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incerteza atravessada
Novembro de 2019 sábado com jogo e bandeira e euforia e festa. Esquisitice de pensar: se o quebra-cabeça se resolvesse em vez de se perder/quebrar…
Se resolvesse, mesmo devagar, sem pressa e arrastasse resposta…
Quando penso em…, em te ver/espiar/ ou saber eu me inquieto.
Não sei se o cinza do dia importa ou se sou eu mesma agonizando. Ando na cor/na luz e nesta incerteza atravessada. Faltam letras, livros.
Cansada do sono prolongado e do silêncio. Vozes são soluços e nestes soluços afogo teu olhar. Inacabada vontade… Preciso urgente acordar e fazer.
Se for a poeira se o vento entrar se as vontades se quebrarem antes de brotar… Céus! Estou atenta aos galhos avermelhados da buganvília: enquadro a flor, descubro outra. Pequeno e audacioso olhar ao detalhe. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres
água
Verão sem calor: demoras a voltar, demora o tempo de te esperar, desanimo.
Demoras a chegar. Gosto deste vento pequeno. Descobriram água noutro planeta, e já poderemos (tu e eu) viajar pelo espaço. Livres e prisioneiros. Sinto falta das tuas ponderações tuas histórias teus amores e tua audácia teu porto e tua luz, eu te invento todos os dias. Saudade de ti. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres (Hoje, torço pelo Flamengo)
Já novembro se espreguiça…
de Natal
Fugir, sistema adequado. O tempo se esconde pelos cantos: a ervilha de molho, a roupa em pilhas. A caixa exibida do passado: cartas, misteriosas cartas de caligrafia descuidada, espevitada. Presente presenteado em atraso: caderno/livro com flores coloridas, desmaiadas, delicadas. Relampejo: violetas presas em quarenta anos atrás na cintura de vestido branco e amarelo: voltas, leveza. Saias mostram sapatos forrados de cetim amarelo. De frente na lembrança brejeira que me devolves. Já o tempo se enrola constrangido, insistente. E já retomo pacotes, Natal e enfeites. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2019 – Torres
conheço / desconheço
tudo o que não conheço me tranquiliza, o/no desconhecido possibilidade
sem conhecer não tem limite, nem parede, não vi, não toquei, não deitei lado a lado, então, não sei: o primeiro e misterioso momento
então o dia que se mistura ao ontem, antes de ontem, sem amanhã, um minuto
não importa: o que um dia foi/fui ou representei/ representou, és
como é um nada/vazio e envelheço, envelheces tão amorosamente o mesmo,
paradoxalmente, livre a mente, sem projeto
sem imagem, sem luz, nada.
não existe nada, e isso é bom.
eu me permito porque não conheço, nem me conheces.
e, misteriosamente, sabemos, sempre nos conhecemos!
eu te abraço desajeitada e tu me acarinhas tímido, e ficamos em silencio, no escuro.
Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres
delírio
…hesito, erro, mas vou a caminhar, e delimito a voz, e o passo. Recomeço. Tudo não passa mesmo de um delírio. Delírio de amor, delírio de vontade. Delírio de proximidade. Um inacreditável delírio! E.M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres
Ondula temperatura e humor.
sem importância
Eu penso em ti. E tu sabes o quanto! Porque pensas em mim. Vou voltar a te escrever. Penso em ti. E no teu olhar inquieto e brejeiro. Já estás tão perto! Vem me ver! Eu te espero, sem o sonho, no escuro da nossa imaginação. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres. Ah! Traz um casaco, faz frio e venta na beira da lagoa.
” Domingo, 7
Dia sem a menor importância. […] Acho – me fatigado. Eu o estou, realmente: sinto vontade de chorar. Efeitos das mascaradas sobre mim: essa gente alegrada por uma mudança de roupa causa – me dó. Não me disfarço inteiramente, a cada instante? Sou Hamlet, Werther, Fausto, Pascal e muitos outros, sem que me admire disso; a onde que atravessa incessantemente minha imaginação muda a cada momento e traz – me pensamentos de todos os séculos, as alegrias e os sofrimentos de todos os homens. Vestiram uma fantasia de Pierrô? Muito bem! Eis aí alguma coisa de que rir, e de que maneira! Riso estúpido e louco, digno de velhas calçadas em que andam e do horizonte de construções que oferecem a seus olhos. Quando é que eu sou eu mesmo? Ou: que homem sou eu, se sofro tantas transformações em um dia? Não disponho senão da consciência para verificar pra verificar que não sou os que admiro, e uma profunda unidade para concentrar minha dor. Dai amor e orgulho a uma sombra e serei eu.” (p.109) Sully Prudhomme Diário íntimo – 1863 –
“É preciso saber dizer a si mesmo: não podes, não deves…”(p.87)
“Penso em L…Irresistível atração da felicidade desdenhada! O passado tem olhares disfarçados que matam. Tenho uma carta no bolso há oito dias. Ela partirá? Que imprudência! mas também que esperada emoção! repousar minha fronte em seus joelhos e descansar de existir. Dizer – lhe: a ti o eterno regresso, o regresso delicioso, sempre previsto e desejado, em meio dos desvios violentos de minha vida. Amar ternamente e violentamente.” (p. 95)
