ANGUSTIA fatiada aflita esquisita sem explicação. Entra fica venta e sacode o que não consigo arrancar se agita. Não consigo voltar ao que era … uma alegria pequena, constante, desapareceu.
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inseparável
Espero libertação, entendimento como se fosse fenômeno. Não consigo descrever absorver entender a ideia toda, então … espero quieta inquieta. Minhas mãos cheias de terra. Faz morno lá fora. Molhei as plantas da sacada: verde e exuberante o pequeno jardim. Pequena nostalgia. Posso trazer a floração para dentro de casa. Reaprendendo o mundo sem fantasia. Já está passando … A fazenda / o campo se esfumaça. Histórias terminam, mas se encaixam em lembranças verdes e no gosto da pimenta …, tem gosto e cheiro esta memória. Elizabeth M.B. Mattos -novembro – 2018 Torres
apressado transparente voando
[…] uma parada para pensar, refletir. Tudo e o nada. As possibilidades de realizar o que me proponho, não sei se existem! Por um momento um esvaziamento complicado difícil, laborioso. Mas tu me dizes que realizarei e farei, e ficarei livre. Todo um trabalho todo um caminho a ser percorrido: disciplina e coragem. Beth Mattos
és a minha fantasia
O que me intriga é como tudo era / é diferente do que eu imaginava / imagino, / ou pensava … Eu julgava que as pessoas (ou nós dois) deviam saber o que queriam …
Tenho falsa ideia de que as coisas / as pessoas …, enfim, tudo mais simples, mais direto, ou mais corajoso. Esquisito como sinto tua falta mesmo quando sei que não estás, não estás. Não existes. És a minha/ a nossa fantasia. Beth Mattos 2018 novembro, em Torres
apenas um momento
Senti o presente nas tuas palavras. Tua interferência amiga. Não sinto amargura, apenas grande cansaço. Não sei o que tínhamos em nós, nem sei como começou, nem o porquê. Plantamos aquela semente. Nunca houve nada mais belo … Era como se aquilo precisasse existir e durante todo tempo, tu e eu, soubéssemos que não pudesse ser. Ignoramos o muro. E não foi culpa de ninguém, nem tua nem minha. Creio que sempre nos amamos, creio que sempre haveremos de nos amar. Mas sempre é a eternidade, e a vida é apenas um momento. Deste momento, não vou esquecer …, foi o nosso. Beth Mattos 2018, já novembro
Ainda Orhan Pamuk
“Por que a visão de um homem chorando nos comove tanto? O pranto de uma mulher é uma parte dolorosa e aflitiva da nossa vida cotidiana, e sempre vemos esse espetáculo com compaixão e ternura. No entanto, não sabemos o que fazer quando quem chora é um homem. Supomos que alguma coisa terrível tenha acontecido – esse homem deve ter chegado ao fim das suas forças, ao limite das suas capacidades, como nos sentimos perante a morte de uma pessoa amada. Ou então é que existe no universo dele alguma coisa que destoa do nosso, alguma coisa extremamente perturbadora e até aterrorizante. Todos já sentimos o espanto e a angústia de encontrar alguma área nova e desconhecida num rosto familiar – uma terra ignota nem mapa que imaginávamos conhecer perfeitamente. ” (p.327 Orhan Pamuk)
Ainda tuas lágrimas. Teu espanto, e proximidade ausente. Hoje o pacote com o livro. E eu me surpreendo com este 1967 e toda a simplicidade da memória que foi tua e minha.
