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IMG-20191121-WA0001 (2) Já não basta escrever, preciso respirar. Inverto a necessidade. O campo, o céu, o mar e aqueles pássaros todos perseguem meu coração. Beth Mattos – dezembro de 2019 – Torres

 

nominando dezembro

“Estava escuro e a única luz que os iluminava era o minguante da Lua e os pontos pestanejantes das estrelas cosidas ao manto negro do firmamento.”

Esquisito tempo que nos deixou tão longe! Pontas escabeladas e laboriosas e tristes. Talvez o verão tenha chegado. Sim, em nominando dezembro uso talvez. Faz ventanias, faz esquisitices e frio por aqui e um dia quente e abafado depois, e volta o frio destemperado. Clima próprio desta idade espreguiçada, estupefata dos meus setenta anos. Algumas urgências engavetadas se agitam, aflitas.  Pode ser a idade, pode ser o desapego, ou o desanimo. Pode ser tanta coisa! Ou a falta do sentimento de te esperar, não espero. Não sei explicar. Estou atada ao desanimoNão presa, ou amarrada neste ou naquele lugar, mas sem geografia definida. Distraída com o entorno a se movimentar pelas frestas das janelas. Listo, mentalmente, cartas a serem escritas. Festejo projetos. As folhas voam. O céu se movimenta. Amarro o desalento esquisito que me abafa. Lembro que não posso, não devo, não vou. Objetivo claro. Depois obscuro e nebuloso. Depois emaranhado. Rezar rezar rezar rezar seria bom. A calma e a tranquilidade da igreja. Solenidade e recolhimento e silêncio. Estou azeda, azeda, e aborrecida, mas espero o dia azul / o céu de/das estrelas.  Cuidarei das rosas… Sinto saudade. Saudade miúda. Saudade das mãos dadas, do encontro. Que 2020 devolva uma assiduidade de voz e carinho. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres

“A simples presença do outro, porém, pareceu deixá – los a ambos em paz, pois depressa fecharam os olhos e resvalaram com doçura para o sono.”  José Rodrigues dos Santos  A Amante do Governador – Gradiva Publicações, S.A.

Tem coisas / jeitos / situações onde o amor aponta quente e a ternura aquece a casa, o corpo e eu me sinto feliz! Saudade da Beth apaixonada, da mulher sorridente e dos encantamentos doados… E do dizer / escrever sentindo.

 

sonho e mudança

José Rodrigues dos Santos – A Amante do Governador

“Conhece por ventura a palavra japonesa sayonara. Isso é adeus, não é? Em bom rigor, sayo significa assim, e nara significa seSayonara é literalmente se assim. Ou num português mais correto, assim seja. É uma expressão de fatalismo oriental. Ao dizer sayonara, dizemos, assim seja. Dizemos sayonara a cada momento da vida porque a vida é um sonho e tudo está em mudança. Aceitamos a mudança e despedimo – nos de cada momento, dizemos sayonara a cada instante como se estivéssemos permanentemente despedir – nos da vida, assim seja. Todo mundo na grande roda da casualidade.” (p.198) José Rodrigues dos Santos – A Amante do Governador

Livro precioso, li com pressa, emprestado, então cuidado e sem divagações. Não a posse, mas o desejo. O livro passou correndo/veloz e, assim distraído…

 

tra ba lharrr

Trabalhar com / na rotina rotina;. Trabalhar e chegar ao ponto. Ao ponto planejado, fixado, imaginado. Chegar e trabalhar sem pensar; desdobrar o fazer. Lavar, cozinhar, limpar, mas sair de casa para fazer. Ir e voltar, este gosto precisa existir. Talvez ninguém queira oferecer  emprego para  setenta e tantos anos, suporte sessenta, ou setenta e dois anos, depois, apenas oferece uma cadeira, um copo com groselha (risos). Limpar a casa da amiga, do vizinho, varrer a calçada. Ou ler em voz alta. Esvaziar gavetas, fazer pacotes de/para  Natal. Não quero cozinhar, nem lavar panelas, nem pratos. Fechei a porta e a Ônix ficou do lado de fora, paciente, esperando. Céus! Esta quietude me sacode. E sendo teu aniversário fiz um bolo de chocolate, brindei, enchi balões (consegui!), enrolei docinhos. Comprei pastéis, fui buscar os sonhos… E tu não vieste. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres

Foto com voz e desordem. Um desenho de saudade, daquela saudade laboriosa da faculdade: energia de juventude… Tempo das cartas de risos e trabalho  em equipe. Tanto e bom trabalho!

