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LATTOOG
Insensatez
Talvez o que transcrevo seja o insólito, o incomum, o que não importa. Mas não é esta a questão. Importa o livro lido, a discussão, a canção, o poema, o filme, o teatro. Os cafés, ou melhor, tudo importa. Principalmente Paris daquela época.
Ou sempre!
“O belo outono continua: o cheiro de queimado das folhas mortas, a luz amarela do sol sobre o Sena, em meio a nuvens cinzentas.” (p.75)
Ou “A galeria, a árvore, a rua, a noite inteira entrando em nosso leito […]” (p.75)
O que vou dividir é a insensatez!
“Em minha vida de trabalho, austera e calma, é maravilhoso sentir em meu coração um tal tesouro de emoção, de dor, de felicidade, de amor ardente.[…] Você sabe que jamais escrevi cartas de amor em inglês. Estou consciente de que conceder tanta importância aos sentimentos pessoais é uma insensatez, quando no vasto mundo acontecem tantos fatos graves: a cólera no Egito, De Gaulle na França, sem falar nos EUA. Digamos que esta seja uma história tola mas bela […].(p.81)
Qual o grau de importância? Onde eu estou, onde tu estás? O que de fato gostaríamos de fazer, dizer, ou sentir? O quê?
Ainda as Cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algren. Editora Nova Fronteira.
LABIRINTO
A primeira viagem seria a Praga, a cidade labirinto?
“Labirintos é a particularidade de Praga. Entra-se por uma porta, em busca de um copo de cerveja ou na perseguição de uma mulher bonita e, de repente, num repente, chegamos a uma rua toda outra, inesperada; ou a claridade se denuncia em um dos maravilhosos jardins interiores dos palácios da Renascença. Mas há também os labirintos que não conduzem a lugar nenhum: uma parede se levanta onde devia ser uma saía em um dos corredores; outro conduzia a uma escada apenas pressentida no escuro, e é preciso tempo e paciência para retornar-se sobre os passos dados para voltar ao ponto de partida. Da mesma forma Praga é a cidade das ruas falsas: de vielas que vivem apenas alguns metros ou que são, longitudinalmente, calçada e escada; de ruas amparadas por muros úmidos, onde os musgos desenham arabescos fascinantes, que fazem de cada observador uma espécie de psicopata, atraído pelo mistério que encerram. E quem ler detidamente a obra de Kafka encontrará os traços desta presença. O mofo, o velho, o azinhavre dos metais ociosos, tudo isso são instrumentos de que se vale Kafka para a escritura de sua mensagem.”
Jornal do Brasil: fragmento – Rio de Janeiro – 07 de junho de 1969. Mauro Santayana.
Mentiras
” Afinal, a literatura é exatamente isso: hábeis mentiras que secretamente dizem a verdade.”
p.33 – 1947 – Cartas a Nelson Algreen – Simone de Beauvoir
Vender
Vender a alma, o carro, os quadros, a casa. Pagar as dívidas, e ganhar horas, dias, meses, anos! Sufoco na música… Escondida nos livros. E tu me dizes ‘ Temos que ser competentes, para sermos loucos.’ A terrível loucura do ideal. Por que tanto desespero? Vamos apenas entregar a palavra à maresia, pras ondas, pro sal da praia e respirar.
“Tua memória há sem que houvesses,
Teu gesto, sem que fosses alguém.
Como uma brisa me estremeces
E eu choro um bem…”
Cancioneiro. Obras Completas – Fernando Pessoa (p.187)
Gavetas interiores
Nesse momento, você é minha “gaveta de guardados”…
Iberê Camargo
“... porque no decorrer do viver eu entendo que a vida é uma caminhada. Esses ciclistas são caminhantes. No fundo, sem meta. São seres desnorteados. No andar do tempo, vão ficando as lembranças; os guardados vão se acomodando em nossas gavetas interiores. Inicialmente, engraçado, as coisas que doem ficam mais. Como temos cicatrizes! A vida foi causando essas feridas que nos acompanham até o fim. Nós somos como uma tartaruga, nós carregamos a casa. Essa casa são as lembranças. Nós não poderíamos testemunhar o hoje se nós não tivéssemos por dentro o ontem, porque nós seríamos uns tolos a olhar as coisas como recém-nascidos, como sacos vazios. Nós só podemos ver as coisas com mais clareza e mais nitidez porque temos um passado, compreende? Ele vem se colocar, ajudar a ver e a compreender o momento que estamos vivendo.” (p.30-31) Conversações com Iberê Camargo – Lisette Lagnado.
“Inspirado por uma ética de auto-superação, comum aos expressionistas no sentido lato, a poética de Iberê Camargo seria uma declaração enfática em favor da repotencialização constante da vida. O real será movimento, esforço e ânsia de realização. (…)” RONALDO BRITO, 1993
Somos nós …

Última hora: Não vou a Santa Maria.
