cedo

Acordei cedo: caminhada de passos. Ninguém na calçada.  Comprei bergamotas e bananas. Farinha de mandioca, limões e abacaxi. Alface, tomates e cheiro verde, pimentões vermelhos. Também os morangos. Vou fazer uma sopa. Lula saiu da cadeia / prisão. Não faz sol hoje. O verão não se apresenta. Ônix tomou banho, trabalheira danada! Troquei os lençóis. O resfriado ficou amarrado. Desliguei a televisão. Elizabeth M.B. Mattos –  09 de novembro de 2019 – Torres

coisas que te digo já não importam

As coisas que te digo já não importam: nem o teu nome, nem o que eu sinto, nem este verão atrasado, sem pequena memória, nenhuma lembrança. Alerta preguiçoso. Já não me interesso pelo teu lugar, nem pelo meu. Nem pelos cães, nem pelo arvoredo. Nem quero te dizer daquilo ou do outro, esqueci tudo. Inclusive a vontade de ler, de pensar, ou que te amo, não sei. Terminou sem começar. Esqueci o que pretendia dizer. Camisa puída, urgência, ou café, sem passado, nem presente, nada interessa. Nem as palavras, nem o vento, nem o sol.

Pela fresta da porta vejo/percebo passos, eles passam. Magia de ir e vir.  Nem os dezessete nem os quinze, nem o sonho. Nada importa. A pensar que o que ficou para traz, a dizer sem palavra o que um dia importou, estranho vazio. Não. Estás, estou preenchida e estupefata com a indiferença. A tua. Resiliência. E nem me importa se o sol entra e queima, ou a chuva desmancha e deforma a terra. Barro / argila que o vento incansável modela. E o mar chegou na calçada, no jardim. Estou tão longe e tu estás tão perto! Guardei o suspiro, os teus braços no meu corpo. Quero / desejo que tenhas me guardado no teu desejo. Todo o plural da tua fantasia se derrama na minha. Bebi demais. Dói a cabeça. Perdi a referência da luz, escuro. Anoitece no meu dia. Nem uma taça de vinho. Apenas água. Esquisita química de amor. Teus olhos castanhos, tua pele descuidada, teus desejos ocultos: um jogo. As regras não me deste, então, distraída, e descuidada, assisto o jogo sem entender. As partidas de tênis, os nadadores a se superarem, as goleadas, os lances de encestar, cortar. Eu me entusiasmo com a violência do futebol. Eu não entendo. Uma dança perdida. Areia quente. Sol a queimar, devagar. Entro no mar para esquecer que te espero, mergulho e volto, mergulho. Segues jogando. Não vou te alcançar. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres

caderno fotos a bic e o copo

milagre

Retorno. Volto. Retomo o passo. Esquisita espera, ansiedade. Serão pertinentes tantas e tantas cartas de amor? Simulacro da mesma e indefinida relação. Arrasto o pesado e latente estado de amor, sem amor. Penso na ponte  em Lot, e na França. Não quero voltar. Não quero ficar, eu irei.

O milagre pode, definitivamente, acontecer. Acredito nele. Em algum momento a virada. Mereço / quero resposta. Houve erro. Idade do impossível, ou da virada. Mário Quintana:  Leituras

Não leia romance, leia poesia. OU melhor leia dicionários – vá lendo os  Português Francês – Francês Português acaso um dicionário e nem pode imaginar o que germina e floresce na alma do leito do mundo e . Leu um dicionário é mais variado poético e inspirativo do que olhar uma vitrine de bric.” Os dicionários trazem uma catalogação do mundo e o início de todas as veias. Uma estante inteira de dicionários.  Preciso no Último Aurélio. Onde está o meu Petit Robert (ou Grand Robert) . Dois volumes com peso e ouro – vou caminhar pela rua dos Andradas, a Rua da Praia, – antes da beleza, das confeitarias, dos cafés – hoje, pobre! Invadida, mas fiel, segura, ainda as margens do Guaíba e segue para a Cinelândia, Correios, Museu, Bancos em mármore  e velha vida concentrada de um tempo que está lá dentro da gente. Ver Casa Mario Quintana, antigo Majestic que guarda dois cinemas, dois cafés, duas saudades. Dois caminhos pelas livrarias que á estão num trajeto

somar só mar e ar

Uma frase afogada, uma ideia perdida. Explicação plissada, ajustada. volto nos anos de voltar, desta vez, para alegrar… O vento e o frio de novembro, onde, quando 2019 – abraça dezembro? Agarro 2020 redondo! Não me sinto bem, nem alegre, nem tranquila, nem paz, nem sorriso. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres

guerra

Luta sangrenta, desconforto, a pior arma, e ou todas as armas, a maior covardia, ou todas as covardias, a defesa violenta, a palavra verdadeira a rasgar a pele, a vida pode ser assim… escandalosa.