Camilo José Cela

“Pablo Alonso, enquanto bebia o café, começou a notar que se aborrecia ao lado da Laurita. Muito bonita, muito atraente, muito carinhosa, inclusivamente muito fiel, mas muito pouco variada. (p.120) Camilo José Cela – A COLMEIA

Sem comentários, faço amanhã. O que me delicia é a língua portuguesa, e esta narrativa em episódios. Uma colmeia, um mosaico. Genial. Beth Mattos

ufa!

Às vezes, parece mesmo, não vou conseguir! A vida escapa, escorrega, e não somos mais, ou somos, ou escapamos de nós mesmos. Não sei se o ideal pode/deve ser interromper, aceitar, ou deixar tudo, exatamente, no mesmo lugar… Jogo de xadrez,  cartas, ou melhor  livro ou a boa leitura a escorregar lenta. Eu me assusto. Envelhecer pode ser mesmo perder pedaços. E a força, e a coragem… Beth Mattos2019-11-24 08.31.08

hipótese

Se duvidamos que X ama Y tanto e quanto descreve o amor / o amor que sente como maior sentimento, melhor amor, e mais poderoso do que todos os amores…, quando X confessa e diz que barreiras foram quebradas, janelas abertas e seus corpos iluminados festejaram a luz! Eu conto /descrevo e não posso minimizar, nem duvidar, apenas sorrir. Alegrar – me, estontear-me: amor pode ser assim mesmo, sem bordas. O amor pode ser mesmo assim revirado, despido, despudorado, enfeitiçado e, portanto, reverenciado. Elizabeth M.B. Mattos novembro de 2019 – Torres

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exponho

” Ao telefone, tua voz é de menina. Tão doce que (para quem te conheceu adulta e meio grandota, tua voz é de menina) pode soar até como coisa preparada açúcar fazendo às vezes de mel. Mas a verdade é que é mel mesmo. Mel, não fel. A rima é importante na vida. Nada melhor dos que os sons casando – se entre si, aquelas terminações iguais ou similares que dão música às palavras. É preciso, porém, ter cuidado com a tentação das rimas:fel não é mel, anão não é pavão, ainda que o amor seja dor, quase sempre dor. Por que digo (ou escrevo) tudo isso, quase sem pé nem cabeça? Porque desde que escrevi mel, pensei em fel. Quis dizer o oposto: quis dizer exatamente que neste momento recordo tua voz (mel) de guriazinha ao telefone. Displicente voz de adolescente, talvez tua forma de ser a Beth de 1962 que eu esperei (em vão) à porta do Cine Ritz, após outra longa espera na esquina Protásio Alves com a Victor Hugo.

Hoje a Luiza atendeu ao telefone. Não estavas. Percebi que era voz de menina, mas fiquei em dúvida se não poderias ser tu, apenas um tom mais baixo, com voz mais comedida, sem a habitual extroversão que dá a tua doçura um tonitroar suave. Tua voz é doce mas forte ao mesmo tempo. Nesse amor telefônico  a que, aparentemente, estaremos condenados (ou condicionados), tua voz é tão tristeza, ou alegria, ou penúria, lamúria, ou riso. Preparo -me para catalogar tua voz como luminosa ou em trevas, radiosa ou sombria. Tudo pelo ouvido, sem interferência do olhar, como se a luz ou a sombra – sol ou trevas – fossem sons ou ruídos. Meus novos olhos são agora o telefone junto ao mar, que só me permite ver mar, sem te ver.

Sinto -te pela voz. Por esta voz de guria desleixada ou doce. E amada. Tenho saudades de ti. De te olhar, de te tocar, ensolar – me ti. Juntar me a ti nas conversas e, depois, […]  Como nos encontraremos? Onde?F.T.  (Rio 12 X 1994)

E volto.

Uma carta escreve a história, não letra, palavra, ou som, escreve lembrança e sentimento reflexo

Uma carta exercício de espelho. Sou eu mesma? És tu? Ou o brinquedo de inventar

E vivemos

Eu guardei

Sentimos / senti /sentias / estou / estavas e as cartas se costuravam, as tuas poesia, as minhas urgência e turbulência de menina, tens razão. E.M.B. Mattos novembro de 2019 – ainda em Torres

 

antes

Domingo grande. Dormi tanto ontem! E o hoje cedo, bem cedo se fez amanhecer cedo demais. Antes de passarinhos. Antes da rua. Antes das nuvens. O dia começou colorido e festivo como se o avesso de mim mesma se desdobrasse assanhado. E agora, estranhamente, se espreguiça. Quer voltar para cama. Elizabeth M.B.Mattos novembro de 2019 Torres