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Sempre o tempo
“Finalmente o rio se alarga na idade adulta, quando se começa a pensar: e agora? Onde? Quando, quando, o quê? E já temos um passado. Como amadurecer sem perder a graça, sem ficar embotado, sem sucumbir ao tédio da rotina com que nos enrolamos feito um cobertor que abafa as inquietações, as dores e os maravilhamentos? E ao nosso encalço corre o espectro traiçoeiro de acabarmos sensatos demais: temerosos, quando viver é preciso uma dose de audácia e fervor. Em que medida? Ninguém tem a resposta.” (p.65-66)
O tempo é um rio que corre Lya Luft. 2014 Editora Record
Sem roupa invisível
Tudo em mim se apresenta antigo, ultrapassado: cabelo, roupas e afazeres. Descongelar o refrigerador! Mão de obra! Mas com o esperto ventilador consigo bem rápido. Escuto o quebrar do gelo enquanto escrevo. Ouço um velho vinil em francês, Guy Beart. Você conhece? Ou tu conheces? Os detalhes da história, dos degraus, e o do calor da salamandra…Oxalá agarrasse as horas lentas do campo! Também o andar manso do verde. Aquele capão amigo, os velhos novos açudes! Urgência é diferente. Como inventar o passado? O viver que não é nosso. Quero o avesso no mergulho estupendo de encontrar o ontem revirado no presente. Acreditar em invencionices. Na capacidade, e em algum pedaço de história que ainda não inventei. Sair sem roupa pelas ruas, invisível. Como anoitece, anoiteço junto, e na loucura louca de esquecer, logo me enfio na cama. Certeza de adormecer. Acordar sem dor aqui, ali, tomada de disposição, e cheia de certezas. Tenho que vencer o dragão, e guardar o fogo, iluminar o caminho. Os balões tomaram o céu de Torres. Elizabeth M. B. Mattos maio – 2014
Número atômico
Meu amigo:
Conversar tem delícias, prazeres não esquecidos. Amolece coração, razão. O momento, a hora da mudança. O tempo não volta, nós é que voltamos no tempo. Sinto falta, carência, vazio, solidão. Aquele estado aflito do meio do caminho. A tal encruzilhada que chamamos solidão. Sem conexão. Pessoas falam, explicam, sorriem, eu as vejo debruçada na sacada. Não ouço, estou na bolha. O cansaço pesado de não entender, ou se deixar entender. Picoto palavras. Encontros desastrosos. Ironia! Quem escreve pretende resolver todo problema, mas a angustia ferve. Ausência cheia de presenças. Desencontros? Não sei. O sexo, o toque, o beijo, o abraço remédio, eu quero. De repente compreendo este amor de corpo. Amortiza a dor. É por isso também que te necessito meu amigo. Beber o vinho, comer as frutas que descascamos com os dedos. A energia volta. E a dor desaparece. Só a despedida é dolorosa, lenta. Saudades tuas. Então, estou outra vez no ponto de partida, não na história. Afinal, o outro importa. Quem escreve está sozinho. Droga! Quem lê, também sozinho, explode. É a bomba do desejo. Nos mortificamos enquanto te escrevo, e tu me lês. A bruxaria das afinidades. Estou estacionada diante do nossa mar, mas é o café da esquina que eu vejo. Estou a pensar no número atômico, na letra Z, nos prótons… No teu trabalho. Existe o imantado da relação. Por isso retomo o velho ritmo das cartas com envelope, selo, e vou ao correio. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2014 – Torres
Biombo japonês
A casa foi feita em blocos brancos sobrepostos. Sem jardim. Pedras polidas, arredondadas cobrem espaços, corredores e possíveis canteiros. Grandes aberturas. Aberturas rasgadas para áreas externas, vazias. Sem verde, ou flores. No interior, espaços definidos por cadeiras, mesas, prateleiras laqueadas de branco. Biombo japonês, algumas almofadas. O espaço parece maior! A claridade invade. Nenhum outro detalhe, não fosse aquele anjo de madeira, e as fotos, muitas fotos que se espalham pela parede. Bonito isso, como se a vida brotasse naquelas pessoas a vestirem trajes exóticos, e as crianças com aventais engomados. Retratados especialmente para marcar o tempo. Também fotos de jardins, outras casas. E o mar. O livro de imagens voltou, o texto de poucas linhas ilustra.
