despedida

silêncio é despedida

livros de bolso: idas para lá e para cá no Rio de Janeiro dentro dos ônibus, a ler. De Botafogo para Copacabana, do Humaitá para Ipanema ou para o Centro… ah! miettes, épaves, aquelas migalhas de tempo misturados com saudade e o cheiro de mar, maresia outra vez, liberdade, rua, e café na esquina. Elizabeth M.B. Mattos – 2020

intimidade

A cada intimidade rasgada uma surpresa. A exposição, por menor que seja, guarda  sensação de surpresa: isola, abre solidão. Estranho isso: isolar em vez de aproximar isola. Quanto mais despida, quanto mais ela mesma, mais complicada, difícil, intocável a pessoa fica…Escrever tem a magia de ocultar/revelar/ dizer negar, tudo ao mesmo tempo. E também esvaziar…Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

jnela da Claudia LINDO ENTARDECER

certeza amarrada

LINDAAAAAAAA MÂE

Certezas estão presas em tantas pequenas histórias! Poderia não importar arejar cada uma delas, mas sinto tua incerteza pesando em cima de pequenas banalidades estufadas, por isso eu te conto as histórias dela. Não são tuas, são emprestadas. E as histórias precisam ser ditas / contadas para clarear, e te soltar, soberana no teu reinado. Fazer justiça. Não pode ser apenas acaso nem tanta glória sobreviver e ser, finalmente, a velha senhora.

Estes dias pensei minha mãe. Desenhei cada passo. Estás a me dizer que estou misturada em tanta saudade! Talvez, não sei. É a visão desta casa, desta mãe, destes feitos da vida que ela atravessou com coragem, e das palavras, das conversas, daquele contar lento, constante, abusivo eu diria, hoje compreendo / sei o precioso de cada gesto / cada som. Que vocês possam tocá-la, como eu, é isso. Um presente. Penso nas injustiças sofridas: pesadas e ciumentas. E a vida terminou tão cedo! Estou a prolongar anos mais do que os dela, tempos pesados estes, rebeldes, inquietos e agressivos! Quando me proponho a pintar seu rosto, voltar gestos, entender/ escutar/compreender a voz, sinto o quanto sou impotente. Quero te libertar! (Impressionante o efeito da música, e desta voz que desce quando escrevo. Chamados precisam ser respondidos. E não se pode escorregar em mimos incertos: a vida tem gosto de intimidade, aconchego interno, a pessoa com ela mesma. Será que posso beber um whisky nesta hora da manhã?! É o inverno que me abraça. Afinal, porque não confessar, eu gosto, gosto dos dias invernosos que são mesmo quase o tempo todo amanhecer e entardecer.) Como vou te descrever a luz? A minha mãe era luz o dia inteiro, ela nos fez assim iluminadas para viver. Costurou vestidos, inventou amigos, as melhores escolas. O espaço aberto para as meninas. Crescemos como abóboras, tão depressa! E logo ela entregou a horta, o jardim, a floresta, a magia inteira para que fôssemos nós e não ela mais… Era tão jovem e logo foi avó, era tão jovem e a família ocupou todo o espaço. Não. Não é natural quando se tem muitos talentos, tanta inteligência, tanto charme e vigor. Um exercício difícil este de abrir espaço e entregar às filhas todo o espetáculo. E ficar no camarim. Chapéus, vestidos de noite, velas, e porcelanas foram presentes para enfeitar a nossas vidas. Ficou, na lembrança o café. O cigarro (ela fumava). Lareiras: o fogo nos nós de pinho. Os cães. A casa. E a biblioteca. O pai silencioso, ela vibrante. Ele foi amado docemente por todos os nossos amigos, ela parecia mais espinhenta, mais uma rosa difícil de colher. Atenta a se defender. Dou voltas e voltas. Não escrevo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

Mãe no bar ADORO ESTA FOTO

 

 

picotes

Trouxe rosas e cravos e jasmins. O perfume se mistura. Sinto o cheiro, delicioso, da grama molhada. Abro as janelas, posso ver os eucaliptos: balançam festivos. Este céu acabrunhado pode ser o meu, mas atrás das árvores, mais adiante está azul. Deve ser a luz. As certezas a caminhar para perto, bem perto de mim. Elas me socorrem. Beth Mattos apressada – maio de 2020

flor branca

Parte um (do possível)

Parte 1

Se existem histórias possíveis, devo poder saber contar, ou será mesmo impossível dizer?

