Perdas e Danos

Decidimos o percurso do desastre. Conscientes ou não, explicitamente, ou implicitamente. Reservado, lacônico, inseguro. Viajo nos sentimentos. Solto amarras. Confiante menino!  Dificuldades, afetivas. Tendência de ver o mundo filtrado por sonho seguro. O que significa estar/ entrar na vida de alguém? Você pode ser obsessão: a mala que eu não pude abrir.

 

“É preciso sair deste torpor. Vou caminhar, reaprender. Quando choramos por aqueles que morrem no viço da juventude – aqueles que foram privados de tempo para viver -, choramos por alegrias perdidas. Choramos por oportunidades e prazeres que nós mesmos jamais chegamos a conhecer. Temos certeza de que, de alguma forma, aquele corpo jovem teria conhecido o desejo e o prazer intensos que procuramos em vão durante toda a vida. Acreditamos que aquela alma jovem, inexperiente, presa na armadilha daquele corpo jovem, poderia ter sido livre e conhecido toda a felicidade que ainda buscamos. Dizemos que a vida é bela e que proporciona satisfações profundas. Tudo isso nós dizemos, enquanto caminhamos como sonâmbulos, percorrendo o nosso tempo, através de anos feitos de dias e noites. Permitimos que o tempo caia sobre nós e se vá, rápido como as águas de uma cascata, acreditando que nunca se esgotará. E, no entanto, cada dia que nos toca – e a todos os homens do mundo – é único, irrecuperável, finito. E é apenas mais uma quarta-feira.”

(p.16 – 17 – Josephine Hart, Perdas e danos.)

Você marca o dia

Você se perdeu no caminho, mais ou menos do mesmo jeito que apareceu, no repente. Misturou pontos atados de outras histórias.Você apareceu naquela tarde de luto, entre a morte e a vida do amigo pintor. Você estava lá marcando presença cercando o mito Iberê Camargo. Todos estavam lá. Acaso fúnebre, mas amoroso. Chegava de Buenos Aires, numa das suas infindas idas e voltas, na procura ansiosa de nova casa, novo rumo. Construir em pedras gastas o passado. Enterrar a cada folha escrita uma memória meio esquecida.  A luta desmancha, acelera o desmantelamento, confunde o real. Neste momento nos conhecemos, antes das memórias esquecidas.

Abafada pela tristeza do último olhar, pela dificuldade da fala, escutei sem ouvir. Queima, como Hiroshima (a cidade queimada, a cidade de cinzas, a cidade de morte), a voz de Iberê… História não vivida, mas imaginada em cada detalhe do inacabado em pinceladas no gigantesco quadro azul, o último. Três personagens se afastam e convergem no grito solidão.  O pintor imagina o escritor omite desvia. Você foi o ritual de passagem, – transição da narrativa: o pintor pinta, o jornalista escreve. O fio do acaso. Como se meu amigo pintor, antes de morrer, entregasse em tuas mãos um pedaço de amor para ser vivido. Se ordeno a lembrança daquele dia esbarro em você. Alinhavei o romance do mar e lembranças agrestes do artista pintor. Na sacada debruçada no penhasco você incluía notas de rodapé, títulos. Estendeu o braço acolheu olhar e manuscrito. Se pudesse soubesse escrever memória! Dou-me conta da falência das palavras: escrever seria, sempre, antes de tudo, ler. Elizabeth M. B. Mattos -fevereiro 2015 – Porto Alegre

Releria Javier Marias escreve na sua trilogia: SEU ROSTO AMANHÃ.

“Minha memória está tão cheia que às vezes não a suporto. Queria perdê-la mais, queria esvaziá-la um pouco. Ou não, isso não é verdade, prefiro que ainda não me falhe. O que eu queria é que não houvesse enchido tanto. Quando jovem, você sabe, a gente tem pressa, e teme não viver o suficiente, não aproveitar as experiências bastante variadas e ricas, a gente se impacienta e acelera os acontecimentos, se possível, e se carrega deles, faz estoque, a urgência é muito estranha. Ninguém deveria ter este medo, nós, velhos, deveríamos ensinar isso a gente, mas não sei como, hoje ninguém escuta os velhos. Porque no fim de qualquer vida mais ou menos longa, por mais monótona que tenha sido, e  anódina, e cinzenta, e sem turbulências, sempre haverá demasiadas recordações e demasiadas contradições, demasiadas renúncias e omissões e mudanças, muito passo atrás, muito arriar de bandeiras, e também demasiadas deslealdades, isso é certo. E não é fácil ordenar tudo isso, nem mesmo para se contar a si mesmo. Demasiada acumulação. Demasiado material brumoso e amontoado, e ao mesmo tempo muito disperso, demasiado para um relato, até para um relato apenas pensado. E não falemos das infinitas coisas que caem no ponto cego do olho, toda vida está cheia de episódios literalmente invisíveis, você ignora o que aconteceu porque simplesmente não viu, não teve a possibilidade de ver, boa parte do que nos afeta e nos determina está tapado, como dizer, não se ofereceu à visão, subtraiu-se, não houve ângulo. A vida não é contável, e é extraordinário que os homens tenham passado todos os séculos de que temos conhecimento dedicando-se a isso, empenhados em contar o que não pode ser contado, seja em forma de mito, de crônicas, anais, atas, lenda ou gesta, versos de cego ou cantigas, de evangelho, vida de santos, história, biografia, romance ou elogio fúnebre, de filme, de confissões, memória, de reportagem, dá na mesma. É uma empresa condenada, falida, e que talvez nos traga menos benefício do que danos. Às vezes penso que valeria mais abandonar o costume e deixar que as coisas apenas passem. E depois se acalmem.” (p.109-110. Vol.1) Febre e Lança.

Bolachas recheadas, amêndoas, mel e leite

1.

Bolachas recheadas, amêndoas, mel, um caneco com leite. Um cacho de uvas rosadas, leite e banana, uma colher de sorvete. Duas fatias de pão preto, duas fatias de peito de peru defumado, alface, tomate, pepino em conserva. Camarão refogado, pão e salada verde: folhas de rúcula, alface americana, e salsa picada. Um abacaxi de Terra de Areia.

Vestido de estampa: amarelo, beterraba, verde, e marrom. Cabelos cacheados, presos por um grampo. Algumas pontas escorregam pelo pescoço. O decote comportado, mangas japonesas. Os olhos estão desenhados com lápis preto por fora, e outro avermelhado. Os cílios são longos. Boca rosada. Brincos pendentes. Grandes, e no pescoço, dois colares de pérolas barrocas, e dois de cristal. Ainda corrente de elos douro. Flores colhidas no campo nascem junto as cercas: amarelas e roxas. Posso convidar as meninas para uma conversa de esconder, separar, brincar…Segredar.

Um dia um homem mais velho, rico, bem rico, bem velho me convidou para jantar. Eu fui. Noite de risadas, escritos, bilhetes seguiram outras risadas, noite de não dormir. Nunca mais voltei. Esqueci de mim. O nome, o português, a nova língua aprendi em um mês, falo russo. Alongo as pernas em calçadas, restaurantes, espetáculos e beijos. Veludo, rendas, joias, tardes de sol. Sono, sonhos entre sonhos.

2.

Morreu o escritor e jornalista Antônio Carlos Resende

Igual a ti só no inferno, Roubai-vos uns aos outros. Fiéis infiéis, Jairo e seus diabos.  O rapaz que suava só do lado direito, estes são da memória.Vou sentir saudade do amigo.

Resende, Antônio Carlos:  O rapaz que suava só do  lado direito, coleção RBS Editora Globo, Porto Alegre, 1979.

“Tomo hoje a decisão de começar a análise e vou logo contando pro cara,”

A página final, o trecho do suicídio, é sem dúvida um belo exemplo de arte literária, nenhuma concessão ao lugar comum, nem ao sentimentalismo, somente o ritmo de uma espécie de pressa lenta, e uma ânsia funda que se adensa na dança das palavras. Na linguagem, a espontaneidade coloquial do falar gaúcho. Tanta coisa a ser lembrada, dita, escrita.

Bife na chapa, ovo frito, batatas, uma cerveja. Na madrugada de ficar ao teu lado. Vou comer um cachorro quente daqueles secos, com pouca mostarda. Beber Coca-Cola. Chorar. Chorar bastante. Ler o que ainda não li. Hoje é só bobagem… Faz tanto tempo que é só bobagem! Comprei violetas para tua mulher. Levarei lírios e rosas. Perfumam. Não sei o que faço.  Aprendi tanta coisa com teu cuidado! Obrigada amigo!

A mesa estava cheia de coisas boas para comermos…Um café preto. Teus incentivos. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro – 2015 – Porto Alegre

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Eu minto

“Eu minto e ela sabe que eu minto e que eu sei que ela sabe que eu minto e aceita isso sem zanga nem sarcasmo, verificou o médico. De longe em longe cabe-nos a sorte de topar com uma pessoa assim, que gosta de nós não apesar dos nossos defeitos mas com eles, num amor simultaneamente desapiedado e fraternal, pureza de cristal de rocha, aurora de maio, vermelho de Velázquez.” (p.30)

António Lobo Antunes, Memória de Elefante

A Beleza

images (1)images (2)download“A  Beleza é o símbolo dos símbolos. A beleza tudo revela, porque nada exprime. Quando ela se nos mostra, revela-nos todo o ardor do Universo.” 

“[…] a crítica, a mais elevada, trata a obra de arte como um ponto de partida para uma criação. Não se limita – pelo menos assim supomos – a descobrir a intenção real  do artista e a aceitá-la como definitiva. E o erro não se acha nela, pois o sentimento de toda a bela obra criada reside pelo menos tanto na alma que a contempla como na alma que a criou. E é mesmo o próprio espectador que empresta à bela obra suas inúmeras significações, no-la torna maravilhosa, a põe em novas relações com a época, de sorte a torná-la uma parte essencial das nossas vidas, um símbolo do que aspiramos, ou talvez, daquilo que após havermos desejado, receamos conseguir. “(p.121)

A Decadência da Mentira e Outros Ensaios, Oscar Wilde,

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Imago Editora, São Paulo. Tradução e apresentação, João do Rio.

Inoperância

Lá vão eles. Lá vem eles. Sempre dois a dois. Sempre aos pares, sempre, sempre. O casal. Lado a lado. Juntos. Caminhando. Parados. Conversando. Umas conversas tão sem assunto. Tão sem gosto. Tão sem fé como um chá das noves ervas para os males da monotonia…Um ponto de interrogação para a lógica, e o descaso que cada pessoa possa ter por seu eu, sua vontade própria. Quanta ignorância nesta enganação! Ideia fixa de ser dois. Há que aguentar bem a vida, com paciência, entre trincheiras sejam elas quais forem!

Ora! Na paternidade e na maternidade duvide-se a verdade. Confunde-se gratidão com generosidade, amorosidade com paciência. A linha não é reta, mas paralelogramo de forças. Só o resultado é direção lógica e natural, porque exprime o meio termo humano e o velhíssimo, inevitável, humano bom senso. Mas lá vão os dois! Lá vão eles.  Sempre dois a dois. No entanto, cada alma, um mundo à parte em cada peito… Que inoperância!

Quem escreveu isso?

O crisântemo descabelado

 “A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda. Dizem que se esconde por modéstia. Não é. Esconde-se para poder captar o próprio segredo. […] A margarida é florzinha alegre. É simples e à tona da pele. Só tem uma camada de pétalas. O centro é uma brincadeira infantil. […] O jasmim é dos namorados. Dá vontade de pôr reticências agora. […] Dama-da-noite tem perfume de lua cheia. […].

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 E Clarice segue daquele jeito escorrido, fluído, maravilhoso que ela inaugurou, e rege.

“O crisântemo é de alegria profunda. Fala através da cor e do despenteado. É flor que descabeladamente controla a própria selvageria.

Acho que vou ter que pedir licença para morrer. Mas não posso, é tarde demais. […]

Lawrence, Lispector. Tempos diferentes, o gosto, a cor, o mesmo desejo ardido e descabelado.

Água VIVA, Clarice Lispector, página70-72, escrevendo das flores.

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Os crisântemos pertencem à família das margaridas. Os jardineiros cultivam crisântemos pelas suas flores numerosas e vistosas. O nome crisântemo deriva de duas palavras gregas que significam flor dourada.

