somos todos estranhos para nós próprios

No passo lento da vida sigo a mim mesma e vou a catar memórias no afeto. O amor não se explica, existe. Existe como árvore de sombra e conforto… E todo este cuidado do cuidar responde com flores, frutos, às vezes, espinhos. O sentido da posse, do pra sempre. A natureza surpreende. As buganvílias brotam, galinhos minúsculos. E sei que a primavera vai me alagar de alegria. Agradeço a doçura do amor que me acorda!

Estou a ler Paul Auster como se estivesse a conviver. Livro de memórias que ele nominou Diário de Inverno. Penso que faz sentido o título, com a idade / com o jeito de encarar o tempo… O nosso particular inverno.

O grande cuidado cresce desorganizado inventivo tricotar colorido num ponto chamado memória… Construção de todos os dias. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021

Não te vês. Sabes que aspecto tens graças aos espelhos e às fotos, mas lá fora, no mundo, quando te movimentas entre os outros seres humanos, sejam eles amigos, desconhecidos ou os entes mais queridos, a tua cara é-te invisível. Vês outras partes de ti, os braços e as pernas, as mãos e os pés, os ombros e o tronco, mas só a parte da frente, da de trás nada, nada a não ser as costas das pernas, se as rodares convenientemente, mas não a cara, a cara nunca, e afinal de contas – pelo menos para os outros – a tua cara é quem tu és, o essencial da tua identidade. Os passaportes não têm fotos de mãos nem de pés. Até tu, que há sessenta e quatro anos vives dentro do teu corpo, serias provavelmente incapaz de reconhecer o teu pé, para não falar da tua orelha, do teu cotovelo, ou de um dos teus olhos em grande plano. Tudo tão familiar para ti no contexto geral, mas completamente anónimo quando tomado individualmente. Somos todos estranhos para nós próprios e, se temos alguma noção de quem somos, é só porque vivemos dentro dos olhos dos outros.” (p.128-129) Paul Auster Diário de Inverno memórias / Edições ASA II S.A. Rua Cidade de Córdoba, número 2 Alfragide / Portugal

Os olhos de quem me vê são o que eu sou. Bonito isso! Dar as mãos, e não nos perdemos, não do amigo, mas de nós mesmos. E o fazer importa… “E não parece nada” sendo tanto, tanto! Penso que não é preciso mudar, este fazer é muito forte minha amiga.

Ando as voltas com meus trabalhos de tricô: muitas ideias, poucas mãos. Me divirto, me ocupo, me satisfaz, me reinvento…O dia fica muito curto entre tantas coisas e ao mesmo tempo não parece nada…será isso? …sempre tentando entender um pouco…mas sério Beth… parece que às vezes ‘emburreço’ diante da vida, principalmente, quando não consigo mudar algo🤔tão difícil querer melhorar e não conseguir por que não quero? Não consigo? Ou mesmo não tento? Sinto que preciso ser melhor, mais generosa… mas Beth porque tão difícil??? ” “E não parece nada” sendo tanto, tanto! Penso que não é preciso mudar, este fazer é forte e bom, minha amiga.

Bilhete de carinho e lucidez. Divaga e desenha, inteligente. Quer ser e faz: sem vaidade a tricota… Reinventar transforma a vida em poder: linda, inteligente, preparada e amorosa. Este amoroso já é o generoso M.F. o generoso a transbordar… E tricotar! Saudade tenho das lãs coloridas e das invencionices… O difícil, o terrível pode ser não questionar. E não fazer. Obrigada.

