Lógica

Estar à margem direita, e ou à margem esquerda. O tempo escorrega… O risco da memória. A linearidade dos fatos não se ajusta. Internamente a desordem. A conversa de Alice  no famoso chá de Carrol ilustra: 

– Não é a mesma coisa nem um pouco! – protestou o Chapeleiro. – Seria o mesmo que dizer que “Vejo  o que como”, é o mesmo que “Como o que vejo”.

– Seria o mesmo que dizer  – acrescentou a Lebre de março – que “Gosto daquilo que consigo” é o mesmo que  “ Consigo aquilo de que gosto. “ [1]

Uma experiência no mundo do nonsense.

Experiência de pesadelo.  Espaço e tempo fechados. Exclui-se o afetivo. Subsiste apenas relações de rivalidade, a competição: a corrida vestida de relógio, contra o tempo. Discurso descabelado. O espelho é o outro. Lá do outro lado, com tempo, ou sem tempo…Elizabeth M.B. Mattos – 2012 – Porto Alegre


[1] Alice no Pais das Maravilhas de Lews Carrol

 

Anchovas sautées

“Você deixou o polvo vivo que tinha comprado no mercado de peixe de Pohang na cozinha, pois nem você nem sua mãe sabiam o que fazer com ele, e sentou-se à mesa na frente de Mamãe, como nos velhos tempos, comendo em silêncio uma refeição simples que consistia de arroz e banchan, acompanhamentos como kimchi, tofu assado, anchovas sautées e algas marinhas torradas.“

Não resisti… Por favor, cuide da Mamãe descreve sentidos sentimentos. O livro se entrega tão manso!

Estamos com Kyung–Sook Shin uma escritora da Coreia do Sul.

O Pai Marinheiro

O mergulho traz calor: súbita luz do mar ou do sol? O silêncio estaciona inquieto e produtivo. A leitura chega madura na página certa. As amoras estão na vasilha transparente, e a memória fica lambuzada no azul. Neste instante exato a criança abre os braços pro abraço. Chegou a hora! O corpo inteiro responde ao calor. A Serra do Mar desenhada na geografia da voz que descreve a ilha, o vento… Olhar pacífico. Palavra certeira que derrama histórias no risco do mapa. Rios e montanhas, planícies, oceano. O farol. O pai marinheiro de direito! O mergulho traz calor. Fiz um gramado na minha sacada, e o maracujá se espreguiça na buganvília. A história atravessa a vidraça… As uvas se preparam pro verão… Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2012

Cartas, Diários e memória

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A memória de cada um é apenas a guardiã da memória coletiva. É preciso não esquecer que todos estes pedaços em registros servem para lembrar do que é comum: angústia, incerteza, turbulência, genialidade com incredulidade,  e um dia depois do outro. Carne, sexo e sangue: energia. E o que mais? Um espelho com tinta de memória distorcido, ilusão e realidade…Beth Mattos – 2012 – Porto Alegre

Um deserto árido

 

Através da janela espraiam-se as luzes da cidade na chuva, e das avenidas iluminadas com um brilho nevoento. Sobre a escrivaninha, pastas abarrotadas de papéis, livros diversos abertos diante deles, cartões de várias cores, talvez um copo de uíque entre os papéis, e rascunhos, e vários bilhetes e anotações, tudo espalhado à luz da luminária de grife que projeta um agradável círculo de uma luz silenciosa e quente. E dos cantos do aposento, de entre as prateleiras carregadas,flui uma música suave. Lá está um homem debruçado sobre sua escrivaninha, estende a mão quando quer e toma um gole do uisque, enche um cachimbo quando quer, com energia e vivacidade preenche uma folha atrás da outra, escreve, apaga, se anima, se arrepende, amarrota e joga no chão, por trás dele, a folha rejeitada. Tenta de novo, o som de uma sirene distante ou o repicar abafado de sinos se ouve lá de fora, finalmente vem a inspiração e com ela a alegria e o homem atinge seu alvo. Então suspira aliviado, lento e cansado, de olhos fechados em sua bela cadeira. Só ergue a voz um pouco, e uma mulher de roupão ou de quimono se apressa a entrar no quarto. Essas são as coisas simples e fortes que se deve fazer acontecer, porque sem elas a vida mais parece um deserto árido. (68-69) Uma certa Paz / Amós Oz

Tronco rugoso

Pequenos milagres, legítimo esforço de chegar… Revalidar a vida. A verdade escapa pelos dedos como o trigo moído: o pão é a doçura de uma prece. Enquanto as árvores falam,  o vento chama os olhos…Acendo um cigarro, penso no silêncio fresco. Penso no esforço de ser ainda uma vez eu. Vejo as flores brancas presas no tronco rugoso da vida. A vida não se conta, mas se esmiúça na ficção. A ficção, o arremedo do suspiro fluído.  A vida se esconde nas feridas abertas da dor. Clichê.  Na culpa, na raiva. Que todos os esforços se soltem agora na fresca da noite. E o indício do prazer  seguirá no acaso deste causo. Elizabeth M.B. Mattos – 2012

Perfumes ou Restaurante

Onde está a casa aonde as pessoas conversam? Adultos mencionam política, recitam versos, enumeram autores necessários, exigem. Acolhem os jovens artistas, lêem os livros. Educação. Vozes tinham opinião. Tramas de novelas televisivas, seriados, filmes, crimes ocupam o espaço inteiro das salas… Roupas, cosméticos, perfumes ou restaurantes.O imaginário das pessoas. As casas se esvaziaram. Homens e mulheres nas empresas, presos nos congestionamentos. Os jovens moram nas esquinas. O mundo das pessoas grandes não é atraente, nem ambicionado. A criança cresce dormitando entre a escola e o computador. O velho significa o usado.  As janelas estão fechadas. Ainda existem os livros, o deleite. Mas não temos o traçado, apalpamos.

Azaria Guitlin pegou um cigarro, pôs na boca, agradeceu muito, emocionado, e logo voltou a agradecer pelo fósforo aceso que lhe foi oferecido. E começou a falar com fluência e rapidez, engolindo finais de palavras, desistindo no meio de uma frase e logo se complicando em outra, ajudando com as mãos que gesticulavam sem parar, não ousando interromper nem para uma tragada do cigarro; é um rapaz de Tel Aviv, socialista por convicção, sociável, organizado e diligente. (p.52) Amós Oz – Uma Certa Paz.

Uma certa Paz

Mesmo quando Iulek se abstraía de questões práticas, mesmo quando recordava suas vivências juvenis, ou quando pensava na morte ou em seu filho primogênito cada vez mais fechado para ele, mesmo então seu rosto não exprimia tristeza nem espiritualidade, mas uma mescla de paixão com a sabedoria contida e paciente de quem espreita com calma a chegada da hora dos prazeres. (p.49-50) in UMA CERTA PAZ de Amós Oz

Esta hora ausente de todo dia, mas presente em todo domingo sonolento suarento, sonolento molhado da chuva, sonolento numa manhã de sono comprido: o prazer!

Outra vez

Chove, faz sol, chove, faz calor. Já deves ter chegado ao Rio de Janeiro. Embora se tenha passado um par de dias juntos, pouco foi dito.Como dois apaixonados, as raivas de ontem se desmancham nos beijos recheados de olhares mansos. A saudade plantada na presença fugidia. Momento de alívio quando adormeces vestida; posso afrouxar tua roupa, fechar as cortinas, colocar outro travesseiro para melhor apoiar teu corpo pequeno. Posse do silêncio conciliador neste curto espaço de tempo… Entregue, suspiro no alívio, como se toda tensão pudesse desaparecer. Os erros se transformam em acertos, as queixas se volatizam, a beleza do corpo adormecido transforma o quarto, estufa as cortinas ao vento. E a floração do jasmim perfuma a sala.  Sentada na poltrona que gostas de sentar quando a boa leitura avança, eu posso medir tua mão, teus pés abertos sob os lençóis, tuas ancas porque o vestido que cobre teu corpo está colado na tua pele suada. A perturbação desta contemplação tira o ar, e sinto um enjoo doce e quente desta floração tão próxima da janela. Mastigo as pequenas flores brancas… Minhas narinas abrem e fecham, tenho as mãos molhadas. Adormeço sentado. E a tarde vai esfriando o dia. A chuva fica mais forte. Venta. O verão surpreende.