angustia embalada

Tenho pensado na vida, na beleza nervosa de tua mulher, e no encantamento triste e perdido e choroso da tua filha. Entro devagar na angustia embalada. A morte/ perda de pai e ou de mãe, ou de um amigo precioso, consolo. Se existe consolo, pode ser a luz do recomeço. Dentro da escuridão da solidão… Outra percepção, outras afirmações, e …. Não aplaca sofrimento, mas as pitangueiras já florescem por aqui, e amadurece o fruto. Imagina a explosão.

Não consigo chegar mais perto. Eu me consolo no teu consolo. Vou tatear ao encontro porque há barreiras de compreensão. Brinco com palavras… Precisas entrar no meu quintal, sentar na minha sala e me estender a mão. Teu mundo é maior, muito, muito maior. Teu olhar teus sonhos tuas possibilidades chegam/estão nas estrelas não posso te trazer até Torres, ao Brasil. As praias são pequenas… E eu sou pequena. Não posso/não vou/não consigo me alongar/aventurar no teu mundo. Não compreendo/não sinto este melhor dos mundos possíveis que se chama América do Norte. Tenho dificuldades de ir até São Paulo. Ou ao Rio de Janeiro. Voltar a Recife para me aconchegar. Estou presa dentro de mim mesma. E envelheço perto da loucura, agarrada na lucidez e acomodada… Seria preciso mais, muito mais para florir, desabrochar, um esforço grande para chegar nas tuas estrelas. Estou “No Melhor dos Mundos Possíveis” como diz Voltaire no seu Cândido. O meu quintal, entre duas cadeiras, entre o mar e as montanhas. Entre a paciência e a impaciência. Sou egocêntrica. Os meus livros importam. Vozes se cruzam entre leituras, escritos e enormes, gigantescos silêncios. Conversas necessárias se enfeitam e vou dizer o que não tive tempo dizer, fazer ou completar. Mas, na verdade, já passou. Lamento a distância. O silêncio. O telefone. Estar/ir até a praia, ou ao salão beber chá, almoçar, e muito me conectar, e te esperar. Ou ainda ler e escrever. Escutar Mozart ou Wagner, ou Liszt. A ponte possível que não construí, tu construirás. Tua engenharia pode, e eu não entendo/sei das engenharias. Nem do céu e das estrelas, dos planetas, do infinito. Da morte e da vida. Muito pouco do amor / da saudade e desta emoção que aperta/aproxima/conecta seres vivos de carne e osso. Eu transito pelas beiradas. Estou do outro lado do mundo. Escreve, meu querido. Elizabeth M.B. Mattos  – janeiro de 2020

da irritação à doçura

Ah! Que inveja tenho do intenso, atrapalhado e perfumado jeito de amar! Explicação com ou sem juízo. Descabelado e perfumado: intenso e amado! Rosas cor de rosa, as amarelas e as despetaladas margaridas. Quero violetas! E tu me trazes… Beth M.B. Mattos – janeiro de 2020 ainda, definitivo, em Torres, mas amanhã vou para São Paulo, e não volto mais.

Emily Elizabeth Dickinson

Livros voltam como memórias de construção/ ou reconstrução. Por que morar em Rio Pardo ou Santa Cruz do Sul. E Torres? Recomeçar em Porto Alegre. Quanto tempo!? Petrópolis outra vez, depois Independência, e Moinhos de Vento. Jardins floridos. O caminho, o tempo de seguir em frente / ou tirar tudo do lugar para brincar de azul, depois o amarelo se transforma em verde. O contorno com carvão fecha o branco em/com riscas cinzas… Uma experiência. E o definitivo. Voltar a trabalhar nas escolas, no tempo mesmo de trabalhar. Esperança de conseguir desenhar outra vez.  E volto a desejar Porto Alegre como se fosse uma saudade amorosa. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020 – Torres

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Moro na possibilidade,

Idwel in Possibility –

Casa mais bela que a prosa,

A faire House than Prose

Com muito mais janelas

More numerous of Windows

E bem melhor, pelas portas

Superior – for Doors –

De aposentos inacessíveis,

Of Chambers as the Cedars –

Como são, para o olhar os  cedros,

Impregnable of Eye –

E tendo por forro perene

And for an Everlasting Roof

Os telhados do céu.

The Gambrels of the Sky – 

Visitantes, só os melhores;

Of Visitors – the fairest

Por ocupação, só isto:

For Occupation – This –

Abrir amplamente minhas mãos estreitas

The spreading wide my narrow Hands

Para agarrar o paraíso.

The gather Paradise. (p.45-46-47)

Poemas Escolhidos

LPM Pocket Plus Seleção, tradução, introdução e notas e Ivo Bender

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escrever uma ou duas palavras

O dia termina, anoitece devagar, e as palavras se atravessavam… O livro volta/ voltou ou retorna para o posto de ser livro a ser texto… Estou presa ainda esta vez: “As cidades se reconhecem pelo andar, como as pessoas.[…] Ainda que fosse só imaginação, não importa. A supervalorização da pergunta: onde estou? vem do tempo dos nômades, em que era preciso registrar os locais de pastagem. Seria importante saber o porquê […]

Como todas as cidades grandes, era feita de irregularidade, mudança, avanço, passo desigual, choque de coisas e descaminhos, de um grande pulsar rítmico e do eterno desencontro e dissonância de todos os ritmos, como uma bolha fervente pousada num recipiente feito de substância duradoura das casas, leis e ordens e tradições históricas.” (p.9-10) Robert Musil “O homem sem qualidades” 

Oitocentas e sessenta e uma páginas: assustador. E eu volto. Eu interrompo o tempo e pergunto: onde estou? Em lugar nenhum. Nas referências de ser eu, e ser ninguém no arredondado da rua, perto e longe da calçada volteada. De gramados domados, lagoa esvaziada e tanto céu! Aonde estou? Dentro de mim mesma, excluída ou domada. Por que escrever e soltar e recomeçar porque o livro sacode a alma. A tua palavra, o teu pensamento despido, o teu, importa. Então escreve meu amigo. Eu te leio voraz e lenta. Contraditória e louca conversa de ser eu. No espelho envelheço, mas aos teus olhos eu sou eu. Elizabeth M.B. Mattos, aneiro de 2020 – Torres

vidros

Vidros, janelas, não consigo. Limpar nem encontrar o ritmo perfeito para voltar. O agora, a volta, o giro deste hoje: resmungo, exagero. Eu sei. Não importa. Retomo a mesma conversa de sempre, exausta. Revidamos o isso ou o aquilo, repassamos. Terapia de todo o dia… Com vinho, sem vinho, mineral ou chá gelado. Não és tu, não sou eu. Somos nós a esgrimar. Faço um plano: escrever ler e ordenar. Começo pela cozinha, mas o começo já se espreguiça, acho que desta vez preciso mesmo comprar: toalhas, colônias, sabonetes, espinafre, tomates, batatas, e vestidos. Aos quilos as camisetas. Preciso comprar. Gastar energias e comprar. Vou ver se encontro vermelho e laranja quando tem amarelo, ou azul no verde também gosto, um pouco do branco se terminando cinza. Ah! Como posso escolher se está tudo assim, tão dividido! Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020

P.S. Tua voz me acalma. Diz/fala, e me explica outra vez, por que não vieste a Torres comer empadas, pastel e sonhos?2020-01-02 01.10.52 (1)

 

 

4 carta apressada

Não encontro a ponta certa. Sufoco, não respiro.

Sinto os dedos endurecidos. Cabelos cortados/picotados. Os fios desacertam atrapalhados mesmo escovados. A tinta, cor indefinida de cinza, e já não sei… Dizes que eu sou eu de qualquer jeito sou eu, não sou. Quero fotografar e te mostrar. Fotografar! Estou sem palavra, amarrada. Sou voltar. Vais chegar. Eu sei. Amanhã abrirei as janelas sem medo do vento nem do sol nem da chuva. Quero voltar para casa e respirar. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020

azedo

Dominar e empurrar sem o desanimo doente. Afofar a terra, e fazer a chuva descer cuidadosa. Olhar e dizer e compreender. Voltar a cozinhar a passar a roupa e revirar o virado, perfumar. Perfumar tudo com sol. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020

três horas

De repente tu acordas às três horas da manhã, agora, já quatro. Ônix movimenta/exige: qualquer hora pode ser hora. Depois o leite quente, o aconchego do livro, a revisão. Depois eu me questiono, e até me inquieto. Por que dizes que me amas se sabes que estremeço? Beth Mattos – janeiro de 2020 – quase perfeito o tempo: ordem, acomodações, e ainda tenho  um pouco de verão na reserva. Gosto de felicidade alegre. Claro! Apenas uma hora certa/ justa, o agora. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2020 – Torres