competir



Competir/desafiar, insistir, ou deixar apenas acontecer. A eternidade de um dia, ou o futuro em trinta e nove anos, a qualidade de um mês. Novo idioma, e a mesma história. O dia de ontem. Floração: gosto apimentado de pitanga! História condensada. Os primeiros anos esquecidos, outros tão misturados na memória! Foto desmaiada, bilhete, carta. A ideia transpira e se metamorfoseia em sentimento: folhas numeradas, notícias, tantas vezes, deslocadas…, ou, enfaticamente, comentadas! Sentimento inesperado! Gosto e buganvílias. O mundo de quarto aberto na imaginação florida de tuas palavras. Cruzas as pernas, inquieto te levantas, depois olhas pelas janelas a lagoa, as árvores e começas a rir! Aproveito e troco o disco… Abro o vinho. E brindamos. Elizabeth M.B. Mattos – novembro com chuva cantante, e sei dos dias contados, sei que voltas. Sei do para sempre deste encontro.

jeito de viver

Já tanto feito! E o relógio parado: a caminhada, uma amiga nova. Passei roupa e estendi as que faltavam…, fiz pão com bife, e improvisei um coador de café. Travesseiros ao sol! Os discos seguem espalhados. O prazer o mesmo: esquisitice de escutar música, as minhas canções. Meus horários, jeito invertido. Quando todos estiverem na calçada estarei no meu sono da tarde. Se eu contar histórias serão dela/ela… A luta da beleza! Incompreendida? Não sei. Desafiador descobrir os motivos internos. O relógio especial de cada personagem! A cada um seu encontro perfeito. Que bom estares aqui! O teu trilho, as mulheres. O meu os livros espalhados, as leituras desorganizadas. O poder de ter. Isso importa? O poder se esconde, mas, também resplandece evidente. Esta vida de polir pedrinhas, de colher violetas, caminhar entre as sombras…Que dia tão pleno! Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2021 – Torres da nossa meninice! Festa!

amigo – joseph anton /memórias de salman rushdie

“Seus amigos vão se fechar em torno de você como um círculo de ferro, e dentro desse aro você vai poder tocar a sua vida.” E foi exatamente isso que eles fizeram. O código de silêncio deles era inquebrável. Nenhum deles jamais deixou escapar, por descuido, o mínimo detalhe de seus movimentos, nem uma só vez. Ele não teria sobrevivido seis meses sem eles. Depois de muita desconfiança inicial, a Divisão Especial também chegou a confiar nos amigos dele – a entender que se tratava de pessoas sérias que compreendiam o que tinha de ser feito.(p.153) Salman Rushdie

ingênua sinceridade

Morno, pegajoso, qualquer coisa assim neste outubro a se despedir, ou inaugurar o feriado lotado.

Eu? carrego/sinto/festejo prazer inexplicável. Por quê? Intenso sentimento, meu. Café madrugador, velhos discos chiando, e as canções francesas, eu comigo, e o resultado de leitura perturbadora. Conversa inexplicável!

“ingênua sinceridade” toda sinceridade é ingênua e constrangedora, nua, despida e ameaçadora (ah! faz pensar! acorda aquelas almas anestesiadas, um livro)

“cavado o seu refúgio” com certeza, o refúgio pode ser o ferrolho de oscilação, imposição: conviver exige / gostei demais disso, afinal, sem refúgio somos apenas evidentes! Ah! Pressa de existir! No refúgio somos outro sou a outra, sou aquela, sou nova, e velhíiiiiiiiiiiiiiissima!

“fermentação implacável” sentimento horripilante e, desencontro inexplicável!

“habituar – se à vida” / outro recorte: “evolou-se deixando – os esvaziados” Constatações simples: “Se era feliz, deveriam ser também”

“áspero e violento” / “dores da vida / dores da pobreza” : a comentar os registros, agora estou com fome! E vontade de música outra vez, concentração nos sentires. George Simenon / Crime Impune / Eu volto. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 –

impressão

” – Você vai sair à tarde?

