Ler um livro abre uma porta; os amores se misturam, as dores se aplacam, as vergonhas se escondem e seguimos… Solução. Segredo. Beth Mattos
calor
Calçada de verão. Manhã de amanhecer e noite de conversa! Tudo possível no verão…Beth Mattos em dezembro de 2019
Vivendo (…) MARINA TSVETÁIEVA

“Ouça, meu amor é leve. Não será doloroso nem incômodo para você. Entrego – me totalmente àquilo que amo. Amo com a mesma intensidade – profundamente – a bétula, a tarde, a música, Serioja e você. Eu reconheço o amor pela tristeza incurável, pelo ‘ah!’ que corta sua respiração. Para mim você é um rapaz encantador, de quem – ainda que me digam – não sei nada, a não ser que o amo.” (p.125) Marina Tsvetáieva VIVENDO sob o FOGO
Loucura caminha na dor e na ausência da dor. A tonteira aperta o sentir, e depois esqueço o tamanho do sentimento… Eu me deixei arrebatar, tens razão: foi a tua pressa de tudo dizer, tudo sentir, atabalhoadamente, aturdido, também tu. Assim mesmo registro no livro que leio, na tarde, insisto em te dizer: te amo, eu te amei. No ardido dos olhos, no excesso e na carência, neste medo que eu sinto da morte apressada. Eu quero olhar no teu olhar a brejeirice e derramar na tua voz apressada a resposta gaguejante , urgente que guardei para te dizer e não disse. É verdade. Eu me assustei. A cada mensagem eu recuava. Recuar faz parte da guerra, da loucura consciente ou inconsciente de amar o amor. Recuamos para vencer! Quero que me perdoes. Não pelo que não aconteceu, não temos culpa da distância, mas do meu silêncio no teu grito. Tenho culpa, deveria ter te escrito logo: amo, eu me apaixonei na ausência, a voz que desconheço. Gosto de toda a aquela loucura perfeita das tuas palavras. De todo sonho, de toda a história derramada naqueles idos tempos cariocas que tão perto, não nos vimos. Eu nada sabia/entendia de viver, e antes, quando nos cruzávamos pelo/no verão, uma vez, uma vez deverias ter ousado… Não me perdoo. Mas, ao te escrever, sinto que também não te perdoo. E não precisaria ter sido para sempre. Podia ter apenas ter sido… Tua história, minha história: um nosso tempo! Nossas mãos! Elizabeth M.B.Mattos dezembro de 2019 – ainda Torres. Sempre teríamos o verão nas nossas mãos…
“Estou plenamente convencida de que se um homem conseguir me conhecer inteiramente vai me amar mais do que a qualquer outra […]” (p.124)
sem história
Tinham um jeito particular de sentir e sublinhar o tempo, mesmo confinadas, dividindo um pedaço de pão, e ou bebendo café preto, ou leite com chocolate. Às vezes era explícito, fácil, mas escolher o filme poderia ser atrito. A hora de lavar a roupa, ou passar, o tempo de ficar conversando na sala principal, os programas na televisão. Digamos que Mara poderia ficar um dia inteiro sem acompanhar as notícias, Lúcia fazia questão de saber do seriado. O tempo da noite corria solto com seu bom hábito de dormir tarde. Antes de duas horas da manhã impossível. Ao lado da cama uma torre de livros selecionados / a dificuldade para vencer estranhos temas impunham disciplina. Pouco costumada a dar explicações, ou abrir a coragem de querer ou não querer. Livre das decisões apressadas ou impulsivas, não era possível explicar como seria aquela semana… Não se apressavam, o tempo sim, engolia os dias.
– Vais ao cinema na quarta -feira? Pergunta Lúcia. Vou me organizar, responde Mara, mas acho que quinta feira também pode ser um bom dia, Celso pensou em fazer uma visita, não sei se daremos contas de todos os acertos, do projeto. Eu o convido. Mas se esta semana se agitar demais, não vou. Irei na outra, sozinha, numa sessão mais cedo. Quero passar a tarde conversando, bebericando chá, talvez faça um bolo. Queres sair conosco? (inacabado) Beth Mattos – 2019
de volta