Faz tanto tempo que sinto falta de alguém a me ajudar na limpeza. Outra vez, vidros limpos, louça brilhando, armários em ordem, e o prazer, líquido prazer de encontrar. Este caos de sempre, estas pilhas intermináveis de livros, estas roupas perdidas, e a música a fugir. Como posso seguir assim? Oxalá os gramados, as árvores, os cães me chamassem para as envidraçadas casas de campo. Desconforto de caixas empilhadas. Eu sufoco, e não consigo organizar nem fazer acontecer um corpo feliz e, outra vez, gestos de vida. Confundo o amanhecer com o começo, mas já é noite antes da manhã terminar. E as tardes gritam pelo sono da noite, o sono se acovarda tão fácil! Tenho saudade daquelas tardes preguiçosas e dos travesseiros alegres: dormir era viver. Volto correndo para o colégio. As horas certas, a rotina daqueles dias protegidos. Ah! Se soubéssemos! Se eu pudesse imaginar como cada pedacinho daquelas tardes, daquelas manhãs com missa e café com leite me fariam falta! Altiva. Doce, alegre porque feliz. Não, não estou te dizendo de tristeza, infelicidade, ou qualquer falta que me faça falta. Estou bem. Não, também não é nostalgia, talvez lucidez. Clareza. Cheguei e não posso dizer nada. Na verdade, as verdades são mentirosas. Camuflar tem gosto/cheiro/intenção de mundo perfeito, de encontro certo, de fantasia. Carnaval de alegria a saltar e a pular, cantar sem pensar em nada, apenas sentir. Beth Mattos em maio de 2020 – Torres

Carta a D.

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.”(p.5) André Gorz Carta a D. – História de Amor

Ecléa Bosi escreve: “Tudo vem a confirmar suas opções políticas: há um poder externo que ameaça nossos destinos. André deixa o jornalismo, aprende a cozinhar para revigorar o organismo de Dorine, que alcança alívio graças a ‘magistrais fórmulas’ de homeopatia. Já tinham mais de oitenta anos quando ele escreve esta carta de amor […]”

Não tínhamos pressa. Eu despi seu corpo com cautela. Descobri, miraculosa coincidência do real com o imaginário, a Vênus de Milo tornada carne. […] Mudo, contemplei longamente esse milagre de vigor e doçura. Comprendi com você que o prazer não é algo que se tome ou que se dê. Ele é um jeito de dar – se e de pedir ao outro a doação de si. Nós nos doamos inteiramente um ao outro.” (p.8)

Magia de amor: para sempre te amo… Para sobreviver aos desencontros eu me conto histórias picotadas. Desvios, porque para mim não foi para sempre. Vou a dobrar esquinas, a correr pelas calçadas, sacudindo a memória. Tropeço, caio e/mas eu me ergo.  E abraço o novo amor… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

livro 1 carta de amor

Étrange

“Étrange, ce vin qui ne montait pas à la tête? Ou bien nos tête étaient-elles imperméables à tout, si ce n’ est à la musique et aux mots? On dirais que c’ est le cas.

Brandley m’ a dit qu ‘ il aimerait bien lire mon Journal, parce que dans la vie j’ étais une personne tellement énigmatique. Mais hier, j’ ai été franche avec lui. Je n’ ai pas précisé quoi, mais je lui a fait comprendre qu’ il y avait dans le Jounal des choses mortelles.”(p.330)  Anaïs Nin  Henry Miller Correspondance passionnée

Serei impermeável ao real? A turbulência confunde o céu com a terra. Beth Mattos

 

terra da memória

Trabalho solitário o de escrever = frase gasta/usada.

O perigo mora/está no solitário, neste estado de solidão. Privacidade, autonomia, e liberdade são o coroamento que chega devagar… Haja paciência!

A vida, concatenação de minúcias interrompidas, surpreende! Não aguenta a sobrecarga da intensidade. Ufa!

Afinal! Tudo passa e tudo voa na terra da memória, nossa condição humana: o passado nos dá este presente, embalagem para o futuro. Nada passa, nem voa sem que fique e estacione. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres