Imaginação mineira

“Temo a vida subjetiva e recuo ante qualquer empresa, vontade, ou promessa que me obrigue ou me realize; tenho o terror da ação e não me sinto à vontade senão na vida impessoal desinteressada, objetiva do pensamento. Por que isso? Por timidez. De onde vem esta timidez? Do desenvolvimento excessivo da reflexão, que reduziu a quase nada a espontaneidade, o impulso, o instinto e por isso mesmo a audácia e a confiança.” (p.84) Diário Íntimo de AMIEL

Às avessas, primeiro a alma, primeiro por dentro, primeiro o pensamento, a ideia de ser alguém; e depois o vulto que se confunde na imaginação e custa a entrar um dentro do outro. Duas, três, quatro fotos pelo correio. Sem cheiro. Olhos pretos, cabelo tão escuro! Pele morena, corpo pequeno. Óculos grandes, os de sempre, mas ainda não é ele. A imaginação caminha pro lado contrário. Unhas retas, longas. Particularidades. A boca se abre num sorriso entregue. Observo os gestos lentos, nervoso. “… é quando não se espera mais nada para si mesmo, que se pode amar.” Outra  vez Amiel. Ombros pequenos. Palavras espremidas no encontro. Atropelo sem lógica. E o abraço é fundo, demorado. Esqueço. Fico quieta na curva do seu corpo. Somos dois malucos exercitando, alegremente, as melhores fantasias. Somos bons nisso. Em que mais seremos bons? Vontade de comer esta loucura. Engolir. Controlar. E ficamos esperando que aconteça o tempo, a hora, a normalidade. Mãos dadas sem pânico, sem aquele medo doente de explodir. Eu te espreito. Os primeiros toques esquerdos, os nossos. Doce, tranquilo de paz. Observa, quando olha. Escuto tua voz e penso que teus olhos espiam, antes de ver. Imaginação. Nascente de Tua Memória Há Sem que Houvesse

Coisas de tanto tempo! Elizabeth M.B. Mattos – agosto – 2013 – Recife

“Temo a vida subjetiva e recuo ante qualquer empresa, vontade, ou promessa que me obrigue ou me realize; tenho o terror da ação e não me sinto à vontade senão na vida impessoal desinteressada, objetiva do pensamento. Por que isso? Por timidez. De onde vem esta timidez? Do desenvolvimento excessivo da reflexão, que reduziu a quase nada a espontaneidade, o impulso, o instinto e por isso mesmo a audácia e a confiança.” (p.84) Diário Íntimo de AMIEL

Um sempre

Tudo importa. Cada lembrança! Saudade do tempo que não teremos. Quero aquietar-me nos teu abraço. Se existisse um sempre eu queria que este sempre fosse você. Não pode haver medo de perder o que não se conhece… Temos a fantasia e a possibilidade de. Digo sem me fazer entender. Somos como o mar. Inconstantes? Quebramos na areia… Esparramamos vozes! E precisamos do toque. Segura minha mão. Elizabeth M. B. Mattos 2013 – Torres

REsposta

Ventilas o assunto da forma justa. É tudo misturado mesmo. E as ‘queixas’ são disfarçadas, as minhas nas dela, as dela dentro das minhas. As mesmas. Caímos em armadilhas, e o susto sufoca no grito. Se concordássemos… Mas exasperam, aborrecem…

É esponja, é molhado, é áspero. É viver. Complicado ser pessoa.

Confissão

Cartas e histórias. Uma tela, um texto, narrativa completa. Pesquisa, resultado. Ou vulto, circo, nada, resultado. Uma única carta entre muitas, como esta de Iberê. O tempo não devolve as omissões, fica o lamento. Nem as dores. Nenhum amor… O que deixou de acontecer, apenas não aconteceu. Transito no vazio da desordem interior. E se hoje preciso tocar foi porque ontem não avancei nenhum passo. Eu me escondi… Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – 2013 –

Na foto, eu jovem.  No fundo, o óleo sob tela,  Carmélio Cruz – 1966 – Porto Alegre e fotos de Iberê Camargo com Pedro.  Viúva Lacerda – Humaitá – Rio de Janeiro.

