Sentimento Achado

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1.

Estou a tentar… Este ou aquele sentimento. Segurar nas mãos o espaço preciso entre felicidade e prazer. Então, a mentira, o segredo, o pecado se transforma em transgressão libertadora. Mãos nos bolsos de jeans desbotados. Enfeitar, e despir.

Histórias já mapeadas. Nada específico, foto sem contexto. O detalhe sem corpo. Não existe lembrança já transcorridos tantos anos … Por isso lhe escrevo apressada querendo dizer tudo, sem especificar nada. No entanto, a lembrança, sua história de galã na charmosa ponte aérea Rio – São Paulo tem raízes, também lacunas! Lembro o olhar, ou a sofreguidão. Sinto o prazer do corpo. O beijo, a liberdade descabelada dos crisântemos do D. H. Lawrence. O que não foi, ainda é sua presença. Vou largar mesmo aquele tu seco, e cheio de medidas engessadas onde fidelidade e traição se fazem ícones desgastados. Você presente ao segredo essencial que se mistura na leveza espumada desta lembrança. Vida desvendada por prazer, sem acertos. Sem dinheiros contados…

Você soa como piano, violino, sonata, sem trovoadas nem tambores. Flores pelo chão, ventania no cabelo, deslumbramento. Voltar ao você endérmico, aberto. Uma imagem se sobrepõe a outra imagem, esta corrente de histórias! Particular, esta raiva, decepção súbita. Pedacinho de sentimento desgarrado.  E dou risadas! Tudo ao mesmo tempo. Sobreposições. Se nos imaginamos lisos, higiênicos, coerentes, previsíveis sucumbe-se no vazio.

Uma colagem, um minuto, um dia, depois outro. Abraços, risadas, dores. Dicotomia gasta: vida e morte. Ausência de artigos, de pronomes. Canções, ausência. Invasão. O que seria bom e adequado dizer? Fidelidade ajustada. Haja generosidade!

Escrever e contar tem aquela costura grosseira da pequena mentira útil. Mercados, ou quem sabe aeroportos? Pode ser rodoviária, ou porto. Lugares de embarcar e desembarcar, livre comércio, exposição. Passageiros…  Importante é costurar. Esvaziar a caixa. Não aguento mais guardar, ou empilhar. E você, meu querido, você não está em nenhuma delas. Sem fotos. Ainda você e eu, hoje.  Voltar a te ver passados trinta anos pode ser um equívoco.

Lacunas a borboletear! Perguntas embaladas no eco. Feridas abertas. Pisotear na lama do sangue. Adubar aleatoriamente resíduos do passado. Escalavrar, sucatear, e juntar ao 2015 uma memória seletiva e gasta. Importa? Reter amigos, embalar, beijar com assombro. Eufórica juventude! Sexo e rock! Cerveja, areia, e risadas em qualquer idioma. É preciso reler. Rever, e valorar o tempo, medir generosidade. Enterrar a mesquinharia frouxa que se refestela por aí feito cachorro sem dono, gato perdido, leão sem selva.

A imagem apagada do seu sorriso me aquieta. Sem fidelidade, nem traição o sentimento achado aquece.

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D. H. LAWRENCE

” crisântemos brancos desgrenharam-se ao calor ” D. H. LAWRENCE

Certas notas, certas frases, algumas observações caminham nos próprios espaços, cercadas.

O que significa, ” crisântemos brancos desgrenharam-se ao calor “?

Vibração, a volta ao mundo, a poesia na prosa, vibração!

Outro

O céu, queres dizer. O céu azul. Não recebendo resposta reformulas mentalmente a pergunta e, cem passos, cem minutos, sem ânimo olhas de novo para o rosto dele, e perguntas se não parece muito menos distante do que, na verdade, é. Onde estás? Não te vejo. Por alguma razão que nunca chegaste a entender,não respondes a pergunta. Estupefatos, os dois.

Um GANCHO de leitura

SE EXISTE SENSO DE REALIDADE TEM QUE HAVER SENSO DE POSSIBILIDADE

“Mas se existe senso de realidade, e ninguém duvida que ele tenha justificada existência, tem de haver também algo que se pode chamar senso de possibilidade. Quem o possui não diz, por exemplo: aqui aconteceu, vai acontecer, tem de acontecer isto ou aquilo; mas inventa: aqui poderia, deveria, ou teria de acontecer isto ou aquilo; e se lhe explicarmos que uma coisa é como é, ele pensa. Bem, provavelmente também poderia ser de outro modo. Assim o senso de possibilidade pode ser definido como capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser, e não julgar que aquilo que é seja mais importante do que aquilo que não é. Vê-se que as consequências dessa tendência criativa podem ser notáveis, e lamentavelmente não raro fzem parecer falso aquilo que as pessoas admiram, e parecer permitido o que proíbem, ou ainda fazem as duas coisas parecerem indiferentes. Essas pessoas com senso de possibilidade vivem, como se diz, numa teia mais sutil, feita de nevoeiro, fantasia, devaneio e condicionais; crianças com essa tendência são educadas para se libertarem dela, e lhes dizemos que tais pessoas são utopistas, sonhadores, fracos, e presunçosos ou críticos mesquinhos. “

Robert  Musil, O homem sem qualidades

Haruki Murakami

Haruki Marukami, 1Q84.

