femme bleu

às vezes a gente acorda um livro! um livro, um conto adormecido na memória boa, na memória guardada para despertar. A Morte de D. J. em Paris de Roberto Drummond

A gente fica como se uma lua tivesse entrado dentro da gente. Mas é preciso estar em estado de graça para ver uma femme bleu…”

se o tumulto deste inverno me atropela, se sinto dor aqui e ali, se fujo do tempo e não adianta, o tempo me agarra, aperta, e faz doer…, recorro aos livros! ah! as velhas leituras miúdas, agarradas na memória me ressuscitam (a gente tem mesmo esta mania de morrer pra esquecer, depois volta, e a volta tem um cheiro tão bom! de vida!), e,

abri o D. J. como se pudesse ter mágica / ser mágica:

Custo acreditar que D. J. morreu, mas, afinal de contas, o jornal disse que ele está morto, então deve ser verdade; para mim, no entanto, le brésilien D. J. está vivo, está aqui: tinha uma cicatriz no supercílio esquerdo, um mistério: eu nunca soube como surgiu aquela cicatriz; ele era magro; louro como um inglês, mais ou menos 1 metro e 75 de altura, e, segundo mistério: tinha hora que D. J. parecia ter 45 anos, outras horas ficava com 29 anos. Era solteiro por amor: terceiro mistério. As mulheres feias achavam D. J. horrível, mas as belas gostavam dele, D. J. teve quantas quis, até o dia que descobriu que só as mulheres azuis faziam os homens felizes.” (p.56) Roberto Drummond A Morte de D. J. em Paris (editora Ática – 1991)

ah! este texto! a ideia de Paris, o lugar onde os sonhos moram! a calçada de passear, a calçada por onde não passas, e eu te sinto! ah! se eu pudesse, como o D. J. ir para Paris, não importa onde fosse, a minha, a tua, a nossa Paris dos sonhos! apenas ir aluando na vontade de ir, e, chegar no jardim, ir sair andar e chegar… eu quero esquecer que estamos no inverno de agosto, e chagar a galope no fim da primavera, quase verão! Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2022 – Torres, querendo sair, sem saber ao certo para onde ir! ah! se eu pudesse resolver / consertar, não sei.

segredo evidente

Nada na tua vida é segredo, tudo tão absolutamente evidente, transparente! E, como se tu fosses, de fato, transparente, as pessoas te atropelam, passam, não te veem tanto já sabem de ti! Quase cruel isso, mas é assim. O tempo de viver está/parece tão curto que o já descoberto /evidente, não mais interessa! Depois, levianamente, inadvertidamente, opiniões o acho aquilo e isso são ditos com uma leviandade inconsequente / frouxa -, machuca. O ingênuo, o exposto ferido, maltratado, arde, dói. Há que se proteger! Se reiniciar devagar, como se a segunda chance de viver fosse ainda semente, na terra, a brotar, a crescer ainda…haja cuidado e atenção! O jardim precisa do sol da chuva. Precisa de todos os detalhes amorosos que não estão em cartilha, e precisam ser realimentados. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres

bancos náufragos / registro

Acordar antes de clarear, coisas de quem dorme cedo demais. Deveria ser quatro horas, eu acho: escuro. Desci com a Ônix, deu umas voltinhas no gramado, e pensei, com frio: vamos dormir mais um pouco, voltar para o quentinho. Gelada manhã. Percebo, mais longe, na beira da lagoa, uma caminhoneta branca estacionada, esquisito! Voltamos rápido. É a hora que pescam ilegal, tanta coisa fora do permitido, gente da madrugada do sábado…Sou curiosa. Apaguei as luzes. E, surpresa, a caminhoneta estacionou bem na frente do prédio. Faz já um mês, não vi como, nem quem foi, mas os dois bancos de cimento foram parar dentro da lagoa: pernas para cima, entre mergulhados, ou esculturas, os dois… Não fotografei o vandalismo. O socorro não veio… lá ficaram, um mês, ou dois, o inverno. Surpresa! Da tal caminhoneta um homem grande, forte, enorme, começou o resgate. Lutou bravamente, Aguentou o peso. Foi incrível! Conseguiu colocar na caminhoneta, empurrou, pro fundo, e nem conto às vezes que quase não suportou, o esforço, a exaustão, eu podia ver… Arrumou o outro banco em baixo da árvore! Já começava a clarear. Voltei pra cama! Bem! Levou um, mas colocou o outro no lugar, perdemos um, mas, lá está o outro. Quando levanto, escancaro as venezianas pro dia entrar! Olhei! Nada de banco, deve ter voltado, com alguém para ajudar, e, levou o outro…Não temos mais bancos! Olha! Pesados! Aqueles de cimento! E se fossem bancos de jardim…, não, não merecemos bancos nem brinquedos nas praças! Como é triste! As pessoas arrancam as flores, as árvores, o que puderem carregar. E jogam o lixo no quintal do vizinho! Como é difícil compartilhar! Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres

sem bancos agora, mas ainda muito bonito – apenas o registro

pendurados desejos

Ali onde meu mundo se organiza eu penduro meus sonhos. A realidade daquele varal no espaço da minha sala em desordem se concretiza num hoje perfeito. Estou feliz, os movimentos chegam/entram com a luz refletida no espelho, e os pendurados desejos se materializam. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres – frio, gelado, surpreendente inverno parado nesta temperatura que se despenca, agarro o que posso, seguro, aperto…, não deixo escapar nenhum pouquinho de calor. Tenho que contar o dia.

indestrutível

A vida autêntica de um pensamento dura até que ele chegue ao ponto em que faz fronteira com as palavras: ali se petrifica, e a partir de então está morto, entretanto é indestrutível, da mesma maneira que os animais e plantas petrificados da pré-história. Também se pode comparar sua autêntica vida momentânea à do cristal no instante de sua cristalização. Assim, logo que nosso pensamento encontrou palavras, ele já deixa de ser algo íntimo, algo sério no nível mais profundo. Quando el começa a existir para os outros, deixa de existir em nós, da mesma maneira que o filho se separa da mãe quando passa a ter sua existência própria. Como diz o poema de Goethe: “Não me venham confundir com contradições! Logo que falamos, começamos a errar.” (p.66-67) Arthur Schopenhauer – A Arte de Escrever

verdade que ao dizer, mesmo depois de muito pensar, perdemos alguma coisa, o inexplicável na explicação…ah! cansa exaure esvazia as longas conversas! Que sejam no repouso do travesseiro entre o sono e vigília / entre a intimidade do amor e o sonho! Terminam com o abraço, e no calor do beijo, e eram apenas palavras, palavras petrificadas… Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres

desordem

inquietude desarruma / quebra a lógica e

a desordem estraga o feito, ventania galopa…

para onde estou indo?

cansaço alerta, ativo, insone.

não sei como consertar: olhos fechados

sigo alerta ao sonho,

espero. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres

feitiço – a imagem

…pelos monastérios, e pelas catedrais das roseiras, as aquarelas repousam. O jardim se espreguiça, o sol voltou! E o Tigrinho aproveita e espreita, e conversa, e dorme. Ah! felinos enfeitiçados! apaixonados pela felicidade. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres

fotos: Marina Pfeifer

parágrafo

Agarrar o primeiro parágrafo e se deixar levar – “a vida arranha” escreve Ana Gilbert: “Numa cidade medieval, cercada por muros de pedra, circulo perdida em labirinto. Sei que não estou só; ele está comigo, em sugerida presença, apenas. Ando, retrocedo, perco-me no temor de ser vista. A morte espreita com seu perigo frio”.(p.73) A Respiração do Tempo – Uma edição MINIMALISTA – maio de 2022. Leio, interrompo, vou eu também cercada por muros de pedra, paraliso e todas as leituras se misturam, loucas / a gritar, e a cabeça explode, saio a caça do livro lido. “Essa divisão entre imaginação e intelecto o predispunha a tornar-se ou um artista ou um neurótico; ele estava entre aqueles cujo reino não é deste mundo. Daí resultou interessar-se pelo relevo que representava uma jovem caminhando de forma peculiar e tecer sobre ela suas fantasias, imaginando para ela um nome e uma origem, situando-a na cidade de Pompéia, soterrada há mais de oitocentos anos, até que por fim, após um estranho sonho de ansiedade, sua fantasia da existência e da morte de Gradiva ampliou-se, passando a constituir um delírio que influenciava suas ações. Tais produtos da imaginação seriam considerados espantosos e inexplicáveis numa pessoa da vida real; no entanto, como nosso herói, Norbert Hanold, é uma pessoa fictícia, talvez possamos perguntar timidamente a seu autor se acaso sua imaginação não terá sido determinada por forças outras que não as da sua escolha arbitrária.” (p.17) Sigmund Freud Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen – editora Imago 1997

