A liberdade não está ao alcance, ao alcance das mãos, da cabeça, mas solta na alma. Não domino sentimentos que me afastam, ou aproximam desta ou daquela pessoa (fico confusa). A natureza de ser/ter/ estar se altera no cansaço físico, mas também por dentro … Escrever sobre eu mesma, ou como sinto, enxergo ou me vejo, ou formatar um dia em palavras. Difícil, abstrato embora descritivo. Um exercício. Volto a um velho texto de um velho livro: “Existem numerosas espécies e gêneros de hortaliças, porém todas, segundo nossos princípios de classificação, jazem no lodo. Crescem aí e aí são colhidas. Batatas, tomates, chicória e nabos. Seres não – humanos e seres humanos. Alterando a analogia, poder – se – ia dizer que vivemos vidas que estão encaixadas desde o nascimento à morte. Desde o ventre de que nascemos à caixa da família, da qual progredimos para dentro da caixa da escola. Quando saímos da escola, já nos tornamos tão condicionados a viver numa caixa, que, daí em diante, erigimos própria caixa, uma prisão, um receptáculo em nossa volta … até que, finalmente com alívio, somos introduzidos no caixão ou no forno crematório. ” (p.35) Davis Cooper, – Psiquiatria e Antipsiquiatria, – Editora Perspectiva, Coleção Debates, São Paulo 1967 . Livros respondem, perguntam e acompanham, então cada um guarda nas páginas em branco o segredo de cada leitor. Respiram no mesmo ritmo. E escutam os telefonemas da madrugada. Elizabeth M.B. Mattos – abril 2018 – Porto Alegre
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velha amizade
“A mente esquece, o mundo muda e as velhas amizades seguem. Mornas, suaves e profundas como o mar.”

Bilhete memória fragmento. Fico a pensar no peso de cada vontade…, ou aproximação quando a geografia afasta. Engasguei na leitura. Nuvem negra: tenho guardada, e me escondo nela indecisa medrosa. Gostei do que escreveu David Coimbra. O amigo virtual segura minha mão e atravessa a nuvem. Agradeço. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018

Volto no tempo para me confortar com boas lembranças. O passado um alicerce. Valorizar o caminho/jornada para chegar na Beth de hoje. Não posso me esconder no que foi, também não devo temer o que vai ser amanhã. E nem escamotear o hoje. 1964 -Carmélio Cruz, fez meu retrato: aquarela. Dois anos depois, um óleo sob tela.Beth Mattos


da poesia
[…]
Mas não há nada mais poético do que as coisas reais e concretas. Adoro a poesia de um abraço, de um beijo amoroso e apaixonado, ou a paixão de um prato bem servido ou o perfume da boa cozinha. Poesia concreta mesmo. Não aquela que assim foi chamada, mas nada concretizou e tão só “concretou”. Aquela era poesia “ de concreto”. A nossa, poesia concreta. A do abraço, do aperto, do afago. A poesia que tuas cartas descrevem com nitidez, profundidade e extrema beleza. A poesia irreprodutível numa cartinha fac-símile quase pública. Acho que só conseguirei chegar aí no final do mês, ou início de julho. Irei de carro. Aviso-te com exatidão nos próximos dias.
N a inesperada intransigência o conforto do passado. No vazio ou na falta o alimento interior. De dentro. A espera vem de dentro. De dentro. Lembrança empilhada. Mansa terna amorosa. Maio molhado pela chuva que se sacode cantando alto. Hora de pensar inverno e aconchego. E.M.B. Mattos – 2018
temperatura
Cinzentas manhãs frescor conexões claras e fortes com aquele fazer iluminado e perfeito
ao teu lado
…,não quero estar no teu lugar. Quero estar ao teu lado.
sem vontade …
…, desanimo quer dizer sem vontade sem alegria sem palavra. Amontoado de velhas desgastadas inúteis tentativas.
“Hoje me deu tristeza, sofri três tipos de medo acrescidos de fato irreversível: não sou mais jovem.” Adélia Prado – fragmento de Dolores
Hoje me deu tristeza por não saber o que dizer. Hoje senti tristeza porque não estás comigo. Não estarás amanhã, nem depois de amanhã. Senti tristeza porque tropecei nas letras. Derramei o leite, deixei cair o pão. Esqueci a manteiga. Não abri a janela. Desânimo quer dizer sem vontade. Elizabeth Mattos – maio de 2018 – ainda Torres
medo
Cálida noite quase estrelas. Terra úmida abastecida. Preenchida. Posso caminhar, ou desistir. Olhar para trás, fechar os olhos. Mergulho na tua voz. Mergulho no ontem. Agarro a palavra. Respiro. E. Mattos – 2018
por favor
Escorrego, tropeço, não te alcanço. Espera, por favor, sou eu … Elizabeth M.B.Mattos – maio 2018 – Torres
Gosto de …
Caipira com pouco, pouquíssimo, açúcar terminando a manhã.
Almoço com salada verde e carreteiro feito por mim.
No fim do dia, uísque sem gelo, apenas lua.
Anoitece escuro. Ponto de luz no céu.
Elizabeth M.B. Mattos – maio 2018
Das cartas que contam história:

relampejam estrelas Simone
“A noite é tempestuosa; os ramos dos castanheiros agitam – se, e eles relampejam estrelas.[…] As histórias que perseguem as pessoas até seus quartos de dormir são difíceis. Não consigo prosseguir com esta história. Ponho – me a retorcer um pedaço de barbante; reviro quatro ou cinco moedas no bolso de minha calça.
— As histórias de Bernard me divertem no começo — disse Neville. –Mas, quando disparam absurdamente e ele tenta tomar fôlego, retorcendo um barbante entre os dedos sinto minha própria solidão. Ele vê todos os seres como imagens com contornos imprecisos. Por isso, com ele não posso falar de Percival. Não posso expor à simpatia de sua compreensão minha absurda e violenta paixão. Isso também constituiria uma ‘história’. Preciso de alguém cuja mente caia como um machado sobre o bloco de madeira; que julgue sublime esse absurdo e adorável o laço do cordão de um sapato. A quem expor a urgência de minha paixão?” (p.39)
Simone: lê mais este trecho que seria meu se assim pudesse ser o meu escrever.
“ Daqui a oito dias sairei do trem e ficarei parada na plataforma às seis e vinte e cinco. Então minha liberdade desabrochará, e todas as restrições que a enrugam e encolhem — horários, ordem, disciplina, e estar aqui e ali na hora exata — tudo isso se esfacelará. O dia explodirá, quando eu abrir a porta e vir meu pai com seu velho chapéu e suas perneiras. Vou tremer. Vou romper em pranto. Depois, na manhã seguinte, vou levantar ao amanhecer. Sairei pela porta da cozinha. Andarei pelo pântano.” (p.41)
” Quero dar, quero receber, quero solidão onde possa desdobrar em paz tudo o que possuo. […] Alimentarei meus pombos e meu esquilo. irei ao canil escovar meu spaniel. Assim, aos poucos, afastarei essa coisa dura que cresceu em meu coração.” (p.42) Virginia Woolf – As ondas – tradução de Lya Luft – Editora Nova Fronteira, 1980 – Coleção Grandes Romances
Como não posso me identificar? Sim, navego e vomito textos que estão amontoados misturados. Indigestas leituras, e saboreio aos pedacinhos/ golinhos as que mais identificam o sentimento, o meu. Respiro e sinto algumas leituras como minhas. Escrever e ler são oficios que se assemelham. Obrigada Simone por trazer de volta AS ONDAS de Virgínia Woolf . Uma onda que a Lya Luft mergulhou. Elizabeth M.B.Mattos