Aquelas palavras tão simples, tão banais, pareceram-me carregadas de sentido, como se escondessem entre as sílabas ideias que nem Viviane, nem eu ousávamos expressar. Demorei a responder, não porque tivesse dúvidas quanto às minhas intenções, mas porque fiquei um momento em suspenso naquele universo um tanto angustiante, mais real, no fundo, que o cotidiano, e que dá a impressão de expor o reverso da vida.” ( p.7) Em caso de desgraça George Simenon

Li durante a noite, dormi de dia. Escutei pelas frestas da minha concentração… Depois dormi na inquietação da leitura e sonhei, como se eu mesma fizesse parte daquela incerteza tão certa, sonhei e senti o medo aflito… Talvez eu viva muito sozinha, ou para dentro! Talvez eu não deixe/permita/ sinta a vida chegar do jeito certo (!?!!), talvez a janela escancarada misture o real com o irreal. Alegria pessoal, e desejo com música, com prazer. Fora do mundo, e dentro, possuída por tudo que me rodeia. Luzes em excesso, outras tão…, sim, sou uma pessoa/um alguém a resmungar, a se inquietar, a ser feliz! Feliz com o reencontro com Simenon: ansiosa também. Que poder de remexer por dentro! E tão corriqueiro e objetivo. Não sei explicar. Agarra no primeiro parágrafo, no segundo já não penso, deixo de ser. Logo eu mesma estou no terror, na aflição do não confesso. E o meu fazer doméstico empurrado para depois…, logo a cozinha precisa de limpeza, os quartos de ordem, o dia de clareza. Vontade de voltar a ler, os olhos ardem, e a cabeça está desarrumada, a caminhada mais apressada…Procuro outros livros dele, acho que emprestei alguns, não estão na estante. E…, já não lembro bem, talvez para a Magda? Ou Carol? Não, foi para a Ana. Alguém que me fez uma visita. ” Ainda existem aveleiras”, ” Os quatro dias de um pobre homem”, ” Carta a meu juiz”, ” O homem que via o trem passar”…Os livros. A memória. Preocupada estou com estes lapsos demorados, conversas esburacadas. Estou com medo. O que estarão fazendo as pessoas neste acordar? Como será conviver? Estar junto? Algumas leituras nos arranham…Sim, Simenon mestre! As reflexões estão amarradas, suspensas e…Sim, insone tento dormido tanto! Incoerências. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres – Não telefonei para a Marina, não falei com a Suzana! Não almocei com a filha! Agarrada num livro, enfeitiçada pelos velhos discos que se divertem no retrô toca-discos que o João trouxe! Sou criança.

mabel! céus! tenso!

Genialidade, escavações perturbam, ou sou desavisada! Que leitura/?! Terminei Crime Impume de Georges Simenon! Absolutamente perfeito, a angustia aguda / aperta na garganta! tensão! Que genial! e difícil! E duro!

” Falava como e o fato não tivesse importância, exatamente como se dissesse algo apenas para encher o silêncios”(p.154)

” A verdade é que Michel o desprezava, desprezara – o sempre, o suficiente para não se dar ao trabalho de condena -lo.”

Separei várias joias, estou com sono, mas vou expor / espetacular o livro! Amanhã!

saúde

A saúde é pois um equilíbrio do nosso organismo com as suas partes componentes e com o mundo exterior; ela nos serve, sobretudo, para conhecer o mundo. A perturbação orgânica obriga a reconstituir um equilíbrio mais/fortemente interior / meu/ o teu/ o nosso. Retira / exige a alma, e desde então é o corpo que se torna o meu objeto, ele não constitui mais eu mesma, embora ainda seja meu; não é mais do que o barco em que faço a travessia da vida. Estudo as avarias e a estrutura sem identificar com o meu ser eu, o indivíduo. Onde reside em definitivo o meu Eu? No pensamento, ou antes na consciência. Abaixo da consciência há a espontaneidade e aquele fazer rotineiro, tão meu! Então eu sou apenas a ideia de querer ser EU. E de te querer, ainda.