Acordo e me proponho a escrever cumprindo o que poderia ser destino/vontade ou qualquer sentimento adequado. O choro fica amarrado inútil porque não me salvaria. Releio leio o necessário. E qualquer depoimento sincero único de repente, num repente, fica/está/será apertado entre lembranças amorosas e perdidas. Quero chorar tudo e muito, e ao mesmo tempo, quero antes resistir e fazer acontecer insone estas 99 horas de um dia seguindo a magia do sonho do número e da verdade. Cristalizar a verdade em palavras escritas. Beth Mattos – Torres – 2018
adoro ser redonda
Quando eu me apaixono, quando tu te apaixonas ou eles se apaixonam não adianta, sigo, segues, e te persigo … Estou embalada numa Beth de antes, ou de sempre, outra vez eu mesma, livre, apaixonada, perdidamente, apaixonada Elizabeth. Tenho a minha Luiza em Recife, e Pernambuco faz parte da minha rota. Aliás, das minhas impossíveis e sofridas rotas porque detesto viajar, sair do lugar, ir ou vir. Mas hoje quis estar na Rússia, num lampejo, e agora só queria/gostaria de voltar a ver Francisco Brennand e olhar/ver/ rever a OFICINA, ou falar ao telefone, ou não sei lá o que poderia fazer. Sentir calor e ficar a esperar sentada nas escadas …
“13 de junho
Esse mergulho repentino no passado não deixa de ser inquietante e, depois, todas as notas de uma determinada época acabam por me deixar em pânico, na suposição de que a ênfase dada a alguns acontecimentos de imediato exclua uma centena de outros igualmente registráveis e importantes.”Francisco Brennand
Inquietante pânico ênfase suposição, recolho estas palavras e mergulho em mim mesma para entender em Brennand a importância do registro. Vagar intenso e desejo de acertar, errando. Maravilha o que ele escreve. Estas conversas monólogos me divertem. Por alguns momentos estou/sou,verdadeiramente, habitada /povoada.
“[…] registráveis e importantes. Mas registráveis e importantes para quem? A pergunta é mais do que oportuna, em face de uma simples conclusão, aliás, bastante apriorística: o que está em jogo não é absolutamente o interesse dos outros, e sim o meu. Tão somente as minhas escolhas e os meus desassossegados empenhos estão em pauta e suponho que não é por outro motivo que conservo estes cadernos.” (p.195-196) Diário Volume I Francisco Brennand
Um livro se faz para o outro, para quem vai ler e abrir e folhear, mas para quem escreve importa tanto e muito e mais … Escrever é satisfação prazer com gozo gosto tão particular e tão plural! Como ler. Já é junto e tanto! As histórias embutidas em vivências únicas e as mesma. Ninguém é diferente de ninguém, e sendo iguais qualquer conversa ou som ou voz engorda. Conversar e ler engordam! Adoro ser redonda! Elizabeth M.B.Mattos – novembro de 2018 – domingo de sol para ninguém colocar defeito e todos prazeirarem.
travesseiro, um território
“A verdadeira unidade dos casados e dos casais em geral é dada pelas palavras, mais do que as palavras ditas – ditas voluntariamente -, as palavras que não se calam – que não se calam sem que nossa vontade intervenha. […]. Não é tanto que entre duas pessoas que compartilham o travesseiro não deva haver segredos porque assim decidem -[…], mas é que não é possível deixar de contar, de relatar, de comentar e enunciar, como se essa fosse a atividade primordial dos casais, pelo menos dos que são recentes e ainda não sentem a preguiça da fala. ”(p.128)
Quando atropelamos o outro com nossa conversa retrospectiva narrativa temos a sensação de voltar no tempo e entregar a vida por inteiro, como se fosse o todo aquele momento de dizer e entrega. Esquisita sensação de pertencimento. Aconchego. Certeza que agora somos o outro e ele é parte da nossa vida, como …, como, como a gota de felicidade e alegria que faltava. Tenho sentido falta de sorriso, da palavra, de uma voz, de um cotidiano mesmo que escondido na estrada, no não ver/ou estar, mas sentir. Cheguei ao estágio de completo esvaziamento. Estranho.
Javier Marías diz desta necessidade narrativa. O casal se permite a voz simultânea a entrega do corpo desavergonhado acostumado e carente e afetuoso. Estranho manso e generoso e carinhoso na entrega ao amado amigo. Sem promessas nem vontades, apenas entrega generosa, e feliz de um encontro…
“[…]e pudesse assistir através da narrativa a todos os anos em que não nos conhecíamos e em que agora acreditamos que nos esperávamos. Não é apenas, tampouco, um afã comparativo ou de paralelismos ou busca de coincidências, o de saber cada um onde estava o outro nas diferentes épocas de suas existências e fantasiar com a possibilidade improvável de se terem conhecido antes, para os amantes seu encontro sempre parece produzir –se tarde demais, como se o tempo de sua paixão nunca fosse o mais adequado ou nunca bastante longo retrospectivamente (o presente é desconfiado), ou talvez seja que não suportam que tenha havido paixão entre eles, nem sequer intuída, enquanto os dois já estavam no mundo.”
