gosto do que gostas

Gosto do que gostas em mim: por isso te quero, e me entrego. Eu te gosto. Esse desejo cheio de voltas, incerto. Estar sem estar, compartilhar sem nada dividir… Eu me despejo em carícias. Longos silêncios ruidosos, e, medrosos. Se eu sei o que gostas, eu gosto. Nunca mais abrir enlatados / sempre o verdadeiro das parreiras, da horta, de nós dois. A lareira a queimar nós de pinho, a queimar. Os cães quietos, e este vento de inverno. Não, neste momento em que divido a sopa e os cogumelos salteados, eu gosto apenas de te gostar. E o vinho. E a preguiça… A chuva inverna no cinza. Eu me distraio, nem sei mais quem sou sou. Procuro meu contorno, Desenho o corpo com as mãos. Procuro o querer, eu quero/ eu gosto. Eu me confundo, eu me entrego: feitiço deste gozo e vou…

Rio sem nascente, correnteza, margem mansa… ElizaBeth Mattos – junho de 2021 – Torres

velhos hábitos

Carta atravessada, voz sussurrante desejo estrangulado. Sedução latente. Nada a ser controlado: acelero sem rumo, esquisita sensação! Pradaria de margaridas selvagens: amarelas, azuis. Violetas misturadas, e uma alameda de camélias brancas! Singelas margaridas a serem despetaladas. Ouço tua voz sem nunca ter ouvido… Estaciono no meio do campo, e os olhos procuram, se perdem no verde. Não choro. Haverá um desavisado passante. Adormeço, estacionada neste céu. Velhos hábitos! Vou redescobrir equilíbrio manso sem paixão/ sem desejo. Beth Mattos

atrás de ti

Não adianta dormir de dia nem se esconder de noite. Não adianta escrever ou deixar de escrever, não atender ao telefone. Apagar o sentimento, escabelar o sorriso, olhar distraída. Nem caminhar leve, despentear a cabeleira, enfiar o chapéu. Vestir preto, misturar com o cinza, ou sair de branco. Não adianta olhar pela janela, achar que sim…,

És obstinado, correto, certo, descomplicado (desfazes desencontros, e pontuas), fiel, compenetrado, azul, um pouco verde com amarelo, cheiro de capim, galho poderoso. Tens terra no corpo, e a lembrança em broto, esqueces. Não lês, não desenhas, não brincas, não jogas nem cantas. As voltas que dás, estes cafés que bebes, estes acertos…, ah! este jogo de xadrez! Este teu riso na cerveja, o bocejo na caipira, esta carne de panela… Eu te espio, eu te sigo, eu durmo contigo no sofá, enrolada, depois vou embora do sonho, e tu ficas… Eu volto para fechar teus olhos, e tu dormes até às 10 horas da manhã na preguiça do frio: janelas fechadas, cobertas pelo chão. Se eu te contar o tamanha das caixas! Faço mudanças, vou viajar, volto, igual te levo por ali, e por aqui. Não vês. Eu te sinto. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021- Torres hoje o mar molhou meus pés e eu corri na praia, atrás de ti…

Instantâneo tirado pela Ana Moog no Bistrô Taverna – Torres 2020
Colégio Bom Conselho / Formatura do Colegial
Búzios / Rio de Janeiro

esforço e coragem

O dia puxa pro escuro, para dormir continuado… Esta pandemia avança tão sem tempo de terminar! Como se fosse para sempre este apartado/separado aflito de ficar em casa, portas fechadas. Afinal / então / assim, fica tudo mesmo como era, fosco. Eu me proponho, meio sem ânimo, até sem música… ah! não acelere o tempo, atrase. A cada luz bordada um esforço desmedido, claro, um salto! Possível e vitorioso. Mas deixa eu dizer que estou cansada! …cansada! E um pouco triste. Amanhã vou fazer roda, cantar, encontrar pedrinhas brancas, jogar Três Marias, vou fazer bolo… Comecei a dieta, séria, seríssima, e me engalei para a festa, nada (risos), na primeira tentação, lá me fui a comer macarrão, camarão com muito queijo com vinho, então, dei risada, deixei tudo pra outra semana, outro mês. Vou buscar outra coragem, outra caminhada, outro vestido de chita para pular o São João! Vou espiar o vizinho e as bandeirolas da esquina. Elizabeth M.B. Mattos – vou rodopiar! junho de 2021 – Torres

erros errados

Narrativas, as mesmas. O fato/incidente, o mesmo. As mesmas perguntas: as respostas únicas/ emparedadas. Por que me repetir nos erros errados dos amados amores? E, afinal, certos… / Beth Mattos – junho de 2021 – Torres

Algumas experiências (ou serão todas?) são tão intensas que parecem/ou serão? únicas, nunca sei ao certo se o antes ou agora foram/são/eram/serão essenciais – de repente estou sentido o mesmo/fazendo o mesmo, acho que bonde sobre os trilhos não me levavam aos mesmos lugares…, mas nunca saíram dos trilhos…, pois é. Na verdade deixaram de existir, simples assim.

