fotos se amontoam…

[…] “aquilo que imaginamos serem os nossos pensamentos fundamentais acerca do mundo não passa, muitas vezes, de confidências a respeito da juventude do nosso espírito.” Gaston Bachelard

Foto de Elizabeth bebê. Ainda posso encontrar outras da menina, com a Dinda Felícia, em Santo Ângelo, quando o Telmo servia por lá, outra em Ponta Grossa. Este tio, primo-irmão da mãe muito me carregou para cá e para lá.

Lembro da boneca linda com cabelos naturais, Chapeuzinho Vermelho! Delicada. Os olhos se mexiam. Era de louça, francesa. O vestido curto. Tão bonita minha boneca! E volto no tempo. Se eu nasci em setembro de 1946, e parece que foi mesmo neste ano (risos), e a mãe viajou 1949 para Paris, fazer um curso. Eu tinha três anos. E quatro anos ou já cinco quando voltou. Quem cuidava das meninas? Éramos três. Se este ano de ausência importou, quem eu sou? Quem é esta menina de três anos? A Ligia, mãe da Magda, morreu no desastre de avião. A mãe voltou em 1950. Como posso lembrar das grandes festas de Natal? E a casa da rua Vitor Hugo 229 tinha um grande pátio com jacarandás, depósito de lenha, enorme cozinha, e o jardim na frente. O cão pastor, o Tom, e o Japp, o cão da Suzana, e os gatos. Na outra foto, ano que a Tânia casou, 1958 ou 1959, não sei bem, o casamento eu usava carpins brancos e tinha os cabelos muito curtos. Depois da primeira reforma. Os muros desapareceram e a grade na janela da frente, enorme, único adorno. Eu gostava! E as venezianas! Lareiras. Pesadas cortinas. Beleza! No casamento eu usava carpins brancos e tinha os cabelos muito curtos. Estudava no Colégio Santa Inês, com as dominicanas. E o Petrópolis Tênis Club era o máximo! O Pedro agarrado na grade querendo caminhar. Ao lado, na rua Marquês de Pinedo em Laranjeira, Rio de Janeiro, com Aroldo Rodrigues grávida de oito meses do Pedro. Casamento, com Érico Veríssimo e Mafalda. Com a Joana nos braços, dia do batizado no Palácio Laranjeiras. Com Guilherme Antônio, filho da Suzana, nos braços, em Porto Alegre. Érico e a mãe padrinhos da Rita (filha do Alberto Ruschel ,o ator) e depois a casa da Vitor Hugo, 229 em Petrópolis – Porto Alegre.

 

A mãe em 1967. Poemas e cartas. A viagem de volta para o Brasil depois de um ano na França. “Perante o fogo que morre, quem está a soprar desanima; não sente o entusiasmo suficiente para comunicar a sua própria força. […] realiza o seu desânimo e a sua impot^rmcia, transforma num fantasma a sua própria fadiga. Deste modo, a marca do homem versátil encontra – se em todas as coisas. Aquilo que declina e aquilo que sobe em nós transforma – se no sinal de uma vida oculta ou no despertar para o real. Semelhante comunhão poética provoca os erros mais tenazes opostos ao conhecimento objetivo.”(p.84)  Gaston Bachelard A psicanálise do Fogo – Coleção O mega / Estúdios COR

E lembro da casa do Rubens M.B. Costa em Ipanema. Que franja tão curta! Que jeito faceiro! A mãe já tinha voltado. Eu deveria ter meus cinco anos, ou quatro? Bem feliz! E já os verões em Torres e nossos piqueniques nas pedras! Outros tempos de ser feliz! Na outra foto pousando para Revista Globo, na Vitor Hugo, no que seria o Pavilhão. Onde fazíamos nossas reuniões dançantes! Os documentos da viagem de volta da mãe. E os poemas e cartas. Ela teria escrito um, dois livros, ou três e quatro tanto artista e poeta era!  E bonita! […] a vida renda. Se vou me lamentar da ausência retomo o cuidado, o encantamento com que ela, minha mãe, fez acontecer na vida das três meninas. Inclusive autenticidade e cumplicidade.  Não se pode emprestar restrição, arrependimentos ou frustrações, mas vida na vida. A foto da mãe é de 1967.

 

Carta de Eleitor de Pedro Alexandrino de Mattos, meu avô português. Ana Maria 2019. O meu pai, ainda na Marinha. Luiza pequena. Geraldo e eu (grávida da Ana Maria). Notícias de jornal quando lacei o livro da biografia de Xico Stockinger / tempo da Garagem de Arte. Poema da mãe, foto do pai.

