ilusão

Gosto de dormir em horas engraçadas, e estar acordada quando todos dormem…, e fica maior o dia de viver / o tempo de sentir. OU apenas ilusão, apenas ilusão, deve ser. Beth Mattos

sem defeito este inverno

Começar / refazer / ordenar pelas gavetas parece banal. Não penso que seja, ao contrário, ouso acredita em criatividade. De dentro para fora, e sem pressa de terminar… Ah! Quantas gavetas a serem surpreendidas! O cuidado pincela / ajusta o ânimo, e a força volta ao corpo. Este inverno sem defeito me deu um susto, educou meu jeito estabanado de entrar e sair refestelada nos desejos alegres. Afundada na cama, espiando o dia, desacomodei a dor e o susto. Deu certo. Não seguir confiando, ou melhor, confiar com cautela, a possível, reavaliar. Bonito de escrever, difícil de fazer. A sensação de equívoco volta: os erros serão iguais…, repetidos. Esquerdos. Se quero ser outra / nova / ou apenas Eu do jeito que sou, há que cortar memórias, sacudir lembranças. Doloridas ou excelentes, as ótimas são armadinhas. A cada escolha um nó de marinheiro… Curioso! Quero/desejo/imagino vidas, mas em todas elas me coloco/imagino /penso ser outra, sou eu, apenas eu, plantada em novo canteiro. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres num dia de sol, sol entrando / ou se instalando na sala.

desejo insensato

[…] entre as coisas indispensáveis à raça humanam, figuram, necessariamente, alguns desejos insensatos, não existem homens sem o amor. E o desejo nos guia / leva. E será sempre para o melhor caminho do prazer e da alegria necessária, suportamos o mal / a maldade por amor, e curamos a florir o caminho. Beth Mattos

“[…] parmi les choses indispensables à la race des hommes, figurent quelquer désirs insensés, Il n’y aurait pas d’ hommes sans l’amour. E d’où penses-tu que nous ayons tiré la première idée et l ‘ énergie de ces immenses efforts qui sont élevé des villes très illustres et de monuments inutiles, que la raison admire qui eût été incapable de le concervoir?” (p.26) Paul Valéry Eupalinos ou O Arquiteto

Luiza Mattos Domingues

Luiza Mattos

29 de junho de 2014  · Recife, Pernambuco  

Para que os dias não sejam iguais: Devem ser reais, brutos, vivos, originais. Aliás, não devem nem mais nem menos. Não devem ser amenos, não devem ser pequenos. Necessitam da extinção do pudor, da escassez, da avareza. Que deixem pra trás o rancor e a dramática novela mexicana. Que sobre à mesa a flor e o frescor da verdade. Que exista fartura de alegria, o não exagero da dor. Que a lama seja mais importante que a fama. Que a cama seja macia e sincera. Dias de consciência e resistência. LMD

haver/ter/existir

Transparente finitude! Existe / tem / há decisão a cada hora / tempo. Vontade de correr, também de imobilizar, mas eu te digo: logo socorre o alívio: terminou…, ou se cristalizou, ou morreu, ou se resolveu, verás. Nem sempre azul, nem verde, talvez alaranjado, castanho. Amarelas ou arroxadas…,transparentes esperanças. Corajoso suspiro! E já é/será outono. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2021

quase velha

…, mas não o suficiente para dar conselhos, nem para dizer sei quem sou, não sei…, adivinho. Sem descrição, impossível detalhar, talvez o suficientemente bom, ou péssimo… Terrível de dizer, ou de pensar. O limite. O suficiente, ou o razoável pode ser/ou deve ser amor… Beth M.B. Mattos – Inquietudes existem: fica o conselho nem um pouco razoável: não derrama, não quebra o copo, por descuido, atordoado, desajeitadamente, ou sem modos no meio da sede. Agarra o possível, e te aquieta no silêncio. Soluções galopam…, estão dentro de ti.

dizer

A fala escorrega perigosa, sem freio, quase assassina, mas a alma salva da morte definitiva. Acredito/penso que é preciso mergulhar, enfrentar. Não foi tão ruim assim, consegui, o troféu não era pesado, percebi. Mas não levei o primeiro premio, nem o terceiro, uma pequena medalha pelo esforço… Nem confessei todos os meus pecados, não mudaria nada. Os escudos são poderosos. Espadas, nem arma de fogo o atravessam. Talvez uma bomba, mas talvez eu saia dos escombros. Talvez! Vou morrer no limite do canteiro das margaridas… Como eu ia te dizendo, feliz. Daquela felicidade recheada de prazer e gozo. Obrigada. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2021 – Torres

o coração sacode com a ventania, com a perda…

Uf! escrever e dizer e voltar, reafirmar pode ser um ato de coragem, um fazer com velocidade de exaurir, de tirar o folego!, o chá esfria, o café fica morno, o bolo murcha, e as laranjas perdem o gosto… Não se trata de desistir. É como acordar no meio da noite, no meio do sonho, e reafirmar a vida. Algumas escolhas parecem ter sido complicadas, linhas cheias de nós, perdas ou esquisitices mal compreendidas. Mas se trata de um deixar para trás justo, esperto e bom. Inesperadamente reaparece hoje/agora como se fosse questionamento, mas não é não, não pergunta nada, nem explica lá, elucida. Levantar a tampa do poço, conversar com a bruxa, encontrar a fada, mas o feitiço é este agora liberto. Enfim! Aquelas conversas necessárias, internas ou musicadas, urgentes. Terapia. Medo de remexer com os amigos, possíveis inimigos, mas perigosas conversas a se fazer com o amado de amor. Uma volta ao campo de guerra, meio da batalha sangrenta, de lucidez estúpida, mas de boas escolhas. Aquelas pessoas do passado, ou morreram ou continuam nas mesmas rodas repassando vidas alheias, ou jogando, cartas, fuxicando no bom ritmo da mesmice, imóveis. Afinal o que significa? Certamente não os fatos, nem as pessoas… Ah! Não posso generalizar, os sentimentos são os meus, os doces açucarados de Pelotas, os filé do restaurante Santo Antônio, aqueles fins de tarde a desfilar no Barranco…, pois é, meia dúzia de cintilações esvaziadas quando…

Minha vitória prosaica está na cozinha higienizada: pratos e panelas em ordem. Cheiro da limpeza. Aspirador ativado, missão cumprida depois de dois dias escondida nas penas do acolchoado. Impaciente com as notícias televisivas tendenciosas. As folhas do jornal acalmam. A notícia se repete, mas o jornal acalma. Lamento, choro, fico gelada por dentro: meu amigo Walter Galvani se despediu. O silêncio do vírus silencia lamentos. Morte silenciosa. Reverencia -se o silêncio. Elizabeth Menna Barreto Mattos -junho de 2021