bizarro

Complicado sentimento! bizarro envelhecer. Não é a pandemia, mas este mal resolvido sentimento de hoje / agora / do tempo/ fato, desencontro. Escrever difícil /complicado. Um emaranhado de mal-estar entre livros, papéis, desordem interna. Desorganizo, a pensar organizando: livros, estantes, sala, cozinha, quartos. Desorganizo sentimentos. A precariedade assusta. E nada assusta, eu sei. Amaciada pelos prazeres da casa,  da família. Movimento! Tempo livre nas calçadas. Correrias… Cinamomos a perfumar. Apenas envelhecer dói.

Na memória a mãe. Altiva / inteligente / viva e corajosa. Fantástica! A beleza se desenhou a sua volta; pinceladas de arte: fazia acontecer o cotidiano. O melhor. Está na biografia dela. Se eu puder um dia escrever! Era poetisa, artista. Superar. O perfume, a doçura agitada, e impositiva: beleza existe, e importa. E tão pouco viver, e tanto o esforço de respirar! Saudade da minha mãe!Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – TORRES

entre espinhos

1.

Amanhecer agitado. Pandemia presente. Emoções a remexer convicções. Corto / recorto o ciclo de pensar isso e aquilo.  Caminho de um lado para outro prisioneira de mim mesma. Bom que chove, mas não é a chuva que me limita. Sou eu mesma. Mergulho / caio / tento/ experimento outra visão. Envelhecer, assumir estes anos que se encurtam, ou seja, programo novos fazeres, agir, rir mais e seguir com a energia misturada entre estupefação e certeza: continuar, não desistir, não me acovardar.

Respirar, respirar. Respirar. Estranho, demoro a processar esta coisa egoísta rígida de negar, negar, negar. Ontem um amor derramado / hoje aquela fome voraz impensada / depois o pedaço da angustia a ser engolido. Ligo o rádio. A música espanta. Olho pro amontoado de livros empoeirados. Quero alguém que me ajude…Socorro! Não sei o que não me deixa sentir o todo…Agradecer a saúde. Os meus. O positivo, o louvor… Rezar. Rezar. Eu ainda tenho fé? Aos pedaços a me estranhar…Abri um livro e encontro uma foto do FT e um telegrama, e datas, e observações, volto no tempo: 1994-1995. Céus! Quanto significa tempo? Palavra esquisita / péssima. Já passou. Tantos encontros mais importantes, intensos ou fortes se fizeram vida… Esquisito choramingar. Por que um pode ser melhor que dois ou o três, ou o nove ou qualquer outro número? Se existe resposta…, e existe. O que importa é agora, o hoje, mas tudo passa pelo beijo, o carinho, o abraço a lembrança. Ou o dia se esfarela naquele zero / nada / vazio / negação. Se esfarela o dia. Deixei tanta coisa desaparecer atrás do meu sonho de escrever, escrever, ler, ler e nada disso se esgota. Fico atrás daquele sonho grande/pequeno/ espaçoso/ constrangedor de te amar sem poder te tocar! No percurso a necessidade básica de empurrar os dias e responder aos sentires de tantos pequenos e amontoados amores. Amassar pétalas de margarida despetalada. Curioso estes esfacelamentos, prazeres e desvios. Que inveja tenho daqueles que entram/aceitam/vivem o inteiro, o completo. Conscientes por terem escolhido e saído do jardim depois de escolher a flor preferida: conseguem segurar/agarrar os espinhos da rosa, e com ela, permanecem até ao fim. Eu estou presa no jardim, entre muros tão altos! E sufoco com o perfume. Feneço/envelheço e não quero. Resisto. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

 

convencer

Livros, esculturas, e estes sonhos de entender por dentro, por fora, a busca da expressão, a necessidade da palavra é uma projeção. O feito, o trabalho, o resultado, o esforço. Quando penso no livro impresso, penso no fruto  maduro/completo/ inteiro e já no sabor… As goiabas colhidas ao longo do passeio fazem pensar na geleia, no amarelo e no rosado, no verde da folha. Perfume e resultado… Estou divagando, eu sei. Na Travessa Canoas, em Santa Cruz do Sul tínhamos duas goiabeiras adultas, poderosas, enormes…E a história daqueles anos voltam. A casa de venezianas verdes, o pessegueiro de jardim que ocupava a janela do quarto maior como se fosse uma tela impressionista. O gramado do quintal, a gritaria dos meninos, o fogo da lareira, as aulas de francês e também de português aos estrangeiros. Eu entusiasmada, inteira. O outro mundo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 20200, Torres e a memória. Com os anos (não vou usar envelhecer / detestavas estas súbitas nostalgias pelos textos) sinto saudade de todos os passados. Sabes por que queria tanto beber aquele café, entrar nas tuas histórias? Para poder pincelar as minhas. Foi tão rápido / apressado te encontrar!