“Porto Alegre, 25 – 02  – 1994

Querida Beth,

Mas como sou amarrada”, me dizes. Concordo. As dificuldades estão em ti, tu as cria e as alimenta. Por favor, reflete sobre esta frase de Rimbaud: ”Por ser gentil, perdi minha vida.” Vejo teus sucessivos hóspedes ocupando-te as férias, ocupando-te o tempo todo. Torres é um balneário que dá status. Nada melhor para esses teus amigos de areia, do que bronzearem a bunda com pouca ou nenhuma despesa. Seria melhorque ficassem em suas casas e enchessem uma bacia de água salgada e enfiassem o rabo dentro, melhor que interferirem na vida alheia. Não encontras uma ocasião para vir por que realmente não desejas. Estelita que se prontificou em te ajudar, até hoje aguarda a tua resposta. Ela não entende o teu silêncio. Falo-te assim duramente porque sou teu amigo de verdade. Sabe Beth, nós precisamos viver com verdade. Eu estou gravemente doente. Agora, tenho uma febre permanente que me deixa muito excitado. Se não aceitas o que eu disse, esquece e perdoa. Nossos abraços, nossos beijos

 o Iberê.”

Xico Stockinger e Garagem de Arte

saint michel melhorrrr nítidaRelendo Jens Peter Jacobsen, em Niels Lyhne. Pensei nas conversas com Xico Stockinger. Ele não escutava, mas lia os lábios e se comunicava com as pessoas. Olhos atentos, e o  mundo lhe interessava, sem limites. Os ouvidos de Xico Stockinger e o pensamento do professor de música:” O mais agradável eram os seus olhos, de cor gris, suaves e claros. Pelo movimento das pupilas podia-se notar que ela era um tanto surdo. O que não o impedia de ser um grande amante da música e um violinista apaixonado; os sons, dizia ele, não são apreendidos apenas pelo ouvido, todo o corpo ouve: os olhos, os dedos, os pés, e quando por acaso o ouvido falha, a mão sempre sabe, por uma estranha aptidão instintiva, encontra a nota correta. De resto, acrescentava, todos os sons audíveis são em última análise falsos. Quem, no entanto, possui o dom da música, tem no seu íntimo um instrumento invisível, ao pé do qual o mais rico stradivarius é uma espécie de tantã. Selvagem. É um instrumento da alma, em suas cordas vibram sons ideais, sobre essa base é que os grandes compositores criaram suas obras imortais. A música exterior, aquela que o sopro da realidade agita e que os ouvidos ouvem, é apenas uma lamentável imitação, uma tentativa balbuciante de exprimir o inexprimível; podia-se compará-la à música da alma, assim como uma estátua, modelada com as mãos, talhada a cinzel, medida, pode ser comparada ao maravilhoso sonho do escultor, que os olhos não vêem nunca e os lábios nunca podem louvar. “ (p.51, Cosac& Naify Edições, 2000. coleção Prosa do Mundo)

Ao escrever, sublinho lacunas. Lacunas que se transformam em metáforas.

O tempo de trabalhar na galeria  Garagem de Arte foi também tempo de metabolizar. Perdi amores, reconsiderei o passado. Embora tenha escrito/realizado com sucesso o o pequeno livro de memórias de  Stockinger, faltou empenho em seguir escrevendo e publicando. Tanta coisa que importava não foi dito. Necessárias, íntimas. Na inquietude do desconhecido, e da urgência de fazer, o vazio da incomunicabilidade / barreiras.  Esta memória mais íntima já seria outra escrita. Outro texto. Outra história.Outro livro. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – 2013

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Bilhete para Francisco

Que vergonha gostosa! Álcool e amor não é a boa mistura. Mas foi bom demais dançar, estar… E eu que nem conhecia a Lapa! Não com esta alma. Tomei o suco, passei o café, um copo de café preto. Estou zerada. Não. Estou meio tonta, arrependida… O que eu queria mesmo é ter te amassado, apertado, dominado, beijado, e… Coisas loucas! Tu me aguentas?

