última palavra

Leitura de bom livro, genial autor. Impacto / medo e perplexidade. Terminei Passo de Caranguejo -, demorei a ler as 205 páginas. Espanto / susto a cada impasse. Curso intensivo de emoções – problema indissolúvel: ser pessoa, ser humano, ser gente e estar no palco a representar o mesmo texto. Sempre o mesmo a ser interpretado. Representar. Surpresa! Em verdade, as coisas não se repetem, as coisas permanecem iguais, e as mesmas. Não importa o que se possa fazer para mudar / melhorar / representar melhor, ou pior / forjar… Ficam iguais o tempo todo, não importam os anos nem o empenho. Fica igual o tempo todo, apenas não se sabe / não se tem consciência desde arremedo nem se consegue identificar o momento exato em que se petrificaram / estratificaram! Não conseguiremos ser melhores, nem piores, somos os mesmos!

Eu não mudei / não melhorei, nem piorei. Sou a mesma menina que um dia descreveste tão bem!

É uma farsa… e qualquer tentativa de fugir / representar / inventar, inviável! Somos a mesma metamorfose de nós mesmos. (Peço desculpas por usar a primeira pessoa do plural, não a primeira do singular, o eu. Ou misturar tudo. Não posso julgar o outro, sou eu que vejo assim… a mesma pedra a ser carregada, o mesmo engano, a mesma dúvida! A mesma representação.) Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019  depois e ainda com Günter Grass, volto para terminar O Linguado com a celebração da comida, do sexo e da vida, com vontade de ler O Tambor.

Ela só quer é se ver sempre confirmada, unicamente ela. Aquilo que não lhe diz respeito fica proibido. Mas a arte, meu filho, não se deixa proibir.” (p.52) Günter Grass O Linguado

Só conseguimos enxergar aquilo que enxergamos.

Cada frase merece um longo texto: não temos, em absoluto, condições de justificar/explicar o que se passa na cabeça/na ideia/ no querer/ na vontade do outro. E no que ele seguirá pensando depois deste fato x ou daquele fato y. A cabeça é o grande e poderoso cofre que guarda/retem/ explora o que apenas ela conhece, todos outros elementos são alienígenas, ‘destampar o crânio’ não o tornará claro/lógico ou compreensível. Somos desconhecidos. A magia o fantástico deste mistério apenas o beijo desvenda. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres . Tenho certeza que ao nos olharmos e nos abraçarmos e nos beijarmos compreenderemos / entenderemos e nos teremos, por inteiro, e naturalmente, desnudos.

Ninguém sabe o que ele pensou e continua pensando. Todas as frontes represam os pensamentos, não só a dele. Zona proibida. Terra de Ninguém para os caçadores de palavras. É inútil destapar o crânio. Além disso, ninguém pronuncia aquilo que pensa. E quem tenta fazê – lo acaba mentindo na primeira metade da frase. Frases que começam assim co ‘Ele pensou naquele momento…’ ou ‘Seus pensamentos diziam…’nunca passaram de muletas. Nada encerra melhor do que uma cabeça. Até a tortura mais extrema não produz confissões completas. Sim, mesmo no segundo da morte pode – se trapacear com os pensamentos. […] Só conseguimos enxergar aquilo que enxergamos. A superfície não diz tudo, mas diz o bastante. Portanto, nada de pensamentos, e também nada de refletir sobre eles depois do fato consumado. E assim, poupando as palavras, chegaremos ao final mais depressa.” (p.189-190) Günter Grass Passo de Caranguejo

Cada frase merece um longo texto: não temos, em absoluto, condições de justificar/explicar o que se passa na cabeça/na ideia/ no querer/ na vontade do outro.