No apartamento do prédio ao lado, as janelas são menores, mas as duas portas da sacada se abrem para o sol. Estantes, estantes inteiras cheias de livros. Um armário grande pintado com figuras geométricas de diferentes formas e cores. Duas poltronas antigas, orelhudas. Uma mesa redonda com diâmetro de um metro, suponho. Este apartamento tem um corredor – galeria que leva aos dormitórios. Pequenos quadros – retratos que não identifiquei, mas reconheci Danúbio Gonçalves. Uma aquarela urbana de Vitório Gheno, meninos soltando pandorga de Bianchetti. E o dorso de Glauco Rodrigues em tons de vermelho. Iluminados adequadamente. Obras de arte precisam de luz indireta para não danificar os trabalhos, e valorizá-los. Ambiente climatizado. Sem umidade. A parede não deve ter nenhum cano que leve água para banheiros ou cozinha.Estranho corredor de espelhos… Vários tamanhos, emoldurados de um lado, e o outro lado a parede é revestida de espelhos. Um túnel de reflexos.
Aqueles olhos espertos, redondos, uma boca expressiva, o cabelo puxado, sempre arrumado, unhas feitas, impecável ao acordar com a leve maquiagem, e a gentileza diária. Encantadora. Enquanto bebe o chá vermelho, aromatizado, fica folheando as revistas, passa os olhos minuciosamente pelo pequeno jornal, algum assunto bombástico?! A Guerra na Criméia, a morte de Alain Resnais, o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes joga lixo no chão! O lançamento da coleção Inverno, falta uma semana para terminar o Verão! Ah! Estes escandalosos filmes do Oscar. Ela levanta inquieta para se livrar daquilo tudo. As revistas ficam abertas. O jornal, metodicamente vai para o monte. Alguns hábitos, fazeres, estão cruelmente colados a pele. Levantar e esticar os lençóis. Bocejar, espreguiçar para que o dia se levante antes dela, nunca ao contrário. Reclamar deste ou daquele ruído, separar a roupa que deve ser passada. Outra vez senta na cadeira de orelhas. Pega um livro para ler, um dos que já leu porque a história é doce, romântica, e todo o amor entre eles justifica ter vivido, presa no casarão, rodeada pelos filhos. Naquela época o jardim tinha flores, o gramado era perfeito. A piscina estava limpa. Todos os finais de semana fazia-se longos passeios. Comia-se bem, embora fosse comedido, num ritual inglês com aperitivos, um drinque, uma conversa frívola qualquer sobre o fracasso de um romance local, uma traição, a voz debochado do filho para o pai comenta as liberdades da moça que mora na outra esquina. Os costumes constrangedores de uma modernidade, que seria então decadente. Hermínia concordava, alongava a explicação. E ambos ficavam satisfeitos com tanta compreensão mútua.
Lucinda não pretende ver nenhum dos filmes. Questão fechada. Não vai ao cinema. Sente-se em fuga! Como assistir passiva a televisão. Escolhe-se o programa adequado ao espírito do momento. VUPT passou o tempo. Já é hora do chá.
Afinal, a história é mesmo um grande monólogo. Preencher o silêncio, ponderar, perguntar, e responder. Descrever. Ou escutar histórias de amor.
