coisa de amar

Claro! Desejo o teu olhar, não é complemente ridículo o desejo? Já conversamos sobre isso. Esquece.

“Pouco a pouco e lentamente nasceu entre ela e eu alguma coisa diferente:uma necessidade manifesta de um pelo outro, tanto que ela e eu não podemos mais nos separar, e nos insinuamos cada vez mais em nossas vidas recíprocas, e então foi oamor. O que existe entre Sien e eu é real, não é um sonho, é a realidade. É possível que eu tenha tido por K. mais paixão, e que sob certos pontos de vista ela também fosse mais bonita que Sien; mas que o amor por Sien seja menos sincero, certamente não, pois as circunstâncias são muito graves, e o que importa é agir,e assim foi desde o início de nosso encontro.” (p.48) Van Gogh Cartas a Théo – LPM – Coleção Rebeldes Malditos – Tradução de Pierre Ruprecht

evoluindo

Evoluindo… Pequenas arrumações, troquei as cadeiras de lugar, o feijão está de molho, e amanhã será um bom dia. Ideias chegando. Assisti outro filme. Beth Mattos – maio  neste 2020 -Torres foto nova 1

“Uma coisa é o verde na natureza; outra coisa, na literatura. Entre a natureza e as letras, parece haver uma natural antipatia; basta juntá- las para que se estraçalhem. O tom do verde que Orlando agora via entregou- lhe a rima, quebrou -lhe o metro. Além disso a natureza tem suas manhãs. Basta olhar pela janela as abelhas ente as flores, um cão que boceja, o sol que se põe, basta pensar quantos podes de sol verei ainda.[…]”(p.20) Virgia Woolf –ORLANDO

penoso

Equilíbrio, paz interior, pequena certeza colorida. Ou azul na ponta certa, verde a  voar, pelo ar. Amarelo no rastro. Nem luz, nem chuva, nem sol, trovoadas ou estrelas… Casa vazia. Portas e janelas escancaradas. E somos nós, perdidos. Um plural no no meu desalento. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

je t aime

E a incoerência de amar! Desnecessário grito…

agarre a vida

É impressionante, a leitura remexe mesmo, altera,por dentro. A narrativa de  Saul Bellow em Agarre a vida traz tensão, tal a forma viva. Senti a derrota de Wilhelm grudada/presa na minha derrota…neste meu passo atrasado, incerto. Não quero ver o meu orgulho, e não entendo a força, mesmo estando reduzida ao pior -, é uma dor e também um desafio. Dor incompreensível porque orgulho. Não há humildade. Se mostras o meu fracasso, escapo, escorrego brinco com as palavras. (p.21-30)

“O cepticismo era o modo de vida de todo mundo. E a ironia também. Talvez não fosse possível evitar isso. Provavelmente até era necessário. Wilhelm, contudo, temia isso intensamente. Toda vez que ao fim do dia, sentia – se mais cansado que o normal, atribuía o fato ao cepticismo. Quase tudo no mundo estava feito. Havia falsidade demais. Wilhelm tinha várias palavras para exprimir o efeito que isso exercia sobre ele. Covardes! Falsos! Assassinos! Vencer na vida![…] A pessoa tinha de perdoar. Primeiro a si próprio, e depois a todos. Por acaso ele não sofria por seus erros muito mais do que o pai podia sofrer! […]”

Tantas anotações! Tantos sustos! Ele é ganhador no Prêmio Nobel de Literatura em 1976. ((p.21-30).

Segue o grito, uma oração. O livro me apertou. Eu me senti inútil / vazia/ incompetente até para amar, para fazer o bolo, para manter a casa limpa e os filhos felizes, e o amor perto de mim. Incompetente. Este o sentimento de terminar umas cento e trista e quatro páginas. Gostaria de fechar  estórias com uma narrativa, mas fico assim, aos tropeços, e não faço nada, não entro na rotina, no trabalho, e me assusto constatar: não posso, não sei, não emagreço, não cuido de mim, não dou os beijos  estocados, amontoados, enfeitados para se derramarem em ti. Lembrei das cartas, dos jogos de cartas, velas acessas, em cima da cama, uma prenda para quem ganhava.O tempo passou. Escolhas erradas, sobrevivência de susto. Coragem disfarçada em pequena mentirosas alegria. Tão bom quanto um amigo escreve uma voz, (Nilton Lerrer fez isso), e eu leio /percebo/sinto o beijo. Faltam tantas leituras, escapou a vaidade enquanto sobrevivi. De certo deixei voar o mais importante. Esta questão do equívoco, da falta de dinheiro, o sentimento de afundar, afundar e não voltar, nunca acertar. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres / Vai passar!

esburacar o pensamento

Amigo querido, meu amigo silencioso: escrevo, escrevo espero. Talvez resolvas diferente, em sentido contrário a todas as determinações, e venhas logo me ver. Será manso, alegre e intenso. Tanto tempo! Como te digo/explico ao telefone, pode ser amorosamente silencioso. Penso que posso viajar, conhecer a China, ou a Índia. Voltar a Bretanha e entender Portugal, terra de meu avô. Talvez ficar na África, se queres. Continentes, países, pequenas cidades. Ou entrar em museus: conversar com a loucura da beleza, e bicicletar na Holanda.

