sempre juntos

Hoje te escrevo serena, antes tão aflita. Venta bastante, mas a chuva não veio. Terminei o livro que mandaste. Espero pelo carteiro, deve chegar o segundo volume, antes que o ano termine. Amanhã. Sim, está cinzento. E penso que logo estarás comigo. Enquanto conto os dias eu me distraio. Sabes o que quero te mostrar? Delícias da culinária. Por que não telefono? Por que nunca sei onde estás, e detesto esperar … Enquanto te escrevo, a sensação de presença é imediata, mesmo sem voz … minha natureza, sabes. Tu sabes de mim como sei bem de ti, das tuas mazelas. Apenas me pergunto por que separados? E logo (sorrindo) entendo o motivo: para nunca nos perdermos um do outro, estamos em trânsito… chegando … e  assim, sempre juntos. Estás comigo, estou contigo.

Quero teu mundo no egoísmo do segredo. Eu …, aqueles verbos todos: amar, querer, gostar, estar, apaixonar, pensar, ter … com o tal poder. Estou/sou apenas quando contigo. E não és (quando afirmo, desafio). Então, estou, absolutamente, isolada/sozinha, e sem poder. A transgredir, … e tu me seguras no ar … (minha pequena vingança amorosa), escondido. Brincas comigo, brinco contigo como Macunaíma … gosto de lembrar do nosso herói, dizem que era sem nenhum caráter. Sei lá … o que sei da rigidez, ou do certo e do errado? Não sei.  Será que te quero porque não te tenho? Foste cruel, ou justo; … as páginas estão juntas mesmo separadas. O poder não me manipula … Afirmas.

E confesso: estou sendo manipulada pelo que sinto. Tu consegues me virar do avesso … eu me desvio, esqueço onde quero ir, fico a te esperar …

Encontrei o significado da palavra lábil … Nossas loucas conversas matinais! Tua erudição. Estremeço, tu sabes. Eu percebo, tu sabes, todos sabem … então repito, nós.  E ninguém nos imagina. São mesmo perigosas as confidencias de amor. Temos felicidade com uma danada sensação de culpa. Dizes bem, somos transitórios e … estou apaixonada. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

 

lábil. Significado de Lábil. Adjetivo. Diz-se dos compostos químicos pouco estáveis, notadamente ao calor, como certas proteínas, as vitaminas etc. Que escorrega ou desliza facilmente. Geologia Diz-se dos terrenos ou rochas instáveis. Sinônimos de LábilLábil é sinônimo de: fraco, transitório.

texto espanhollivro partidocapa

Silvina Bullrich Los Pasajeros del Jandin

“Tú eras la atracción que me daba estabilidad de cualquier otra atracción. […] qué podían  darme más valioso que nuestra secreta intimidad […]”

apenas certeza

O tempo que passa, droga! …, passou, e sigo atrás da porta. Temos tudo para sermos evidentes visíveis, e sermos nós mesmos, mas justo nesta visibilidade nos escondemos em completa timidez. A nudez, estar assim, completamente despida, assusta. Sinto saudade de mim mesma porque envelheço. Envelheço. Quando jovem eu me sentia especialmente corajosa! Capaz, e entendia tão bem o entardecer. Dormia para ser feliz no dia seguinte, mais feliz ainda. Quem eu sou que não sou mais? Perdi autonomia, coragem, altivez, e meu prazer mudou. Durmo para esquecer depressa do dia. As cartas preenchiam o afetivo. Abrir os envelopes, reter cada palavra, pegar papel caneta e responder de imediato … o tempo lento, tão lento! …. Eu tinha o mar, eu tinha janelas, eu tinha aquela energia da juventude … e, apenas certeza. Elizabeth M.B. Mattos – 29 de dezembro de 2017 – Torres

paradoxos

Estou a me dizer saudosa, apaixonada, inquieta, insatisfeita, … mas, em absoluto, sei quem eu sou. Não tenho traço nem desenho, nem esboço. O nome  se transforma. Vida de caverna na praia movimentada e remexida de um verão ventoso. Não sei dançar, não sei cantar, não uso vestidos bonitos, ando descalça. Pareço feliz e triste ao mesmo tempo. Apaixonada e desesperada. Galeano pergunta, com razão:

Para que a gente escreve, se não é para juntar nossos pedacinhos?”(p.119)

Tenho uma pergunta inquietante que me afoga: por que me amarias se não existo? Elizabeth M.B.Mattos – dezembro de 2017 – Torres

“Se a contradição for o pulmão da história, o paradoxo deverá ser, penso eu, o espelho que a história usa para debochar de nós. Nem o próprio filho de Deus salvou-se do paradoxo. Ele escolheu para nascer, um deserto subtropical onde jamais nevou, mas a neve se converteu num símbolo universal do Natal desde que a Europa decidiu europeizar Jesus. E para mais inri, o nascimento de Jesus é, hoje em dia, o negócio que mais dinheiro dá aos mercadores que Jesus tinha expulsado do templo. Napoleão Bonaparte, o mais francês dos franceses, não era francês. Não era russo Josef Stálin, o mais russo dos russos; e o mais alemão dos alemães, Adolf Hitler, tinha nascido na Áustria. Margherita Sarfatti, a mulher mais amada pelo anti-semita Mussolini, era judia. José Carlos Mariátegui, do mais marxistas  latino americanos, acreditava fervorosamente em Deus. O Che Guevara tinha sido declarado  completamente incapaz para a vida militar pelo exercito argentino. […]’Acho que você está meio nervosa’, diz o histérico. ‘Te odeio’, diz a apaixonada. ‘Não haverá desvalorização, diz, na véspera da desvalorização, o ministro da Economia. ‘Os militares respeitam a Constituição’, diz, na véspera do golpe de estado, o ministro da Defesa. […] “(p.126-127)  Eduardo Galeano – O Livro dos Abraços – 

 

LINDA esta foto de abrigo

amor se arrasta

…, leio devagar, tão devagar! Não leio, eu me arrasto pelo livro. Quando falo, falo muito. Digo depressa, atropelo as palavras. O que tenho para dizer salta. Quando/ ou se me calo, e não digo mais, é porque estou esgotada, exausta.  Estar com a pessoa, conversar tem essa característica da rapidez, certa pressa para concluir, terminar, encerrar. Se colocar logo do avesso.

Estou lendo o primeiro livro dO Quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell, como se fosse um soluço, um parágrafo sem conexão com o outro, vou espicaçando o livro, rasgando uma página depois de outra. Vira uma franja: “Sempre nos apaixonamos pelo objeto do amor de quem amamos.” desta frase uma viagem (cobiçamos até o perfume daquela camisa) …, outra: “Na verdade, Justine não era humana – não podemos considerar humano alguém completamente dedicado ao próprio ego.” E já estou a pensar naquela história de que não somos o que somos, mas nos submetemos ao jogo do ego… (respiro) Ou quando ainda na mesma página escreve: “Nós que viajamos demais, que amamos demais: nós que – não direi sofremos, pois através do sofrimento sempre reconhecemos, nossa autossuficiência e compreendemos quão tênue é a relação entre amor e amizade.”

Enquanto leio repenso a vida ela mesma. Encontro, desencontro. Se amor foram, ou não foram, …afinal, seguir em frente, pode ser apenas, seguir. Dou-me conta que nesse vagar refaço o traçado de sentimento perdido/escondido. Tempo e vivência/sentimento. Experiência paralela. O livro conta uma história. O livro escreve e descreve um sentimento ardido. Ora de um lado, ora do outro, e o painel faz parte de tantos pequenos pedaços que me pertencem! Então posso ser eu mesma, ou tanto Justine como Melissa, … ou feito boneca de pano, costurada / montada por/com retalhos. Observo. No tempo de dizer e escrever reafirma o texto: “O amor é bem mais verdadeiro quando surge simpatia em vez do desejo, pois deste modo não deixa feridas.” O desejo atropela! E o dito amor armado  atento e esperado sangra, pinga …e, nem sempre termina. O amor de vida inteira, intacto. Se arrasta andrajoso na carência de um querer mais que não se esgota, nunca termina. Começa quando […] “tomados pela sensação que irrompe naqueles que encontram alguém para compartilhar seu fardo de preocupações inconfessas.” (p.192-193) Vou devagar mastigando. O filho sublinha, não queres escrever – és leitora voraz. Entristeço. Na verdade tudo e muito  e tanto já foi dito sobre o amor. O que de novo, diferente tenho eu para contar? As mesmas histórias, sempre as mesmas histórias. Inventar significados, pontuar diferente, mas vou dizer de amar, e não amar, confessar, esconder, fugir, correr, sangrar, chorar. E tudo foi mesmo dito. Apenas  peço perdão. Peço desculpas. Avanço e recuo. Assim mesmo escrevo. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

muro e livros

pedaço do muro de Berlim, livros do curso de francês … e, uma saudade vibrando, atenta

não somos mais quem éramos

No fundo dos olhos azuis um lampejo de tristeza. Raiva. Mansa dolorida despedida. Altero a voz. ( …, cruel, num repente, curada e impaciente).  A entrega chamo amor.

Perdoa o abandono. Não deixo de me ferir. Em mim também dói. Desagradável silêncio. Você me fez/faz falta! De todas as maneiras, em todos os instantes. Restabeleço ordem na lembrança: rosas, petúnias, hortênsias e cravos, laranjas, pêssegos e morangos. Ajoelho e peço perdão. A igreja está quase vazia. Não somos mais quem éramos. Volto para casa. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

depois de fazer amor

…,porque penso sem poder pensar, digo quando preciso/quero calar, e o tempo, este dia que se arrasta, …assombra meu amanhecer. Eu me perco no passo. Desapareço na memória da tua memória. Sinto o ácido da saudade. Saudade indefinida de ti… Tu que chegas tarde, antes ou depois, por favor, me abraça.  O eu do meu pensar se debruça no do teu pensar. Haverá tempo, outro tempo. Em qual praça sentaremos, distraídos um do outro. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – do meio do caminho, escrevo para ti.

Era estranho caminhar ao lado de Justine naquele outono manchado de lua, […] E lembrava de forma vívida que Justine, depois de fazer amor, sentava-se de pernas cruzadas na cama e começava a embaralhar o pequeno tarô que sempre estava na estante, na companhia dos livros – como  se quisesse calcular o quanto lhe restava de boa sorte depois daquele mergulho no gélido rio subterrâneo da paixão que ela não tinha forças para domar ou apaziguar.” (p.170)) Lawrence Durrell – Justine O Quarteto de Alexandria

FALANDO no restaurante

Recife, Oficina Francisco Brennand – foto de Luiza M. Domingues

Isabel pensou

Ombros levemente curvados, calça jeans. Não, não era ele. Poderia ser. Levantou os olhos para a copa da árvore. Os passarinhos. Então, deu meia volta, e entrou na Igreja. A fugir do lugar… Tanto a consertar! Mas…, às vezes, fica presa. Inserida na história velha que justifica fantasia. Ela se desvia. Acomodação ou será libertação. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

Nunca haviam tido timidez um com o corpo do outro, mas agora estavam mais velhos (juntos) para saber o que era timidez. Agora eram. Mais velhos. Velhos. Uma idade morrível, viável. Que palavra engraçada, velho, isolada, Isabel pensou, e disse para si mesma: velha. (p.99-100) Arundhati Roy – O Deus das Pequenas Coisas – 1998 Companhia das Letras – São Paulo

deus das pequenas coisas

bustrofedón

“[…] reclamaria em silêncio ao pensar que este alívio acabaria criando mais oportunidade par nos encontrarmos, para inculcar nossas mentiras, para nos revelar ainda mais para nossos juízes. Ai estava outro paradoxo do amor; a mesma coisa que nos aproximara ainda mais  – o bustrofédon –  separaria-nos  para sempre  se conseguíssemos dominar as virtudes que representava, ao menos, aquelas partes de nós que se nutriam com as imagens construídas acerca do outro.” (p.149) Lawrence Durrell – Justine sofá ótima

a perfeição é o retorno

A história da humanidade, da tribo, dos predadores sensíveis que somos se resume no encontro festivo partilhado com vinho água e pão … afinal, o percurso da vontade, do limite, do desejo de dizer/gritar se esconde além do dizível. O silêncio escreve como o sentimento.

Enquanto te amo louca e desesperadamente, não te digo. Nunca saberás a medida, estamos, tu e eu, sentido… há que se desesperar na despedida para saber o quanto o amor é/foi amor. Elizabeth . B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

mata e hortências PASSEIO