sem vestígios

Foram teus vestígios nos meus vestígios que acenderam a chama de um amor que nem tu, nem eu, conseguimos sustentar. Enquanto caminho com a Ônix penso em tuas palavras ardidas, e na rapidez com que te apressas a apagar o fogo derramado no meu mar, e depois recuas a preservar tua floresta. Rejuvenesce minha alma a ideia desta tua mágica: estares comigo sem estar, de percorreres meu corpo toda a madrugada. Invisível, visita sensual / sexual. Eu te recebo neste meu entardecer tão dado a meninice de amar! Arrancaste o luto prematuro e devolveste força, um abraço de juventude intacto. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres ainda a te procurar e esperar: se escrevo apressada é para reter / segurar teu olhar. Assim mesmo desconfio / imagino que apagaste todos os vestígios / todas as possibilidades / todos os nomes como que a preservar uma história que se transformou em estória, outra e absurda fantasia! Eu te quero real para logo poder esquecer…

” O amor, a morte e o fogo unem -se num mesmo instante. Através do seu sacrifício no coração da chama, o efêmero dá – nos uma lição de eternidade. A morte total e sem vestígios é a garantia de que partimos inteiros para a outra vida. Perder tudo para tudo ganhar. A lição do fogo é clara: ‘Depois de tudo haveres obtido através da manhã, do amor ou da violência, é preciso que cedas tudo, que te aniquiles’ (D’ Annunzio,  Conemplação da morte).  É, pelo menos, esta a tendência intelectual, assim diz Giono no seu livro Vraie  richesses (p.134) ‘ das antigas raças, tais como os indianos da Índia, ou os Astecas, homens cuja filosofia e crueldade religiosa anemiaram até ficarem totalmente ressequidos, tendo apenas no alto da cabeça um globo inteligente’. Apenas esses seres intelectualizados, esses seres entregues aos instintos de uma formação intelectual, prossegue Giono, ‘conseguem forçar a porta do forno e penetrar no mistério do fogo'” (p.39) Gaston Bachelar A Psicanálise do Fogo

começou como um erro

Estas coisas de fazer e agarrar o talento (qualquer talento), agarrar a vontade de fazer porque não fazer parece mesmo a coisa mais idiota que existe. Então faço, qualquer coisa, uma delas é escrever, outra limpar repetidas vezes tapete, fresta. Lavar louça, e descuidar de mim mesma… Exercício de esquecer, não se olhar no espelho, apenas se imaginar. Bom tamanho! Comer menos, embora pastéis e sonhos, pão redondinho, alongadinho, doce ou, qualquer um, será delícia pura, e as manteigas, todas, de preferência, sem sal, com gosto de leite, ou pode ser geleia, ou mel. Uma xícara de café, preto, não muito preto, nem muito quente, um café esquisito. Como o jeito da vida esquisita do jeito que ela sabe ser. Descobri: ricos não gostam de conviver com quem não tem dinheiro, medo de que comecem a pedir e se apropriar, incomodar a paz de ter. Viver pode ser / ou deve ser acomodar – se com iguais, nos iguais. Haja danadas diferenças e a coisa se arrepia, se agita e se assusta. Nada de muitas ou tantas ondas… Vá lá descansar em ser igual!A genialidade e o talento está plantado na loucura desta idiota procura de fazer acontecer de um jeito especial, mas o jeito, coitado, sempre o mesmo!

“Começou como um erro. Era época de Natal, e ouvi de um bêbado lá da colina, que usava esse truque todo Natal, que eles contratariam qualquer condenado; então fui, e a próxima coisa que me aconteceu é que passei a andar com uma sacola de couro nos ombros e a vagar por aí à toa. Que emprego!, pensei. Maneiro. Eles lhe davam só um ou dois pacotes de cartas, e, se você desse um jeito de liquidá- los, o carteiro efetivo lhe daria outro pacote pra carregar, ou talvez você voltasse lá pra dentro e o bolha da seção lhe daria outro, mas você simplesmente ficava na sua e ia empurrando os tais cartões de Natal pelos buracos. Acho que foi no meu segundo dia como empregado temporário de Natal que aquela mulher enorme apareceu  e ficou me acompanhando enquanto eu entregava cartas.” (p.11) Charles Bukowski – Cartas na rua