Abri as janelas. Tem um bilhete teu que respondi dentro do teu bilhete… Não encaminhei.  Muita informação… Eu me perco nos meus Franciscos.

 Amado querido!

Por qual praia te perdeste hoje? Volta logo!

Diário com lembrança

Domingo frio. Céu azul depois de chuva. Noite de bom sono. Sem dor. Cheiro de limpeza. Bom sábado. Melhor domingo. Anita mãe. Roberto pai. E a casa entre branco e bege, também  o verde… Saudade das pedras, das camélias, das escadas. Labaredas dos nós de pinho.  Escolhidas cuidadosamente as telas, os pintores. Perfume. E a Serra do Mar a me espiar em Torres.  Sessenta e cinco anos. Lavo a memória enquanto arrumo o armário. Rua Vitor Hugo, mas também Avenida Maryland.  Agora na Anita Garibaldi. Resgato o capricho! Não. É a rua José Picoral , vejo o mar. Volto para a Lagoa do Violão. Taça de vinho transparente, lisa, leve. E o licor deve ser servido naquelas menores. O uísque nos copos arredondados, as taças bojudas são para o conhaque. E lembro assim do Francisco Antônio. Em Conhaque, na França, provamos diferentes sabores Posso passear entre copos, entre ruas, entre pessoas, e a viagem que me deixa os dedos gelados não é imaginária… A lembrança se senta refestelada ao meu lado enquanto lavo copos, ordeno as prateleiras do armário.

Iberê está pintando frenético nervoso ao meu lado. Flávio Tavares seleciona as fotos de Che Guevara para a exposição, outro livro. Quieto. Paulo Hecker Filho insiste: ‘ que eu me dedique aos escritos’. Muito mais. E Mário de Almeida Lima voltou para contar de sua entrevista, e velhas histórias do Vianna Moog. Gosto deles todos. Desta memória vertigem. O Danúbio Gonçalves acordou para refazer os mosaicos, mas quer pintar o retrato da Joana. O Carmélio cria cidades, e lembra a tristeza da infância.  Comprei um vestido e um casaco no RUI, e dei uma espiada nos quadros escondidos do estilista. O Glauco Rodrigues está dançando. E o tempo volta, mas eu sigo aqui entra bacias lavando os copos… Elizabeth M.B. Mattos 2013 – Porto Alegre

Rotas de Fuga

 Espantoso o que encontrei!

8 de abril de 2013

Amoras Azuis

 
Andei percorrendo as muitas rotas de fuga
Andei querendo amoras azuis
Andei dormindo em abismos
Andei  não tendo orgulho de mim
Agora eu choro muito mais alto,
enquanto me abraço sozinha no escuro!
 
 
 
Amne
Em Colcha de Retalho: um poema feito para amorasazuis

Escrever Paixão e idade

“Por que tanta donzelice, tanto pejo em relação a escrever? Certamente porque escrever é, em princípio, ato tão íntimo quanto a masturbação, com a qual guarda notável parentesco. […] Essas ilusões mundanas, engraçado, muito pouco têm a ver com a nossa luta silenciosa e, sobretudo, com nossas angústias. Felizmente, esse diálogo com o papel em branco, com o teclado, não é só isso, luta e angústia – é também um grande gozo. É dessa maneira que justificaremos nossa existência? De que tamanho é nosso equívoco?[…]
Gostaria de levar minha dúvida ao Nilton; que ele explicasse a visão que tem de mim, de que sou um escritor. Afinal, o erro de pessoa é o mais trágico – ou tragicômico – dos equívocos.” (p99-p103)

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Todo o capítulo oito de A Idade da Paixão se estende  sobre  escrever. Ser ou não ser um escritor: prazer, solidão e gozo.

O livro ganhou o Prêmio Jabuti Melhor Romance. Merecido. Rubem Mauro Machado agarra o leitor. Edição da Bertrand Brasil 2006.

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