Curioso! Transcrever e pensar em comentar me faz sorrir a pensar, e se o amor ainda estivesse para chegar e me tocar como se a vida fosse setenta anos de espera e ansiedade, filhos e netos e faceirice de esperar? Por que assim? Porque de repente um buraco vazio e esquisito se faz visível e quero outra vez querer. Tão infantil isso! Tão desgarrado! Tantas vezes fui forte e dura, mas tantas apenas …, apenas solitária. Que inveja daqueles sólidos casamentos, daquelas relações de uma vida inteira!
“Não é também que se estabeleça um sistema de interrogatório diário a que por cansaço ou por rotina nenhum cônjuge escape e todos acabem respondendo. É antes que estar junto de alguém consiste em boa medida em pensar em voz alta, isto é, em pensar tudo duas vezes em vez de uma, uma com o pensamento, outra com o relato, o casamento é uma instituição narrativa. […] ‘Na cama se conta tudo’, não há segredos entre os que a compartilham, a cama é um confessionário. ”
E eu voltei para o meu autor espanhol, assim ao acaso, este livro Coração tão branco é uma edição de bolso da Companhia das Letras, comprado no aeroporto, na espera porque eu sempre chego milhões de horas antes. Saio de Torres num horário adiantado de ônibus e vou a esperar o voo que não se atrase ou atrase. As duas horas e meia que me separam de Rio ou São Paulo se transformam num dia de viagem, e de leitura, e … retomo Javier Marías, confirmando minha preferência belicosa com o autor.
“[…] a cama é um confessionário. Por amor ou pelo que é a sua essência – contar, informar, anunciar, comentar, opinar, distrair, escutar e rir, e projetar em vão – uma pessoa trai os outros, os amigos, os pais, os irmãos, os consanguíneos e os não-consanguíneos, os amores antigos e as convicções, as ex – amantes, o próprio passado e a própria infância, a própria língua que deixa de falar e sem dúvida a própria pátria, tudo o que em toda a pessoa há de secreto, ou talvez de passado. Para agradar a quem se ama denigre –se o resto do existente […] a força do território que o travesseiro delimita é tanta que exclui de seu seio o que não está nele, é um território que por natureza não permite que nada esteja nele exceto os cônjuges, ou os amantes, que em certo sentido ficam sozinhos e por isso conversam e nada calam, involuntariamente. (p.129-130)
E penso, eu lá no meu pensamento, que a cama, este travesseiro dividido, estas horas de conversa entre o sono e a vigília, quando o sono derruba e o abraço acorda, e o corpo conversa é o território da vida, do mundo, o mais povoado e imenso …, estas conversas e este estar não tem borda nem limite. Enquanto penso o que o autor espanhol pensa e escreve imagino esta conversa sem freio sem censura. O limite sacode e invade um universo maior do que pensamos ter (um dia, eu também dividi um travesseiro) … E deu vontade de atravessar o mundo outra vez. Elizabeth M.B. Mattos – novembro em Torres 2018, num sábado cinzento com chuva que vem e que vai e trovões sem raios …, a chuva é uma conversa. Depois da taça de café e espiar o ninho daquelas pombas cinzentas, tem um filhote ali, a ideia do dia parece ser ainda Pamuk, ainda soneca e ainda queixas! Que o tempo de sol me acorde.
tu escutas…
If equal affection cannot be,
Let the more loving one be me.
‘Se os afetos não podem ser iguais,
Então que seja eu quem ame mais.‘
W.H. AUDEN
Se eu te digo ou se penso, pouco importa. Acabrunhada vou encolhendo, envelheço. Ah! Como demora este esquecer; demora este verão … demora tudo, tanto! E.M.B. Mattos
talvez cheiro de mar
Retrato: todas cores são necessárias, todas letras, todas as notas: exausta cansada esgotada desanimada pesada triste sem paciência burra desatenta descuidada sem sono sem vontade sem olhar sem pensar entorpecida, que um dia faça sol e chuva ou trovoada e raio risque o céu. Água gelo, ou vento: garoa. Depois luz e azul e perdão e ânimo perfumado com rosas . Que as buganvílias fiquem azuis. Olhos verdes e castanhos, os teus. Tranquilos mansos e doces, não furiosos nem rancorosas nem desiludidos, mas crédulos. Cheiro de terra na revoada dos pássaros. E o alegre leve e bordado jeito de ser se faça na virada mágica das cartas deste jogo. Vou jogar com os dados. Elizabeth M. B. Mattos novembro de 2018 – Torres cinzentas – sim, as torres crescem assustadoramente, ninguém mais vai deixar o sol entrar. Teremos sempre o vento pelas frestas, e cheiro de mar.