Para convencer os outros, você deve convencer antes a si própria, e uma atitude conciliatória, ou até mesmo de falso entendimento – e, portanto inevitavelmente superficial – não é útil a criatividade.” (p.33)  Escritos e Entrevistas 1923-1997 Cosac&Naify

louise capa 2

célula A descrição do trabalho: “A peça é uma célula, um cubo de dois por dois por dois metros. Ela tem o aspecto geral de uma cela de prisão […]”, e o texto se alonga minucioso na descrição, assim a imagem transborda… “Primeiro há o medo, o medo da existência. Depois vem um enrijecimento, uma recusa de enfrentar o medo. Então vem a negação. O terror de encarar a nós mesmos nos impede de compreender e nos sujeita à repetição e a representação. É um destino trágico. Os espelhos se sobrepõem. Eles interagem, dando uma visão múltipla do mundo. Os espelhos refletem as várias realidades difíceis, uma pior que a Sabes por que queria tanto beber aquele café, entrar nas tuas histórias? Para poder pincelar as minhas. Foi tão rápido / apressado te encontrar!

je t aime

empurra o tempo

Loucura, loucura. Um brinquedo de rodar ou de tocar, de pensar. Inverter a loucura. Cristalizar. Nada do que era ANTES importa, ou faz sentido. Presa na ansiedade e no silêncio absoluto e inquieto do possível, estou a te pensar: teu jeito real de dizer me faz falta…Beth Mattos – maio de 2020 – Torres

Chega a ventania quente, a chuva forte vai desabar no Rio Grande do Sul. Os campos ficarão, outra vez, verdes. Deves estar preocupado! Estamos tensos, ansiosos. Sabes o que vou te pedir? Segura os anos, empurra, e estaremos outra vez em Torres.

colar do marco

infindável

mesa um linda

Escuto rádio. Gosto. Notícia e música. Logo eu me irrito. As cações deveriam ser poemas musicais, não são. Lamúrias. E eu  me pergunto, por que amar quem não nos quer? Parece apenas incoerência!  Saudade infindável. Lamento o beijo esquecido no topo da escada…
Esquisito pensar tempo. Dois anos nos dividem: anos cheios de resiliência. Acumulei palavra. Sentimento dependente, o meu, do teu. Provei tua sólida decisão. Perdi rumo e desviei devaneio. Estacionei no teu poder. “Saudável e inteligente”. Céus! Como sou frágil! Teu magnetismo se acomoda, justamente, nesta economia de voltas. És direto. Eu posso, ainda, ficar encabulada do outro lado da tela, da mesa, do travesseiro. Entrei em todos os teus devaneios e fantasias. De olhos fechados. Num prazer grandão. Minhas pequenas lembranças amorosas se espicaçaram… Rimos juntos, desvendamos o prazer pelo prazer, cheio de palavras, também com enorme silêncio e um amontoado de segredos. Claro, atravessamos as conveniências. Nunca estive tão abraçada e consciente. Vamos precisar de umas duas vidas, ou três para que eu possa passear livre pelos teus sonhos e  tu possas aprisionar os meus entre canteiros de rosas e  jasmineiros. Vou me embriagar nas tuas qualidades de fazer. Perfumada casa de alegria esta morada de amor. Pelo gramado, descalços, estaremos  exaustos e felizes. Todas as luas serão nossas. Será que uma noite nos basta?  Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

assustada

Paulo Sérgio: um sonho tão bom! Encontro, ao acaso: colocaste a mão nos meus ombros como se fosse um abraço, e a doçura me envolveu. Voltei no tempo, e me senti protegida. Afinal, não vieste mesmo ao Sul.

Sonhei outro sonho: com os meninos e o genro, no perigo, em alto mar. Assustada perguntei o porquê desta estratégia de saltar, mas logo o neto se adiantou nadando, e eu vi um porto. Afogados?

