uma tonelada

 

Memória lembrança desenho ou sentimento se enrola no sonho comprido e abraça a carência, carência de uma vida inteira, de uma fantasia, da maternidade vazia daquela menina inteligente.

Existe crueldade no excesso, ou foi falta? Ciúme ou competição, não sei exatamente como descrever. Este veneno escorrega e poluí / contamina.  Cada conversa  / encontro / olhar pesa uma tonelada… Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019- Torres

aprendi mais uma coisa

Aprendi enquanto te espero. “Aprendi mais uma coisa – não caia da cadeira -, aprendi que tamanho é, sim, documento. O tamanho da imaginação erótica. O tamanho da empatia. Esta foi uma das coisas mais maravilhosas que me aconteceram na vida, essa descoberta, no que se refere a tamanho, ao tamanho da minha capacidade erótica, da capacidade de inventar, a capacidade de se renovar […] A teia é na verdade uma parte do corpo da aranha, ela a cria tirando – a de dentro dela. Isso também costuma ser verdade, mas nem sempre.  Eu acho que a diferença entre a sexualidade animal e a humana é a história. A sexualidade animal, até onde eu  sei, não é acompanhada de história. A sexualidade humana está ligada a um história, mesmo se ela não for contada antes da transa. A história se passa na nossa cabeça. Ainda antes de tocarmos um no outro, nos passa pela cabeça uma história. Por isso a idade da história é a idade da sexualidade humana. Muito antes de terem inventado o alfabeto, muito antes de haver no mundo romance e memórias e prosa e poesia e novela e conto.” (p.72-73)Amós Oz – Do que é feita a maçã

Apreendi que te espero. Preparo cada detalhe da imaginação, desejo. O cuidado explode alegre para a festa que faremos com música, flores e estrelas e amanhecer. Estou muito muito muito muito feliz de falar contigo, de estares paciente ao alcance da minha voz. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

“Amar-se é fundamental para poder, sem afoiteza, trilhar os caminhos da vida, as magias o passado/presente/ futuro – são estimulantes e mágicos.” Z.M. 2018

curiosidade

Por que não tenho tua memória dentro da minha memória? Escavo / procuro pedaços para acertar / acender o tempo! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019

Agora? Neste momento, também eu quero saber de ti, mas tão tarde! Perco cabelos, a pele mudou: tudo se transforma: mutação. Até os olhos envelhecem… Estranhos círculos!

lucila era o nome dela

Lembrei. As peças se encaixaram… Ano? 1963 ou 1964…Um dos dois, quase certeza. Era ela. Estava na minha casa naquele verão. Loira, claro! Lembrei de tudo. Preciso falar contigo… Elizabeth M.Mattos – junho de 2019

Te dás conta? Um ano, quase dois para colocar a peça. Sigo esperando.

Fernando X Elizabeth

Fernando José Valente De Senna Júnior Elizabeth Menna Barreto Mattos !!! Mulher de letras, de certezas, de dúvidas, mulher de fluídos e sentimentos fortes. Memorialista de grande densidade emocional. Caçadora e Caça. Intrépida e Insegura. Misteriosa e Franca. Luz e Treva. Céu e Noite. Sol e Estrelas… muitas estrelas. Ah… Mulher… Quantos rótulos poderia eu lhe prever e ainda assim seriam todos desnecessários porque o vinho que tu és está com a garrafa aberta a respirar o doce aroma do tanino de tuas veias. Não… não se é possível lhe rotular. Nem um vinhedo, nem uma adega seria capaz de lhe conter. Mas sobre uma mesa da vida… ali, perto da lareira de tuas paixões a crepitar és assim. Inrotulável. E, no entanto. Menina descalça na areia da praia a sentir o minuano a chegar.

Lá estava eu a me pensar um rótulo e Fernando me sai com este texto – poema. Fiquei feliz/ envergonhada / faceira e mil coisas ao mesmo tempo! Grata porque foi escrito assim… Abraçada! Nada melhor do que este abraço lisonjeiro. Eu e meus Fernandos!

velhos amores ficam velhos

Velhos amores ficam velhos! Engraçado! De repente passou. Eu tive dois maridos, e um amor. Alguns relacionamentos tempestivos e intensos. Estas ficam na estrada: lembranças-passado e hoje/agora. Vivo pendurada na memória de amigo – amor =  perfeito. Respirar. Viver. O engraçado / curioso desta vida é a busca. Esperança certeza de que o definitivo ainda pode/vai acontecer…  Fantasia agarrada no futuro,  na mágica. Eu te disse tantas bobagens defesas! Não vida. Quero que me perdoes. Sinto tua falta. Tenho a impressão de que ninguém,  nada te substitui/substituirá. E aquela sensação engraçada de tempo  perdido. Tão importante tua voz jorrando e dizendo / falando a me alertar. RESILIÊNCIA importa. Ok! Apreendi. Um dia eu me transformei… Quero tanto te dizer! Temos o que nos foi proibido, e não sabes.  Isso me encanta! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

um eu versus outro eu

Amós Oz -, entrando na Saraiva, tanto para escolher! Vários livros na mão: comprei apenas este, conversa com Shira Hadad  Do que é feita a maçã – seis conversas sobre amor, culpa e outros prazeres.