Recebo a notícia da tua morte / a passagem: espanto e dor: lágrima do que não aconteceu…, somos nós os dois abraçados nas escadas do casarão tecendo a malha que nos envolvia no abraço e no beijo. Tudo fizemos / tudo tentamos para que nossa fosse a vida dos carretéis, das agulhas, dos tecidos e daqueles inusitados desenhos coloridos. Por que a certeza não nos carregou lado a lado…, teus estudos, tua Itália, teus / tuas. E eu? Uma mãe forte / obstinada, e cheia de planos / os dela, os meus. Teríamos sido felizes! Completamente e plenamente felizes. Eu não tinha mapa, mas o sentimento preso nos beijos do teu abraço. Eu te amei menina! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

apenas crianças

Da magia e da incerteza a explosão. Como seria explicar o prazer. Antes examino a mão, também ela se transformou em mapa. Tantos e muitos rios, correntes e uma história de caminhos. Não. Não fico triste. Eu penso como seria te olhar. Depois escutar a voz, depois te saber feliz, alegre, certeiro. Penso naquele menino casando, no irresponsável trajeto de sermos ingênuos, meninos…Era tudo uma grande brincadeira. Ah! Eu sei como é voltar ao sonho: os mesmos sonhos. E caímos nas mesmas armadilhas: o laço mais ou menos apertado. Alguém pronto (o inimigo) pronto para apertar. Por quê? O que faziam nossos pais enquanto brincávamos de ser gente grande, eles também apreendiam a conquistar o mundo. A questão disciplinar da educação, de entender a criança como ser completo, demorou a ser/ter entendimento objetivo. Éramos apenas crianças, flores ou urtigas, no jardim. Folhagens domadas ou selvagens… Crescemos? Não sei. Minha mão teclando diz que sim, mas a vontade de cirandar de cantar de me esparramar nesta alegria inesperada diz que não. Sou a mesma da nossa meninice, és o mesmo, talvez, não sabemos bem/exatamente a pessoa que somos: estamos no jardim. Tu existes: isso de existir é perfeito. Elizabeth M.B.Mattos – 2021 (do amor)

aparentemente

Aparentemente estás vivendo quadrante bom. Administração de si própria. Lembrei de ti e da tua intelectualidade. Tive uma vida pouco ortodoxa. Aventuras. Eu me dei conta, – nos constantes balanços que fazemos, – que se as aventuras fossem menos impulsivas, eu elegeria o cérebro com equivalência maior às pernas. Teriam sido muito mais contagiantes e talvez reduzidas a um número menor que os dedos das mãos. Passado. Não desprezo. Mas eu poderia ter sido mais esclarecido… Pessoas como eu não trazem consigo tesouros do tempo, trazem aventuras, talvez, enredos interessantes e curiosos. A foto do teu perfil mudou. Flores. Quando este balanço estava em andamento fui procurar a foto daquele perfil: um tesouro da adolescência. Este veio, sem aventura. Beijo

Yin-yang

“forças fundamentais opostas e complementares”

Aparentemente: boa palavra. Estou vivendo, devagar, uma volta para o tranquilo. O mesmo do mesmo. Conversas existenciais. Tento achar meu eixo, que não seja o complicado! Impressiona a “cara mapa”! O tempo! Devagar retomo as leituras. Estupefata com a memória a esfarrapar “coisas” engraçadas… Organizo espaços para a cadeira que encomendei… Faço listas do que gostaria de comprar. Hoje, café preto com bananas fritas. Feijão, laranja e peixe. Balas de goma. Enfim! Incoerências de sempre. Demoro para achar isso, perco aquilo, e os dias da semana esperam, atrapalhados a outra semana, aquele de estar escondida no teu abraço. Acalmei ansiedade ao te escrever. Retomo as cartas. Amigas telefonam. Embora eu me esconda, ou pense que estou reclusa, tão perto! Estou ao teu alcance. Abro a escotilha. Relações, o social, faz bem, tu sabes. Minha intelectualidade, sobrevivência desorganizada… Eu me irrito por nada ter feito, e faço! Como um jogo. Enfim! Não, importa. Os livros, um atalho, e o campo: livros por todas as peças. Preciso esquecer. E, literalmente, esqueço tudo. Elegeste corretamente. Tens a energia verdadeira e a melhor da vida. A correta. E tua inteligência, tua intelectualidade e o que sentes te faz FORTE. Eu te admiro. És bom neste jogo de viver. Nenhum livro, nenhuma leitura de fora para dentro, substitui o teu de dentro para fora… Aventuras / sensações / vibrações importam. Agarrar em vez de ficar a olhar. Tuas mãos importam, sempre serão o farol. Cuida delas. Eu, muito agarrada em ti, resolvi me fortalecer, e também me afastar. E devagar, como te disse, voltar, olhar para trás nos meus passos, com cuidado. Sonhar sonho, desejar desejo, ou seja, esquecer. E como mágica, mandas um bilhete – carta. Bomba. Engulo o silêncio necessário, e festejo tua volta. Tuas cartas. Teu pensar, teu jeito de ser e fazer. Há que se apreender / agarrar. Esta coisa de ler é vício. Um vício como qualquer outro. Como o álcool, a maconha, ou as balas…,ou, o vício de te amar. Como viajar. O sexo / o social / o mundano. Como… Nós nos formatamos. Sabes o mais lindo/o perfeito? Usas as mãos, és ortodoxo. O que tu tens é tão absolutamente genuíno! Bom teres escrito. Que bom estares aí do outro lado. Um beijo. Beijo eu sei dar. Eu acho. Eu te beijo tanto e tanto! Intelectuais são pesados, completos, introspectivos, poderosos, e complexos. Não sou assim. Ainda não. Na outra encarnação, serei, agora eu me esforço para te amar melhor. Outro beijo. O texto / uma carta / e chegas por inteiro. Tens o time/ o jeito certo, a narrativa saborosa. Acertas ao contar, não deixas escapar, pulsa quando escreves e contas, eu sinto. Não posso roubar a história, mas tu podes. Contar tantas / muitas, inventadas, reais. Estás a sentir enquanto escreves, não importa, mais nada, arrisca. Eu sou tua. Desdobra uma narrativa da outra: especiais / as tuas e as nossas. Perfeitas.