”Não Van Gogh não era louco, insiste Artaud neste texto inspirado, ou então ele o era no sentido desta autêntica alienação que a sociedade ignora, sociedade que confunde escrita com texto (em que qualquer coisa escrita é corpo, desenho, teatro), ela que tacha de loucura as visões exorbitadas de seus artistas e sufoca seus gritos no  ‘papel impresso’:’ Foi assim que calaram Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval e o impensável conde de Lautréamont, março de 1946). Ora, ele afirma, a poesia de todos esses alienados, desses ‘suicidas da sociedade’, é verdadeira. Eles vão além de escavar a língua, eles  esburacam o pensamento; eles inventam a escrita de insurreição das profundezas do espírito, uma linguagem de deslumbramento dos sentidos que pulveriza literalmente os fundamentos de nossas lógicas: ‘aquele que tinha algo a dizer como Nietzsche bramou,/não construiu um sistema,/é inútil dizer que existe isso e aquilo, pois isso não ultrapassa o papel impresso’ (Histoire vécue d’Arnaud-Mômo, novembro de 1946). Os pintores de que Artaud gosta, como Balthus, Lucas de Leyde, Picasso, Masson, Dubuffet ou Van Gogh, sabem também que toda a pintura é uma fulminação do pensamento, uma perfuração do olhar, ‘dilaceramento sonoro’ (La Mise em scène et la métaphysique,1931. Ao comentar seus próprios desenhos, ele escreveu, em 1946:’ Quero dizer que temos uma espécie de película sobre os olhos e, portanto, nossa visão ocular atual é deformada, oprimida, reprimida, invertida e sufocada por algumas malversações sobre o princípio da nossa caixa craniana, como sobre a arquitetura dentária de nosso ser, […] E Van Gogh, o louco superlúcido, tem o olhar de Nietzsche, ‘este olhar que desnuda a alma’ […] Antonin Artaud Van Gogh O Suicida da Sociedade – tradução de Ferreira Gullar – Editora José Olympio – 2007

“Um dia ou outro eu acredito /eu creio que encontrarão um jeito/uma forma de fazer uma exposição minha em um café” Vincent

Não farei estes caminhos, dou passos pequenos e vou ao teu encontro para segurar (tímida) tua mão. Não escreverei aquelas histórias proibidas, nem inventarei soluções posto que não consigo equacionar o tempo, e tenho, cuidadosamente, enterrado a memória. Assim mesmo lembro do teu jeito tímido, generoso e laborioso com que agarras este hoje. Coloquei os pastéis no forno, preparei um carreteiro, vais gostar. A salada escolhida para divertir teus olhos, e as maçãs, polidas. Morangos e cerejas naturais entre as folhas. Consegui calar os livros, esconder os papéis, e deixar os lápis sossegados. Bom esperar! Afinal, como já foi escrito, as palavras servem para voar dentro dos textos, e os textos se escrevem com a lucidez louca do desejo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

capa do livro

pijama

 

Fotos de pijama. Café da manhã, panquecas de bananas, risadas, desconcentração: diversão -, tão rápido viver! J. C. não, nem vem me ver,  desistiu. Z.M. não pode, F.T complicado. L. F. está na dor, N.L. casou. As amigas, amigas se espalham… S. se diverte. Dado?! Eu te gosto! M. não acredita. Como fazer para ser eu? Céus! Delícia de panqueca! Amanhã escreverei coisas sérias. Prometo. B.M. maio de 2020 – Torres. Celso, eu penso em ti.

 

tannat reservado classic

Panquecas amorosas: guisado e ricota, depois chocolate… Posso ser mais feliz? Combinação de prazer com prazer… Agradecer, sei lá, para quem vou agradecer? Cozinho bem e o vinho veio perfeito, e a vida me pertence. toda esta semana será de pontos magníficos… Viva Torres! Viva o poder de ser… Beth Mattos

de saudade

“Havia nele o viajante, o homem mordido pela nostalgia da distância, era fascinado pelo Expresso Transiberiano, na sua boca, Vladivostok era um nome sagrado, e depois havia também nele o outro, aquele que a saudade consumia, “é como ter sede” costumava dizer, “quando a saudade me assalta, é como uma sede insuportável […]” p.277 Pascal Mercier TREM NOTURNO PARA LISBOA

ácido

Difícil entender, vou abotoando o frio, mas eu me sinto, assim mesmo, desconfortável. Talvez a solidão seja um ácido, não constrói, devasta. Extermina.

Outro mundo, outra pessoa, outro, outra, muitos, muitas. Cuidado! Acho que o domingo se desmanchou…Beth Mattos