Querida Beth,
Porto Alegre, 13 – 2 – 1990.
Tua carta tem uma presença quase física, nela tu revelas a alma. Gosto de te ouvir. Gosto de te sentir perto de mim. Espero que o muro de Berlim que nos separa, termine por ruir. Não é compreensível, hoje, uma atitude machista, medieval. Não se pode aprisionar um coração. Eu te recordo sempre, com um carinho de amigo, mas a recordação, a lembrança não tem a concretitude do agora, que é o presente da vida que flui. O agora é este momento que já não é mais, quando acabo de pronunciá-lo. O tempo é um rio que nos arrasta, que nos leva para o nada. “Somos seres transitórios” – nos diz Dickens. A certeza desta transitoriedade nos deveria tornar mais vivos, mais atuantes, mais independentes. Somos no fundo bois de carga, passivos, domesticados, vivendo de mentiras. Não sei por que enveredei por este assunto. Amiga, eu sempre procurei e procuro a verdade das coisas, tenho um sentido metafísico da vida. Às vezes atravesso períodos de profunda depressão, sem motivo determinado, objetivo. Estranho e limitado é o ser humano, incapaz de entender o seu próprio ego. Não raro sinto-me como meus ciclistas, que vagam por um mundo deserto, morto. No fundo, querida Beth, eu sou eles. Mas eu tenho que dizer, tenho que pintar a verdade porque só ela importa! E a beleza? Talvez verdade e beleza seja uma só coisa. Gostaria que visses esses meus últimos quadros, esses ciclistas de que falo. Não sei o que foi exposto aí em Santa Cruz. Talvez sejam serigrafi-as ou desenhos. Estamos planejando ir a Santa Maria na próxima se-mana, se não começar a chover adoidado. Gosto de rever aquela cidade e, principalmente, reencontrar os poucos amigos que ainda me restam. Para mim é santo o lugar onde estão os meus mortos. Ah, seria bom se na passagem pudesse te ver aí em Santa Cruz. Para ser sincero eu re-ceio os ciúmes do teu marido. Eu não quero te criar aborrecimentos. Não quero magoar ninguém. Eu seria feliz se tu pudesses vir amiga, com muito carinho – o Iberê –
Não esquece: eu te quero muito bem.
Ignorância

CONVERSA com Iberê
Lizette Lagnado:
Para escolher ter aula com um artista é preciso admirar sua obra? Como Llote e De Chirico impregnaram um pensamento sobre você?
Iberê Camargo:
Não admiro a obra de Llote. Cito-o como teórico e grande professor. Com De Chirico sinto afinidade porque também expresso solidão e o mistério que envolve as coisas.
Lizette Lagnado:
Num período em que a educação artística só era possível através de reproduções, você diz que foi importante, quando viajou para a Europa, ver um Rembrandt ou um Picasso ao vivo. Se pensarmos na formação da geração atual, este fato ocorre bastante tarde em sua vida.
Iberê Camargo:
Uma viagem ao velho mundo, raiz de nossa cultura, é sempre importante. Ver o original de uma obra é dispensar o intérprete. Não se trata de cedo ou tarde, mas o de saber ver. Milhares de pessoas desfilam pelas galerias do Louvre, olhando sem ver. Newton descobriu a lei da gravidade refletindo sobre a queda de uma maçã. Quantos antes dele foram atingidos por objetos que caíram do alto, sem jamais questionarem a razão da queda. O conhecimento enriquece, a ignorância deprime. (p.21-22)
Conversações com Iberê Camargo – Lisette Lagnado – Iluminuras – 1994
Vitrine
A casa é pequena e a vida fica toda na vitrine.
Foi o que escrevi. Ao reler percebo a sensação morna do transe na madrugada. Nostálgico, dramático, no mínimo estranho. Quero embalar-me nas emoções. Deveria ser racional, usar a lógica para ver o outro como ele realmente é. Fria ou incompreendida?
A casa está bem gostosa no seu mínimo… Penso. Há qualquer coisa de trágico na “queda” livre… Perda de poder. Pessoas se matam, enlouquecem ou vendem a alma pela riqueza. É como envelhecer. A decadência é vil, usurpadora, cruel. Nunca estaremos prontos para as perdas. Competir é resvalar pondo em jogo o equilíbrio, a sanidade mental. Provação. Naturalmente compreendo a necessidade de interiorizarão. Cidade menor pode ser fuga ou sobrevivência. Recriar a pequena casa. Refazer, refazer. É preciso largar, mudar para encontrar. Somos apegados a nós mesmos. Eu sei.