Acordar biologicamente como o orgasmo, prefiro gozo. Acontece espontâneo, estimulado pelas entranhas secretas do prazer. Gosto demais, e, como no gozo, prolongar o momento sem relógio.
Ler e te escrever –, um turbilhão: o cérebro está mais na zona do prazer do que na zona da organização. Responder, uma temeridade.
Fragmentos! Foto atual, não surpreende que o tempo trace novos contornos. Importante que cuides e ames estes contornos, sem mal dizê-los. Certamente, ajustada à realidade da aventura do tempo: não tens mais a beleza hoje daquela inatingível Beth. Liza ou Elizabeth. Sentir que não te olham é fortalecer uma pequena dose de mal querer. Os velhos aprendem a olhar, sem se revelar, menos afoitos.
ser olhada e fazer com que olhem. amar-se. Saber que foi, pode ser e será cobiçada.
pecado…contida…travada…expectativa…espectros da ancestralidade miscigenada de influências históricas religiosas. Se forem berço de conforto: ótimo! Se forem grilhões: rompe, avalia custo/benefício. Pecado é o que mesmo? Conheço apenas os 10 mandamentos. Fora disto?! O maior pecado é o desprezo ao seu semelhante, deixando-o a própria sorte: este está entre aqueles os dez.
Já te disse, no francês sou fluente, limitado a três palavras, com sotaque péssimo. Assim, confesso que a minha biblioteca são mais do que três livros, mas não muito mais. Literatura prática: necessidade do conhecimento do momento, e a curiosidade do saber despreocupado, diferente do teu. Nos complementamos. Li menos do que devia, e, com certeza menos que podia. Bom me sentir na zona de conforto.
Neste momento acordo com a sensação de uma presença sensual. Natural. Olhar fixo nos olhos. Um cheiro suave e íntimo. Silêncio. Se despir, inteiramente, sem desviar os olhos. Se aninha corpo a corpo com leve tremor, íntima. Silêncio. Calor. O único movimento são os dedos sobre os pelos do ventre, como seda, deslizando com suavidade…, e não podemos mais escrever /descrever: já foi feito / repetido, violado e recomeçado.

Meu querido WFKHXZ: a releitura quente das nossas cartas é/mostra necessária força para seguir aos 90 anos, e sentir vida pulsando (aos 40, ou mesmo 30 anos) em festiva jornada de prazer / gozo / explosão. Posso mais / ainda mais: cuidar do corpo, do brilho,… Tua presença assídua desenha alegria; desconfio / sinto a boa / certa escolha. Nossas evidentes e certeiras diferenças desenham íntimos e perfeitos: nós. Não precisas ler nenhum livro, li por nós dois, vi os filmes que importaram, assisti os jogos necessários. E tenho o que precisamos. O sol nos pertence. E o mar te ama. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres