O tempo do jeito que pode ser
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O Tarzã
– Tarzã? Mas eu conheço bem este Tarzã! É um que se balança, de tanguinha, ao longo dos cipós, gritando e bate no peito?
– Pffff!…Um minuto! Não se sabe se ele tem inimigos nem amigos; ele dorme pouco, não bebe, nem fuma; prudente e encurvado, ele arrasta sua alta silhueta magra e desengonçada pelas clareiras do mundo inteiro. Ademais adquiriu o estranho costume de morar onde trabalha, nas próprias obras em que dirige homens e máquinas.
– Queres chamar o Tarzã?
Notícias pelos poros. Frio e calor ao mesmo tempo. O poder onipotente é o foco. Feiticeiro ou sábio. O Tarzã, o meu. Fazedor de mágica, anedota, estória. Aquele que merece a fama cria invejosos.
À tardinha, depois da sesta, no momento em que o sol começa a se pôr, o feiticeiro interroga acerca de coisas obscuras e complicadas, repetidas vezes. Fatos se agitam, tresloucados, e se misturam, apertam…Ironia dissimulada, a pergunta insiste. Flagrante delito de ignorância! Não sei como chamar o herói. Silêncio. Sorrindo a plateia aplaude. Elizabeth M.B. Mattos – março – 2015 – Torres
Pote e Ouro
Escrever o que não tenho certeza, ou não sei. Chegar ao âmago da confusão. Seguir às cegas. Tocar no pote, reconhecer o metal precioso, a moeda. Vale para ficção, ou jornalismo. Vale para o poeta e para as pessoas amigas, inimigas, ou indiferentes. O que se convencionou chamar de conhecimento disfarça a ilusão de saber. E o preconceito embarga, previamente, a busca interior, investigação crucial.
Retocada inquietude. Turbulência flutuante. Desgoverno. Mentirasssssstodas. Guerra: granada tiro faca tocaia. Decapitar. Executar. Aos tanques! Banquete. Carpete. Talheres e pratos, taças e vinhos, dieta, e excesso. Enjaulado preconceito. Acesa chama altar vazio. Guerra frouxa. Dele contra ele. Cinismo debochado. Plateia estupefata, exausta de esperar, atônita. Sem medida nem jeito. Reuniões, conchavos, fotos. Descabelados crisântemos inúteis. Insônia. Tristeza sem lagrima. Suicídio e homicídio. Aonde? Em que município cidade capital estado montanha … Sem luz, sem água. E nós inclinados diante do pote de ouro no fim do arco-íris. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2015 – Porto Alegre
Iberê Camargo
Fragmentos de carta de Iberê Camargo.
Iberê e Maria no ateliê da Rua das Palmeiras, Rio de Janeiro, 1971.
Pedaço, metade do documentário: Iberê Camargo. Falas. Imagens. Quadros da exposição na Fundação. Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Desenhos. Carretéis. Palavras. O escrito mencionado. Parcela. Fragmento. E o retrato pintando… Força. Intensidade. E o preto.
Verdade-bandeira de angustias internas. Pesquisa, trabalho, muito trabalho deste nosso carioca-gaúcho, o pintor Iberê Camargo. E sombras.
Lacuna evidente. O retorno. Nenhuma palavra ou imagem de Tina Zappoli, a marchand. Despovoado silêncio. Restrito final no hospital. Sem convergência, sem amigos. Era Iberê solitário, ou silencioso? Todos querem uma fatia do mito, um pedaço inteiro.
O ateliê lacrado de Porto Alegre, sem luz natural, equivocado, mas produtivo, fervente. Ele queria de volta a luz… Cartas de Iberê Camargo para Elizabeth Menna Barreto Mattos.
Aborrecido odor
Odor aborrecido, insistente. Se você fosse absolutamente transparente, seria jasmim o seu abraço! Azedo esquisito presente, tua presença. Gosto de beijo. Beleza rasga, atravessa o cheiro. De gente, de pessoa, de homem, de criança, de mulher. Posse e violência. Facões. Correntes. Intolerância esparramada. Poros abertos! Suor fechado, trancado. Sinto. Recuo.
Se não fosse dito, ou falado. Apenas o suave cadenciado, manso, da sua voz. Passos miúdos. Corpo leve. A pequena morte agônica. Triste. Inodora.
Esta quantidade enorme de dobras. Gordura, excesso. Qualquer gesto, um transtorno. De repente respirar pode ser assim aborrecido, insistente. O olhar se debruça, volteia, rodopia, abre e fecha, inúmeras vezes, as persianas pesadas. Luz. Mais, muito mais do que a luz, sombras…
Um ranço de fritura, bife, ou frango? O chocolate grudado no fundo da panela. Bananas fritas com muito açúcar.
Os talos destas flores esquecidas. O cheiro avança colorido. Fedorento, estranho odor aborrecido, insistente. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2015 – Torres
O personagem
“Não vivemos mais o tempo em que podíamos degustar Hamlet sem nos preocuparmos demais com Shakespeare; a curiosidade grosseira pela anedota biográfica é uma característica de nossa época, misturada pelos métodos de uma imprensa e de uma mídia que se dirigem a um público que sabe ler cada vez menos. Tendemos todos a levar em conta não o escritor que, por definição, se exprime em seus livros, mas também o indivíduo, sempre forçosamente disperso, contraditório e inconstante, oculto aqui e visível acolá e, finalmente, talvez acima de tudo, o personagem, essa sobra ou esse reflexo que às vezes o próprio indivíduo (é o caso de Mishima) contribui a projetar, como defesa ou bravata, mas que, aquém do qual, o homem real viveu e morreu dentro desse segredo impenetrável que é o de toda a vida. (p.10)
MISHIMA ou a Visão do Vazio, Marguerite Youcenar. S.P. Editora Estação Liberdade,2013.
Medo da Loucura
“Sou a mulher mais cansada do mundo. Estou cansada quando me levanto, A vida requer um esforço que não consigo fazer. Por favor, me dê aquele livro pesado. […] Sinto um grande terror de sua compreensão pela qual você penetra no meu mundo; aí, estarei revelada e terei que compartilhar meu mundo com você.
Mas Jeanne, o medo da loucura, somente o medo da loucura nos impulsiona para fora dos recintos da nossa solidão, para fora do sagrado da nossa solidão. O medo da loucura incendeia as paredes da nossa casa secreta e nos manda ao mundo a procurar contato caloroso. Os mundos autofabricados e autoalimentados são tão cheios de fantasmas e de monstros.
Conhecendo apenas o medo, é verdade, um medo tamanho que e sufoca, que fico de boca aberta e sem fôlego, como uma pessoa privada de ar; ou em outros momentos, sem ouvir, de repente surda para o mundo. Bato os pés e nada ouço. Grito e nada ouço do meu grito. E aí, às vezes, quando me deito na cama, o medo me toma outra vez, um grande terror do silêncio e do que virá deste silêncio em minha direção, a bater nas paredes das têmporas, um grande medo crescente, sufocante. Bato na parede, no chão, para afastar o silêncio. Bato, canto, assobio insistentemente, até afastar o medo.” (p.166 – A casa do Incesto)
A casa do Incesto & Outras Histórias, Anaïs Nin. Ed. Rosa dos Tempos. 1991
Devaneio ocioso
1.
Da realidade as possibilidades, – as mesmas possibilidades repetidas! Realidade, o curso segue até chegar uma pessoa para a qual uma coisa real não significa, só o imaginado. Veste-se inteira de azul! Então, importa o escritor, o leitor, o fazedor de pensamentos. Afinal, devaneios ociosos são apenas realidades não nascidas.
2.
É o limite que leva ao caminho certo, ao que se deve ou não fazer. O limite faz/ é o corpo e a alma juntos. O limite decide o que um dia possa ser feito…

Não entendi
– O que faço do meu tempo enquanto estamos os dois recolhidos a pensar? Invento.
– Claro que estou a me jogar nos seus braços. Certezas absurdas, danada que sou! Louca para ser amada, cortejada! Misturo o cimento depressa, levanto o muro, mas plantarei a roseira longe dos cinamomos. Deixarei a janela aberta. Houve tempo de tomar demorados banhos. Dos lençóis brancos. Travesseiros. E, janela aberta pro amado. Está tudo explicado no que não foi escrito… Não entender faz sentido. É o princípio. Elizabeth M. B. Mattos – 2015 – Torres
Abandonada
Isabel sem possibilidade de preencher insatisfação, estupefação. O recôndito prazer burguês latente inviabiliza o sucesso. O mergulho na empresa, raso. Saltos altos, bons decotes, e sucessivas cirurgias plásticas qualificam a tarja. Brincos de falsas pérolas iluminam cobiça. Evidências desqualificam. O livro da moda, o chá gourmet, a torta de café, o chapéu de abas, o cobiçoso prazer estampa tristeza miúda. Bons vestidos. Corpo esguio, desfeito no jeito importado deste interior europeu bem brasileiro. Amores sacudidos por desvios. Não se trata de apaixonar, ou enamorar, mas o gancho fétido do açougue que promete carne nobre do animal sacrificado… O sangue pinga na bacia de alumínio, higiênica. Azulejos brancos, chão de mármore. A saliva escorre pelo canto da boca entre beijos.
Ruas estreitas, janelas fechadas. O piano dedilhado, e cerejeiras no parque.
Carrega desprezo, e raiva! Mas o sorriso se apresenta gentil e delicado! Habituada àquele modo de falar não se preocupa sequer em consolar. Coleciona pequenas anedotas que realimentam especulação, julgamento, e consolo.
– Você faz sempre o que dizem seus pais? Não tem um modo pessoal de pensar?
-Talvez o tenha em demasia.
Debaixo daquela janela pode ser o começo, o lugar certo. Debaixo daquela janela pode ser abandonada. Omissão, ruptura, infortúnio. Ser ignorada, reconhecer limitações, debaixo de uma janela.
Lacunas preenchidas pelas folhas do cipreste. Omissões agudas cobertas pelo jasmineiro. E desejos ambiciosos escondidos no arbusto de buganvílias brancas. Deita na grama alta do jardim. Debaixo desta janela Isabel esconde a ganância. Abandonada debaixo daquela janela, enjeitada… Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro – 2015 – Torres


