Ninguém resiste as cartas, empregos temporários, nem a pessoas carentes de voz de tato de cheiro de qualquer bobagem ou coisa importante, ou nem tanto. Nada consegue ser diferente, os mesmos vestígios. Há que ter o mesmo gosto. A força de querer mudar, o empenho, o nosso olhar lento, ou demorado. Há que se viver patinando em talentos miúdos e gigantes. Em frente. Ainda estamos em agosto, em setembro carregarei as flores, em outubro estarei completamente esquecida de que este inverno gelado aconteceu. A conta da luz será gigante, enorme, assustadora igual. Detesto sair suarenta pela rua, verdade que a opção chuveirada também é boa! Odeio / não gosto de piscinas e o mar…, bem o mar eu gosto, mas fica tão concorrido que desisto. Estou aborrecida, é claro, sucessivas investidas em leitura de romances, agora da Elena Ferrante (pseudônimo) evidencia, nada muda. Muda o jeito / a forma de dizer. As mesmas coisas sempre e, completamente, as mesmas. Os mesmos mecanismos, a boa ideia, mas o  jeito igual de abraçar o abraço. Há que se envolver o dia inteiro com a coragem de respirar e seguir em frente. Sem ideologias alucinatórias. Guimarães Rosa tem razão: viver é perigoso! Avanço. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – ainda em Torres, mas irei a Itália! Na imaginação, é claro! Voltarei a te escrever. Não resisto: tanto te espero! Começou com um erro. Eu te amo no meu engano. Não tem mais importância. Acordo, e me lembro de ti, e te procura na contramão da minha vida e te amo, diferente de como amei antes o jornalista. Tão diferente! Maior. Simples assim. Como a Ferrante, como Bukowiski, um dia eu conto, só pra contar as mesmas coisas que as pessoas contam… Cartas, poemas e fantasias reais, absurdamente verdadeiras, o meu conto de fadas, os muitos (risos), hás de me compreender. Todas fantasiosas.

quando voltas

Quando voltas, eu me ilumino. Alegria cintila. Corro ao teu encontro. Abraço forte e me deixo ficar. Seguras o meu rosto. Olho nos olhos. Castanho sereno este abraço. Espero e espero e espero! Caminhamos em direção a lagoa. Beleza domada. Lembras como era no tempo de meninos? Rimos. Nosso abraço  faz o caminho. Chegamos na praça: a Serra do Mar desenha o horizonte. O cheiro perfumado do silencio. Em casa: janelas abertas. Todo a luz do mundo ilumina nosso beijo. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

risco de lua

O frio me enfeita / embeleza, / deixei a porta entreaberta

Comprei rosas, margaridas.

Enfiei as calças mais velhas,  blusão azul do fundo da gaveta,  tênis de jardim e caminhei entre eucaliptos até chegar a porteira…

Não sei deixar de nos esperar… Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

lindaaaaaaaaaaaaaaaa

 

agosto gelado

Diz / repete mais uma vez o caminho atrapalhado, esboço ou desenho, amontoado de palavra de um agora inusitado. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

 

1.

 

Todos os dias é   =   a nenhum dia. Óbvio incerto. Particularidades? Suponho / acho / penso: somos iguais. Sublinhado fato. Identificação comezinha. Lugar / ponto /estação diferente, mas a mesma manteiga, o mesmo leite aguado ou não, o mesmo pão dormido. Ou saído do forno. As mesmas laranjas e as mesmas bananas. E lá vou tentar, outra vez, ser autobiográfica. Pedaço de montanha, outra de lagoa. Buganvílias, gramado, um cão. Natureza igual, aparência diferente. Sentimento, o mesmo. Classificação por conta de especialista. Desejo igual ao que desejas: somos iguais. Isso apraz. O começo, uma vontade. Nascida na rua Vitor Hugo 229, Petrópolis, Porto Alegre. Jardim jacarandá e quintal. Abraços e beijos na conta das mamadas, do fogo das lareiras, das risadas. Do silêncio festivo atrás da porta fechada, e do escuro do quarto: arrulhos latidos difusas vozes miados. Depois atravesso a calçada. Mergulho na piscina do Tênis Club, ou vou comprar balas no Bar Tupi. Telhados, outros quintais, bonecas de papel, tampas de garrafas, rolhas, azulejos em lascas, corda, bola.