The Window – Ivan Albright

Não consigo dormir / não consigo engolir, não consigo respirar, apenas estou aqui, e não sei esperar, aliás, não espero porque não virás… Atravesso o dia animada com a limpeza, com a tal vontade de emagrecer. Faço a caminhada, animada com o vento. Animada com a possibilidade de encontrar… céus! Por que me olhas assim, desarrumado no olhar?! Estavas brincando comigo, eu não estou brincando, estou colorindo. Encontrar exatamente o que preciso encontrar: o jeito de estancar / fazer parar o relógio. Voltar, voltar, voltar… Agora usarei toda as cores que estão a minha disposição (as tuas). No mesmo risco, depois faço círculos, círculos e uma cadeira, será que sei desenhar cadeira? Uma janela como Ivan Albright – conscienciosamente bem planejada. Os lápis coloridos riscando, riscando, riscando… Eu me divirto. Não ficas quieto. “Toda linha controla qualquer outra. Toda cor influencia qualquer outra. E uma cor é tão forte como a impressão que ela cria. Uma linha reta é o fragmento de um círculo. Um plano é um sólido estendido. Nós temos dois olhos: deles provém nosso sentido de espaço.”(p.38) Não me perguntes por que estou aqui a escrever sem sentido, sem paciência, sem esperar, sem acreditar, ou seja, desesperada a te imaginar.. Estou lendo e me movendo, fazendo a corrida pela calçada, deixando o ar entrar. Estou a te desafiar, desafiando a mim mesma. Não me olhes. A barriga não voltou para o lugar. Como se estivesse grávida, estou. Grávida de amor seria lindo, Grávida de vontade. Grávida, redonda, como se eu fosse uma mulher de barro, aquelas gordas do Maia… Meu querido, procuro controlar o texto. Repito o que Albright diz/escreve com seus pincéis e explica ao entrevistador:

Procuro controlar o observador, fazê-lo movimentar-se e pensar do modo que eu quero.’ (E eu te sussurro gritando: quero que tu me ames de todos os jeitos , modos, organizados e ensandecidos e silenciosos, que eu não possa reagir.) Diz o artista: “Em The Window (A Janela) por exemplo, e em muitas de minhas pinturas eu tento levar o observador para trás, para os lados, para cima ou para baixo, sempre no sentido de fazê-lo entrar na pintura e sentir -se jogado em todas as direções, para levá – lo a ver que os objetos estão em guerra, que há movimento constante, tensão e conflito entre eles. O que em realidade procuro fazer é apresentar a vida de modo coerente que leve as pessoas a meditar um pouco. Não pretendo fazer uma experiência estética agradável; pretendo sacudir o observador, despertá-lo para que pense, fazê-lo sentir-se pouco a vontade. No entanto não lhe indico o que pensar. O que mais procuro fazer? Compor um movimento. Descobri que sei caminhar; descobri que tenho pernas e posso mover-me e por isso posso ver os objetos sob múltiplos ângulos e de muitas posições.”(p.39) Katarine KUH Diálogo com Arte

Eu estou a falar contigo. Sei lá por onde andas, ou se andas com tuas pernas, ou se te moves na cama, ou se estás perdido, ou inquieto, ou feliz. Estou a falar contigo enquanto jogas /brincas de cabra-cega -, fazíamos quando criança, vendava-se os olhos, girava-se a pessoa sobre ela mesma muitas vezes, todos corriam, e ela tinha que pegar alguém, e todos riam, zoavam, se aproximavam, corriam e ela tateava no ar… lembras? Vou assistir um pouco de televisão, quem sabe um filme, ou terminar o livro de Paul Auster. Já te disse o tanto que me impressiona a narrativa. Descreve minuciosamente a mãe, sem escorregar, sem piedade, mas com cuidado e precisão de cirurgião. Algumas pessoas são apressadas para amar porque temem a solidão. (Estou assim desconcentrada, perdoa) Afoitas, sempre no meio da desordem da vida, e sofrem. Também eu não sei o que devo saber para ser sossego e quietude. Eu me atrapalho. Eu te amo agora sem te ver / eu imagino o amor de amar. E não estás aqui para me explicar… Eu aprenderia? Entenderia? Ou apenas te divertes quando me acordas às três da manhã para fazer /dizer/apalpar e rir do amor, e depois desmaiares, voares para teu quarto pé ante pé. Beijos e empurrões, sussurros e apertos. Eu dormindo no sonho de te querer penso que és tu para ficar… Ah! O delírio. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 – O vento não sossegou, vou tentar dormir outra vez. Por favor, chega logo. Prometo não te segurar, e te deixar partir para voltares…