 

 

 

 

caudalosas cascatas

“A minha imagem era bastante romântica, e não me envergonho de dizê – lo. Para mim os Estados Unidos eram Walt Whitman, o país do novo ritmo, da futura fraternidade entre os povos […] pensei, portanto, em Manhattan com um sentimento aberto, fraternalmente largo, em vez da costumeira arrogância  do europeu. […]

A primeira impressão foi poderosa, embora New York anda não tivesse aquela inebriante beleza noturna que tem hoje. Ainda faltavam as caudalosas cascatas  luminosas na Times Square e o maravilhoso céu estrelado, que à noite ilumina as estrelas de verdade do firmamento com bilhões de estrelas artificiais. O cenário da cidade, assim como o trânsito, não tinha a generosidade ousada de hoje, pois a nova arquitetura ainda experimentava com muita incerteza os edifícios altos; mesmo o apuro do gosto em vitrines e decorações apenas começava, timidamente. Mas olhar o Brookling Bridge – sempre vibrando em movimento – para o porto, e caminhar pelas avenidas, esses desfiladeiros de pedras, era descoberta e fascinação o bastante, que depois de dois ou três dias evidentemente deram lugar a outro sentimento, mais virulento: o sentimento da solidão máxima.”(p.174-175)  Stefan Zuweig Autobiografia: o mundo de ontem

[…] talvez, um modesto talvez salta do sonho. Desejo abrir os olhos e estar lá! Ofuscada pelas luzes, ofuscada pelo sonho real, ofuscada. Estar em New York, descer na terra americana. O autor a descreve antes da Primeira Guerra, antes, antes. E já era meu sonho. As encarnações dos desejos. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres

2019-04-27 20.13.01.jpgcapa das histórias

cedo

Acordei cedo: caminhada de passos. Ninguém na calçada.  Comprei bergamotas e bananas. Farinha de mandioca, limões e abacaxi. Alface, tomates e cheiro verde, pimentões vermelhos. Também os morangos. Vou fazer uma sopa. Lula saiu da cadeia / prisão. Não faz sol hoje. O verão não se apresenta. Ônix tomou banho, trabalheira danada! Troquei os lençóis. O resfriado ficou amarrado. Desliguei a televisão. Elizabeth M.B. Mattos –  09 de novembro de 2019 – Torres

coisas que te digo já não importam

As coisas que te digo já não importam: nem o teu nome, nem o que eu sinto, nem este verão atrasado, sem pequena memória, nenhuma lembrança. Alerta preguiçoso. Já não me interesso pelo teu lugar, nem pelo meu. Nem pelos cães, nem pelo arvoredo. Nem quero te dizer daquilo ou do outro, esqueci tudo. Inclusive a vontade de ler, de pensar, ou que te amo, não sei. Terminou sem começar. Esqueci o que pretendia dizer. Camisa puída, urgência, ou café, sem passado, nem presente, nada interessa. Nem as palavras, nem o vento, nem o sol.

Pela fresta da porta vejo/percebo passos, eles passam. Magia de ir e vir.  Nem os dezessete nem os quinze, nem o sonho. Nada importa. A pensar que o que ficou para traz, a dizer sem palavra o que um dia importou, estranho vazio. Não. Estás, estou preenchida e estupefata com a indiferença. A tua. Resiliência. E nem me importa se o sol entra e queima, ou a chuva desmancha e deforma a terra. Barro / argila que o vento incansável modela. E o mar chegou na calçada, no jardim. Estou tão longe e tu estás tão perto! Guardei o suspiro, os teus braços no meu corpo. Quero / desejo que tenhas me guardado no teu desejo. Todo o plural da tua fantasia se derrama na minha. Bebi demais. Dói a cabeça. Perdi a referência da luz, escuro. Anoitece no meu dia. Nem uma taça de vinho. Apenas água. Esquisita química de amor. Teus olhos castanhos, tua pele descuidada, teus desejos ocultos: um jogo. As regras não me deste, então, distraída, e descuidada, assisto o jogo sem entender. As partidas de tênis, os nadadores a se superarem, as goleadas, os lances de encestar, cortar. Eu me entusiasmo com a violência do futebol. Eu não entendo. Uma dança perdida. Areia quente. Sol a queimar, devagar. Entro no mar para esquecer que te espero, mergulho e volto, mergulho. Segues jogando. Não vou te alcançar. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres

caderno fotos a bic e o copo

milagre

Retorno. Volto. Retomo o passo. Esquisita espera, ansiedade. Serão pertinentes tantas e tantas cartas de amor? Simulacro da mesma e indefinida relação. Arrasto o pesado e latente estado de amor, sem amor. Penso na ponte  em Lot, e na França. Não quero voltar. Não quero ficar, eu irei.

