cuido e chego devagar! deixei / larguei/ enfrentei as pedras…,
um dia, e, aquela alegria sacode o sentimento! ainda estou viva! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021-
cuido e chego devagar! deixei / larguei/ enfrentei as pedras…,
um dia, e, aquela alegria sacode o sentimento! ainda estou viva! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021-
(…) nas beiradas, pelas beiradas. Sentimentos frios, inacabados espetam! Eles querem se derramar, ou gritar, estão contidos/amarrados. Eles se esfregam uns aos outros. Carinho apressado. Não são. E ninguém dorme tranquilo. Não choveu como eu queria que chovesse: faz sol, aquele dia perfeito para um dia perfeito, mas está estranho/colado, amarrado, preso. Não é um bom momento. Ah! Há de passar! As lâmpadas novas chegaram. Clarão da/ na luz de cabeceira, dourado. Separei um livro de Georges Simenon Crime Impune, de Ítalo Calvino Os Amores difíceis, e também um livro de Dashiell Hammett. Vou dormir. Perfumei a cama. Amanhã será um simpático dia de festejos! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

“29 de agosto de 1870 (noite). – Meu pecado é o desencorajamento; minha desgraça, a indeterminação; meu pavor é ser enganado, e engando por mim esmo; o meu ídolo é a liberdade; a minha cruz é querer; o meu entrave é a dúvida; a regeneração; o meu gosto mais constante é a psicologia; meu erro frequente é desconhecer a ocasião; a minha paixão é o inútil; o meu fraco, ser amado e aconselhado; a minha tolice, viver sem finalidade…
Tu não libertaste a tua individualidade, não descobriste a tua missão, ou pelo menos estás sempre recaindo no indefinido a esse respeito. Detestando escolher, resignar -te, limitar -te avançaste somente em um ponto, o conhecimento de ti próprio e em linhas gerais o conhecimento do homem. Quanto a todo o resto, recusaste, declinaste, perdeste. – Podes dar conselhos, esclarecer, tornar compreensível. É alguma coisa? Mais valeria pregar, pelo exemplo, sobre a educação de si mesmo.”(p.160) Henri-Frédéric Amiel – Diário Íntimo
E toda reflexão, qualquer entrega, ou confissão se esparrama por 2021. Alerta ao tempo/período estacionado, ou as ponderações -, a cada pressão…, sim estou engasgada nos mesmos sonhos: quero sonhos, pastéis, sanduiches prensados, bolo de chocolate e uma casa sem espelhos -, estupidez envelhecer… Envelhecer não traz ciência nenhuma. E a leveza da noite engasga o sol do dia. O que é preciso ser dito se atravessa: pratas na mesa posta, copos de cristal, e louça especial = mansidão (imaginação). O perfume das flores. Eu te abraço com ternura, entrego meu corpo, e o beijo, despejo no olhar. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

Eu te escrevo, mentalmente, todos os dias. Tenho planos: um roteiro detalhado (vais gostar das novas ideias). Dias ensolarados me desviam do trabalho. Faço pequenas caminhadas. Sinto o corpo cansado. Escuto música. Leio menos. Levanto cedo demais. Dias de luz acordam festivos, mas o verão não manda recado, sinto frio. Escrever exige exercício, atenção, esforço e cuidado. Não consigo arrumar, limpar e festejar. Quero flores. Quero aquelas saladas fantásticas que sabes fazer, quero bebericar e conversar…
Não desanimo desanimando, tu sabes. Gosto de pensar que me conheces e imaginas a preguiça, as pequenas manias cheias de braços e pernas, também a caverna, embora o sol anime, aqueça, traga ideias, logo, logo mesmo já me esqueço dele, imagino a chuva o temporal. Ontem consegui desenhar e completar pequenos esboços, as cores pontilharam…, ficou bonito. Lembrei de todas as aulas, mas faltou a tua energia. Pequenas, grandes, enormes dificuldades para aceitar o limite.
Eu me assusto: assombro! Desvio. Não vou me prolongar. Apressado bilhete para dizer do meu amor. Ou da minha ausência. Sentimentos misturados. Logo!? Sem lógica. Este logo parece tão, imediatamente, possível. Espero ansiosa tuas cartas, depois, as chamadas telefônicas, depois me acomodo no silêncio. Ele faz parte do nosso jogo. Um beijo apressado, num bilhete disfarçado de carta, E N O R M E. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – ainda com frio. Torres

“Doce amigo, não é tão terrível assim. Tudo isso é porque você está aí, e eu, aqui. Quando você me vir, tão alegre e indiferente, logo seu coração se aliviará. Nunca oprimi nem sufoquei ninguém em minha vida; sou apenas um pretexto para que as pessoas vão em direção a elas mesmas. Quando este” em direção a elas mesmas” existe, ou seja, quando elas mesmas existem – então – TUDO EXISTE.
Diante da ausência eu nada posso.” (p.289) Marina Tsvetáieva Vivendo sob o Fogo
ação / o exato / o preciso que seria real, se confunde,
não é verdade, mas percepção.
sentimento fantasioso.
o entendimento se atrapalha, tropeça, atropela o sentimento
a realidade, uma narrativa
fantasiosa de impressões (não verdade, mas conceito)
o fato é considerado real, realidade.
no entanto, ao contornar / delimitar o feito / o fato… puft! desaparece
a história é abafada na evidência da narrativa: um amontoado de palavras explicativas / ou iluminadas: e eu te amo
vês?! a narrativa, às voltas com a fantasia!
o beijo, o abraço, a possibilidade de ser real desaparece, outra vez,
novo emaranhado de histórias.
Volto ao piano, ao som do violão, a voz equivocada. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

