Uma frase afogada, uma ideia perdida. Explicação plissada, ajustada. volto nos anos de voltar, desta vez, para alegrar… O vento e o frio de novembro, onde, quando 2019 – abraça dezembro? Agarro 2020 redondo! Não me sinto bem, nem alegre, nem tranquila, nem paz, nem sorriso. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres
guerra
Luta sangrenta, desconforto, a pior arma, e ou todas as armas, a maior covardia, ou todas as covardias, a defesa violenta, a palavra verdadeira a rasgar a pele, a vida pode ser assim… escandalosa.
” Certa manhã, há um estranho silêncio. A mãe saiu, mas existe alguma coisa no ar, um odor, uma aura, um peso, e ele sabe que aquele homem continua lá. Com certeza não pode continuar dormindo. Seria possível que, maravilha das maravilhas ele tenha cometido suicídio?[…] Na guerra que declarou ao pai, nunca teve certeza absoluta de ter o apoio do irmão. Desde que pode se lembrar, as pessoas notaram, que enquanto ele puxou mais à mãe, o irmão se parece mais com o pai.” (p.144)
Que importa descrever o pai do outro, o sentimento de outra. neste momento o sentimento ruim é meu, o errado, sou eu o desnorteado e o perdido, é minha, as decisões. estou profundamente cansada.
sobreviver
Viver ou respirar! Consciência. Sigo apesar de, e apesar de equívocos, apesar dos livros digo: escrever pode ser cutucar alma, engordar pensamento. O mesmo, e o nada. Brincadeira como qualquer outra brincadeira: jogo entre jogos. Estou a me despedir de J.M. Coetzee. Agarrada aos volumes, numa despedida intoxicada. Volto. Retomo. Enfiada na história misturo biografia / memória, e não me despeço. Chegou a hora! Difícil! Um velho amor dói e fica se contorcendo! Lambuza, e se espalha, gruda! Assim eu volto para ele e me reencontro com seu vulto. Eu sinto. Atravesso a porteira, caminho em direção a casa. Os cães me rodeiam: eu o vejo, levanto a voz, e os eucaliptos respondem. Sou invisível. Sinto o cheiro da carne de panela. Sei que está na cozinha, mas não posso entrar. Não me convidou. Então, eu volto e retomo a estrada. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019- Torres
” Nestes momentos, até uma criatura insignificante, um cão, um rato, um besouro, uma macieira raquítica, uma caroça subindo uma montanha, uma pedra com limo, conta mais para mim do que uma noite de êxtase com a mais bela a mais devotada amante. Essas criaturas parvas e, em alguns casos, inanimadas, se impõem a mim com tal plenitude, com tal presença amorosa, que nada no campo ao alcance do meu olhar arrebatador deixa de ter vida. É como se tudo, tudo que existe, tudo de que me lembro, tudo que meu confuso pensamento toca, tivesse algum sentido. Hugo von Hofmannsthal ‘Carta de Lord Chandos a Lorde Bacon’ (1902)
Escrita perfeita, exata, clara de Coetzee, Elizabeth Costello é a biografia de uma mulher: mãe, irmã, amante, escritora. Também profunda e inquietante meditação sobre a natureza do romance, como só um escritor do calibre Coetzee pode produzir. Diz José Rubens Siqueira que assina a tradução do livro editado pela Companhia das Letras – São Paulo – 2004

velha
“Estou sempre aqui, responde ele. Do que se depreende que esta cidade onde ela se encontra. Onde o guarda do portão nunca dorme e as pessoas nos cafés parecem não ter para onde ir, nem outra obrigação além de encher o ar com suas conversas, não é nada mais real do que ela: talvez nem mais nem menos.”
Estou mesmo aqui, estacionada. Não estive na rodoviária, muito menos no aeroporto. Não abri as janelas ontem, e hoje seguem fechadas. Não passei a roupa, mas lavei os lençóis e a louça. Conversei bastante com a amiga tão bonita, tão mais jovem tendo assim mesmo a mesma idade, a minha. Não abri envelopes, as cartas não chegam pelo correio. Nem encontrei mensagens. A rotina que salva, a rotina que liquida, a vida no passo descritivo, engasgada em perguntas. Quem sou eu? O que estou mesmo a fazer? Digo do movimento de todo o dia, o mesmo, e nenhum dia. Qualquer dia.
