Escrevo mentalmente todos os dias. Ou pelo menos ajusto a conversa. Quando estou contigo explico, conto, digo, ou melhor, atropelo teus ouvidos. Liberada. Avoluma-se a voz, a queixa. O anedótico também. Quando estou na tua sala, estou no lugar certo. O jantar que me preparaste perfeito naquela quinta-feira, perfeito! Esqueço hora. Dou-me conta que falo demais. Rápido. Um assunto no outro como se mais que amiga ali estivesse o anjo, o mestre, o médico, ou sei lá quantas em apenas uma pessoa. Abuso. Confio. Cutuco. Perguntas por que não exponho, frontalmente, os meus motivos… Penso no desconforto. Não mudaria nada. Talvez, apenas aprofundasse o mal estar. Importa ter esta, ou aquela angústia explicada? Fechar a porta distraída. Esquecer a janela aberta. Quebrar o copo, e estar a me desculpar? Passados tantos anos já não importa o que dizemos. Estes velhos e sólidos sentimentos que se batem, agitam o ambiente se cristalizam. Explicações soam falsas. Pode romper o elo. A conversa agitada de ajuste fustiga, confunde. Deixa de ser importante. O abraço resolve melhor. A terapia explicaria, mas não mudaria a situação. Não é mais o discurso que importa, mas estar uma diante da outra. A passividade do amor…
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Sonho dentro do sonho
“Quanto a ter medo dos espaços vazios entre os números, você alguma vez contou para o David que o número de números é infinito? Mais de uma vez. Não existe último número, eu disse para ele. Os números continuam para sempre. Mas o que isso tem a ver com a história? Existem boas infinidades e más infinidades, Simon. Já falamos antes de más infinidades – lembra? Uma má infinidade é se ver num sonho dentro de um sonho dentro de outro sonho e assim por diante, sem fim. Ou se ver numa vida que é apenas um prelúdio etc. Mas os números não são assim. Os números constituem uma boa infinidade. Por quê? Porque, sendo infinitos em número, eles preenchem todos os espaços do universo, apertados uns contra os outros como tijolos. Então estamos seguros. Não tem por onde cair. Mostre isso para o menino. Ele vai ficar mais tranquilo.”
Entre a rigidez e o aborrecido. Fiquei lendo, presa. Amarrada. O autor e a forma. Gosto. Fiquei do lado de fora lendo A infância de Jesus. Distopia? Existe outro J.M. Coetzee.
Barro Seco
Em toda a forma de ser há incoerência; extrema incoerência na rigidez dos acontecimentos, os mais perfeitos. A vida se desmancha em calamidades, eu me transformo em barro. Construo muros. Esculpir, martelar. Tecer as tiras de couro do açoite, forjar correntes. Impossível fechar os olhos: tudo volta sempre e sempre a exigir para si um espaço próprio, um estreitamento a superar o outro. Percebo que antes de qualquer ato ou vislumbre esbarro no meu eu. O que me acontece hoje está no passado sombreando. Repetidas vezes o mesmo… Eu me escondo atrás de máscaras. Mas o medo volta. Entro na lembrança, e lá estou exposta ao insuportável provável. Oscilo entre a percepção da existência e a ilusão.
Abro o livro. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2015 – Porto Alegre
“Não queria escrever, mas acabei por me resignar. É só para saber até onde fui parar, onde tudo foi parar. A princípio eu não escrevia, eu só dizia. Depois eu esquecia o que tinha dito. Um mínimo de memória é indispensável se a gente quer viver realmente.”
Samuel Becktt, Malone Morre.
Chove tanto, expliquei
Lembro-me do fogão a lenha aceso, polido. Dos estofados novos. Também do brilho nos cobre. As sopeiras ordenadas. Festividade constante: estado de espírito. A casa acontecia todos os dias… A cada tempo um tempo. Jardim renovado, árvores crescidas. Cães estabanados. Diferente. Carolina, muito depois, habitar. Criar alma. Hoje é diferente. O tempo que parecia preguiçoso, grande ficou atormentado, atabalhoado. Espremido. Novos tentáculos. Sabe o que imagino? A vida deve ser feita de pequenos e grandes inventários. Doações, lavações, e escovações… Eu, por exemplo, fico querendo arrumar e arrumar outra vez, arrumar repetidas vezes o mesmo armário. E os livros? Empilho. Revejo. Separo para me desfazer destas pilhas, colocar outra seleção naquela estante. E quase não tenho tempo para ler, espiar, acariciar. Foge o dia. Depois, estaciono na poeira, nos odores. Enquanto outro lado da imaginação deseja uma sala completamente branca. Móveis brancos, espaço. Casas italianas, mediterrâneas? Sem tapetes. Sol e calor. Tudo isso porque está cinzento, chove tanto, e sinto uma friagem entrando no corpo…
Hoje ela me fez uma visita. Contou da primeira edição da novela Viagem pela Alma. O livro experimento…
– Sem plano, um dia depois do outro… Criou corpo, identidade. Explicou. Se aos pedaços é como escrevo, pode ser experimentação. Mesmo assim, ainda sinto uma brutal solidão.
E ficamos silenciosas. Na diferença, o inferno. No silêncio a paz. Enlouquecemos, ou nos deixamos ficar na superficialidade da relação. No afeto morno.
Enchi a minha xícara com chá. Voltei ao livro que estava lendo.
“Então, ele lamentava não ter aprendido a arte de pensar, começando por dobrar o segundo e o terceiro dedos a fim de colocar o indicador sobre o sujeito e o dedo mínimo sobre o verbo, como seu professor de latim ensinava, e lamentava não ver sentido na babel de dúvidas, desejos imaginações e temores que lhe doíam na cabeça. E com menos força e coragem, ele também teria abandonado para sempre a possibilidade de vir, a saber, que tipo de ser ele era como iria viver, e viveria vencido, às cegas, num mundo louco, em meio a estranhos.”
Becket, Samuel. Malone Morre. São Paulo. Códex.F-QM Editores Associados Ltda. P.26.
Não há silêncio
Chuva contínua batendo nas vidraças, numa fala ininterrupta. Escuto. Já é terça-feira. A carta que te escrevi mentalmente foi no domingo. Fazia sol, quase quente o inverno torrense. Segui o rastro da maresia. Sai das dunas, atravessei o arvoredo de espatódeas floridas e amendoeiras esparramadas rumo à nova cidade. Torres enormes apontam. Vazias. Casas fechadas. Recolhidas porque é inverno. Gramados aparados. Um carro, outro, uma moto. Duas pessoas. O cachorro e eu. Hibiscos na divisória de terrenos baldios. Pouco, nenhum vazio por aqui. O vazio guarda- se no peito. Cresce adubado pra florir. O meu tem camélias. Vazio interno que habita as pessoas, colorido. O lugar físico foi tomado, povoado. Explosão imobiliária. Pelas calçadas irregulares sigo com os olhos velhos paralelepípedos. Gosto deste calçamento heroico.
O mar naquele verde acinzentado, pestanudo, penteado com espumas brancas. Areia fina, endurecida. Sinto vontade de avançar e beber água salgada. Gaivotas. Pedras, as nossas falésias!
Sinto não ter janelas frente ao mar. Pesqueiros amanhecendo no horizonte. O cheiro, a maresia. Areia fina grudada nos vidros. E o som do vai e vem. Fluxo como se fosse o centro de capital: carros e pessoas, mas não é, apenas o mar e o vento. Agito. O som sacode o corpo. Não há silencio por aqui…
É da natureza humana ter sonhos



Ao acaso, ainda lendo Coetzee, apreendo forma, sentido. Apreendo prazer.
Estou de volta pro mar. Esperando a medalha. Esperando. E, no entanto, sem fazer nada especial.
“ A gente gosta de pensar que é especial, meu menino, cada um de nós. Mas de verdade mesmo não pode ser assim. Se todo mundo fosse especial, não sobrava para ninguém ser especial de verdade. Mas nós continuamos a acreditar em nós mesmos. A gente desce até o porão do navio, no calor e na poeira, carrega o saco nas costas, leva para a luz, vê os amigos batalhando do mesmo jeito, fazendo exatamente o mesmo trabalho sem nada de especial e sentimos orgulho deles e de nós mesmos, nossos camaradas trabalhando juntos com um objetivo comum; mas num cantinho de nosso coração, que escondemos bem, cochichamos para nós mesmos: Porém, porém, você é especial, você vai ver! […] ” (p.58)
J.M. Coetzee, A infância de Jesus.
Infelicidade
A infelicidade é um estado de reforço. Um estímulo. Um pedaço de verdade dentro do efêmero prazeroso da alegria pura. Importa trabalhar. Estabelecer-se num fazer seletivo. Aquilo que se acredita: o desenho, a costura, o molde, o bordado, o alinhavo, o término de um vestido, de um livro, de um quadro, de uma sinfonia. O fazer concluído nos renova.
“Li em Bernanos que a infelicidade é uma espécie de bênção. Sobre esse catolicismo melado, respondi em meu livro que toda a felicidade é basicamente uma banal invenção católica. A felicidade, escrevi, é kitsch. Não há nada em comum entre ela e a daimonia dos gregos. E no judaísmo não existe nenhum conceito de felicidade, nem sequer uma palavra correspondente na Bíblia. Excluindo, talvez, a satisfação pela aprovação, uma retribuição positiva do Céu ou do próximo ‘Bem-Aventurados os íntegros’, por exemplo. O judaísmo reconhece apenas a alegria. Como no versículo ‘Rejubiíle-se jovem’, com tua juventude. Alegria efêmera, como o fogo de Heráclito, o enigmático, cuja vitória é a sua destruição, uma alegria que contém dentro de de si o seu oposto, que na verdade a condiciona.”
(p.95) Amós Oz – A Caixa Preta
Reforço. Estímulo. Efêmero. Prazer. Alegria. O desenho, a costura, o molde, o bordado, o alinhavo, o término de um vestido, de um livro, de um quadro, de uma sinfonia. O fazer concluído nos renova.
Grafia do retrato, memória
Meu amigo:
Penso autobiografia. Traço o esboço da casa, e das pessoas que entravam, saiam, e ficavam. Da limpeza, do estético, da elegância de minha mãe. Café preto, cigarro, bandejas. Quadros, cortinas, e lareira acesa. No verão, Torres e as balsas.
O incomum se agita. Penso, principalmente, na Anita que não conheceste. Rebelde, anestesiada destas baboseiras da vida do corretamente adequado. Personagem forte. Arrimo emocional. O tempo se agitava passando pelos seus dedos acolhendo os outros tempos. Sentada na ponta do sofá, desenhava, escrevia, silenciosa abria revistas, escutava Beethoven naqueles discos pequenos! Depois conversava, falava, opinava sobre tudo. Pontuava. Sugeria. Sorria. Transgredir talvez fosse a palavra certa, a posição corajosa de recuar aqui, e seguir ali por cima das pedras, escorregando, mas seguindo. Não olhar para trás, mas entender o perigo, aceitar o açoite, e ficar. Deixar a água correr.
Já escrevi disse. Bambus podem ser a cerca perfeita. Ouve-se a voz do outro lado, vemos sombras, mas permanecemos separados. Os vizinhos não invadem. Seguem debruçados, conversam, falam, soltam foguetes, festejam, não prestamos atenção.
Pai e mãe em leituras, em conversas agitadas por discussões, e opiniões, protegem o feudo. Tecer com cuidado. Posso dizer, aplicado?
Volto a te escrever amanhã.
Da ausência


Da ausência. Da pedra principal deste jogo, a substituição: cerejas, copo de vinho, beijo ao acaso… Válido até um determinado momento, mas incompleto. Não altera o absolutamente correto. Na vida não existe regra. O corpo cansa, desmedidamente, ao peso emocional. Exercício físico repousa. Maternidade energiza. A pedra da ausência nos afoga.
Se a criança é solicitada, cresce rápido, fácil. Adapta-se ao meio, ao silêncio, sobrevive. Amadurece. Teorias se invertem, pensar é assim flexível, orientar, dizer, pode ser contraditório. A fala, ela mesma, se esvazia… repetitiva, volteia, retorna, se reinventa estranha, ou sem sentido. Constante alerta. Descarta-se dependência.
Estar na calçada, nos quintais, significa liberdade. Nascer, crescer. Infância sem violência, mesmo com carências, ou nos excessos ilumina qualquer história.
Volto ao quintal, aos dois jacarandás, ao gramado. Vozes estridentes. Joaquina, Maria. Aventais a se movimentar. Trazer, levar bandejas. Polir pratas, escovar. Casa cheia.
Pai, mãe, irmãs, tios, amigos. E se demoravam à mesa. Os agregados bocejam, ou saem às pressas. Passam a mão na minha cabeça. Do excesso de algazarra, liberdade vigiada. Um par de olhos, uma reprimenda. O comando sem presença impositiva, presença velada.
Sinto falta, não lembro, reprimo, ou é fantasia. Quero a mãe vestindo, alimentando, alertando. Puxando pela mão, brincando, ou lendo em voz alta. Afazer delegado. Tia, avó, qualquer um, ou todos. Não ela.
Um pai gentil. Se demora no cuidado com as filhas. Leva para escola. Carrega as compras, amarra os cadarços do sapato, busca o casaco. Envelopa as cobertas, fiscaliza o sono. Fecha a janela. Espia.
Esta ausência se prolongou, estranhamente, com a morte da amiga, dos amigos do casal. Lygia desapareceu no famoso acidente aéreo do Morro do Chapéu, e Anita ainda estava em Paris. Eu tinha quatro anos. Não sei se Freud explica. Deve explicar, ficou a lacuna. Corríamos, Magda e eu, de uma calçada para outra. As casas parecidas, uma em frente da outra. A deles maior, vistosa, com escadas, quarto de bonecas, sacadas. Misteriosa. E, completamente nossa. Infância povoada. Pessoas. Muita fala. Muitos livros. Muitos tapetes. Ordem. Limpeza. E ausência. As irmãs maiores iam e vinham, aula de balé, equitação. E vestidos.
Fotos do trabalho de Duda Apolônio
apressado e conturbado
Inquieta fragilidade que me arrasta neste mar…
Navego sem bússola nem rota. Sem texto. Sem eixo.
Espicho a lembrança. Rascunho, rabisco.
Casamento apressado, crianças nascidas. Estudos conturbados. Ipanema, cachorro quente, o francês, Spinelli, cambraia de linho, galerias, boutique. Cinema. Carlos Lyra no teatro. Ônibus. Roberto, Márcia, Marco na Prudente de Morais. Aldinha e Fernando Sabino com encontro marcado. Olívia, Willy, Sofia, Sonia Maria, Paulo Sérgio.
Esqueço candelabros, porcelanas, cristais, Portinari, Caribé ou Iberê… Gianfranco. Do Rio de Janeiro, o Leblon. Já se acomoda a ditadura militar, anistia. Sentada nos caixotes da mudança, Cristo Redentor, Humaitá, Viúva Lacerda em fogueira de saudade a Porto Alegre da rua Garibaldi. Edifício Elizabeth. Pedalo no invisível retorno juvenil. Acabou a festa da preguiça jovem, a liberdade. Elizabeth M.B. Mattos