” Certa manhã, há um estranho silêncio. A mãe saiu, mas existe alguma coisa no ar, um odor, uma aura, um peso, e ele sabe que aquele homem continua lá. Com certeza não pode continuar dormindo. Seria possível  que, maravilha das maravilhas ele tenha cometido suicídio?[…] Na guerra que  declarou ao pai, nunca teve certeza absoluta de ter o apoio do irmão. Desde que pode se lembrar, as pessoas notaram, que enquanto ele puxou mais   à mãe, o irmão se parece mais com o pai.” (p.144)

Que importa descrever o pai do outro, o sentimento de outra. neste momento o sentimento ruim é meu, o errado, sou eu o desnorteado e o perdido, é minha, as decisões. estou profundamente cansada.

sobreviver

Viver ou respirar! Consciência. Sigo apesar de, e apesar de equívocos, apesar dos livros digo: escrever pode ser cutucar alma, engordar pensamento. O mesmo, e o nada. Brincadeira como qualquer outra brincadeira: jogo entre jogos. Estou a me despedir de J.M. Coetzee. Agarrada aos volumes, numa despedida  intoxicada. Volto. Retomo. Enfiada na história misturo biografia / memória, e não me despeço. Chegou a hora! Difícil! Um velho amor dói e fica se contorcendo! Lambuza, e se espalha, gruda! Assim eu volto para ele e me reencontro com seu vulto. Eu sinto. Atravesso a porteira, caminho em direção a casa. Os cães me rodeiam: eu o vejo, levanto a voz, e os eucaliptos respondem. Sou invisível. Sinto o cheiro da carne de panela. Sei que está na cozinha, mas não posso entrar. Não me convidou. Então, eu volto e retomo a estrada. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019- Torres

Nestes momentos, até uma criatura insignificante, um cão, um rato, um besouro, uma macieira raquítica, uma caroça subindo uma montanha, uma pedra com limo, conta mais para mim do que uma noite de êxtase com a mais bela a mais devotada amante. Essas criaturas parvas e, em alguns casos, inanimadas, se impõem a mim com tal plenitude, com tal presença amorosa, que nada no campo ao alcance do meu olhar arrebatador deixa de ter vida. É como se tudo, tudo que existe, tudo de que me lembro, tudo que meu confuso pensamento toca, tivesse algum sentido. Hugo von Hofmannsthal ‘Carta de Lord Chandos a Lorde Bacon’ (1902) 

Escrita perfeita, exata, clara de Coetzee, Elizabeth Costello é a biografia de uma mulher: mãe, irmã, amante, escritora. Também profunda e inquietante meditação sobre a natureza do romance, como só um escritor do calibre Coetzee pode produzir. Diz José Rubens Siqueira que assina a tradução do livro editado pela Companhia das Letras – São Paulo – 2004

coetzee

velha

“Estou sempre aqui, responde ele. Do que se depreende que esta cidade onde ela se encontra. Onde o guarda do portão nunca dorme e as pessoas nos cafés parecem não ter para onde ir, nem outra obrigação além  de encher o ar com suas conversas, não é nada mais real do que ela: talvez nem mais nem menos.”

Estou mesmo aqui, estacionada. Não estive na rodoviária, muito menos no aeroporto. Não abri as janelas ontem, e hoje seguem fechadas. Não passei a roupa, mas lavei os lençóis e a louça. Conversei bastante com a amiga tão bonita, tão mais jovem tendo assim mesmo a mesma idade, a minha. Não abri envelopes, as cartas não chegam pelo correio. Nem encontrei mensagens. A rotina que salva, a rotina que liquida, a vida no passo descritivo, engasgada em perguntas. Quem sou eu? O que estou mesmo a fazer?  Digo do movimento de todo o dia, o mesmo, e nenhum dia. Qualquer dia.

Sou escritora, uma mercadora de ficções, diz o texto. Tenho apenas crenças provisórias; crenças fixas me atrapalhariam. Mudo de crença como mudo de casa ou de roupas, de acordo com minhas necessidades. Com base nisso – profissão, vocação – solicito minha isenção da regra de que ouço agora falar pela primeira vez, a saber, que todo requerente do portão tenha de ter uma ou mais crenças.” (p.216)

“Desacato à corte. Está chegando perto do desacato  à corte. É uma coisa de si mesma que nunca apreciou, esta tendência a explodir.” (p.225)  J.M. Coetezee – Elizabeth Costello 

Também detesto fechar / terminar a leitura de um livro que conversa comigo! E responde ao silêncio. Ao que acontece no mundo hoje e agora. E junto comigo sofre. Estupefato com este agora. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres

outro

Outro dia todo igual: calçada, voltinha, pitangas e amoras, conversa boa surpreendendo e cheiro de café: empurrar o azul… Beth Mattos – novembro de 2019 – Torres