O milagre pode, definitivamente, acontecer. Acredito nele. Em algum momento a virada. Mereço / quero resposta. Houve erro. Idade do impossível, ou da virada. Mário Quintana:  Leituras

Não leia romance, leia poesia. OU melhor leia dicionários – vá lendo os  Português Francês – Francês Português acaso um dicionário e nem pode imaginar o que germina e floresce na alma do leito do mundo e . Leu um dicionário é mais variado poético e inspirativo do que olhar uma vitrine de bric.” Os dicionários trazem uma catalogação do mundo e o início de todas as veias. Uma estante inteira de dicionários.  Preciso no Último Aurélio. Onde está o meu Petit Robert (ou Grand Robert) . Dois volumes com peso e ouro – vou caminhar pela rua dos Andradas, a Rua da Praia, – antes da beleza, das confeitarias, dos cafés – hoje, pobre! Invadida, mas fiel, segura, ainda as margens do Guaíba e segue para a Cinelândia, Correios, Museu, Bancos em mármore  e velha vida concentrada de um tempo que está lá dentro da gente. Ver Casa Mario Quintana, antigo Majestic que guarda dois cinemas, dois cafés, duas saudades. Dois caminhos pelas livrarias que á estão num trajeto

somar só mar e ar

Uma frase afogada, uma ideia perdida. Explicação plissada, ajustada. volto nos anos de voltar, desta vez, para alegrar… O vento e o frio de novembro, onde, quando 2019 – abraça dezembro? Agarro 2020 redondo! Não me sinto bem, nem alegre, nem tranquila, nem paz, nem sorriso. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres

guerra

Luta sangrenta, desconforto, a pior arma, e ou todas as armas, a maior covardia, ou todas as covardias, a defesa violenta, a palavra verdadeira a rasgar a pele, a vida pode ser assim… escandalosa.

” Certa manhã, há um estranho silêncio. A mãe saiu, mas existe alguma coisa no ar, um odor, uma aura, um peso, e ele sabe que aquele homem continua lá. Com certeza não pode continuar dormindo. Seria possível  que, maravilha das maravilhas ele tenha cometido suicídio?[…] Na guerra que  declarou ao pai, nunca teve certeza absoluta de ter o apoio do irmão. Desde que pode se lembrar, as pessoas notaram, que enquanto ele puxou mais   à mãe, o irmão se parece mais com o pai.” (p.144)

Que importa descrever o pai do outro, o sentimento de outra. neste momento o sentimento ruim é meu, o errado, sou eu o desnorteado e o perdido, é minha, as decisões. estou profundamente cansada.

sobreviver

Viver ou respirar! Consciência. Sigo apesar de, e apesar de equívocos, apesar dos livros digo: escrever pode ser cutucar alma, engordar pensamento. O mesmo, e o nada. Brincadeira como qualquer outra brincadeira: jogo entre jogos. Estou a me despedir de J.M. Coetzee. Agarrada aos volumes, numa despedida  intoxicada. Volto. Retomo. Enfiada na história misturo biografia / memória, e não me despeço. Chegou a hora! Difícil! Um velho amor dói e fica se contorcendo! Lambuza, e se espalha, gruda! Assim eu volto para ele e me reencontro com seu vulto. Eu sinto. Atravesso a porteira, caminho em direção a casa. Os cães me rodeiam: eu o vejo, levanto a voz, e os eucaliptos respondem. Sou invisível. Sinto o cheiro da carne de panela. Sei que está na cozinha, mas não posso entrar. Não me convidou. Então, eu volto e retomo a estrada. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019- Torres

Nestes momentos, até uma criatura insignificante, um cão, um rato, um besouro, uma macieira raquítica, uma caroça subindo uma montanha, uma pedra com limo, conta mais para mim do que uma noite de êxtase com a mais bela a mais devotada amante. Essas criaturas parvas e, em alguns casos, inanimadas, se impõem a mim com tal plenitude, com tal presença amorosa, que nada no campo ao alcance do meu olhar arrebatador deixa de ter vida. É como se tudo, tudo que existe, tudo de que me lembro, tudo que meu confuso pensamento toca, tivesse algum sentido. Hugo von Hofmannsthal ‘Carta de Lord Chandos a Lorde Bacon’ (1902) 

Escrita perfeita, exata, clara de Coetzee, Elizabeth Costello é a biografia de uma mulher: mãe, irmã, amante, escritora. Também profunda e inquietante meditação sobre a natureza do romance, como só um escritor do calibre Coetzee pode produzir. Diz José Rubens Siqueira que assina a tradução do livro editado pela Companhia das Letras – São Paulo – 2004

coetzee