MEDIANEIRAS

O filme é baseado no curta de mesmo nome de GUSTAVO TARETTO. Já deve estar nas locadoras.

MEDIANEIRAS.

Taretto trabalhou por mais de 14 anos com publicidade e em 2004 recebeu o Leão de Ouro em Berlim na respectiva categoria. Quem quer visitar Buenos Aires por um segundo…

incompetência

Os outros sabem mais do que eu. Em princípio, não aborrece. Depois aborrece. Aborrece bastante. Escrevo, escrevo, escrevo e nada concluo, então, não escrevo apenas desejo… Elas, as histórias, esbarraram no vazio, na incompetência: para viver é preciso ser competente, para contar história é preciso ser competente. Escreve-se, mas não se diz nada… Morte certa. Contar, escrever, quais outros expressões existem? Poetar? Relatar? Copiar? Sem a competência da leitura, do desejo, do olhar, sem obrar não conseguirei. Na medida em que escrever é viver, a tal competência  se faz urgente. Estas histórias são reais? Não. Viver não é real. Repete-se o fictício na química mágica de misturar, aonde o talento não se esconde, mas espuma borbulhante. Ele se reproduz. Sobrevivência. Se as histórias fossem verdadeiras não seriam importante. História é remendo. Discutir o fato seja verdade ou mentira não é relevante. Os limites são sociais, éticos, emocionais. A veracidade está na forma de escrever e na forma de ler, e na minha invenção. A leitura é o peso, o encontro, o entendimento perfeito ou imperfeito; este é o banal conceito de verdade, verdade verdadeira, experiência do espelho. Todos os autores, escritores, jornalistas, cronistas e poetas escrevem a verdade… Eu não. Os leitores sabem da verdade deles próprios. As minhas, as de ninguém? Que importa? Livros fechados embelezam estantes, corredores, ou são queimam para diminuir o frio, interditados… Quando as geleiras desaparecerem, e  inundações engolirem esta terra, quando o sol arder noutro pedaço do mundo, ainda assim leremos. Aberto o papel, preenchido os brancos, pontilhadas as linhas começo a contar uma história, contá-la com reticências, omissões.  Instigar o tempo, isto é, a idade, como ampulheta de veracidade. A categoria ficção, autoajuda, teoria, roteiro, biografia, autobiografia, bisbilhotice, uso, mesmo no erro, acerto. UFA! Posso deixar por conta da cronologia? Um personagem inacabado já é história, ou parte dela. Um texto!

Era uma vez uma certeza: em certeza afogada. Caminho incerto. Olhos abertos… A dúvida ilumina porque não acaba este te procurar/desejar/, nem este sensual derramado desejo a desejar. Elizabeth M.B. Mattos – menina / guria / mulher / fêmea /nuvem de chuva explodida… Danado de mundo bonito! e as palavras não chegam…, eu ainda te quero tanto! Bom!

Decisão de um pai

A decisão de um pai, o desejo de superar, de aceitar o desafio, lutar a favor dos filhos!

A decisão de um pai, o desejo de se livrar do problema; rejeitar, desistir de um filho!

Não são batatas, são seres humanos. Não existe uma receita para ficar maravilhosos.  Existe amor. Aliás, quem cozinha sem este tal de amor, também não acerta… A vida é um ato de superação, e os homens agregam, ou são assassinos. A guerra é desistir, lutar invertido… A guerra em família é um modelo que se multiplica como fez Richard Kretschmar.

“Acariciei o peito de Tito. Ele permaneceu morto. Acariciei o peito de Tito. Ele permaneceu morto. Acariciei a perna de Tito. Ele permaneceu morto. Acariciei as costas de Tito. No momento em que acariciei suas costas, deu-se o inesperado. Subitamente, ele contorceu o corpo e arqueou a coluna. Tito ressuscitou.” (p.36)

“Adolf Hitler, em 1939, recebeu uma carta de Richard Kretschmar, um lavrador de Leipzig. Richard Kretschmar implorava a Adolf Hitler que o ajudasse a matar aquele que – na carta – ele chamava de ‘monstro’. O ‘monstro’ de Richard Kretschmar era seu filho Gerhard Kretschmar. Gerhard Kretschmar nascera cego, maneta e perneta. Ele nascera também, segundo seu pai ‘idiota’. (…) Em 25 de julho de 1939, aos cinco anos de idade, Gerhard Kretschmar foi executado com uma alta dose de Luminal. (…) O extermínio de Gerhard Kretschmar – um recém-nascido inválido repudiado pelo pai – assumira o caráter de extermínio de um povo: o Holocausto.” (p.39-40 e 45)

Diogo Mainardi A QUEDA

 

 

A casa e o tempo

O tempo Muito Tempo

Uma casa assume as características do morador, e, dependendo de quem seja, pode se tornar uma casa muito boa ou casa muito estranha. Quando a primavera chegar, por favor, plante algumas flores no quintal, dê um polimento no chão e conserte o telhado que despencou com a neve.

Por favor, cuide da mamãe

Kyung – Sook  Shin

Le crépuscule est um arbre. Il fait brûler sa peau. Il  s’ assombrit. Puis le silence passe d’un oiseau sur l’autre. Le bleu devient alors très noir. (Extrait)

Henry Deluy

Foto: edinilson karnopp

O caminho percorrido

O caminho percorrido

Atualmente, a casa se transformava em instrumento de tortura, não apenas pela quantidade de escadas, mas também porque amargava a saudade… Fisicamente não era mais possível caminhar.  Todas as direções era sofrer. Precisava enfrentar quinze lances de escada à direita, e ou seis lances a esquerda. Para chegar à oficina, era preciso descer mais vinte lances de escada. Quando chegava a casa, era preciso carregá-lo nos braços, os degraus de acesso eram estreitos. Enfim, enfrentar escadas era o seu calvário: o que a casa lhe oferecia agora? Mesmo assim fazia questão de morrer ali, como se esta teimosia fosse o consolo, e não uma batalha legal.

 

 

 

Foto: edinilson karnopp

Santa Cruz do Sul

Santa Cruz do Sul

Uma casa é uma coisa estranha. Tudo fica muito gasto quando é utilizado, e às vezes é possível sentir o veneno de uma pessoa quando nos aproximamos dela, mas nada disso acontece com uma casa. Até uma boa casa desmorona rapidamente quando ninguém cuida dela. Uma casa está viva apenas quando há pessoas morando nela, tocando nela e permanecendo nela. (p.200)

Kyung – Sook Shin : Por favor, cuide da mamãe

Foto: edinilson karnopp

Só liguei para dizer que te amo

 

Privacidade, para mim, não significa manter minha vida pessoal longe dos outros. Significa me manter longe da vida pessoal dos outros. ’ (p21)

 E assim, quando lá estou comprando minhas meias na Gap e a mãe atrás de mim na fila solta um ‘eu te amo!’ no aparelhinho, não tenho como evitar o pensamento de que é impossível não pensar que há alguma representação naquilo; uma representação até meio exagerada; uma representação pública; imposta em tom desafiador. Sim, muitos assuntos domésticos são tratados em público, embora não sejam para consumo público; sim, as pessoas perdem o controle. Mas a frase ‘eu te amo’ é relevante e intensa, e dita assim, como se fosse um anúncio, de forma demasiadamente autoconsciente, me leva a crer que o fato de eu ouvi-la não é algo acidental. (p27)

Jonathan Franzen autor de COMO FICAR SOZINHO