Olhar tocar conversar estar, tão melhor do que ter! E logo vou caminhando em direção a juventude, ao passado, ao outro, vou me procurar no outro. E reencontro fica/é/permanece gozo contínuo. Um amigo me escreve / diz coisa linda / bonita / amorosamente generosa, e eu choro. Lembro tão bem do impacto da morte. E tanto tempo no tempo! Fiquei extremamente abalada e chorei. Depois, mais tarde, perdi outros amigos, perdi…, perdemos,  e não choramos, entristecemos, mas não choramos derramando tanta lágrima. Vamos ficando para trás… Sofremos perdas de outro jeito. Terrível saber do tempo, da contagem, do que não dissemos, não diremos.

Estou sempre a imaginar como seria te encontrar, olhar no olhar agora que já não és mais o menino que eras (o da minha memória), e não podemos nos reconhecer…

E Amós Oz escreve no livro que comprei na Saraiva sobre personagens de um dos seus livros: “[…] Simplesmente eu não sabia o que ia acontecer entre os dois. Sabia o que de forma alguma poderia acontecer. […] Para onde iriam?  O que ele ia dizer a ela? Como ia dizer? O que ela ia perguntar a ele? Tocariam um no outro? Como? quando? O que posso fazer com eles? E se nada acontecer entre eles, como escrever isso? Talvez a coisa difícil de escrever seja uma cena em que um homem deseja e uma mulher é desejada, ou até mesmo em que um homem e uma mulher se desejam, mas nada acontece entre eles. Nada. Entendi que eu não seria capaz de escrever isso. Não os estava enxergando. Como se os dois estivessem juntos no quarto, mas apagaram a luz e pronto. Não estou enxergando nada.” (p.29)

Por que transcrevo isso? Talvez por sentir que embora o tempo passe, mesmo na curva do tempo a envelhecer e perder os pedaços da ilusão, fechar as portas, deixar de ouvir, ou de esperar seguimos a espera da cena de amor quando um homem e uma mulher se encontram…, quando o amor grita, quando estar na vida  é  apenas estar no outro. Escrever e ler é o jogo da magia. Estou contigo, embora o tempo não devolva teu cheiro nem tua voz, tudo imaginação… Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

emaranhado

Deve haver a hora verdade do real emaranhado ficcional de fantasmas vivos, ou príncipes carrascos ou heróis sem causa, ou causa de amor esfacelado, imbatível, invencível, os mortos. Deve haver. Em algum ponto existe fato / verdade / olhos azuis ou castanhos ou verdes ou enfeitiçadores e sedutores: um olhar, meia dúzia de apressadas e professorais mensagens amorosas e picantes. Insinuante  ou dolorosa vacina contra tudo e contra todos. Engasgada estória a se contar enfeitiçada pelos olhos ausentes ansiosos e brejeiros, a me desnudar. Passados anos desta virgindade aprisionada sou seduzida pelo encanto desperdiçado juvenil, audacioso e sem raízes…  Hoje te escrevi outra longa carta. Selei e enviei para Caixa Postal número 17. Adoro correspondência sigilosa manipulada por mil olhos e mãos, como são as telegráficas. Sei que abres a correspondência ali mesmo no correio. Ou atravessas a praça para te sentar na mesa daquele café e fumar um cigarro, (não devias fumar, nem beber). Então te deixas ficar na graça desta história inventada, e destes sentimentos escabelados que me fazem entrar na SAPT percorrer nossa infância, dançar nossa meninice embalar a juventude. Caminhar pelas pedras e ainda sentir o cheiro de criança que as nossas risadas nos davam…  Fazer telefone sem fio, jogar paciência e conversa para todos os lados. Beber guaraná, comer empadas e deixar a tarde escorrer nas chuvaradas de verão. Esta lembrança tem a brejeirice de uma saudade vencida exausta de termos pela frente todas as possíveis possibilidades num jogo infinito de combinações. Éramos nós. Eras tu, sou eu distraída, com aquele olhar perdido, porque afinal, nunca tocaste no meu braço, nunca falaste comigo, te dás conta? Agora velha, com os pedaços costurados em boas lembranças, atrapalhada com velhos e presentes sentimentos amarrotados. Claro! Tens razão! Não faria diferença, explodiria o desejo num olhar vago de velha senhora, e ficaríamos os dois a nos perguntar por quê? Digo velha senhora e não senhor… Porque aos homens é dado um grisalho, um poder de envelhecer diferente das mulheres, não sei se mais poderoso, mas eles ficam estacionados num caminhar justificado. As mulheres perseguem beleza esbelteza. Roupas bonitas, bem-postas, cabelos pintados, penteados, no lugar certo. O batom, o salto alto, o perfume e os colares de pérolas a enfeitar. Os xales cobrindo os ombros magros. Elegância escondida na velha beleza. Ser mulher é beber o chá, fazer bolo, conversar com as amigas ao telefone, acertar no tricotar ou saber tudo da Bolsa de Valores, de ganhar dinheiro, ter filhos embalados e netos sorridentes. Um bom negócio, bons funcionários, bom marido. Independência. E teclar ansiosa ou escorregar… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres: não consigo te largar, mas te juro, não quero te ver, porque sou toda ao contrário, ao avesso da mulher que um dia tu sonhaste / desejaste ou seduziste com estórias reais e sigilosas, verdadeiras ou fantasiadas num jogo colorido e poderoso.

