casa volta com a força de tanto querer e tanta energia! ah! os bons tempos de Santa Cruz do Sul, mesclados a Rio Pardo com as boas e mágicas lembranças da rua Santo Inácio como ponto de alegria / de retorno. sim, a cada época / década uma surpresa! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres , vou desfiar a memória que Jorge merece, daquele amor entregue e vivo! da filha aos quarenta anos marcando, sinalizando a maturidade do amor completo…

olhar:
primeira comunicação,
o primeiro movimento
olhar enxergar e ver
olhar o mundo, o detalhe,
a minúcia possível (participar)
o paladar possível, o gosto como sabor
participar / conviver e estar, identificar
escutar pelo tato / pelas mãos, então a forma do perfume que as flores trazem, inundam…
transforma em voz o silêncio da ausência. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres



Encaminhar este texto/carta – impressionante como o fluxo segue: hoje 13 de setembro de 2022 numa madrugada fria / gelada / parece incrível q eu possa ter dito / escrito / ou feito seguir qualquer agitação forte como está. E afinal. As histórias se ‘montam’ na emoção da vida vivida. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres
Entre leituras:

Carta dirigida por Kawabata Yasunari (Hase 264, Kamakura) a Mishima Yukio 4-32, Ota-ku, Tokio) 16 de febrero de 1967
Hoy también me he levantado a las nueve y media de la noche, que es, para mí, la mañana: los dias se suceden con un ritmo totalmente inverso, la noche reembraza al día, y desde que vivo así, en un estado próximo a la chochez, he perdido toda confianza en mi capaidad para escribir cualquier cosa. Pero, como este pedido vienne de usted, sólo puedo darle une respuesta favorable. Mi prosa, sin ser del todo detestable, será seguramente estúpida, y le ruego que me disculpe. (p.186) YASUNARI KAWABATA YUKIO MISHIMA Correspondencia (1945-1970)