Garagem de Arte

Entrevista lenta. Regada com uísque. Fato desviado, riso frouxo, ato falho anotado. Importa menos a experiência, mais a personalidade. Risadas. Pontos lúcidos de temperamento anárquico. O texto sou eu. Firmou-se ali o salário curto. Na memória desta sala posso ver os quadros encostados uns nos outros revestindo paredes como se fosse um painel. Nenhum destaque, todos saltando por conta própria. Neste mosaico encontrei o Carmélio Cruz. Referência especial. Outra parede fechada com as gravuras do Stockinger, o escultor, e a Revista do Globo voltou com pequenas e pretensiosas entrevistas culturais: memória. Não encontrei uma tela do Avatar Morais, nem vi Glauco Rodrigues, tampouco Danúbio Gonçalves, nem Scliar, nem Bianchetti. Eram outros artistas. Não mais dezoito anos. Nova escola. Esculturas por todos os lados, lareira a nossa frente. Porto Alegre inteira pelas janelas. Gerenciar a galeria Garage de Arte. Entusiasmo,  retorno a Porto Alegre. Dispunha de estrutura, apoio administrativo, chofer, telefone, computador e liberdade. Liberdade. Ainda a possibilidade de criar pequena livraria-bar-café. Eram os propósitos.

Tua carta, meu amigo, deixa-me ansiosa. Quando afirmo ser a beleza escudo de horror, tu refutas. A beleza é uma aliada útil, talvez preponderante num mundo competitivo, mas pode reinar na mediocridade. Mal aproveitada, degrau, obstáculo. Preciso estímulo, não de beleza (fanada beleza). Houve um doce tempo de ser menina.  A graça nos rosários de madeira, terços com tantas Marias! Cantos gregorianos, serviço social, missa festiva, procissão, retiro espiritual… Frei Celso. Infindáveis e possíveis diários introspectivos. Rezas, leituras bíblicas  outras missas diárias, e matutinas. Não sem caminhadas com chapéu vermelho, e pequenos lanches para os piqueniques escolares, e salve as pitangueiras, amoreiras, e passarinhada do Colégio Nossa Senhora das Graças!  Triste ironia transcrita em tempo de acertar. Coisa picada da infância! Estímulos têm cheiro de leite materno. Espaços vazios cobrem de sombras o café preto, o cigarro, as vozes. Onde estou que me apequeno no mesmo colo de cinqüenta anos passados? Busco incertezas certas no refúgio paterno da casa silenciosa. Insegura afirmo negando o que aconteceu de fato naquele tempo de galerista.

O espaço ocupado, o brilho interno das pessoas limita-se ao desconhecido tempo de permissão. Assim, somos generais e vencedores naquela específica batalha. A terra não nos pertence, nem o rio, nem os mortos, e, os louros são do espaço entre ontem e amanhã: um fugaz momento que determina  a felicidade que sequer apalpamos. Está solta no ar que se respira, pressentida, alimenta. A felicidade conjugada na alegria é fugaz…  Se antes a âncora podia ser o Iberê Camargo acertando meus medos com  evidentes propostas de ser marchand, agora galerista…sem Iberê

Coloco neste pote amarelo, amoras azuis …as últimas desta temporada.

Tua mão na minha mão

Sol! Vem me buscar. Pega o braço, o corpo. Beija a testa. Aquece a dor. Depois quebra a luz pra ficar noite, pra nascer de novo na água do rio da Restinga Seca que brotou na pedra… Da história te entrego texto fechado: cartas,  fotos, nós. Do espaço às caixas, e das caixas presas nas pilhas outras caixas… Solta o braço, bebe a música.Deixa cair tua mão na minha mão. Elizabeth M.B. Mattos novembro de 2012 – Torres

Porto Alegre, 31 de julho 1987.

Querida Beth,      

Pensei que tivesses te esquecido de mim. Há muito que não recebia notícias tuas. Tua carta  – nela tu estás inteira –  me reacende a saudade. Vejo que te jogas de corpo e alma nos teus afazeres, talvez querendo fugir à monotonia da vidinha de província. Eu te compreendo. No interior até o pensamento para. Há no ar um sossego pesado que sufoca. Nesse ambiente é impossível criar. A gente termina mugindo como boi. Porto Alegre também oferece muito pouco. Beth, vivemos num país pobre e choco. Somos pobres, principalmente de cabeça. Talvez tu me aches um pouco amargo e cáustico. Remeto-te dois convites das exposições que realizarei no Rio e São Paulo. Pelas reproduções poderás ver o que faço, isto é, como vejo o mundo. Sei que a minha visão é trágica, sombria. Porém, eu digo a verdade. Beth, eu te quero muito bem. Não esquece isto. Estive em Montevidéu onde fiz uma exposição de desenhos, oportunamente te remeterei xerox do que disseram os críticos. Escreve sempre que for possível. Eu te abraço com o carinho de sempre o Iberê.

                                                    

 

Kyung – Sook Shin

FOLHAS DE BORDO

“Antes da nova casa ser construída, Mamãe escolhia um dia de sol pouco tempo antes da Lua Cheia da Colheita e retirava uma a uma as portas da casa. Esfregava as portas com água e as colocava para secar ao sol, depois fazia uma espécie de cola e, com um pincel, grudava papel de amoreira novo, quase translúcido, nas portas. […] Mamãe pegava o pincel rapidamente o enfiava na cola como se, com extrema perícia, estivesse desenhando orquídeas para uma pintura tradicional no papel e, sozinha, colava o papel no alizar limpo da porta com movimentos precisos. Seus gestos eram despreocupados e alegres. […] Embora houvesse muitas árvores no quintal da casa, pés de caqui, de ameixa, árvore- do- céu, jujubeiras, Mamãe pedia especificamente folhas de bordo, que eles não tinham em casa,  (p.102-103) O sumiço de Mamãe desencadeou a lembrança de acontecimentos que ele julgava ter esquecido, como as portas com folhas de bordo.” (p.104)

Quando o ano termina quero trocar as portas da casa, como nesta história da memória…

Por favor, cuide da Mamãe de Kyung – Sook Shin 

Coréia do Sul

Informar

O espanto vem da idade, do senso de observação, de um olhar… Embora tenha boa índole a criança sofre o abandono, a não orientação, alienação sob forma de zelo. Tratada com irreverência: não deve gritar, mas zelar, não deve sujar,  mas ajudar. Enquanto criança deveria brincar, perguntar, escutar. Suponho que participar do mundo, informar, seria educar…Mas não sabemos nada sobre educação.

Uma estante

As crianças deviam ser educadas em contato com grandes bibliotecas. A convivência diária com livros. Reflexão e silêncio. Contínua adaptação a mais meticulosa ordem. O exercício ajudaria a juventude.

Durante o tempo em que estivemos juntos imaginei cada palavra que poderia dizer, pensei o discurso, imaginei o pretexto. Separei qualidades e defeitos. Confundi amor com responsabilidade. Felicidade com abnegação. Elaborei mentalmente a conversa. Reconsiderei  dificuldades. Repassei leituras adequadas, selecionei autores. Não houve conclusão. Retomei os livros. Bibliotecas particulares da casa dos avôs, dos pais, do tio Almir… Necessárias mesmo sem ser manuseadas.

Pensei: uma estante pode ser uma instigante biblioteca de respostas.

Elizabeth M.B. Mattos – 2012 – Torres

Brincar o amor

O mundo se explica com guerras, monumentais cidades, superpopulação, desmatamento, usinas, fome, justiça, poluição, trabalho, ócio. Verde, azul, marrom, violeta, paz, silêncio, azul, pedra, rio, casa, planície. O mundo inteiro dentro da pessoa, da explicação, daquele corpo, daqueles braços, deste rosto, destes olhos que já não veem, apenas percebem. O mundo está dentro dela. O mundo existe de dentro para fora. E nós carregamos o universo a cada deslocamento.  Não existe mundo sem a pessoa.  Quem? Esta coisa que tanto se explica existe dentro… Justifica-se a vida! E sobrevivemos apesar de… Como já escreveu Lispector.  Afinal a  vida continua atada nela mesma. E se a vida continua atrelada aos cadáveres de outras vidas é porque seguimos… Reflexões de conversas compridas… Quem tu és? Quero saber. Diferente de quem sou.  Conceitos presos na tua inquietude, ou na minha vida burguesa? Seguimos afastados. A palavra preconceito resvala no liberalismo aberto de brincar o amor… E eu a pensar o mundo…