vontade

quebrar rotina, abrir a porta, fazer bobagem. fazer acontecer não se pode, eu sei. já fiz assim, aliás, faço sempre, mas como sou como sou, céus! não quero arrastar/ser motivo, então ‘piso em ovos’, claro vou quebrando dúzias pelo caminho: a terra agradece, fertiliza, mas não consigo bater as claras, nem assar o bolo… DROGA! acho que a idade limita / trava. começar tudo outra vez / de novo!? medo f…, ué?! faz parte, pois é! gosto de ousar, depois recuo, coisas de Beth Mattos (ir, voltar, afirmar, negar, oscilar) – junho de 2021 Fiz a mala, desfiz: guardei tudo outra vez, reconsiderei, e se vier a Terceira Onda? não será a de Alvin Toffler.

debruçada…

não fiques a me olhar assim,

depois dos meus esforços, voltas e cuidados,

eu me surpreendo, e tu te surpreendes

escolhi a tua mão…

a história de morrer, e do pecado…

existem ausências “profundas” e afogadas

na verdade não são ausências:

curiosos desvios, permanente olhar.

memórias inquietas / encontros,

beijo, abraço e perfume,

não desaparecem,

tens razão: a Gabriela do Jorge Amado: sexo desejo e colorido:

todos na mesma orgia, no mesmo prazer

ninguém controla…

ser livre pode ser mais uma batalha de guerra permanente.

a fidelidade, genuína,

tudo o mais, apenas um jogo. Beth Mattos

gaal

coisas de amar / se apaixonar, ser inteira, amar outra vez, esquecer, guardar, descrever. Ser metade, ciumenta. Amados amores voltam, não maiores, nem menores, mas amor, coisa doce de prazer. E aqueles intensos nunca mencionados, escondidos. Porquê o não feito, nem acontecido, presumido também arde. Tenho a sensação que nunca apreendemos o suficiente, não tem lição tem sentir, então o olhar carregado de desejo ou de pejo (para rimar), amor amando andando, espicaçando…, revirando. E volta tudo…, liquidifica. E agora tem mais, tanto mais que o tempo voa, ou se aquieta…Há de voltar o passado embaralhado e há de ser hoje e agora diferente, outro…Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 – ainda Torres

sem restrições medievais

Então, assim, neste momento, embora não esteja completamente focada ou decidida; escrever preciso ‘viajar’ acerto. Fumar um cigarro. Beber um whisky e dizer com mais certeza. Solução ou fantasia viajar numa memória qualquer, grudar num nome que significou, mais ou menos, ou naqueles que serviram de escudo quando o amor/paixão tira tudo do lugar… A desordem não deve ser salutar, vamos logo encontrar bons biombos, e ajardinando tudo e organizando, deixar tudo adequado. Tudo é mesmo uma palavra reducionista covarde -, não existe tudo. Cada fatia de vida, novo vigor, poder! E aconteceu no susto. Se alojou nas pernas, não consigo caminhar… Não importa, ainda falo, escrevo, e penso. Não é assim que vivemos? Temos ancoras, e as ancoras firmam o navio: há que entender que estou em Amsterdã, não no Chile, nem cheguei a Noruega. Embora tenha passado meia dúzia de horas dentro de um avião, e rodado outras tantas horas, sentido o mar e tanto mar, está tudo igual. Cada bilhete uma bomba. Hoje abri um abacate verde! Que horror! Comi igual. Sou teimosa, mas se misturou nele um gosto estranho. Que o dia termine imediatamente, num clic de paz, e amanhã de manhã, vou caminhar sem cansar, e se não for bem cedo os balões não estarão no céu, (vou me revirar na cama) e Ônix não terá medo. Ler jornal é ótimo, mas tem um cheiro peculiar, enjoo. Tudo bem. Eu vou superar o meu desajuste. E pacificar. Ridícula adolescente que se expande… Há que ser séria minha amiga. Há que ser razoável.