solidariedade
Querida Beth
Agradeço a tua solidariedade de amiga. Tenho sofrido muito. Certo setor da imprensa, por razões obscuras, adulteram os fatos com o evidente propósito de colocar a opinião pública contra mim. Felizmente a verdade triunfou na sentença do juiz. Espero que os desembargadores a confirmem. Irei para o Sul tão logo tudo acabe. Eu me alegro com a tua felicidade. Tu a mereces. Abraços para todos. Afetuosamente, o Iberê
Rio, 6 – 4 – 81
Antes, muito tempo antes. Em 1975 a correspondência. Nos tornamos amigos: estranho o percurso pelo teclado a procurar cartas datilografadas, armazenadas. Hoje, na minha fantasia, desejei secretária, funcionária, um alguém que me ajudasse nesta ordenação misteriosa da correspondência. Das fotografias e até da memória. Dos velhos textos que transbordam alinhavados, mal escritos, gaguejantes. Quando Luiza nasceu Iberê foi ao hospital me visitar. Antes do sempre, amigo. E a história com F.T. se agarra na despedida agônica, como se ele me oferecesse um amigo. Estes elos misteriosos entre pessoas. Cartas. Muitas se perderam ou desapareceram. Ciúme, mal-entendido. Eu confiava. Considero correspondência inviolável. Os tempos mudaram. O poder, a posse deforma. Os códigos são outros. Espiar, remexer. Não estamos sozinhos. Constantemente, vigiados. Tenho mágoas / queixas, não arrependimentos. Das mágoas, a alegria me salvou. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2019 – Torres – houve um tempo de que acreditei, todos nós acreditamos. Tempo de incerteza, o de hoje.
George Orwell – 1984 – Livro a ser relido.
“Era um dia frio e ensolarado de abril, e os relógios batiam treze horas. Winston Smith, queixo enfiado no peito no esforço de esquivar-se do vento cruel, passou depressa pelas portas de vidro das Mansões Victory, mas não tão depressa que evitasse a entrada de uma lufada de poeira arenosa junto com ele.”
O solitário Winston Smith, alocado no Departamento de Documentação do Ministério da Verdade, é um dos funcionários responsáveis pela propaganda e pela reescrita do passado. Esta é a história impressionante que nós já esquecemos. A escrita do passado e a escrita do futuro. E eu me perco entre / nos papéis. Nas estantes a procurar livros perdidos / espicaçados na memória gasta e desorganizada, a minha. Antes marcados por um lugar x ou lugar y da memória. Os que devem ser relidos, mas também os esquecidos a espera. Livros! Quantos caberão na mala? Quais devo carregar, e os esquecidos, voltarão? Estou tragicamente nostálgica. Nada voltará, ninguém. Apenas uma voz na linha telefônica a dizer: Eu faria tudo diferente. Quero o nosso tempo de volta. É um grito azul perdido em Porto Alegre, eu tenho saudade do Rio de Janeiro.
começando…
Estou sempre começando. Mas, na verdade, eu não sei onde é o início. Deve ter havido mesmo um início destas inseguranças. Das frustrações, dos desencontros.
Antônia arrumou a mala, pensou no que eu precisaria… Olhei para ela, laboriosa, mais cansada. Sua agilidade me fortificava. Movimentava o corpo pesado pela gravidez com leveza. Eu me dei conta do quanto viajar era/seria inoportuno: não estaria aqui quando a criança nascesse. Era tarde para mim. Enfim, eu descuidava das recomendações. Principalmente Antônia precisava de mim. Baixei os olhos. Sobrevivência seria olhar pela janela, olhar pela janela, olhar pela janela. A vida repetida na tristeza: pressão. Lágrimas. Fui acarinhada, abraçada. Arrumou o meu cabelo.
– Está tudo pronto mãe. Artur colocou gasolina no carro, revisou os pneus… Aprumei meu corpo. E pegaria aquele avião. E.M.B. Mattos 1999
a esperar na penumbra
O rosto contraído, fechado, colado na vidraça como se esperasse desde muito, muito tempo. A casa na penumbra. A noite de lua acesa. Seu rostinho redondo se abre num sorriso. Cheguei tarde, outra vez: as pastas, sacolas despencam para o tapete. Ela corre ao meu encontro. Não fala. Cansada, quieta. Sinto angústia no silêncio. Arrisco uma pergunta, duas. Lacônicas respostas.
O apartamento iluminado pela luz da Praça das Nações. As plantas abertas nas cestas, perto da porta-janela da sacada. Respiro. Sinto as mãos molhadas e quentes. Seus dedos apertam meu braço. E o rosto aflito, com lágrimas, afunda no meu peito. Continua, inquieta, dolorida a minha menina. Tão menina! E eu!! Eu!!! Egoísta.
_” Tudo flui, dizia Heráclito. Tudo está em movimento e nada dura para sempre. Por esta razão, não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. Isto porque quando entro pela segunda vez no rio, tanto eu como ele já estamos mudados”.
Minha voz aberta, e eu leio para ela. Seus olhos entram pela minha pele… Canção de ninar, o som monótono da minha voz. Ler, nesta hora de dormir, ler como mergulhar uma na outra, nosso código. Aquietamos a rotina. Ainda não sei o que aconteceu. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – ainda na Garagem de Arte – ano em que as Torres Gêmeas foram derrubadas em Nova York.