Esvaziamento de sentimentos: nem bons, nem ruins, nada. Desanimando manso. Atrevida sensação de impossibilidade. Depois, passou tanto tempo! Não é possível! Possível marola: tempestade. Desânimo dobrado. Enfiado nas gavetas de tantos achados. Nas caixas. Nos livros. Se o lápis começar a se movimentar e colorir, eu vou brincar. Agora vou passar um café e olhar / procurar do prazer ao prazer… Beth Mattos / março de 2021 / Torres
trasferível
Cheiro, relações traçadas… Prolixas, exuberantes, misturadas. Recomendar um livro, dizer um poema, pintar um quadro, ouvir música. Intransferível assimilação amorosa.
Sonhei um sonho sonhado. Lenços voando. Linhas ocultas. Esta ex- posição, ou posição posterior, ou anterior, esta vitrine para outro, não importa. Surpresa agradável ou não. Quando / como a comunhão? Os mesmos caminhos. E falamos / falamos. E não sabemos se somos entendidos. Não sabemos. Não é o que achamos ser o melhor, mas a linha cruzada entre o nosso olhar e o do outro. Uma onda. Como surfar eu imagino. Depois, passa a vertigem. Viver: estar no lugar certo com o humor certo, a pessoa certa. Então, a sensação de felicidade. Beth Mattos
saudade do que poderia ter sido
Tenho que deixar estes sentimentos saírem, definitivamente, saírem para não voltar, não se pode apenas definhar… Beth Mattos – março de 2021 – Torres
março 2021
O mês de março se estica com morte e doença… Queixas e dores. Prostração. Higiene, distanciamento. Quietude, paciência. A música do rádio, a notícia apertada. Sorriso comedido. Palavras esmaecidas e frágeis, medrosas. A natureza agradece o descanso, e se fortalece. Logo dançaremos noites, manhãs e tarde até cansar. Hoje, doloridos de tanto dormir, dormir e dormir: sono de tanto tempo! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Torres
Em 2021 preciso inventar outra
E eu inventei, outra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Pra Pasárgada que inventei.
Sem Bandeira, sem pedra no caminho,
Sem Meireles pra explicar,
Vou – me embora pra esquecer.
Esquecer de ler, de escrever. Votar, ou roubar.
Delatar, delação, mentir, ou aproveitar. Acusação,
Eleição, futebol, televisão. Dançar valsa na corrupção
Deixo pra cá… Pro Hamas, Obama, Eva Vilma, Sofia Loren.
Pro Neves, Marina, ou Vermelho de Brasis só pra manchar…
Vou pra lá me refestelar, sem xingar, ou me comportar.
Sem Dirceu, mordomia. Só Bolsa Família.
Sem perder chapéu, sandália, ou vergonha, afinal, nem vou mesmo levar!
Vou-me embora pra Pasárgada sem pai, nem mãe, nem pejo,
Nem lembrança. Sem mala, sem tédio nem peso.
Não penso. Vou ficar sem bomba atômica, sem água, nem luz.
Mata Atlântica. Amazonas, pra quê?
Vou-me embora pra Pasárgada.
A Pasárgada que inventei… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2014 / como seria agora, março de 2021 / não consigo inventar/escrever/ nada: um silêncio de morte. Angústia e tanta tristeza!
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou – me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Manoel Bandeira
E eu inventei, outra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Pra Pasárgada que inventei.
Sem Bandeira, sem pedra no caminho,
Sem Meireles pra explicar,
Vou – me embora pra esquecer.
Esquecer de ler, de escrever. Votar, ou roubar.
Delatar, delação, mentir, ou aproveitar. Acusação,
Eleição, futebol, televisão. Dançar valsa na corrupção
Deixo pra cá… Pro Hamas, Obama, Eva Vilma, Sofia Loren.
Pro Neves, Marina, ou Vermelho de Brasis só pra manchar…
Vou pra lá me refestelar, sem xingar, ou me comportar.
Sem Dirceu, mordomia. Só Bolsa Família.
Sem perder chapéu, sandália, ou vergonha, afinal, nem vou mesmo levar!
Vou-me embora pra Pasárgada sem pai, nem mãe, nem pejo,
Nem lembrança. Sem mala, sem tédio nem peso.
Não penso. Vou ficar sem bomba atômica, sem água, nem luz.
Mata Atlântica. Amazonas, pra quê?
Vou-me embora pra Pasárgada.
A Pasárgada que inventei… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2014
desejo por alguém
Nessa questão de ter desejo por uma pessoa, duas confusões têm me chamado especial atenção. A primeira é que grande parte das pessoas não se dá conta de que o mais frequente desejo inicial não é o desejo por alguém. É o desejo da conquista. Mais especificamente, o desejo de conquista do desejo de alguém. Como na música de Caetano Veloso: “[…] pois quando eu te vejo, eu desejo o teu desejo“. Uma vez produzido esse encontro, outras terão de surgir e outros encontros desejo -objeto terão que acontecer para que um desejo pela pessoa possa se construir. Caso contrário, fim. Um caso célebre de fixação no desejo de conquista, de ficar parado nele, era o de Don Juan. Uma vez conquistada uma mulher, o desejo se extinguia. Ele precisava de outra para que o desejo surgisse novamente.
A segunda confusão, muitas vezes derivada da primeira, é supor que desejar alguém é, automaticamente, desejar transar com alguém. Quando Freud disse que em cada relação sexual as pessoas revisitavam toda a evolução de sua sexualidade, desde a fase oral (daí a vontade de beijar, de tocar com a boca ) passando pelos desejos sadomasoquistas, de Domínio e submissão, e exibicionismos-voyeuristas, até se concentrar na prioridade do desejo genital, ele não estava simplesmente falando das “preliminares”, mas da multiplicidade de desejos que antecedem a ideia da penetração. […](p.151)
Volto à história do início do livro: poder ensaiar para viver o que se é, é não ter que representar, é não ter que fazer performances, nem na vida, nem na cama. O aprendiz da sexualidade é o aprendiz de seu próprio desejo, é o aprendiz de si mesmo..” (p.152) Francisco Daut da Veiga O Aprendiz do desejo – A Adolescência pela Vida a fora
nojento, nojenta, nojentos
9 de março de 2021
alegria de puras alegrias, a lembrança
“Entendre la douceur et la tendresse de leur voix, et être rassuré sur leur existence. Voir les , comme em France, se fondre dans l’ extase, être rassurée sur l’existance de l’amour. Voir les hommes qui dansaient, chantaient, nageaiet, riaient, malgré la pauvreté, et être rassurée sur l’existance de l’a vie et de l’a joie. Voir et entendre la joie.” (p.40) Anaïs Nin Journal 5 (1947-1955)

