escolha

Dia de sol. Caminhada curta. A perna esquerda segue doendo. Incomodada o corpo, reclama demais. E não se define. Incômodo constante. Ilusão. Durmo. Vou acordar e tudo estará bem, organizado, não. Nada funciona. As flores, bem, as flores brotam. Se a palavra exuberante for adequada eu sublinho. Certeza: não estou no ponto certo. O fato atropela, interrompe. A decisão se descabela. A esvoejar, a sair do lugar, a recomeçar, ou solucionar… O dia tem que estar acomodado entre quatro paredes, as janelas precisam abrir e fechar, e, as frutas, bem, as frutas maduras precisam ser mastigadas. Memória, lembrança: caprichos. Na biblioteca, ordenados, limpos, escovados. Há que se priorizar a boa luz. Acordar.

O dia boceja nublado. Percepções escorregadia, nenhuma certeza. Ora, as certezas empurram, ora se erguem e caminham nas vontades. Vamos ordenar o batalhão. Hoje marquei encontro com elas (as vontades), e vamos até a praia, se a perna não incomodar. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

difícil, mas vai terminar…

dia difícil…,expectativas, soluções, mas vamos chegar, vamos conseguir…, estou sem forças, mas não importa, amanhã conseguiremos…

cada dia, um dia, es as vozes, as vozes, as vozes seguem…

vai teimar, eu sei. vou comprar uma braçada de flores, colocar os pés no mar, semtar na areia…e o mar leva, e o mar trás… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

sem armas

sem ânimo, sem armas, sem vontade, na despedida, entregue…

“Pois se é temerário entrar sem armas na toca do leão, temerário cruzar o Atlântico num barco a remo, temerário se equilibrar num pé só no alto da Catedral de St. Paul, é ainda mais temerário ir para casa sozinha com um poeta. Um poeta é o Atlântico e o leão reunidos num único ente. Enquanto um nos faz afundar, o outro nos abocanha. Se sobrevivemos aos dentes sucumbimos a maré alta. As ilusões são para a alma o que a atmosfera é para a terra. Recolham essa tênue camada de ar e a planta morre, a cor se desbota. A terra sobre a qual caminhamos é cinza estéril. O cascalho a que pisamos e carvões em brasa o que nos queima os pés. Pela verdade nos perdemos. A vida é um sonho. É o despertar que nos mata. Quem nos tira os sonhos nos tira a vida…(p.134) Virgínia Woolf – Orlando –

volta para a ficção

Eu a delimitar o Eu. Emparedar ideia, não deixar escapar: o que acontece não importa. Não é real, nem verdade. O corpo se estende no cansaço do corpo, então, as pernas se acomodam, soltas, livres. Eu me refestelo, arrumo o sono manso. O sono entendido se anima para dormir, amanhã, amanhã será/é promissor. Chuva e chuva, água chorando, e depois, vamos ver. A trovoada vai logo passar… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

nada vezes nada

coisa vazia de ser, coisa grande,

coisa engaçada,

coisa triste = nada

as coisas me cercam no vazio:

o nada

ainda a vida.

ao sorriso brejeiro,

as flores do vaso, as pedras,

as colheres de pau,

o enjoo.

o nada

esquisitices do tempo. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

O bule

O BULE

O bule de chá vermelho.

O desejo de consumir me persegue: formato, cor, o bule branco inspirado no Buda. As canecas pequenas: folhas de chá flutuam sobre escultura, reproduções de Buda. Sinto o perfume da erva…

Ontem de tarde sai com a ideia de comprá-lo: examinei, olhei e larguei. Pensei nas xícaras, onde eu beberia o chá depois da infusão? Entrei na loja ao lado… Comprei fronhas, uma vermelha outras brancas. Em casa recostei-me.

Hoje acordei pensando outra vez no bule vermelho. Contabilizei. Não posso comprar pelo simples prazer de olhar… O formato? A cor, ou o desejo de beber chá? Não sei exatamente. Pensei no bule branco com o Buda… Peça exclusiva, tu me disseste, sem te sensibilizar com o meu olhar de cobiça… Olhar aguçado para o interior do objeto. Não apenas cor, formato, utilidade, mas antes de tudo, beleza. A matéria sustenta a forma, como o olhar persegue o belo.

Os bules de chá…

Claustrofóbica, sem acalmar a sensação de peso, aborrecimento que sentia sai outra vez. Não fui buscar o bule, queria ir ao cinema. O filme francês. A sessão já tinha iniciado. Dei meia volta, entrei na livraria. Separei três livros: pensei nas contas, comprei apenas um.

De volta ao quarto. Estiquei as pernas, e comecei a folhear o livro Entre Nós de Philip Roth: conversa de um escritor com seus colegas de trabalho. Iniciei por Mary McCarthy, correspondência. Depois, Conversa em Londres com Edna O’ Brien. Mulheres. Instinto ou magnetismo? Roth inicia descrevendo a rua, o prédio e depois o lugar onde ela vive.

“No escritório há uma escrivaninha, um piano, um sofá, um tapete oriental de um tom cor de rosa mais escuro que o papel de parede marmorizado, e pelas janelas à francesa que dão para o jardim vê-se uma quantidade de plátanos suficientes para encher um pequeno bosque”.

Volto a visualizar o bule de chá vermelho. Mentalmente o coloquei sob uma mesa imaginária naquela sala. Na descrição Roth ainda cita a famosa foto de Virginia Woolf. O volume de obras completas de J.M. Synge aberto no capítulo de The Aran Islandme. Menciona um volume da correspondência de Flaubert aberto numa carta para George Sand. Em seguida cita uma epígrafe escolhida pela autora:

“Antes de mais nada, quero dizer que não perdoo ninguém. Desejo a todos uma vida atroz nos fogos do gélido inferno e nas gerações execráveis que hão de vir”. Malone Morre, livro de Samuel Beckett que li neste verão em Torres… Diz ele que não encontra esta aspereza na sua obra. O’Brien justifica e explica.

“Quando tenho uma explosão, depois me sinto na obrigação de ser conciliadora. Isso tem acontecido ao longo de toda a minha vida. Não sou uma pessoa naturalmente dada ao ódio implacável, como também não sou uma pessoa naturalmente dada ao amor incondicional, e em conseqüência disso muitas vezes entro em choque comigo mesma e com os outros!”

Logo a seguir.

“Eu reclamo da solidão, mas ela me é tão cara quanto a idéia de me unir a um homem. Já disse muitas vezes que gostaria de dividir a minha vida em períodos alternados de penitência, gandaia e trabalho, mas como você certamente compreende isso não funcionaria muito bem num casamento convencional.”

Senti o prazer da leitura…

De forma direta a escritora irlandesa reforça sentimentos que eu conheço.

Somos todos tão iguais! Ou nos buscamos a cada nova leitura?

Esqueci por um momento o bule de chá vermelho.

Estou no escritório de Edna O’ Brien em Londres, escutando a conversa.

Volto a te escrever amanhã. Elizabeth M. B. Mattos – velho texto porto-alegrense.

chegar apressada

Vontade de pontuar com certeza -, como vou chegar? Vou pegar aquele ônibus, ainda tem um lugar. As estradas me surpreenderão. As vozes, as cabeças brancas agitadas com o novo. O que será ver o mar? Não apenas o mar, o infinito. Depois inspecionarei o navio: novo lugar. Água! tanta e tanta água neste mar! (risos) Apenas água. Tudo sob agitação: diversões, confraternização, a boa comida, espero. O bom sono… Claro! Conversas descabeladas e excitadas. Mover o mundo, sacudir a mesmice. E se deixar embalar, acredito. Estarei entregue, dançarei todas as músicas, carrego aquele pote mágico da alegria instantânea. Não estarei a ler, a ler, estarei a rodear, rodopiar. E a música se diluirá na tempestade, nas noites enluaradas, na neblina, sei lá… Ou fará sol grande? Deixarei de pensar, desenharei a fantasia, porque deixei o pote das tristezas e do não posso, não conseguirei entristecer, ensimesmar. Irei. Chegar? Chegar aonde? Como? Alguém me espera? Acho que sim, acho que não. Não avisei. Estarei eu a me encontrar… Se estiveres lá, eu te reconhecerei. Passou tanto tempo! De certo pelos olhos! Os olhos, se me olhares. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torres

Que pensez – vous de me silence?

Uma ligação de afeto doce, intelectual e de estima mais do que uma paixão carnal / sexual. As paixões se confundem com o desejo embora se alojem na cabeça: plantadas, ramificam e se emaranham. Em lugar rescende e acorda, então flutuamos…Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres

O silêncio conversa atrapalhado com tuas explicações… E eu caminho apressada, vou a me despir, surpreendo meu corpo, e meu pensamento. O amor escorrega, eu agarro/seguro, e, sinto.

” Que pensez – vous de me mon silence? Le croyez – vous libre? Je parti donc mercredi matin. Il était onze heures passées que mon bagage n’était pas encore prêt et que je n’avait point de voiture. Madame Fut un peu surprise de la quantité de livres, de hardes et de linge que j’emportais. Elle ne conçoit pas que je puisse durer loin de vous plus de huit jours. J’ arrive ici une heura avant q’on se mît à table. ” (1 octobre 1759) Diderot Lettres à Sophie Volland

dobras naturais

ao tempo…

a leitura desliza e alimenta, e floresce exuberante…

mergulhar na música, e no mar, salgar e viver.

“Eram homens do mar, acostumados à solidão e ao silêncio”.

Atentos as minúcias de grosserias e daquela distração inconveniente… Qualquer descuido o naufrágio. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2022 – Torres