fogo e metal

“O que Jünger viu na Primeira Guerra Mundial desenrolou-se com uma força tão enorme que para ele deve ter parecido impossível pensar que aquilo não era essencial, que expressava apenas uma dimensão periférica da humanidade, que não passava de um acidente isolado, contingente, excepcional. Pelo contrário: durante a guerra ele se encontrava justamente no centro absoluto da humanidade, da maneira como se apresentava quando praticamente tudo no mundo externo havia se afastado e restavam apenas as grandezas mais simples e mais fundamentais: a vida e a morte. Não é difícil compreender que tenha se sentido dessa forma, porque em um momento ele era um rapaz de dezenove anos que vivia em mundo de amigos e família, escola e livros, uma que outra paixão efêmera, um pai enxadrista que assoviava MOzart no banheiro e uma mãe que lia Ibsen e de fato o havia conhecido, e que levou os filhos em uma peregrinação à Weimar de Goethe; no momento seguinte vivia em um mundo de barro, lodo, frio, fome, cansaço e morte súbita, sob um céu repleto de fogo e metal.“(p.558) Karl Ove Knausgard Minha Luta 6 volume O Fim

Faço dolorosas analogias. Sinto tanto frio! Tanto frio! E o corpo todo desarrumado numa dor muscular gritando. E não faço a tal da necessária dieta, nem as caminhadas regeneradoras, e não termino a guerra! Nenhum gesto de doçura ou carinho. Então acredito que esperar é possível, passar o tempo também vai ser alívio. Voltar ao que era antes, pode ser, e o sorriso, a coragem, a força arrasta as soluções, e, eu te parabenizo, meu querido. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres

instantâneos da velhice

Uma repassada pelas cartas, as escritas e as pensadas. Uma memória gelada num maio frio, a preguiça esquisita do tempo passando, tempo desanimado, impreciso, sem motivo. Escuto o som dos relógios, a música interrompida, o rádio não funciona. Tanta coisa não funciona! E deixa-se ficar no canto. Poderia ser tudo diferente. Eu quis assim, difícil. Batalha e guerra, e luta todos os dias. Por que a gente deseja o avesso do que está sendo ofertado? Tendo pensar como eu poderia me descrever pra me encontrar, por que escrever e não viver? Aonde estão escondidos os bailes, maravilhosos!? A renda, o cetim e o natural. Por que o mais difícil, o intrincado, depois de me deliciar no linho, nos bordados, escolher o perfeito do vestido, a bainha impecável? O que aconteceu? Que frio! Comidinhas no forno! E o vinho! Que delícia! Descobrindo os prazeres todos os dias! Fotografei! Não resisti, as bergamotas também, o feijão também! Pronto! desabafei! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres – bem cinzento por aqui!

atordoada com o definitivo

atordoada, eu não compreendo o motivo, apenas gostaria de ser/estar/ e te dizer como antes, num jato! estou travada no sentimento, na palavra! o livro errado, devo estar lendo o livro errado, ou atravessando o período difícil, não sei

e quando

quando não sei o que dizer, é isso. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – muito frio, ou sou eu mesma o muito deste dia! não sei

Pensar: trabalho invisível

E por ser invisível, mal remunerado. sem pensar vou a caminhar pela superfície e vejo o mais o menos de tudo, até ouço mais ou menos…E durmo menos, Ah! o grande sonho do bom sono atirado no cansaço daquele trabalho braçal, útil, importante: uma jornada! Ainda não bebi o café com leite, ainda não comecei o dia. Que frio está fazendo neste danado fim de maio! Como será escaldante o verão! Os excessos! Tantos excessos! Preciso do menos. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

changer / trocar / avançar

acho que a gente muda de cidade porque muda de história / parece que levamos as nossas roupas, alguns móveis ou louças, panelas, mas, de fato, não levamos nada, porque na mudança trocamos a alma, somos outra pessoa, as identificações não servem de nada

uma vez, não, mais de uma vez bateram na minha porta e eu não abri. Não abri pro homem das verduras, nem para o carteiro, nenhum viajante, nenhum velho amigo, não abri a porta para as histórias de antes, ou de ontem, ou para as que poderiam ser para amanhã

abrir a porta é perigoso

abrir a janela também pode ser

a ilha seria o melhor lugar, não atender ao telefone, a carta pode ser a solução, a velha e antiga carta, ela pode esperar em cima da mesa, já entrou, sabe esperar…

não abrimos a porta, nem a voz, nem o suspiro, sequer choramos.

trocar / changer / mudar

quando quero ir para outro apartamento, outra cidade, quero ser outra…

poderia ser fácil, mas, nem sempre está tudo naquela valise que posso levar…Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

conversa

Chegou aos meus ouvidos uma conversa da chuva: raios e trovões, coisa de inverno. Cachecol, fogo na lareira, meias de lã e cobertas! Dor de garganta também, nariz pingando! E nenhuma criança por perto! Vou voltar para a cama, coisa de domingo ficar inquieta assim… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres – juro que amanheci super disposta de noite muito dormida, de sono pesado, sem sonho. E a gente não segura a energia! teimosa e traiçoeira! acho que esqueci, alguma coisa, logo eu lembro

foi ontem, foi hoje

escrevi / apaguei / pensei, deixei de pensar, achei o jeito, perdi o jeito, sem graça, agora, o vazio / dolorido vazio, aliás, agora é ontem, antes de ontem, quando tu me escrevias e eu gostava de cozinhar! não importa agora, deixa o inverno abraçar / deixa o frio entrar no fogo da lareira e dançar,

a música resolve / a música, a dança…

eu me aqueço enquanto penso em ti. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

o amor

o amor congela

congela quando ferve a nos aquecer, e eterniza

congela o amor!

grandes/pequenos, adequados ou inadequados sentimentos explicam a pessoa

o desenho do amor está na sombra / na euforia / na generosidade aberta

assustador quando existe apenas a dimensão limitada de um único olhar!

somos muitos! somos um! tão óbvio! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres

mãe ou tia

Penso muito, muito mesmo nesta tia. Com ela todas as minhas memórias de menina-criança. Ela me ensinou a ser pessoa/gente. Poderosas e intensas/tensas lembranças. Preenche um período enorme, toda a minha vida antes do internato, nos primeiros anos escolares / o Grupo Escolar Rio Branco…Tia querida! Com ela as minhas brigas e birras, a mãe presente! Eu tive outras mães, se a coragem chegar pra me agarrar nestas lembranças, ela será, certamente, a principal protagonista. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2022 – Torres -, inclusive nos meus verões!