“A liberdade não chega automaticamente: é conquistada. […] O Passo fundamental para a conquista da liberdade interior é ‘optar por si mesmo’. Esta estranha expressão de Kierkeggard afirma a responsabilidade de cada um pelo próprio self e a própria existência. É uma atitude oposta ao impulso cego ou à existência rotineira; é uma atitude de vivacidade e decisão; significa que a pessoa reconhece existir naquele determinado ponto do universo e aceita a responsabilidade da sua existência. Isto é o que Nietzsche queria dizer com sua ‘vontade de viver’ – não apenas o instinto de auto conservação e sim a decisão de aceitar o fato de que a pessoa é ela mesma, com a responsabilidade de cumprir o próprio destino, o que, por sua vez, implica em aceitar o fato de que cada qual deve fazer suas próprias opções fundamentais.” (p.140)
Esta questão inquieta, esta tal de liberdade atormenta. A falta de coisas supérfluas e tão necessárias!, a saudade de algumas pessoas: amigas, amadas, íntimas. O mito permissivo da juventude eterna, Fausto fez a melhor escolha?! Eu posso ser eternamente jovem: eu estou ótimo, eu me cuido. A vida, uma vitória. A tal velhice bateu, fez toc-toc na porta…, não esperou abrir a porta, refestelou-se no meio da sala, entrou antes mesmo que eu terminasse de enfiar o casaco e arrumasse os cabelos, eu não tinha passado a chave, descuido meu. Porque se eu pudesse, se eu exercesse a minha autoridade, eu não a deixaria entrar. Fiquei encabulada. E a conversa começou com intromissão insistente… Então, eu me pergunto qual é o limite, como vou impor a minha vontade?
“Kierkeggard escreveu vinte livros em quatorze anos, terminando -os aos quarenta e dois e – quase dizemos ‘para concluir’ – caiu de cama e morreu.” (p.141) Rollo May O homem a Procura de si mesmo
Estou a fazer uma nova arrumação enquanto me proponho a limpar a casa, agir/fazer e estar disposta (ou alegre) , consciente de que eu mesma escolhi esta vida de não-casada, de dona de casa, de estar sozinha, de amar sem vergonha, de sentir prazer, de me apaixonar, desmedidamente, de ter que desapaixonar, cair na real, seguir caminhando nas calçada esburacadas, mas particularmente, bonitas…É lindo onde eu moro! Atividade: jogar fora os velhos livros, sem dó, nem piedade! Pensar nos catadores de papel! Enfim! Não telefonar ao amigo X, nem ao Y, muito menos ao ZMCGR! porque eles são casados, e as mulher ficam todas…, eles ficam todos melindrados! Pois é, mesmo nesta velhice esquisita, os amigos não se permitem escrever, participar ou dizer olá! Os homens não podem sair dos seus quadrados, e as mulheres seguem atarefadíssimas sendo avós, mães e seres de fé. Não posso reclamar, eu sei, por cima da minha velhice, o meu amado chega para me visitar amanhã. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres
Quanto mais a pessoa se aprofunda em sua própria experiências, mais originais são as reações e os resultados.

os azuis se colocaram aos meus pés e grudaram nas minhas mãos, ativos, determinados, alertas, então, limpei a casa, o banheiro, os vidros e fiquei mais ou menos morta depois de pendurar duas máquinas de lençóis, esticar as camas e perfumar a noite, dormir com a graça do dever agarrado, e festejado. um acaso de vou e faço e fiz e ficou bom, terei o sono atravessado e voltarei na madrugada cheia de ideias e abraços e beijos e sussurros porque me esperas. querido, se eu dormir antes, perdoa, dormi também tu. Eu te acordarei com ternura e firme e deixaria que a tua mão me descubro, e que a noite esteja nos teus sonhos, nos meus e nossas…estou bem cansada. Amanhã eu te conto detalhes, agora vou apenas inclinar a cabeça. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – te amar tem este encontro de exaustão e entregada e porta fechada, depois vou dormir. tu me amas, eu te amo,
É devagar que eu te penso, digamos que escorrego… A poça com lama responde, a pitangueira se sacode.
Estou a fazer uma pequena caminhada atrás do vento: sair e pensar e te reencontrar.
Agora, distraída passo geleia na torrada, e bebo café com leite, sem açúcar. Esta coisa de esperar o dia passar pode ser um fardo: eu escuto vozes: vou ao encontro delas…
Decidi eliminar velhos livros amarelos, vou encher muitas caixas, e… vou deixar esta melancólica saudade de lado. Prestar atenção! Eu posso. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres / sem grandes seleções, apenas me desfazer. A cada um sua própria estrada: novos ares…







“O pensamento é algo que se encontra, que se reencontra. E quem o procura é um encontrador honesto; ele é seu, mesmo que outro também já o tenha achado antes dele.” (p.133)
” O aforismo jamais coincide com a verdade; ou é uma meia verdade ou uma verdade e meia”, escreveu Karl Kraus (1874-1936) a respeito do gênero que se tornou um mestre.