Nelson Rodrigues, óbvio

Leitura como onda, pois é, para encontrar o leitor há que se estender / aprender e se divertir. Errar, mas continuar: livros se reviram nas estantes.

Tenho promovido tão tenazmente o “óbvio” que ele se tornou íntimo de toda uma população. Sim, fala-se do “Óbvio” como se ele fosse um amigo, um parente ou jogador do Flamengo.

Aprendi que as coisas ditas uma vez, é só uma vez, morrem inéditas. Claro que os eternos descontentes, que sempre os há, protestam – “Você já escreveu isso”. E, um dia, uma senhora bateu o telefone para mim: – O senhor escreveu, hoje, a “Confissão” de ontem. Disse-lhe – “Boa piada”. Rimos ambos e ela já se despedia alegremente: – desculpe a brincadeira.

A leitora tinha razão a meu respeito, porque não nego as minhas repetições. E, além disso, sem o querer, ela definira toda uma época jornalística. […]Outro dia, um colega veio para mim, aflitíssimo: – “Não sei o que eu tenho, não sei.” Pergunto: – Dor de cabeça?” Pergunto. Não, não. E explica: – “Estou me sentindo velho, velho.” Ofereci-lhe um comprimido, como se ele pudesse curar a súbita velhice com aspirina. Até que percebi toda a verdade: – era uma velhice profissional e repito: nós, jornalistas, é que estamos mais obsoletos, mais fora de moda do que o charleston, do que o tango, do que Benjamin Costallat.” (p.67-68) Nelson Rodrigues O Reacionário memórias e confissões

Ontem, a passear pelas calçadas da rua André Poente. Ontem, quando cachorro quente era a melhor delícia, no Joe’s. Ontem quando namorado buzinava na calçada. Ontem, a televisão deliciava com o seriado Bonanza, e, torcíamos para o futebol brasileiro, para o vôlei, ontem eu deveria ser como hoje, feliz. Ontem vira hoje, e vira alegria dobrada. ElizaBeth Mattos – junho de 2021 – Torres (ontem era apenas veraneio, hoje delícia de todos os meses)

cozinha

De volta às panelas com novidade, alegria de fazer acontecer. Laboratório certo. Descobertos das ervas, sem incluir tabletes, e o sabor vem das escolhas… Escolher, tomar posições não parece tão simples, ou isto ou aquilo como diz Cecília Meireles naquele poema. Arestas, frestas podem ser possíveis, entra vento, reflexos do sol, e algum cheiro de capim, mas… O cheiro da nossa mistura = odor, caprichos escolhidos, ah! Remexo, coloco vinho, depois pimenta, cravo e canela naquela abóbora! Céus! Eu me encontro contigo no prazer. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 -Torres

Ou isto ou aquilo 

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Hoje eu estou isso, gostei de cozinhar, ontem, sonhei, e antes de ontem, senti uma saudade danada da ansiedade de te esperar, dos bilhetes apressados, dos atropelados, do desarrumado de te gostar, da excitação inteira por te encontrar, e das noites insones a te pensar.

quero mais

…,estoura a bolha, e no outro minuto, quero mais, quero tudo, quero inteiro. Esbravejo como criança pequena, bem pequena: chora porque não sai mais leite do bico do seio, e esperneia aos gritos… Imagino que seja uma sensação de pânico! Assim, assim estou agora, nesta aflição sem nome porque eu quero quero quero quero quero… E na verdade todo o equilíbrio é importante, os alertas acendem, o equilíbrio e aquela coisa de limite e finitude se faz necessária. Decrepitude não. Vou achar que sempre estou a me renovar…e encontrar um novo canteiro de margaridas, e depois as rosas perfumadas, misturadas aos cravo e muitos metros de uma cerca de arame cheia, tomada pelos miúdos jardins perfumados , mais um arbusto com camélias. E as laranjeiras carregadas com seus galhos pesando, e os limoeiros. Respiro num sorriso gargalhada o prazer de estar viva. eu me deito no gramado, como nos filmes, abro os braços, depois rolo na grama e sinto aquele cheiro de terra entrar pelas narinas, imagino tua mão na minha mão e respiro numa gargalhada de amor o prazer dessa garoa invernosa molhando a roupa, umedecendo o corpo do macacão da preguiça. Levanto com certa dificuldade, mudando as posições do corpo, ainda achando graça da infantilidade e corro pro chuveiro quente, as pantufas e vou beber vinho à beira da lareira…Talvez venhas hoje. Rabugento. Eu sei, mas não me importo. Eu te juro que tudo vai estar no lugar quando a primavera chegar, e os ajustes serão, no mínimo, pacíficos e estarás feliz. Eu me inclino para te beijar, vou ficando no beijo. Tão bom! Tu respondes. E lá me vou para fazer um carreteiro com linguiças, aquecer o feijão e descascar as laranjas, deixo contigo. Sou feliz. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 – sábado