 

  1. Amigos cuidam, incitam a escrever: para eles, palavras e aquela vontade toda de desnudar, ser aceita, ou voltar.

 

  1. Setenta anos com evidências. Alguém vai corrigir: setenta e dois em setembro. Setenta e três? Sou de 1946. Setembro.

 

  1. Amontoado confuso de emoções. E o Amoras, amor exigente galopa. Hoje dia gelado. Amanhece no gosto bonito do sol. Demorei a sair da cama. Quase oito horas. No verão volta inteira na lagoa. Inverno ponte e sol, o limite. Café preto. Lavo a louça da preguiça, deixo outra no balcão. Vou escrever. Lá vai a fumaça azul, como disse, o amigo. Pedra solta sinal voz e cheiro. Não te espanta, sigo tua palavra. E corro atrás de mim mesma para costurar minha sombra, como Peter, o menino que não queria crescer e vive na Terra do Nunca. Corro atrás. Persigo estórias e histórias. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019

amante amado

Não consigo mudar o formato. Igual digo e sublinho. ”Alguma coisa vibrou no coração de Constance: ‘Sou pela democracia do contato, pela ressurreição do corpo!’ Embora não soubesse o que isso queria dizer, fez – lhe bem a frase, como acontece com muita coisa incompreensível.”(p.90)

Livro / leitura revirou alma e corpo. D. H. Lawrence O amante de Lady Chatterley – outro século, outro mundo, mas a alma, a mesma. Amante amado. O que somos no melhor, ou no pior: amando o amor do amado: igual. E.M. B. Mattos – julho de 2019

“- Mas a impressão de um contato pode durar tanto tempo assim? – perguntou Constance de súbito. – A senhora o sente até agora…  – Oh, madame, outra coisa pode durar tanto como a lembrança do sentir, do contato? Os filhos crescem e nos abandonam. Mas o homem, ah! Mas mesmo isto os corações duros querem matar na gente: lembrança do contato.Até os nossos próprios filhos! Quem sabe das coisas? Nós poderíamos ter nos separado, mas o sentimento é coisa diversa. Melhor talvez seja não gostarmos de ninguém. Entretanto, sempre que vejo essas mulheres que nunca foram aquecidas por um homem, tenho a impressão de ver corujas, pobres corujas, por mais que se enfeitem e corram atrás da vida. Não. Nada me faz mudar de ideia. Não tenho grande respeito pelo mundo.” (p.188)

baleias na Ilha dos Lobos

Falei o que devia e não podia, cascata de passado, do que já foi / antes, muito antes e também do depois, não pensei amanhã ou futuro, tão longe! Só conversa: resultado de falação ascende / ilumina / traz de volta vida, pedaço do tempo menina! Quando converso solto, ou confidencio, esqueço limite gentileza polidez. Tudo solto, tão leve! Entregue escorrego nas bolhas coloridas. Conversa e dizer. A visita se alonga por beiradas inesperadas, e já penso nas frutas da feira, no sol de amanhã, nas baleias que veremos lá  alto, do  Morro do Farol. Elas passam por Torres com filhotes. Agosto em Torres: visita  e surpresa! Amanhã vamos ver as baleias. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