“Eis o mundo do espetáculo

em que tudo é fantasia;

Mas, se você acreditar em mim,

real ele se tornará.”

Luas, duas, ou três luas no céu. Que inveja deste poder! Mundo, o meu, carregado, perigoso, intenso! As luas. Sim, temos duas luas, ou quatro, e o paralelo. Considerações, violência, solidão, e plenitude: “Não importa o que aconteça ou o que eu faça, preciso lutar para que isso se torne real.” E a sintonia não se faz senão no amor. Do amor, o específico amor da criança que fomos, que somos, por favor, estende tua mão. O entendimento da inteireza: fiel, vinte anos, ou trinta, cinco, ou já sessenta anos passados. Onde estou?

Há que sentir o outro na lágrima, na entrega e acreditar na plenitude. Acreditar. O sentimento invade. Confiança absoluta: vou te seguir, estou sentido a tua mão na minha mão…

O livro segue descrevendo, pintando um vazio de detalhes, e inteiro, completo. Não exatamente uma história de amor, mas de paciência. A perfeição da religiosidade, sermos nós mesmos. Conduta coerente. Sabemos o fio condutor raro difícil. Deus e coragem. Do vazio completo a integração perfeita em pequenos gestos.

“- Cidade dos gatos?

 –  É uma cidade onde impera uma profunda solidão durante o dia e gatos grandes ganham o controle durante a noite. Há um rio bonito e uma velha ponte de pedras. Mas não é um lugar para nós ficarmos. “(p.446. Livro 3)

OBSERVAÇÃO, em tempo

Exagerei nas luas. Só podem ser duas. Esta é a metáfora. Se  forem muitas, será desdobramento excessivo. Realidades com tanto plural acumulativo vira esquizofrenia… Doença. Haja resguardo! No livro a medida é justa, no fantástico real, no imaginado real, na imaginação real. E ainda temos um bom percurso literário, pinceladas adequadas, citações por extenso, bem do meu agrado. Um autor na alma de outro autor. Outro mundo, outro texto-livro. Viagem longa, enriquecida: degustada. Vejo outras ilhas. Acrescento autores nas estantes. Volto a leituras já feitas, renovo. Para quem escreve citar é uma isca. Algumas indicações conhecidas, mas sempre outras cerejas. Pontuar a bagagem literária, bom para o autor, bom para o leitor. Outras luas! Elizabeth M.B. Mattos – janeiro 2015 – Porto Alegre

 

Cheio de letras

Leitura fermento. Proposta feita, fisga, aperta. Processo inexplicável. Se não escrevo o susto chega, se leio o medo flui… Escrever. Ler. Associações, memória. Pequeno caminho interno. É o texto objetivo, é o texto escondido, é também, o pedaço de quem lê. Tudo misturado, outro livro. Como “em suas recônditas escuridões, os seus respectivos segredos”, traz o passado. Uma porta pintada, emassada, a bala de um revólver Taurus 838 Inox 6,5 polegadas, 8 tiros. Calibre 38. Ameaça. Passos, ou apenas um vulto do medo? Alguém estaria escondido atrás das hortênsias floridas? Venezianas, embora fechadas, permitem que a sombra assombre na sombra da noite insone.  Na memória inventada o som de um disparo. A porta emassada, o vestígio. “A realidade é sempre única, não se deixe enganar pelas aparências”.

Não conseguimos saber se este hoje ventoso, cinzento tem qualidades de alegria, de permanência palpitante. Ou será ainda mais cinzento porque faltou água? Faltou luz, e estou doente. Falta sono. E o corpo se estica, resmunga. Posições tomadas, fixas, previstas.

Bateram duas vezes na porta. E o som veio de longe para bem perto do meu sono da tarde. Não levantei. Estas viagens extraordinárias acordam os nervos. E, as vozes desaparecem. Depois os corpos se avolumam, se inclinam como novas sombras. É o vento das venezianas.  Os pinheiros conversam. Alto! Com as duas mãos apertadas bem forte contra a cabeça tapo as orelhas.

HARUKI MURAKAMI – 1Q84   – Livro 1. Prossigo a leitura sem entender a história lenta, detalhada, nem este texto dentro do texto. O que exatamente Murakami escreve? Alguém se propõe, faz acontecer, e somos fisgados. No Natal do ano passado os três livros estavam enrolados numa fita amarela… Promessa de um verão cheio de letras. Gosto. Neste janeiro avanço na leitura.

Sem explicar

2015-01-03 17.04.21

“T. tirou da geladeira um chá de cevada e o bebeu.