“Sou escritora, uma mercadora de ficções, diz o texto. Tenho apenas crenças provisórias; crenças fixas me atrapalhariam. Mudo de crença como mudo de casa ou de roupas, de acordo com minhas necessidades. Com base nisso – profissão, vocação – solicito minha isenção da regra de que ouço agora falar pela primeira vez, a saber, que todo requerente do portão tenha de ter uma ou mais crenças.” (p.216)
“Desacato à corte. Está chegando perto do desacato à corte. É uma coisa de si mesma que nunca apreciou, esta tendência a explodir.” (p.225) J.M. Coetezee – Elizabeth Costello
Também detesto fechar / terminar a leitura de um livro que conversa comigo! E responde ao silêncio. Ao que acontece no mundo hoje e agora. E junto comigo sofre. Estupefato com este agora. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres
outro
Outro dia todo igual: calçada, voltinha, pitangas e amoras, conversa boa surpreendendo e cheiro de café: empurrar o azul… Beth Mattos – novembro de 2019 – Torres
figurante
“ Deve ser uma boa vida, a vida de um figurante. Depois de certa idade, porém, a ansiedade deve começar a se insinuar. Depois de certa idade, a vida de um figurante deve começar a parecer uma perda de tempo precioso“(p.235) J.M. Coetzee – Elizabeth Costello
agora do passado
Da carta para o verbo – Torres cinzenta: vento, nuvem sem a chuva, e o desânimo
DO PASSADO
- 2003 Fundação Iberê Camargo: filme. Exposição de fotografia no MARGS. Ainda me importo com a cidade/movimento cultural, e acredito em solução. Escondida no preto, inconsciente da importância do evento, levo/carrego apressada urgência. Brota, ressurge esperança, não sei de onde. Existem mortes imperceptíveis, frequentes. Ser despedida da galeria no momento em que transferi tempo, empenho. Desastroso. Morri. Sonambula vago perdida. Concursos. Editais. CETEC e cursos infindáveis. Tento equacionar os passos. Faxina, lavanderia, contas telefônicas, pressa/agitação/ansiedade, insônia.
- Detesto o cheiro da poeira, a limpeza de ontem não foi suficiente. Obsessiva. Impotente. O coração se agita. Deve ser o tal de renascer. Coisas inacabadas! Preciso concentração para sair do atoleiro. Irei a Torres na segunda-feira ou na terça-feira. Irei sem os pacotes natalinos, esqueço a lembrança iluminada. Não seria hoje sem aquele feitiço. Trinta anos atrás, vinte anos atrás! Coragem menina! Vou resolver. Atropeladas coisas a contar, esmiuçar e a descrever: despedida, quase sem explicação, contenção de gastos. Escrevo a história na releitura sádica. Sem lágrima. Eu ainda podia.
- Escuto tua música, os dedos batendo no piano a sangrar. Sem parar. Prisioneiro do teclado a me consolar. Estou possuída pelo demônio das cordas. Eu te chamo! Não escutas. E estás aqui em todos os pedaços que estou a juntar pela casa, espalhados, vou colando um ao outro. Quero todo o teu corpo.
- Carta amorosa, e tens razão. A chave da alegria, o agora. Esperar amor, não o que não aconteceu. Não se afundar em lamento. Escreves: não alega que não estás na tua casa, não alega que não tens dinheiro, queira estar bem! Bem! Bem, não consigo estar. Bem! Encontro soluções imediatas, alugar o apartamento, morar com a irmã, aceitar ajuda dos filhos, e aceitar o limite. Agarro os limites. Recomeço. E guardo os cinquenta e nove anos com a marca do número nove. Navego no meu barco, seguro o leme, pode ser liberdade. Não estou alegando. Olho nos olhos, sinto. Volto a ser menina e assustada. Respiro, aguardo resposta, levanto, acordo da insônia, e sonho com amor. Eu vou melhorar. Obrigada. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019

agora
estranha urgência!
quero seguir, agarrar, resolver,
caminhar e ser gentil;
mas não compreendo.
não aceito, não escuto o grito!
estranha urgência!
Pesam meu braços! E a cabeça se confunde com as nuvens: não aguento esta guerra, nem arrogância, nem o medo. Estranhos sentimentos! Caminhar pelo quintal, se deixar ficar no entardecer, acordar antes do relógio, um alerta. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 – Torres

dos concursos
Paulo, meu querido, estás bem. É isto, ao menos, o que eu acredito. Leio apenas o que desejo ler: pessoas surpreendentes, somos nós. Cegas. Surdas. Arranca de ti a dor…
A fresca do apartamento me ajuda neste verão porto-alegrense. Segue o sonho: acendo palitos de fósforo e imagino: passar no concurso, resolver as questões com o dinheiro (a falta dele), escrever um livro, voltar ao magistério. Quebro a lógica. Verdade? Sonhos, sonhos que oxalá terminem com a neve do inverno. Adaptando – me a Porto Alegre coloco na vida pedacinhos coloridos de confetes. Tua última carta deixou – me inquieta. Desejos se partem egoístas, tu radicalizas, e teu mal-estar me assusta. Desejo que vivas muito, muito, mito, mais do que eu posso viver. És imortal. Eu te quero perto de mim, sempre. Amigo querido! Eu, de natureza lenta, preguiçosa sequer me volto, para a luz, sigo no escuro. Paraliso. Outras vezes escrevo, outras dedilho o piano, e penso aos soluços. O que imaginas que faço melhor? Aguardo as cartas. Tenho lido menos, pecado mais. Rezo. Peço perdão. Não adianta. Ao cinema? Novas culpas. Se eu passasse no concurso! Uma das tuas boas ideias, vencer, mas sem estudar muito e muito, apenas milagre, perdoada. Reavalio a vida picada em pequenos e imediatos prazeres, cheia de confetes no cabelo, na boca, na fantasia deste carnaval. Estou como nasci. Estas meninas vieram ao mundo para ser abonadas pelos pais e ou pelos maridos. Filhos, abraços e beleza imóvel. Beleza imóvel, sorriso certo. Sem pecado.
Eu fiz tudo errado: separação, divórcio, abnegação, nada produtivo. Prazeirar. Sol do mar, risada leve, embalo distraído. Família cedo, separações imediatas, depois estudar… devagar estudar, mas tão pouco! Quase ao acaso. De uma cidade para outra, aos empurrões. Orgulhosa demais, obediente e passiva em excesso. Era uma vez...e, claro! Foram felizes para sempre! Fórmulas mágicas! O sempre imediato, azul e rosa sem contorno, e a floresta verde, verde e verde pontilhada de frutas coloridas, e perfume a embriagar. Ah! Meu amigo! Ri mais do que estudei, o piano estourou em festa! Dancei mais, e muito, não poupei, não guardei, não fui previdente. Hoje, hoje e agora. Céus! Dei aulas de arte de português e nada sei de acentuação, da pontuação e das letras, se apenas a sintaxe fosse minha! Magistério esticado. Nunca dividi dividendos: entreguei aos maridos o lucro. Sem lutar, a respirar empurro a vida. Errado. Não sou persistente. Fraca. Nunca estudei o suficiente nem o necessário! Escolho errado. Papel, plantas, lápis e canetas, livros. E as paredes? Extravagância no perfume, na seda dos lenços, no vinho e nos licores. Ah! E os discos de vinil! Brinquedos, fantasias, e copos de cristal. Fotos, tanta fotografia, tanto sonho de papel!
As coisas são pedras. Estas podem ser recolhidas / colecionadas. Perdi a ambição. Choro pedras. O voto de pobreza não me salva. Deslizo gulosa em direção as cerejas, as amoras, as uvas e as laranjas. As maçãs vermelhas, e o pão e o vinho. Sou tua guardiã. Colcha de acasos. Chavões. Por favor, te cuida, meu amigo querido. Elizabeth M.B. Mattos – de 2005 para 2019 – outubro – de Porto Alegre para Torres
palavras, reticências
Morar no hotel, caminhar o passeio, e amar a luz. O nosso poeta.
Amor não vai, estaciona na palavra: “Buenos Aires, maio 199…Elizabeth, gorda amada: Estou perdido no mundo. Não sei sequer que horas são, meu relógio de pulso, sem pilhas não me deu o norte do mundo. Estou sozinho no meu apartamento (no meu, no nosso). Sei que é de tarde pela inflexão do sol. E que muito tarde porque estou famélico e o frio aperta mostrando que estou sem me alimentar. […] escrevo – te na mesa da cozinha, no pouco que aqui restou intacto. Creio – creio – que eu também restei intacto.Intacto, mas começo a sentir o tiroteio. Ontem recebi tua enxurrada de cartas […] ” Transcrevo, uso reticências e vou dormir. Chove. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 – Torres
Carlos Nejar – “Tive com Quintana um relacionamento fraterno. Mais antigo e sem idade do que eu, talvez minineiros ambos, […] Certa vez ao mostrar – me um poema, cometi a desfaçatez de corrigir as suas reticências. Dizia – lhe: Mário, o que está nas palavras não precisa da muleta das reticências! O mistério está nas palavras. E ele argumentou que as reticências são cercas. Cada campo tem a sua cerca […].”
Estou a olhar o trovejar cinzento e pesado, a reler velhos jornais, janelas abertas. Gostei das cercas. Mário Quintana: “a bomba abriu um belo buraco no teto, por onde o céu azul sorri para os sobreviventes, a mote é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”. Amar tanto muito e esticar. Coloco um ponto. E já posso amar outra vez. Trovejar relampejar e descobrir o novo a brotar do alerta. Juventude menina. Confiáveis olhos castanhos.Tão pouco poder de decisão em relação ao que não acontece! Tão pouco! Céus! Desisto. Acumulado de coisas desistidas. Mais uma, menos uma, que diferença faz? Sobrevivi. mas os fantasmas se enfiam dentro de mim, às vezes, fico sem saber o que fazer deles. Invento palavras, todas que deveria ter dito e não disse. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 – Torres