Estas alucinações, presentes neste emaranhado de leituras me deixam febril, inquieta, sem tempo. Já o tempo de dizer ou expressar ou conversar parece irrisório, impossível, precário, mas tão necessário! Uma leitura atropela a outra e eu me distraio sem rumo, perdida ou represada, congelada neste inverno, igual a todos os invernos gelados do Rio Grande do Sul, mas diferente, único: o meu inverno de 2022. Parabenizo Ana Gilbert pelo completo, pelo pleno dizer e desenhar, lançar… Esta rede preciosa de interpretação, explicitação e segredos. O teu livro está cheio de pequenos segredos, mas a escrita definitiva, afinal, escrever é mesmo gritar. Obrigada. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres

O processo de cura é realizado numa reincidência no amor, se no termo ‘amor’ combinamos todos os diversos componentes do instinto sexual; tal reincidência é indispensável, pois os sintomas que provocaram a procura de um tratamento nada mais são do que precipitados de conflitos anteriores relacionados com a repressão ou com o retorno do reprimido, e só podem ser eliminados por uma nova ascensão das mesmas paixões. (p.95) Sigmund Freud – Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen

A leitura do festejo, das referidas CARTAS! Céus!, diálogo altivo, o grito. O grito reprimido e belicoso, ou conciliatório? Esquisitas leituras / esquisitas vozes / que enorme silêncio neste movimento! Acordo os fantasmas, converso com o tempo, leio e depois adormeço. Obrigada pelo livro A respiração do tempo. Nunca estarei curada deste amor da ausência. Festejo, alienada, o teu regresso, meu querido. Prometo. Não vou citar ninguém, nada, nem lembrar, vou apenas te escutar. Vou esquecer das letras enquanto estiveres comigo. Apenas o teu beijo importa. As leituras se misturam, e as minhas associações, esquisitas… por quê?

indecifrável emaranhado

Indecifrável narrativa. A memória segue um fio, outro fio… A conversa visualizada, um emaranhado multicolorido. Novelo de lã a ser tecido, difícil pintar / desenhar, materializar, sei lá…, posso imaginar, mas não concluo, não há definições, nem lógica: um som a ecoar. Inviável definir a cor, seria multicolorido. Seria um eco entre montanhas, vozes. Engraçado, encontro/ouço a voz da minha mãe, vejo os olhos do meu pai e me transporto para a casa da Vitor Hugo. Suponho que aquela vida, aquela casa, aquela rua, os ciprestes, os cães, as pessoas, os espaços, os quadros, as portas, as lareiras, o fogo é meu. Quero dividir, contar, explicar ou apenas, como se diz, recordar, avivar a memória, mas estou absolutamente sozinha. Como se nada existisse, nenhuma referencia. Os livros da biblioteca, os cristais, os quadros em galeria, os discos, a eletrola, os nós de pinho, a grama, o cheiro pertencem apenas ao indecifrável emaranhado da minha memória. Estranha solidão! Quando me movimento eu percebo. Posso contar qualquer coisa: o pai a descascar laranjas no alpendre, ou a mãe, pernas encolhidas, no sofá, fumando um cigarro enquanto a xícara de café espera por ela, sou eu que vejo… Embora seja inverno, embora o fogo esteja crepitando na lareira, embora faça frio, as portas abertas para o alpendre trazem luz, e outro calor ilumina a biblioteca. O pai descasca as laranjas, estou sentada nos degraus, ao lado dele, e a boneca escabelada segue abandonada no gramado… Estou ainda povoada pela presença deles, nunca estive sozinha, tudo me foi legado doado, presenteado. Eu transbordo… Acho que é apenas memória. Não sei explicar. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres (o sol voltou vejo as calçadas limpas, varridas pela chuva – gosto)

bilhete / nota

quando me dizes do amor, cá do outro lado, fico feliz! estas notícias de encontros, brindes, enfeitam a vida! precisamos desta alegria! obrigada. quando me contas dos afetos achados nestes desencontros eu cá desta lado vivo! e fico a me imaginar elegante, posta, encantada e abraçada. ah! como estes abraços festivos nos trazem de volta ao tempo de amar! realimentam abraços, os necessários! obrigada! as histórias são/estão coloridas com tua energia, teus passeios, caminhadas. As calçadas são parques, e os parques, em movimento verde, oxigenados e quentes te representam! o sol veio te saudar neste Rio Grande do Sul! chá, chimarrão, luvas, gorros e comidas com carnes lascadas! o frio se despede, eu acho. ah! somos gulosos! nem pensar em dietas! dietas são cariocas porque o sol alimenta as mulheres do mar! a cada cidade sua história peculiar calórica! voltas cheia de sol! E ele veio. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2022 – Torres