Ver escutar sentir alegria. A pura alegria de viver. Anaïs escreve sobre isso, et cita George Bernanos: La joie (A alegria). Estranho sentimento de pertencimento. Outra vez dispersa, ansiosa ou angustiada, talvez feliz. Encontro o cartão de Maria Virgínia Busnello. Lembro da correspondência, do casaco de vison que ela me emprestou, generosidade. Um cadeau maravilhoso, viajava rigor do inverno. Céus! Incrível eu ter vestido, e foi incrível mesmo! Apenas vestir o casaco transformou a viagem, no ar a certeza da preciosidade. Graças a ela (minha amiga) e a ele (o casaco) vivi vida de princesa e não passei frio. Nunca agradeci o suficiente. Não sou ingrata, mas atrapalhada, minha amiga. E não te mostrei as fotos, inúmeras! E a história do gorro que ficou/caiu nas escadas…, foi resgatado, e chegou depois da minha volta. Para tua ansiedade, e a minha, demorei dias para devolver. Também o precioso chapéu que Maria Virgínia me emprestou de feltro com abas, um luxo! Esqueci em Chambord, displicente /distraída. Céus! Estas lembranças chegaram todas ao mesmo tempo: alegria, Anaïs Nin, Maria Virgínia (amiga de coração e de sempre), e o cartão. Sim de todas tuas inúmeras viagens tu escreveste! Tenho cartas e cartões. Sempre presente. Éramos tão próximas! Guardei tudo / todas as tuas lembranças, amiga. Estares em Paris e lembrares de mim…, escrever. Desculpa os desencontros, as minhas esquisitices. Beth Mattos – março de 2021 – Torres




A Ceia dos Cardeais – Júlio Dantas
As repetições assustam, não as do amor, do mundo mesmo: olhos abertos, il faut.

“Cardeal Rufo
Sobre um beijo outro beijo e sobre um ano outro ano…
Como envelhece a gente velho Vaticano!
A política…
O mal que se faz e desfaz
No mistério subtil destes panos de Arrás…
A intriga na sombra, os passos sempre incertos…” (p.22)
Cardeal Gonzaga
Sol! Nós somos a saudade.
A pensar que se amou, que se viveu…O amor!
– Um tronco envelhecido a cuidar que deu flor!
depois num embevecimento
Misterioso monte é neste mundo a vida!
Todo rosas abrindo, ao galgar na subida,
E a velhice, ao descer, toda cheia de espinhos…
– Ai, tão velhinhos!” (p.24)


Júlio Dantas A Ceia dos Cardeais – peça em um acto, em verso, representada pela primeira vez no antigo Teatro de D. Amélia. em 24 de Março de 1902
as mesmas coisas
Além das mesmas coisas, outras mesmas coisas… café com pão feito em casa. O sol deste sol continua verão. Verão, tua estação. Eu gosto do inverno, o inverno do passado: lareira, cheiro de nó de pinho, grama e laranja descascadas pelo pai, e ter a mãe bebendo café, fumando, ou lendo, olhando as revistas, sonhando a casa, e sempre música. Casa com música e conversa. Eu viajando no sonho…
Tão bom sentir as coisas pelo teu olhar, teu jeito! Tens o que nunca consegui ter, e assim mesmo, tendo dentro de mim. Ao acaso, és como és…teus sonhos, tão outros! A vida te “agarrou”, e conseguiste/tens este gosto novo. Morro de ciúmes! E saber que poderia ter provado mais, engolido, mastigado… Tão, tão covarde! Sabes o que é hoje? Esquecer tudo que foi ontem! Tudo. O nascente derruba outros amores, não adiante! É verdade. Assim acontece a loucura e o desatino! Um dia, dobrou a esquina e não voltou… Danada pandemia a nos segurar, vês! Ajuizados. O vírus é a sanidade. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021