SAPT – Sociedade Amigos da Praia de Torres – na rua José Picoral. Um prédio antigo, também com apartamentos. Tinha restaurante, cinema, uma boite para adultos (acima de 15 anos, eu acho) Marisco e a Tatuíra para as crianças. Fazíamos roda e um menino e uma menina dançavam no centro da roda. Tinha uma votação para Rainha da SAPT e Rainha da Tatuíra. Cada ida ao cinema recebíamos um cédula para votação, no dia do aniversário da SAPT coroavam a Rainha.Ganhei no ano que Ivo Rizzo foi presidente. Na Tatuíra fui princesa duas vezes, uma vez perdi pra Beatriz Paiva que foi a Rainha. Esta acontecia tudo no mesmo dia. Os votos eram nominais. O Presidente ia anotando. Cheguei atrasada. Lembro do vestido xadrezinho de verde e branco que eu estava. No grande salão tinham mesas com cadeiras de assento de palha: jogávamos cartas. Como evento tb promovido pela SAPT uma gincana. Era fantástico. Tempo dos cavalos na Praça lá de baio, e dos cabritinhos, carrocinhas que levavam as crianças para a praia. O golf era no morro da Guarita. E no outro um Farol de Metal, não antenas. E o Farol Hotel era referência. Mais tarde fizeram o anexo. E artistas como Roberto Carlos Elis Regina passaram por aqui.

 

e nós…

Da autobiografia: 29/05/2019 17:53 – Torres / Rio Grande do Sul, longe do Rio de Janeiro, e por que não em São Paulo? Montevidéu. Buenos Aires. Bariloche e nós. Não era ambicioso, mas juventude. Se penso lembro que não pensava …

Comprava livros: logo formamos uma pequena biblioteca importante: anotada e pesquisada por ele, os necessários, melhores e importantes autores. E comíamos boas massas italianas. Eu enfiada na cama lendo. Ou na frente do fogo embaixo daquelas mantas enxadrezadas e macias. Revistas também me alegravam. Às vezes, Marco se ausentava em viagens mais longas, importantes. Providenciou meu passaporte, queria que eu fosse a Itália, nunca fui. Preguiçosa para viagens eu me deixava ficar enfiada em casa. Uma vez me trouxe uma bandeja de cerejas naturais/ frescas de Modena. De Milão uma saia de veludo marrom… Ele me queria princesa. E o que comprava era como se fossem luvas de pelica perfeitas. Original. Delicado. Eu andava de bicicleta, passeava pelas redondezas esperando sua volta, plebeia. Marco cozinhava massas maravilhosas. Trazia queijos especiais e pequenas delícias nas malas e massas de vários tipos. O vinho, o melhor. Nossas pequenas viagens eram a Buenos Aires, Bariloche no verão com os lagos e a floresta, ou a neve do inverno, pequenos e gostosos dias de férias. O melhor era estar em casa. Mesa simples. O pão importava. Éramos italianos. As frutas? Todas. A casa, dois pisos em Carrasco. O leite a manteiga a carne uruguaia. Jovens e glutões, dois magrelas apaixonados.  Pequeno jardim cuidado. Flores sempre. E a lareira acesa. E aprendi o gosto de pequenas delícias. Uma vez fui a Punta del Leste de moto e chegamos no Floreal despenteados irreverentes e alegres. Paolo, vice-cônsul, ousou a velocidade, e eu fui, Marco nos seguiu de carro cauteloso, circunspecto. Era tão fácil respirar!