Lygia Clarck Hélio Oiticica CARTAS

Cartas, o melhor leva e traz, desvenda, esconde. Jeito aberto-livre de dizer, não dizendo o importante, o que se esconde num ponto, numa vírgula. Na omissão. Um passo seguro, porque incompleto. O que posso fazer? O que não consigo dizer? E as pedras? Temas, leituras, bilhetes. Fica a conversa escabelada, ventosa, interrompida. Sou ansiosa. Esquecida. Tenho vontade de acertar. Isto serve? Acertar no ponto de fechar, interromper porque chegou ao fim… De repente nunca é fim, nem começo, eu me perco. Estou esperando a tua mão, o alfabeto todo. Os velhos cartazes de “VIVI VIU A UVA” … Ou muitas rodinhas até formar a letra O que não é 0 (zero), nem o A que vai ter um rabinho arrastado. Alfabetização falha. Conversa. Adesão. Estar entre as pessoas, estar. Vou fazer a caminhada, e volto para te esperar. As cartas, ou o projeto. Textos pequenos? Não sei. Elizabeth M.B. Mattos – Torres
Fragmentos da correspondência: Lygia Clark e Hélio Oiticica
“Sua carta, como sempre, genial. Esse problema de ser deflorado pelo espectador é o mais dramático: todos são, aliás, pois além da ação há a consciência-momento de cada ação, mesmo que esta consciência se modifique depois, ou incorpore novas vivências. Esse negócio de participação realmente é terrível, pois é o próprio imponderável que se revela em cada pessoa, a cada momento, como uma posse […]
“É bacana ver que não se perdeu afinal tempo algum, que as vivências se refazem e, ao aprofundarem-se, renascem umas das outras e com as outras, numa totalidade também aí.” Hélio Oiticica – 8.11.1968


Rosas amarelas
Segue a luz da memória
Música recupera sentimentos enquanto a alma segue a luz da melodia. No silêncio, escutamos com olhar.
A memória agarrou uma xícara, este livro, aquela cadeira, depois a tela com tintas escorridas de Jean Lehmans. A carta, este caderno. A caixa das fitas as pérolas descascadas. O bule branco. Objetos. Não sinto o cheiro dos eucaliptos, nem das magnólias. Esqueci o jardim dos jacarandás. Seguimos construindo a memória com fitas, vidros, caixas, cartões, e fotos. Guardados escondidos no porão. Elas caminham, estas coisas… Não ficam a espera. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2014 – Porto Alegre
Desvio favorável
“Escrever já é um desvio favorável ao esconderijo” escreve Patrícia Galvão. Também penoso, difícil, perigoso! Palavra deslocada, desfocada. Pelas janelas abertas a Lagoa do Violão iluminada, a chuva miúda. Antes, e depois da descoberta? Referência esquecida. A história antes, e depois. O que verdadeiramente importa? Afetos, mesmo escondidos. Chorar importa. A alma se esvazia na lágrima. Escorre dor, e medo. A chuva continua. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2014
Analogias, associações
Trem noturno para Lisboa, o livro de Pascal Mercier desperta, alimenta inquietações:
“A vida não é aquilo que vivemos, é aquilo que imaginamos viver.”
O autor tece, estabelece, costura novas, ou velhas leituras dando o fio, o motivo, o mote para as ditas inquietações que atravessam personagem, e afinal, a nós leitores. Não há como não seguir viagem com Gregorius.
Nossas vidas são os rios que escoam no mar aonde morrem diz Jorge Manrique na abertura do livro. “Nuestras vidas son los ríos que van a dar em la mar, que es el morir.” Ou a epígrafe citada em francês, e traduzida. Michel de Montaigne, Ensaios, Segundo Volume, I. “Somos todos retalhos de uma textura tão disforme e diversa cada pedaço, a cada momento, faz o seu jogo. E existem tantas diferenças entre nós e nós próprios como entre nós e os outros.”
O estranhamento que sentimos ao tentar nos explicar, nos posicionar com o outro. Às vezes a dificuldade acelera o coração. O esforço é de tentar levantar uma enorme pedra… Suamos, movimentamos todos os nossos músculos, e desanimamos. A diferença, um abismo. Assim enquanto abrimos o livro já nos acordamos, e seguramos a idéia desta pluralidade e estranheza interior. A solidão. E já nos irmanamos através das constatações, as mesmas, em séculos, línguas, homens que seriam diferentes, mas sentem igual abismo uns entre os outros.
Fernando Pessoa também está lá somando, Livro do desassossego, anotações de 30/12/1932. “Cada um de nós é vários, é muitos, é uma prolixidade de si mesmo. Por isso aquele que despreza o ambiente não é o mesmo que dele se alegra ou padece. Na vasta colônia do nosso ser há gente de muitas espécies e sentimentos diferentes.”
Leitura, um desafio a nos questionar. Não só Gregorius, mas nós todos nos perguntamos: e, se tivéssemos feito isto, não aquilo? Se não fosse assim poderia ter sido diferente? Esta decisão de fazer o que nunca pensamos, ou cogitamos de fazer parece um caminho sem volta. Esta decisão, este passo parece absolutamente definitivo, sem volta. A inalterabilidade da vida nos assegura a tranquilidade desejada. Será que desejamos mesmo estar neste lugar seguro, imutável? Como o tal emprego definitivo após um concurso público por exemplo, um mérito permanente, inalterável.
