Juremir Machado da Silva – Correio do Povo – Porto Alegre, 6 de outubro de 2004. Ser feliz
É tudo o que se pode. Mas nem sempre os outros deixam. São tantas as recomendações: não se queixe, não conte vantagens, não demonstre ressentimento, lute, não se deixe abater pelas derrotas, não seja invejoso, não seja arrogante, ajude os outros, seja humilde, não banque o dono da verdade, não seja fútil, não seja pernóstico, pense nas pessoas… Cada um tem tantas vontades e tantas limitações que a felicidade parece o horizonte perdido, ou o pote de ouro no fim do arco-íris. Quando mais a gente se aproxima dele mais ele se afasta. Muitos se assustam com tantos imperativos categóricos, e não se atrevem mais a pôr a felicidade no colo numa tarde qualquer de primavera. Mas a felicidade anda sempre por aí à espera de um carinho. É certo que não se entrega para sempre, porém encontra mil maneiras de satisfazer uma pessoa que esteja disposta a correr esse risco.
Exatamente, um pouco de felicidade exige uma boa dose de risco. Não se imagine, contudo, que correr riscos tenha algo a ver com aventuras terrivelmente perigosas em campos minados. O maior risco continua sendo o de se abrir para o mundo, fugir das parcas certezas que nos prendem ao sofá como ao rochedo da salvação e mergulhar no extraordinário do cotidiano. Por trás da aparente banalidade do dia-a-dia esconde-se um universo fantástico de pequenas grandes coisas. É difícil esquecer banho de chuva de verão ou de mangueira em tardes de janeiro. A infância, mesmo que os adultos tentem estragá-la, é um reservatório de sonhos. Mais difícil ainda é ver que há, felizmente, muito dos jogos infantis na vida dos adultos de coração aberto às coisas simples.
Do futebol de sábado à tarde às rodas de amigos nos bares ou nos parques, numa atmosfera de não está acontecendo nada, está acontecendo o principal: a vida. A grande lição, sem preço, da vida é sempre a mesma: seja autêntico. Brigue se tiver de brigar, rompa se tiver de romper, não abra mão dos ideais, salvo se eles se tornarem prisões dogmáticas ou armaduras do passado, e perdoe quando chegar a hora, pois ela quase sempre chega. Eu estava pensando nisso, domingo, atravessando a Redenção, quando um mendigo me chamou. Tentei evitá-lo. Ele insistiu. Finalmente, do alto dos meus preconceitos, certo de que me daria uma facada, olhei para ele. Sorriu. ‘Viu como esse raio de solte persegue?’, perguntou. Não, eu não tinha visto. Estava pensando na felicidade.
Foto: Rua Marquês de Pinedo – Laranjeiras – Rio de Janeiro











Nascimento, mamadas, e lágrimas. Aconchego. A vez de segurar/abraçar, trocar fraldas, e nós! Nosso bebê… Pessoas amorosas vieram te homenagear, felicitar! O nosso bebê amado, desejado festejado! Parte tua, minha, nossa. Francisco não veio, Gianfranco desapareceu, Flávio não compareceu, Paulo viajou, Willy se atrasou. Eduardo não achou correto, Júlio Carlos me visitou em sonhos…, nos sonhos nos amamos! Rubinho não veio a tempo, nem falou. Ricardo, nem Geraldo se inclinou, nem Jorge. Ninguém abriu corretamente as duas portas daquela sala. O Flávio me escreveu, Iberê Camargo desenhou… A filhota nasceu! Porto Alegre, 14 de fevereiro 2013 – Hospital Moinhos de Vento