Nos conhecemos no Rio de Janeiro, ele morava num belíssimo apartamento em Ipanema na Prudente de Morais. Todos os meus colegas da Aliança Francesa tinham ido esquiar, eu não. Era a festa-confraternização do retorno. Alguém foi me buscar, depois da faculdade. Lembro da minha roupa, das músicas, das conversas. Nunca mais nos deixamos / foi para sempre. Ninguém larga o amor ou deixa passar ou espera o que imagina ser a hora / o momento certo. A vida é agora, neste minuto eu vivo. Um constante agora importante / belo e cheio de novas histórias. Claro! Não estamos eternamente apaixonados. As ausências nos estranham com lágrimas e segredos, mas, assim mesmo, estamos / somos vivos e completos e novos e outros e prontos e, principalmente, alegres. Escolhas. O outro não é o mais importante, o mais importante somos nós mesmos. Eu fui jovem … Livre. Alegre. E esta moça jovem sempre teve três filhos. (É assim minha memória, completamente maternal, mesmo longe eu era mãe, e me dizia: três filhos alegres felizes e bonitos porque amados). Sempre tive filhos. Engraçado quando penso sobre isso. Casei cedo e deu tudo errado, ou tudo certo porque eu tenho estes filhos. E aquela família foi mesquinha, pequena, vaidosa e quis me tomar tudo, até as crianças, mas não conseguiram. Graças! Nunca precisei de nada deles, nada. Absolutamente nada. Nem minhas crianças precisaram. Tive um pai e uma mãe especiais que me cuidaram, não tomei conta sozinha. E sempre tive Torres. Sempre voltei para casa. Tudo fiz depois de me separar: viajar, apaixonar, vestir Armani, Faculdade, francês, hotéis de muitas estrelas, sedas e veludos, cerejas e especiarias, não muito longe, porque temos o Uruguai e a Argentina tão perto, e naquela época, o mundo estava em paz e dançava melhor a valsa.  No Rio nos hospedávamos no Sheraton Hotel com aquele pedaço de mar particular Na Lagoa Rodrigo de Freitas, os melhores restaurantes. Dançamos no Balaio, Copacabana Palace (aliás, Marco não sabia dançar). Uma charmosa livraria francesa ali perto … Tempo de falar francês escutar italiano e entender espanhol. Sempre com os olhos espichados nas crianças.  Não fui a melhor mãe, nem a pior. Tudo natural. Eu tinha alegres vinte e cinco/seis anos. E a mãe e o pai sempre no Rio de Janeiro administrando minha juventude e a casa. Marco passou no Sul uma daquelas festas natalinas na casa da irmã. Luxuosos e festivos natais ela sabia preparar na casa de Ipanema: e a nostalgia, imediatamente, se transformava em festa com guizos flores frutas e bom gosto. Ser jovem veste leveza descontração, não tem juízo nem cautela porque tudo é de pureza juvenil. Tempo de sorrir. A gravidez um coroamento de beleza. Que todas as mães sejam jovens belas e livres e felizes. A maternidade tem gosto do eterno. Não tive um filho com o Marco. Teria olhos azuis o nosso bebê. E nunca mais teríamos nos largado / separado. Era justo que tivesse um filho, um casamento triunfal com direito a igreja e …  Eu me sentia impotente, este presente-fantasia-vida eu nunca poderia lhe dar. Ele não imaginava /  não sabia que um dia ia querer / desejar / sonhar um filho. (Casou e teve três. Um menino loiro com olhos azuis, e duas meninas, este menino, certamente, é o nosso, e mora na Austrália, não sei se ainda pertence ao quadro de engenheiros da GTE, nem se a empresa existe com este nome). Talvez eu tenha me equivocado. Talvez pudéssemos ter tido o nosso e os meus. Talvez eu tenha errado, mas viver não é assim mesmo? Um amontoado de equívocos / enganos / desencontros / encontros / abraços / beijos e despedidas? Foram quatro ou cinco anos de tanta alegria! Tanta surpresa florida! Quando terminei a faculdade, o último dia, o da formatura mesmo, entro em casa esfogueada e acesa, e meu pequeno apartamento era um jardim: rosas jasmins e flores coloridas por todos os lados. Uma festa de perfume, não vou esquecer. Guardo o cartão presente e gentil. Acho que todos os italianos devem ser galantes, elegantes educados, apaixonados. Loiros, os que nasceram em Modena. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2019

Marco

Syzy Menezes Estrela e os filhos, Marco e  eu

Sem Título-16

Porgy and Bess de Miles Davis – escutar boa música! o tempo volta sempre que adormeço.