terror de envelhecer

Guardei pudor, encabulação, auto estima, vergonha dentro de ser eu, estranho e enraizado sentimento (milhões de explicações, nenhuma clara, objetiva ou lógica). Eu me escondia… Deveria ter me explorado, poderia ter sorrido mais vezes,  decotado os vestidos, mostrado as costas, encurtado as saias e aceitado a luz da juventude. Não consegui. Aos setenta e quatro fico a me pensar/desejar solta, leve e até bonita! Céus! No entanto os rios se apresentam profundos, as vielas, sulcos estranhos se apoderam do meu rosto. No pescoço as infindáveis dobras, e tudo me parece devastado! Não consegui segurar/parar o tempo. Inacreditável! Mandei uma foto tirada no espelho para meu filho aniversariante: oxalá me vejam de outra forma, igual, fotografei e levei um susto! Não sou eu, era outra, enfim! Oxalá seja eu! Não devemos nos fotografar… Hoje, acidentalmente, vejo a foto de uma colega de trabalho, mais nova, não sei quantos anos, talvez cinco, e estremeci de horror maior: rosto deformado por plásticas, não é ela, mas arremedo…  (Pior!, não pode pedir de volta a expressão, entregou ao diabo, sem comércio!). É o medo. A foto do medo, do grande medo de envelhecer! Está estampada a reforma facial. É preciso aceitar a nova máscara: envelhecemos. Reformar é o grito do medo. Mas o terror está em todos os lugares! Sinto medo! Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2019 – Torres

lindaaaaaaaaaaaaaaaa

…, destas flores, esta trepadeira tinha na casa da Magda na rua Vitor Hugo: imagem de memória de ser criança! Descobri a caminhar por ruas novas: pedacinho festivo de lembrança o reencontro.

 

VOAR / no balão

VOAR / no balão, passei estes anos a voar. Difícil explicar. A ideia parece exata, entre nuvens. Voar, olhar de enorme pequena distância, ou perto sem poder tocar. Esta meninice segue dentro de mim: o bebê silencioso. Atento aos ruídos da casa, sem dizer no choro, arregalado. Jeito de estar na vida. Desta atitude, desta forma moldada pela casa movimentada, e o jogo das irmãs, na convivência com avó e depois a tia, cresci. Moldada para ser arredia, desconfiada e atenta, diria medrosa. Qualquer erro pode ser catastrófico. Agradar, conquistar, fazer a jogo: colorir. Eu posso ser em preto e branco, o mais, no entanto iluminado papel colorido e brilhante. Vibra, e se move na beleza o que me cerca. Beleza detalhe, absoluta. Cresci tentando / imaginando como seria poder tocar e estar dentro / integrada neste mundo…   Apenas espiava: o colorido festivo e musical mundo. Na força deste esforço, prevenida e cautelosa apreendi a ser eu comigo mesma: alegre, disposta e pronta embora solitária. Saudade indefinida de uma coisa / um alguém que ainda não encontrei. Procuro. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2019

segredo de envelhecer

O segredo da velhice / de envelhecer: saber / entender que é aparente / aparência. Ela apenas existe e acontece na superfície, na pele, no corpo,  por fora. Por dentro somos sempre quem somos, ou menina ou mulher, ou um eu que não vai crescer, ou súbito, num repente envelhecerá / envelhecerei.  Não sei se traduzi correto,  Claude Mauriac escreve assim:

Le secret de la  veiellesse, c’ est qu’elle n’ a d’autre realité qu’apparente. Drame et mystère qui sont déjà, je le sais ceux de l’ âge mûr.  Veiellir, c’ est ne point changer: même. Je ne vois aucune différence, si ce  n’ est de lucidité et de culture accrues, entre ce que j’étais il y a quinze ans et ce que je suis aujourd’ui. Vieiller, c´est découvrir peu à peu l ‘ angoisse de notre condition. (p.96) Claude Mauriac – Toutes les femmes sont fatales.

Envelhecer é muito mais descobrir pouco a pouco a angustia de nossa condição.

E que a vida se desencanta na medida em que nossos sonhos se realizam. E a vida acontece, paciente a realizar nossos sonhos e fantasias que nos surpreendem pelas facilidades e pelo volátil sentimento de um momento, contas feitas, os amores não foram antes nem depois, foram / serão amores se hoje esticarem o braço, segurar o meu rosto e ainda conseguir me beija. um ato contínuo / permanente. No meu desejo a tua transformação será parte da minha, parte tua, misturadas, uma só. …completo amanhã por ser longa viagem, e por ser nossa e prazerosa. Elizabeth M.B. Mattos – Torres 2019

Adolescente  na energia e no sonho que surpreende. Aos setenta, aos oitenta, com certeza, aos noventa, adolescendo.