“Você diz que Londres é cheia de gente. Florença também está cheia de turistas dispostos a fazer valer seu dinheiro, correndo por todos os museus da cidade. Mas não importa porque todo o resto me reconforta muito. A arquitetura, a escultura, a própria terra, tudo é tão magnífico que estou curado. Devo estar – senão, por que estaria tão feliz? Esta viagem está parecendo uma peregrinação: Griffin Moss presta homenagens no altar de seus mestres. Ficarei mais alguns dias para ver as igrejas. Tive um sonho maravilhoso e sensual na noite passada. Eu estava no Palazzo di Medici , conversando com o próprio Lorenzo, quando você surgiu de uma parede de fumaça e me abraçou. Sinto sua falta. Griffin” Nick Bantock Agenda de Sabine
Sinto tua falta. Como explicar? Aperto dolorido, sem sentido. Estou a procurar aquela Beth tranquila e passiva. Estou sem letras, sem texto, sem vontade. Não encontro. Talvez as paredes me apertem e o ar não me deixa respirar. Caminhadas inúteis, não me levam… Preciso do mar, da areia, do calor. Dos teus braços fechados no meu abraço. Preciso do dia colorido. Por que não me libertas? Parece pouco / pequeno e apertado. Não sei. O sono me acorda apressada. Eu corro e não chego: estou na mesma calçada. Eu te espero. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres ficou desproporcionalmente, enorme, gigante! Eu não consigo te alcançar.

colorido
nunca mais
…não vou mais te dizer, tudo errado. Olhar insistente, esta mão que se estende. Não. Estás, livre, e surpreso. Contra tudo e contra todos… eu sigo o erro. Vou sair devagar, mansa e silenciosa, e vou voltar platônica e sonhadora, sem confundir o que sinto. Vou viajar naquele barco e dançar. Rir um pouco, e deixar passar o tempo, vou de goles e de sonecas em sonecas envelhecer, e nos sorrisos seguir. Caminhar… Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres
sem entender
“Num mundo onde tudo precisa ser instantâneo, rápido, sem esforço, sem observação, sem investimento de mim mesma no que faço, e sem dor, as pessoas escavam (ou abstraem) alguns pedaços da teoria de alguém, algumas ferramentas conceituais, e as passam aos outros como “salvação”. Isso é charlatanice.” (p.45) Barry Stevens Não Apresse o Rio Ele Corre Sozinho
No meio da leitura, sonâmbula no sonho. Desafeto. Fico encabulada. Depois, eu sigo a encher potes com chocolate.Não abro janelas, nem portas, e não falo. Escuto.
Dias natalinos. Absoluta liberdade. Vou pegar um barco e viajarei para MACAU. Meus passos. Beth Mattos




excesso
Os cabelos eram, excessivamente, curtos. E o sono pesado, ardido. Caminho com os olhos fixos na menina. Agarro a boneca bebê com aconchego e desço os degraus para o jardim: o quintal e o verde com gosto livre e doce. Vou para a calçada descobrir o brinquedo. E já estou colorida como ela. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres
P.S. Toda austeridade representa coragem, não ser guarda o estoicismo de ser. O despojar a riqueza, o silêncio o grito a explodir no peito…
“26 de abril
Há também o tipo que quanto mais leva tombos, quanto mais razão teria para só pensar em levantar -se, tanto mais pensa em voar e se entusiasma pela ideia. Isso, antes de mais nada, é gosto de contrastes e habito de contemplar – se. Ninguém que não tenha o vício de se encarar como a um outro – um outro importantíssimo tem a capacidade de se entusiasmar pelo prazer e a liberdade enquanto passa pelo sofrimento e a preocupação.” (p. 39) Casare Pavese O Oficio de Viver
Fragmento de livro lido e sublinhado e relido. Cartas / diário e textos / recortes voltam para entusiasmar o gosto travado de desencontro… Tanto gesto perdido! A escorrer o desânimo. Faz frio em dezembro, e o Natal lento vem para festejar os aniversários de todos de sempre. Vontade de se esconder atrás daqueles sonho valente de ainda querer ser… No entanto, já chegou a despedida heroica, e ou traiçoeira, atenta. Beth Mattos
quero energia
Representa vida, a minha Valentina: avança na alegria clara. Acredita. História da estória a se construir. Beleza plena. Concentração na/da luz. Volta no tempo/do tempo… Deveríamos estar a plenos pulmões! Como a pequena. Esbarro em fotos. Esta me agarrou / prendeu. E.M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres