Não vou para a África

Este ano não quero aproveitar as milhas do cartão com passagem. Vou me concentrar nos livros. Ficar afundada na cadeira preguiçosa. Trocar milhas por travesseiro, panela, chaleira, coberta. Vou deixar o prazo expirar. Sossegar. Viajar pelas gavetas, prateleiras, estantes… Decidir, afinal, o que vou me desfazer. Repassar velhos e rabiscados diários. Datar fotos antigas. Vou percorrer as ladeiras da casa. Subir escadarias, selecionar  livros, descer ao porão. Reler cartas antigas. Sentar na varanda. Escutar música. Renovar lençóis, toalhas. Comer uvas. Beber um vinho nos cálices da vovó. Colocar flores nos vasos. Este ano vou viajar em casa: sem fazer mala, sem entrar no aeroporto, sem percorrer distâncias. Não vou mesmo para a África. Elizabeth M. B. Mattos – 2015

Sempre a mesma coisa

Troco os móveis de lugar. Tiro da estante o livro. Velhas observações. Cada leitura, lembrança específica.  Repasso este, aquele. Tudo em desordem. Arrasto armário para lá, levo mesa. E aquela mesa pequena? Resolvo quebra cabeça das cadeiras. Fujo do computador. Da tarefa. Sou eu o centro. Interessa o que escrevo? Abro o livro.

 Experiência perfeita da leitura.  Descubro o nosso retrato, fico a nos perseguir em qualquer página, em todos os livros… Talvez seja isso. Se reconhecer um milhão de vezes. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2015  – Torres

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“Finalmente compreendi que a solução para o dilema, o constrangimento de escrever sobre ‘problemas pessoais insignificantes’ era reconhecer que nada é pessoal, no sentido de que é exclusivamente próprio de uma pessoa. Ao escrever sobre si mesmo, está-se escrevendo sobre os outros, pois os problemas, sofrimentos, prazeres e as emoções do autor – junto com suas extraordinárias e notáveis ideias – não podem ser apenas do autor. A maneira de lidar com o problema da ‘subjetividade’, essa chocante questão de estar preocupado com o minúsculo indivíduo que é ao mesmo tempo apanhado nessa explosão de terríveis e maravilhosas possibilidades, é vê-lo como um microcosmo e, assim, irromper através do pessoal e do subjetivo, generalizando o pessoal, como na verdade a vida sempre faz, transformando uma experiência particular – ou assim se pensa quando ainda se é criança: ‘Eu estou me apaixonando’, Eu estou sentindo esta ou aquela emoção, ou pensando isso ou aquilo ‘ ‘- em algo muito maior: crescer é, afinal de contas, nada mais do que aceitar que a única e incrível experiência que se teve é o que todo mundo partilha.” (p.13) O Carnê Dourado, Doris Lessing. Editora Record. RJ. 1972. 

Do desânimo

Não é cinza porque hoje fez sol. Não é falta de energia, levanto de um salto, bem cedo, caminho. Na ponta da lagoa, feirantes esticam lonas: verduras, frutas, flores. A lagoa corre, levemente, crespa. Estou caída aos encantos da crônica. David Coimbra na Zero Hora de sexta-feira, 06 de novembro de 2015. “Este mundo não é fácil. As pessoas são tudo, menos cristalinas, e, por mais que você tenha certeza do que é certo, nunca é certo que conseguirá fazê-lo e, se fizer, não é certo que acertará. A vida, definitivamente, não segue em linha reta.” Sobre canções, e poesia.

“A vida, definitivamente, não segue em linha reta. A selvageria do coração de Belchior não é a selvageria do tigre e do leão, é selvageria de cervo e do passarinho, do bicho pacífico e arredio, que não fará mal ao homem, mas não será domesticado. Este mundo não é para seres humanos como Belchior. Ele não se encaixa  nas exigências desta vida e, assim, afastou-se dela. O coração de Belchior é como vidro, como um beijo de novela. Por isso, por não aguentar, desistiu. Pelo menos é o que sinto. Porque como Belchior, às vezes também tenho vontade de pedir para a vida: Vida, pisa devagar. Meu coração, cuidado, é frágil.”

Descoberta

“Os pelos dourados sobre a pele morena, as pernas esguias, os braços leves, de músculos flexíveis, os olhos cismadores, na apaixonada contemplação de si mesmo, cada pedaço do ser refeito e desfeito, amontoado na curiosidade, no espanto, que me arrepiava todo, em ondas sucessivas – e o corpo cheira a maresia. Foi num desses quartos de porão habitável, na realidade um verdadeiro andar térreo com entrada própria, que mais tarde me desmanchei em gozo lendo A carne de Julio Ribeiro.” (p.88) A casa do meu avô, Carlos Lacerda

Impulsos perigosos

Comprei um lustre horrível. E não foi na promoção. É muito feio. Retirar imediatamente. Mas, tenho medo do próximo passo. Esquecer? Encaixotar? Tudo que acende aqui em casa tem luz fria de laboratório. Convivo assim mesmo, impactada. Não conformada com estes pequenos horrores. Compro geladeira esquisita, com espelho. Cafona. Claro, num site, menos dispendiosa… Divertido. Resultado? Olho, diariamente, para meu monstro metálico. Doar? A cozinha se enfia na sala ou a sala avança até a cozinha? Modernidade. E eu tão século dezenove! Afeita a boas cozinhas que guardam o perfume concentrado do assado, bolo batido, aromatizado. Rosa, lírio, o cheiro forte da madeira, do encerado nos quartos, na sala de estar. Enfim! Espaços geograficamente distintos na minha cabeça. Que desastre! Estou a conviver com os monstros escolhidos, comprados. Loucura. Posso pendurar o lustre em cima da geladeira. Terei uma instalação. Para enquadrar melhor a trajetória de horrores impulsivos, acabo de comprar um fogão branco. Por que branco? Porque normalmente são brancos. Não pensei na geladeira avizinhada? Estou tendo alucinações. A maligna megera se apossou de um recôndito, remoto bom gosto. Engolir o veneno, morte lenta. Acudam por favor! O kitsch veio morar ao meu lado. E não é o clássico pinguim em cima do refrigerador. Nonsense.  Impropriedade completa. Raiva. É pra chorar? O fogão tem dois fornos, e chamas assim, assadas. Apitos. E não gosto de cozinhar. Isso existe? Em oferta. Será que estava? Dizem que os velhos precisam de cuidadores, são perigosos. Impulsos, abstrações, histórias sem contexto, fantasias. Minha galeria de coisas feias parece significativa. Não é nada engraçado.

De volta no tempo

Esta coisa de envelhecer, encolher não é só dos velhos, mas das pessoas em geral. Do mundo. Desta parada que, a seu modo, cada um vai fazendo enquanto cresce. Desânimo impreciso, ou focado nesta outra coisa que todos nós fazemos, diariamente, consumir. Se sair com a lista de compras, aventuras de vitrine, voos de rotas imprecisas, o mundo interior se transforma, aplacamos ansiedade. Usufruímos. Esquecemos o que vai acontecer… Respiramos. Muito bom. Ufanismo colorido. Lucidez, felicidade engarrafada, alegria transbordante. Festa de todos os dias. Sorrisos e beijos. Esta coisa de ser feliz nos segura, e nos insulta também. Como posso entender tanto otimismo na mesmice? Agarrada em compulsiva solidão vai gemendo a vida surpreendida. A enganação se espalha esquisita, o que foi mesmo que fiz ontem? O que vou fazer amanhã? Por que estou imóvel e assustada? Tem alguém me ouvindo? Espera, quero ir contigo conhecer  a América do Norte, espera por mim. Elizabeth M.B. Mattos – Outubro 2015  – Porto Alegre

Sem pensar, deixar correr

1.

Desde que desmanchei o quarto do trabalho, nunca mais achei, ou me debrucei na  boa mesa boa, a certa…Sinto falta do Antônio, daquele socorro rabugento, mas amoroso, presente. Dá o abraço, esquece o chocolate… Dorme porque é inverno.

A perda responde à ansiedade. Será que posso ter carregado o passado? Lista, diz, pergunta. Outras coisas apenas somem do olhar… Comprar?Travesseiros. Perfume.

