Pode acontecer o que esperas. Importa que tenhas em conta quem és. Distraída pela superfície das coisas, deixas passar o momento… No entanto, ele volta, porque já te ama. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 – Torres

Pode acontecer o que esperas. Importa que tenhas em conta quem és. Distraída pela superfície das coisas, deixas passar o momento… No entanto, ele volta, porque já te ama. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 – Torres

Desenhei, mentalmente, no invisível brinquedo de apaziguar o que poderia ser pessoa, árvore, surpresa. Trouxe flores e frutas e cor. Lápis, papel, livros, almofadas, luz e quietude. Carreguei as palavras e o inimaginável. Chorei sem lágrimas, estupefata.
“[…] entre o nosso hoje, o nosso ontem e o nosso anteontem, todas as pontes se romperam. Eu próprio não posso deixar de me espantar com a multiplicidade, a diversidade que comprimimos no curto espaço de uma única existência – naturalmente, muito incômoda e ameaçada -, em especial quando comparada com a forma de vida de meus antepassados.” (p.15) Stefan Zweig – Autobiografia: o mundo de ontem
Atravesso o caminho espinhoso de muito pensar ou saber / acompanhar / assistir, e mesmo assim me dar conta de enorme / gigantesca inocência / ingenuidade e, porque não dizer? Perplexidade. Os olhos jovens / as mãos lisas e o vigor se esconde. Em qual pequeno mundo posso ter certeza de uma verdade honesta? Nos depoimentos de um e de outro, na voz rouca, ou quase incompreendida deste ou aquele. Que sentimento de completa impotência! Escuros porões inacessíveis… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2010 – Torres
se a madrugada me acorda, volto para te pensar, seguro a vontade de te saber aqui ou ali,…conversar.
dormes.
a chuva se fez dia frio, depois quente, depois não sei.
dormes.
os livros me esperam, desânimo.
não posso acertar! erro tanto! e já amanhecendo estou a pensar na noite!
a pensar em ti, mas
dormes
Ana Moog – outubro de 2009 – Osório /RS
A vida do cotidiano, da caminhada pela lagoa, da compra na feira livre, de olhar o mar e da leitura se mistura entre real e fictício. As citações importam nesta travessia justa / única e perfeita: a voz do escritor. Leio com a voracidade inquieta. Não consigo respirar, perco o fôlego. J.M. Coetzee acena altivo.
“O diabo está em toda parte debaixo da pele das coisas, procurando um jeito de sair para a luz.”(p.187) Coetzee in Elizabeth Costello
Sentimento do mal, do perverso atravessa. Reagir, perdoar e escutar outra vez, mais uma vez para abraçar. Não se trata do definitivo. Estou sempre a querer/nem sempre a conseguir. Lacuna na conversa, na indignação. Não resolver apressado, resolvendo… O corpo a gritar por socorro! Deve ser o diabo!
“Esta é minha tese de hoje: que certas coisas não são boas de se ler nem de se escrever. Vamos colocar a questão de outro jeito: levo muito a sério a ideia de que o artista se arrisca bastante ao se aventurar a lugares proibidos; arrisca, especificamente, a si mesmo; arrisca, talvez, tudo. Levo essa afirmação a sério porque levo a sério a proibição dos lugares proibidos.” (p.193)
Tenho eu também, lugares proibidos. Certamente proibidos. Interrompo a leitura. O inferno deste “porão, onde em julho de 1944, foram enforcados os conspiradores,[…]”. Penso rupturas a rasgar, danificar, sangrar. Existiam rosas. De certo toco no inferno. O purgatório do silêncio. Castigo. Gosto das conversas do dia: “o pastel estava delicioso”, “a sessão da tarde, doce de leite”. Ou “Bermudas incríveis, mas coloca um chapéu.” “Hoje o sol ferve”, ou outras tantas banalidades importantes. Simplicidade de nada dizer no meio do abraço. Decisão difícil não te pensar! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 – Torres

Entrou altiva. Sentou no sofá de veludo, e se encostou nas almofadas macias. Com prazer esticou as pernas, como se voltasse de uma longa caminhada! Pediu água e sorriu satisfeita. Nós esperávamos bem uma hora e meia e seu atraso nos inquietava. Espanto ao ver tanta serenidade. De uma ausência de tantos anos, eu me perdi nas dobras do seu corpo nem tão gordo, nem tão magro. Na blusa polo e nos tênis brancos, nas meias curtas e naquela calça com riscas vermelhas. Os colares de ouro no pescoço. E brincos. A bolsa era grande, um couro leve, trabalhado em cores castanhas, um grande fecho atravessava a costura.
Cabelos ondulados presos por pequenos passadores, o rosto limpo, os olhos castanhos voavam curiosos. Tudo nela parecia perfeito confortável. Abusava da fartura.
Arrumei o vestido e sentei na outra ponta do sofá, desconfortável. Talvez eu tivesse colocado perfume forte demais. Esqueci o casaco na poltrona do quarto. Com frio, cruzei os braços nervosa. Talvez fosse o cansaço da viagem, ou o tempo agindo no envelhecer. Suponho que umas pessoas sentem as horas como pregos, e outras livres, alegres ponderem o excesso de luz. Se trata de um negócio. Valor, decisão, acerto, tudo me inquieta. Valorizo a vírgula. Excesso! Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2019 – Torres
Chuva. Inquietação. A música muda o ritmo, posso dançar e… dançar! Confetes sonoros! Vento das folhas! Buganvílias se abraçam: brancas rosadas e avermelhadas! Jasmins espiam faceiros entre folhas miúdas e aquela orquídea preguiçosa toda florida! Ah! Eu me divirto com o faz de conta! Chover tem mistérios. O cinzento, parente do escuro e do entardecer leva o tempo, eu me transporto: país sem sol, gelado em qualquer estação. Gosto. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 – Torres
Em guerra com cupins! Eles acabam comigo, ou eu acabo com eles! Luta armada! Proibi a Ônix de se envolver no conflito. Beth Mattos – outubro de 219 com sol e sol, céu entre cinza claro, tão claro; e azul desmaiado. O amarelo explodirá no amanhã: o verde revigorado deve sofrer, eu sei!
Misturo a dor, remexo, e depois eu me escondo.
Não resolve.
Esqueci a janela aberta… Entrou chuva, olhar e saudade.
A dor voltou. Voltou mais forte e desenhou azul na minha perna. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 – Torres e tanta e tanta chuva que a cama está boiando no meu sonho!

Fernando José Valente De Senna Júnior Os momentos… ah os mínimos momentos. De cada desvão surge um perceber. Um nada a respeito e resistir. Outro dia olhei minhas mãos. Quando se tornaram pouco simétricas? Meus pêlos mais abundantes nelas. Minhas unhas…. estas meninas frágeis. E os muitos nós dos dedos? Agora contam dobradiças antigas. Sei que muitas portas com elas fechei e outras tantas bati assustado e pedinte. Virei-as. E as palmas já são fáceis de decifrar. Os calombos de lidas passadas. O enrijecimento de um dos dedos idêntico ao de papai. Dói. Mas sorrio ao perceber-me semelhante a ele até nisto. Nos rudes defeitos. Não. Não tenho sinais azuis nas pernas. Mas certamente estão sob as mesmas. Sinto me tão jovem neste corpo sexagenário. Tão acolhido em minhas rugas e os tais desvãos que citei. Comparo me à sacada que cedeu diante do avanço do mar. Acaso não serei a sacada? Acaso não serei o próprio mar? Borda e fronteira de mim… ah Menna… como provocas
“Tão diferente é meu hoje de qualquer dos meus ontens… que às vezes me parece que vivi não uma única existência, mas várias,inteiramente diferentes entre si. Pois muitas vezes, quando digo desatento, ‘minha vida’, sem querer me questiono: ‘Qual vida'” Stefan Zweig – Autobiografia: O mundo de ontem
Cada autor, cada leitura um susto e a certeza: tão igual o sentimento! O céu e a terra, o vento e o excesso de chuva que traz excesso de nostalgia, um cheiro de bolo quente, uma conversa inacabada, aquela angustia fervente porque preciso decidir, fazer e terminar de acertar e amoleço exausta em um minuto.
Tão diferente! Tão da insonia e do amor o meu J.M. Coetzee, reservei e pensei…
“Mas estaria disposta a discutir ideias com ele? Isto é o que interessa, na realidade. A discussão só é possível quando existe um terreno comum. Quando dois oponentes estão em disputa dizemos: ‘eles que raciocinem juntos, e raciocinando esclareçam suas diferenças, para se aproximarem. Pode parecer que não tem nada em comum, mas pelo menos têm a razão em comum.”
Posso deixar de entender, aceitar o que acontece tão devagar, o momento de ser parece apertado e insipiente. Esgotado!? Não desejo/não quero sentir assim. Prefiro a leveza confiante espontânea, abraçada, despida de intenção. Lisa. O frio não pode se instalar na soleira do verão. O sol se atrasa, a chuva se excede, eu me atrapalho. O vento grita tanto e tanto que eu o vejo em perigo nesta força sem controle. Não quero descrever o tempo. Quero chegar no teu abraço, no teu olhar surpreendido porque envelheço dentro da minha juventude a transbordar. Meu querido, não consegui te esperar colorida! Estou debruçada na angustia azul, ligeira da nossa fantasia… Fecho um dia no outro. Antes, ordeno e limpo (uma doença como outra qualquer!), os armários, as gavetas, os vidros. Encero as lajotas. Aqueço o corpo e me escondo no amontoado de cobertas coloridas, todas. É verão, tu me dizes. Eu não sei, respondo. Carrego outra estação nas mãos. Imagino que estejas distraído a caminhar pelo campo com os cães, ou a colher as flores, e aquelas frutas azuis… Gosto de te espiar indo e vindo, voltando. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 – Torres
“Você passa tanto tempo respeitando, que não sobra tempo para pensar.” (p.105) J.M. Coetzee Elizabeth Costello