E o autor nos remete, início do livro, a Georges Simenon O homem que via o trem passar. As alusões nos aquecem. Em todos, filósofos da vida, por todos as aloucadas e perfeitas decisões quando saímos do para sempre, para o talvez, o inseguro de todo deslocamento. A viagem que Ulisses empreendeu, e tantos retomamos… A loucura da guerra sem certeza, arriscamos, mas também conquistamos a dita liberdade. A leitura tem uma bomba que necessariamente explode dentro do leitor, e desarruma o que estava tão habilmente ordenado. Bombas que não são ao acaso. Livro aberto, leitura feita, e explosão. Bem, nunca saímos igual depois do livro lido. Como acontece com os deslocamentos ou de trem, ou de avião, ao volante de um carro, ou como passageiro. O deslocamento é uma transmutação.
O livro de Simenon, página sete, começa assim:
“No que diz respeito a Kees Popinga, pessoalmente, cumpre admitir que, às oito da noite, ainda havia tempo, pois seu destino não estava decidido. Mas tempo de quê? E poderia ele fazer outra coisa senão o que ia fazer, persuadido, aliás, de que seus atos daquela noite não tinham maior importância que os de milhares de noites anteriores?
Teria dado de ombro se lhe houvessem dito que sua vida ia mudar bruscamente e que aquela fotografia sobre o aparador, em que aparecia de pé no meio da família, com uma mão pousada negligentemente no encosto de uma cadeira, seria reproduzida por todos os jornais da Europa.
Enfim, se tivesse procurado em si mesmo, pondo a mão na consciência, um grão de loucura latente que pudesse predispô-lo a um futuro tumultuado, não lhe teria ocorrido pensar em certa emoção furtiva, quase vergonhosa, que o assaltava quando via um trem passar, um trem noturno, de preferência, com as cortinas baixadas sobre o mistério dos passageiros.”
Mais adiante uma frase nos envolve: “Acaso não fazia quinze anos que era assim, que eles estavam assim, petrificados nas mesmas atitudes?”
Retomo ao nosso livro. Ao livre de Pascal Mercier. Fico a pensar como escolheu tal pseudônimo, por pensar, como filósofo usou Pascal? Mas Mercier? Como um merci, um obrigada? Empreender a aventura de ler leva a outro desafio, escrever. Retomo o livro como se fossem minhas as palavras:
“Acontece por vezes de eu ir à praia, sentindo a cabeça exposta ao vento que desejo gelado, mais do que conhecemos por aqui. Desejo que ele me esvazie de todas as palavras gastas, de todos os hábitos linguísticos esgotados, para que eu possa voltar com o espírito purificado, limpo das escórias daquele palavreado sempre igual. Mas na primeira oportunidade que tenho de falar alguma coisa, tudo volta. Preciso fazer alguma coisa, e preciso fazê-lo com palavras. Mas o quê?”
O livro Trem noturno para Lisboa abre caminho transloucado, mas necessário, para o maravilhamento. A descoberta de outras vidas. A diferença, a diferença para cada um em particular, e assim ao final, a libertação. Liberdade, fidelidade a si mesmo. Discutir/ divagar ou pensar sobre esta possibilidade de ir, e deslocar-se, fechar a porta para um número de pessoas, abrir a porta para outro número de diferentes pessoas. Diferentes, mas humanamente iguais. Sofrimento, solidão. Ausência de amor, de interior. O oxigênio está na libertação, não nos grilhões de relacionamentos estagnados. Ou será a relação uma segurança como aquele emprego burocrata, necessário. Ou em tempo igual de si próprio, no aprimoramento como fez Gregorius como filólogo? Pegar o trem noturno, acordar noutra aventura, a mais séria de todas, a que nos revela e nos faz aceitar quem somos e depois voltar? Queremos voltar como Ulisses voltou para Penélope? Mas só saberemos se desejamos voltar se entrarmos no trem, sem bagagem, apenas sendo nós mesmos.