– amar-se significa viver como quer, ser feliz, restrições medievais, nunca. Olhar e se perceber, ver / enxergar como se deseja ser vista…

– estou sem roupa, a passear pelo tempo, estranhando curvas, em excesso, certo menos, gostando de outros mais, e depois, eu me enfio nas cobertas. Sesta longa pesada, perfumada e dolorida (lençóis impecáveis, sempre). Dores pelo corpo, parece injustiça este doer desarrumado, escondo o jeito, acomodo. Esqueço. (risos) e como as frutas secas…

– este teu amigo que transa conversas de curvas, sexo, nudez ecoa de alegria pelos sinais de despertar a mulher adormecida que sempre existiu e parecia desistir de si mesma.(risos)

desistir. Céus! Eu desisto todos os dias, encolho o tempo, volto para o passado, fico farejando recompensa, escuto rádio, depois separo discos de vinil e os consertos de piano, ou de violino saem pelas janelas, troco as flores de lugar, e me tranco no teu abraço apertado, nos teus beijos encabulados, e me submeto…

vou devagar e me preencho nos sonhos. Apago o passado, fecho a porta do futuro e fico quieta, deliciada com o presente / este agora estremecido, mereço, olha como este mar parece infinito e lindo e grande, e completo…

– A propósito, tu e este teu secreto amigo devem transar qualquer dia. Vocês merecem!”

Ora, ora! Hora! Nossos segredos chaveados, engavetados, tantas risadas contidas, perto juntos e longe. Apagam – se as luzes e as sombras caminham, impossível controlar. Sim, vou anotar os detalhes, este vírus tirou/arrancou a memória do corpo tanta febre! Já amanhã… Ora, ora, hora, o que pensa que fazemos? Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 – Torres com o céu coberto de balões – os namorados voando e aos beijos

margaridas, as mesmas

excesso de perfume, lavei três vezes o cabelo, cortei um pouco mais…escondi os chinelos, deixei o sol entrar, sem vento, apenas azul. e me atirei a te pensar…pensar, estar contigo, imaginar tuas mãos, sentir o teu olhar. Começou a ventar na minha cama, vou deixar a ventania varrer a casa. Beth Mattos

narrativa

narrativa incontável, ou, incontável narrativa, a verdadeira trajetória. palavra e voz, pronto, e logo alguma coisa não soa bem, ou escorrega em excesso. amor e amizade + convivência, mas amigos gostam de firmar o palavreado: esvaziamento incontrolável. atropelam os amigos com isto e aquilo, aquele e aquela…, depois? depois são eles com eles mesmos, sem história, apenas estórias… e o susto. Elizabeth Mattos – junho de 2021 – Torres

cuidar de mim

hoje fui cuidar de mim… Estou a pensar no que posso fazer de melhor / arrancar o melhor lá de dentro. Plantar carinho, e me alimentar – de repente, comer bem e certo e com cuidado = amar certo, bem e com cuidado. Arrancar o tóxico… Livrar-se dos enlatados e caminhar, pés descalços pelo gramado… Vou trazer flores amanhã de manhã, vou acordar colorida. Beth Mattos – junho de 2021 – Torres

cruzo as leituras

os desenhos da jornada,

sempre intenso o caminho -, este livro me impressionou, reencontro durante a limpeza da estante. Nas reviradas da memória escuto o violão, e me emociono. Sacudida. E penso: às vezes não perdoamos( incapacidade), e nunca perdoaremos, esquecemos das rezas contritas do som de pecado e perdão. No lugar que escolheste para esconder nossas vozes era o inferno da não aceitação, o monastério prisão, não libertação. A liberdade é livre, será evidente isso? Sem amarras emocionais, e não se esconde do outro, podemos ambos nos esconder do mundo para nos salvarmos, mas um do outro, nunca. Eu não e perdoo. O amor tem destes desvios, assim, ‘pisar em ovos’, acautelar – se é amar. Esconder, fugir. Acovardar – se. Beth Mattos junho 2021 – Torres