– Não consigo deter as vespas furiosas, mas, de você, acho que consigo cuidar. F. fitou. T. durante um tempo e disse:

– Você está diferente.

– No que estou diferente? F.  entortou os lábios num ângulo incomum, e depois os fez voltar ao normal. Ela não conseguia explicar.

– Não precisa explicar – disse T. Se você não consegue entender coisa alguma sem explicações, significa que continuará não entendendo, apesar das explicações.” (p.159)

(…) Ela me ensina alguma coisa. Ou tenta ensinar. É necessário existir esse tipo de imagem para as pessoas continuarem a viver. Uma imagem que possui um significado que não se pode explicar por meio de palavras. Há quem diga que vivemos em função do desejo de entender o que esse algo tenta nos dizer. É o que eu acho.” ( p.275)

“A vida de uma pessoa pode ser essencialmente solitária, mas nunca isolada. Em algum lugar sempre existe alguma outra vida que possui uma relação com aquela. Nesse sentido Aomame precisava assumir de algum modo a responsabilidade daquele ato.” (p.277)

– 1Q84 – ( volume 2 ) Haruki Murakami 

 

 

Cheiro azedo

1.
Choveu ontem de noite, bastante. Refrescou. Dormi cedo, sonhei sonhos enormes. De uma vez minha casa remexida, usada. Janelas, esqueci todas as luzes acesas! Podia ver do jardim, atravessando o alpendre que as coisas estavam remexidas. A porta da geladeira aberta, restos de comida em cima da mesa, cadeiras fora do lugar, e luzes, muitas luzes acesas. Já estava dentro da casa, estupefata, ardida de medo. Angústia e desalento os sentimentos. Outro sonho, era no edifício do apartamento da irmã. Estávamos presas entre dois elevadores … Duas portas, deveria ser de elevadores, mas estavam cimentadas, via-se apenas o recorte, e não podíamos sair daquele lugar. Talvez tenha dormido demais. Não era amistosa aquela manhã.
2.
A leitura pode prolongar amistosamente o tempo, e os dias se esticam como se tivessem pernas grandes, ágeis. A cadeira abraça. Festa animada. Gosto destas anotações, pontes de memória, outras visões, arestas e atalhos. As particulares histórias esquecidas que se avizinham desordenadas! Ah! Se houvesse jeito de escrever, ler, pensar, divagar, aprender, tudo ao mesmo tempo! O livro faz estes recortes internos dentro das pessoas.
O que se escreve tem peso de pedra. Dá um arrepio pensar que não está mais lá no papel como desejamos … Esta conversa de dentro esmiuçada aquece. Quero que seja absolutamente verdadeira, mas não é. Palavras! E não tenho o completo manejo.

Fica – se tempo demais na superfície vazia de conversas casuais. Não se diz nada. Emitir sons, grunhidos. Agora escuto o cortador de grama. Se inicia o segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff, e o cheiro azedo, catastrófico se espalha. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2015 – Porto Alegre

Água gelada no verão

1.
Silencioso. Domingo. Passarinhos se agitam na piação, o verde está verde, frescor entrando, não parece verão, mais primavera azul. Não parece cidade, mais campo quieto amanhecendo. Janelas fechadas, entre as caixas, edifícios, telhados pontiagudos, sótãos. A construção francesa ao lado, um casarão tombado, abandonado, se impõe entristecido. A realidade real: inclino o corpo nesta janela, estico o pescoço para entender a floração dos ipês amarelos. Enfeites pontiagudos do casarão, o telhado com mansardas, a casa da casa da esquina, o número 229 da Rua Santo Inácio no Moinhos de Vento. Agitação interior, anos se sobrepõe, e se modificam, como as duas luas do Murakami, esquecimentos referentes ao tempo de dois anos, quatro, cinco anos atrás…O contorno da memória específica de ter onze anos de idade. Não tenho firmeza nas mãos, as fotos saem tremidas, assim mesmo, cliquei os arredores para registrar o silencio destes dias. Multiplicados espaços. Os carros não passam, as pessoas não falam. Janelas vazias, cortinas e venezianas serradas. Leve odor de comida de um restaurante insistente! Temporada de férias compridas de quem enfiou o último dia do ano no Natal e esticou… Posso bocejar, bebericar mais café, iogurte, chupar uma laranja, cortar em fatias uma manga madura. Não comprei uvas. Eram uvas pretas, brancas, rosadas, em caixas. Embora seja verão, na quitanda, todas as estações se misturam, como velhas casas e novos edifícios. Asfalto com paralelepípedos, jacarandás, cinamomos e ipês, flamboyants. Coqueiros, ciprestes. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro – 2015 – Porto Alegre

Nota: Haruki Murakami, 1Q84, volume 1

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Invisível

Eixo, foco, pedaços, história. Qual vida, em que tempo? Relações familiares: casa, estranhamento, amigos, e vontade. Recomeço do começo, Espicho a lembrança, e não avanço. Cronologia sem pesquisa, preguiçosa…Sem motor, pedal, rodas. Invisível.