Ao sabor do vento

“[…]pessoas que vivem ao sabor do vento. Parece interessante num primeiro momento, mas isto também significa não se posicionar, não tomar partido[…]”

É um estilo de vida, um jeito de ser, e tomar partido, engajar-se no sentimento, nos afetos, para o coração, pode ser a escolha, emocionalmente, errada quando se trata de um ser mundano, quero dizer, que vive no mundo fora da pátria, embora conjugado com ela, como é o caso. Sei lá se é bom viver no/ do outro lado do mundo, na outra lua, lembrando Hurakami. Como jogar futebol para times de outros países que não o seu! Ganha-se melhor, aperfeiçoa-se, faz a diferença… sei lá! Tem sempre alguém que quer explorar outros planetas, outras estrelas, e os que se acomodam num asteroide, como o Pequeno Príncipe. O que significa botar o pé no mundo? O amor, ou estas histórias amorosas, ou amorosas histórias de amor com ladeiras, precipícios, noites enluaradas, prazeres, delícias, lágrimas, e irritação. Superação, aceitação, as chamadas generosidades, e, constante negação interior. Não somos adestrados, amestrados, somos selvagens. Não somos? Se quisermos estar fazer parte da manada, do grupo, do acerto, da dupla, em família, socialmente dizendo, há que se acomodar com diretrizes e bases, dogmas, ou leis. Está na natureza rebelar-se. Num primeiro momento, como dizes. Existem seres humanos que permanecem selvagens. E digo selvagem no melhor sentido, a escolha é a do momento, ou salto, e vivo, ou entro na caverna, e me escondo, ou… Subo na árvore, tudo depende do cenário, do perigo, da força do momento. Escolher parcerias, complicado. Escolher é aperfeiçoar o limite. Bem, de certa forma, também um desafio. Outro tipo de desafio. Dizem que o tempo define o amor, o companheiro, mas, até este tempo de certeza chegar passamos por muitas surpresas, apenas, aceitando… Ao sabor do vento. Complicado para ambos os lados, mas muitos ambicionam o limite. Comprometer-se, em todos os sentidos, nem sempre é possível. Defendendo o moço? Pode ser. Não só histórias, fatos, nós trepidamos, suamos, e nos irritamos com o afeto, com a falta dele, o equilíbrio, a lógica não está na paixão. Aliás, não está em lugar nenhum. O bom companheiro acontece no bom momento. Clichê: no ambiente de trabalho, no desafio profissional, na mesma rua, no mesmo bairro, com a mesma situação financeira, com as mesmas, e reconhecidas carências, com os ajustes certos na hora de dar espaço, em família, na tragédia. Sem mágica. E, o principal, saber quem somos, e como queremos querer.

Que coisa mais longa!  Se viajar hoje …Talvez chegue para o cinema, não sei. Estou sem o hábito. Esta coisa de ler toma tempo!  O livro não posso emprestar. Cheio de anotações, intimidades. Fico assim, indo e vindo nas vontades! O temporal segue. Quase caiu um poste aqui na lagoa.  Muita chuva, e vento. Tanto vento!

Diário 1Q66

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Citações e conversa / texto, esquisitos. Desgraça. Despedaçada mulher – personagem que se decompõe na dor de apenas ser a mãe. Diário de 1Q66.

Uma jovem mulher a lamentar-se de filhos belos, mordazes, e presentes. Envelhece por dentro. Amamenta, embala, sorri, e envelhece por fora também. Lacrimeja perdida. O tango? E o gosto do prazer partido.

Mauriac, Lorca, Turgueniev, Paulo Hecker Filho, Paulo Autran, Maria Della Costa. A beleza ultraja, transgride o talento. A beleza se transforma em escudo. Cria sombras. Maria Della Costa bela, genial, mas, principalmente, belíssima! A beleza abafa, ou se aperta. O poderoso estende a mão de midas, e sufoca ao mesmo tempo que acarícia.

Em paralelo,  o sofrimento sonha segredos intrusos usurpa o direito de ser apenas mulher. Maternidade escrava agravada como se para sempre fosse, apenas mater em idade. Palavra velada, ou vomitada…

A tragédia respinga, e o sofrimento se faz já ao café da manhã, com o primeiro cigarro. Pesado esforço para ser o que de fato já deixou de ser, alegria alegre… Inteligência equivocada. Emocional dividido, somos o que queremos, mas também o que não queremos.

Escrito solto num caderno azul que sobreviveu as mudanças. Devaneios, e confissões. Os casamentos nos consolam. Casamentos, bailes, e verões no ócio. Não foi a inteligência, nem a formosura que a livrou da solidão. Confusão que nos arrasta aos equívocos. Mundo paralelo. Beleza ou talento? Elizabeth M.B. Mattos –  janeiro de 2015

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