Escrevo às pressas porque os sonhos vieram nítidos.Beth Mattos – maio de 2020 – Torres

utopia da vida exata (Robert Musil)

Pode ser um comportamento rude acomodar-se a uma coisa dessas, mas os meios de comunicação rápidos de hoje exigem mais vítimas do que todos os tigres da Índia juntos, e sem dúvida a inescrupulosidade, inconsequência e negligencia com que toleramos isso nos traz por outro lado sucessos inegáveis.” […]

Poderíamos dividir as atividades humanas segundo a quantidade de palavras de que precisam; quanto mais palavras, tanto pior o caráter das atividades. Todos os conhecimentos através dos quais nossa espécie passou, das roupas de pele de animais até a aviação, não ocupariam, com suas provas acabadas, mais do que uma biblioteca de bolso; mas um armário de livros do tamanho da Terra não bastaria nem de longe para conter todo o resto, sem falar naquele discussão vastíssima que não se realizou com a pena mas com espadas e correntes. É de se pensar que conduzimos muito irracionalmente nossos assuntos humanos, se não os atacamos conforme a ciência, que teve um progresso exemplar.” (p.177-178) Robert Musil O Homem Sem Qualidades

E não me perguntes porque faço a citação sem contexto, desgarrada. É uma pedra. A cada um sua leitura criando/imaginando/escrevendo um começo, um porquê, e um fim, ou nenhum sentido. Uma pedra encerra/possui a história: ela é o completo. Uma trajetória desvendável, apenas, por especialistas, filósofos ou curiosos. Ou apenas um mistério. E, sei lá, estamos assim a rolar de um lado para outro e a repetir o indizível, a julgar, a colorir e projetar cada um na sua quadra, a sua própria sombra. Da janela vejo outra janela, e novas sombras. De um passo na calçada outros tantos pelas ruas/estradas: distanciamento até do olhar. Não consigo ficar apenas silenciosa dentro de mim mesma. E ninguém imóvel. Agonia, o movimento curador. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020

maio

Lua linda! Temperatura de amar: dia rosado amarelo como deve ser o dia, alegre, entardecer majestoso, avança. Clima convida com vida: depois de uma sesta de tarde comprida o espelho mostra mulher bonita, bonita: a beleza se avizinha ao amor. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

filhos

Agitado sim. Quero aproveitar tudo. As gostosuras e as desavenças… Escavar no passado, recordar agita…, tu sabes. Acertos da memória, fogos cruzados. Cada um tem lembrança particular e diferente julgamento: reunião de família. Os pais muitas/tantas vezes se sentem culpados. As escolhas feitas determinam / desenham / forçam, e depois, soltam… Estas conversas parecem acertos de contas…  Os pais têm compromisso com os filhos: educar ou manter!  Discutimos a responsabilidade econômica dos pais sobre os filhos, por exemplo… Será para sempre a dependência? Há um momento em que a responsabilidade termina… Parece. Eu acho que estamos sempre envolvidos com os filhos… Acho que nós temos SEMPRE compromissos com os filhos, mesmo não tendo mais por lei / oficialmente.  Não podemos/conseguimos apenas usufruir um egoísta fazer quando temos condições de ajudá-los. Responsabilidades em família são permanentes. Enfim! Sei lá! Beth Mattos

 

 

 

no mercado

” – Aqui parecemos estar além das seis ondas da fome e da sede, da velhice e da mortes, do sofrimento e da ilusão – disse Shidartan – Que paz imensa!  É como se fossemos removidos incessante redemoinho da vida para o centro imóvel onde se pode respirar profundamente. Escuta, como é quieto aqui! Digo“quieto” porque exclamamos ” quieto”! quando queremos escutar e só se pode escutar onde há quietude. Pois esta nos permite ouvir tudo que não seja inteiramente mudo, de modo que o silêncio nos fala como no sonho e nós o escutamos também como se estivéssemos sonhando.”(p,23)  Thomas Mann  Cabeças Trocadas

E tudo que eu possa pensar ou dizer não faz nenhum sentido porque tudo o que sinto e o que digo é para que eu mesma possa entender.  OU será para que recebas uma palavra e te aquietes como eu faço. ( Não faço, eu me agito.) Vamos explodir em alegria quando nos encontrarmos: abraço bom. É apenas um fio André, uma mágica que Fernando e Ricardo e a Magda proporcionaram: caridade que florida esplendorosa. O silencio, mas  teremos as palavras também. Eu não não fui  cuidar do cabelo, das unhas, da boa forma para te agradar, mas faz tantos anos que te espero! Que tenhas paciência para brincar /descobrir/ fazer acontecer pequenas alegrias… Faremos um castelo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 Torres