fora do lugar

Estranho efeito desordem no espelho: tudo fora do lugar num descuido completo e preguiçoso. Dia azul verde  enrolado no xadrez  do xale macio. Os pés em meias de lá e a pele macia  e doce. E.M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres

incondicionalmente

Amo você desde os meus 13 anos, quando vi pela primeira vez sua mão deslizar sobre a folha de papel. Amo você de todas as formas que minha imaginação pode conceber. Desejo você tão profundamente que meu corpo canta de dor e prazer. Você tem sido minha obsessão, minha paixão, minha pedra filosofal. Eu o amo incondicionalmente.

eueueeueu

E não importa o obscuro do que possa ser antes de ter te encontrado/tocado e olhado o teu olhar curioso no corredor entre a entrada da Boite Marisco e a saída do cinema… Naquelas saídas e entradas a teia se fez aos sussurros do impossível. Jogávamos cartas, comíamos cachorro-quente e tomávamos coca-cola. Íamos a sessão de matinée.Tínhamos os banhos de mar na paia grande, as canchas, mas não íamos para a Guarita.

Não compreendo como nunca dançamos! Nem nos sentamos um frente ao outro. Levamos tanto tempo para entender o amor!  Eu errando, distraída, longe, e tu perto. Tinhas que ter colocado a mão no meu ombro e me acordado. Tão perto estivemos e tão desesperadamente solitários! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres

carta doiscarta r333333carta.jpg

 

“Mire veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si. Para isso é que o muito se fala?” Guimarães Rosa

A vida nos traz luzes que servem de apertos e alertas. Afasta quem de verdade importa por simples capricho de um ou de outro, até de estranhos… Depois, não importa mais. Fuga… A morte branca… Nunca deveria ter me calado quando tu te calaste a inventar motivos fraternos. Uma omissão imperdoável…Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres “Coração da gente – o escuro, escuros.” Como diz a Mabel, para não ter dúvidas, coloca itálico e entre aspas, cita o autor e suspira.

facho de luz

O que é a consciência senão o facho de luz de uma lanterna na noite escura, sem estrela?Tem dias que o tempo pesa mais do que outros…

Envelheço.

Sinto o corpo sem frescor: rugas no rosto, esquisitos traços. Veias nas mãos, na pele, o tempo dos anos desenhado. Ninguém tira a solidão do outro!

O especial do encontro com o amor, e o difícil é a morte. Tempo indefinido, absoluto. E um dia tão velha, no outro, menina. Juventude a gritar e festejar, e… E assim mesmo, envelhecemos. Muito tempo, bastante tempo para viver! Nunca o suficiente! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres

 

medo desgovernado

toda a lucidez pequena /aquela que eu guardei emprestada, se desmanchou… /importa tão pouco agora! a água escorrega da ducha, e já não chega animadinha na sala (sorrindo). Uma pedra de granito fez/faz barreira, (a luz dos azulejos brancos se animam), tenho um banheiro? Não coloquei luz em cima do espelho… Não uso batom, nem penteio os cabelos: prendo todos os fios num único grampo. Os olhos abrem pesados, mas o dia está lindo. Vou voltar para o tricotar, e para a música, ou cavar a terra… Desanimada! Seria preciso uma fortuna para manter os livros no resguardo do pó, das aranhas, das traças. Ambição descontrolável. Eu me recrimino pela escassez de tempo para dedicar à leitura. Mas imagine um homem que tem o dia todo e, se quiser, a noite. E dinheiro para comprar os livros que deseja. Não tem limite. Está à mercê de seu desejo. E o que quer o desejo? Se posso fazer uma observação bem do fundo da minha tristeza, o desejo quer achar o seu limite. Elizabeth M.B.Mattos – maio de 2019 – Torres

2019-05-23 10.41.14.jpno fundo da rua o amarelo

lembro

lembro das maçãs, do vinho, das castanhas, da toalha branca, das taças especiais que tiraste do armário.

lembro do sofá de veludo, dos livros espalhados, lembro do silêncio

lembro do frio que senti, lembro da insônia.

por que eu vivo se já foste num sopro!?

perdi a lágrima quando te perdi.

nada espero nem desejo

fechaste os olhos: fiquei com os meus arregalados… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2019 – Torres