Lembro-me do fogão a lenha acesa, polido. Dos cobres. As sopeiras ordenadas. Festividade. Sempre para acontecer. A cada tempo um tempo. Jardim renovado. Cães estabanados. Diferente. Depois vem a coisa de habitar. Assim, minha filha, o tempo que parecia preguiçoso, grande, fica atormentado, atabalhoado. Espremido. E o amor com tentáculos, aperta. Sabes o que me ocorre? A vida como pequenos e grandes inventários. Doações, lavações, e escovações. Arrumar e arrumar armários. Redistribuir. Doar.  Os livros livros empilho. Revejo. Acaricio. É preciso  limpar.

Imagino a casa branca, móveis brancos, espaço. Sem tapetes apenas sol e calor. Quadros como janelas… Esta coisa de lembrar, e de dizer importa.

Estou atrapalhada. Não gosto do entardecer. Gostava quando morei contigo. Jardim iluminado. Cadeiras na varanda. Mar verde. Da tua casa se escuta o entardecer… E gosto de venezianas abertas. Conversas amolecidas, sem urgência. O tempo pode ser meteórico. Arrumar faz parte desta visitação ao passado. Limpar. Listar. Ordenar. Vou usar o ponto final. Desmarquei a manicure. Fiz a sopa, Tomei café.

Escuto o gotejar. Chuva ininterrupta. Encontros apressados, atravessados de lapsos. Outro café, um pedaço de bolo. Queremos  a vida como era, ou como deveria ser, não como é…

2.

Escrevo mentalmente todos os dias. Ou pelo menos ajusto a conversa no papel. Na tua casa falo, ou melhor, atropelo teus ouvidos. Liberada.  Avolumam-se queixas. O prazer. Estou no lugar certo. E vou ficando até me dar conta que estás quase fechando os olhos… O jantar que fizeste foi tão bom! Mas não parei de falar, nem um minuto.  Desculpa. Falo demais, rápido, engatando um assunto no outro como se mais que amiga fosses o anjo, o mestre, o médico, ou sei lá quanta coisa ao mesmo tempo. Abuso. Pessoa forte, vigorosa que és me instigas a pensar e processar, e revidar. Confio.  Cutuco. Mas escuto o que me dizes também. Gostei quando me perguntaste, tão diretamente, por que não expunha o sentimento de desconforto para a irmã. Ainda penso nisso embora tenha te dado uma explicação na hora. Não entenderia. Não mudaria nada. Talvez, apenas gerasse mal estar. Não encontrei outra resposta. Esquisito isso. Depois de certo tempo não importa mais o que dizemos dos velhos e sólidos sentimentos, soa falso. Explicações podem confundir. Ou romper o elo. Conversas importantes, fustigantes, doloridas! Necessárias? Não sei. Estas esquisitices que só a terapia explica, se é que explica. Tempo aberto, infinito, e já sem voz concluiríamos que não é o discurso que importa, mas estarmos um diante do outro. Escreve. Gosto da tua tenacidade.

Ler Boris Fausto, logo

O autor divide o diário em anos, e coloca pequenos títulos com datas. Long Live  Bukovina 5 de junho. Este começa assim:” Termino uma resenha de Tempos fraturados , o último livro de Eric Hobsbawm […]” Vale a leitura urgente. Segue no dia 7 de junho, com  o título Preconceito.

Páginas 152-156. Vou citando sem transcrever. De repente, num repente, pega-se o livro na Saraiva ou na Livraria Cultura e já se dá conta do recado. Não o dele, mas o meu é fácil. Estou mesmo presa na leitura.

Calendário

“Um dos efeitos da solidão consiste no modo como percebemos o calendário. Os fins de semana são difíceis, especialmente o domingo, em que a solidão torna ainda mais penosa a chamada neurose dominical. Os feriados prolongados, que despertavam uma expectativa gostosa, tornam-se um desafio. Como atravessá-los incólume? Natal e ano-novo, para quem não está para festas, são datas que mal se encaixam, momentos que fazem as recordações de outros natais, outras viradas de ano saltarem a nossa frente como cenas do passado esvaziadas de personagens vivos”(p.83)  Boris Fausto, O brilho do Bronze [um diário]