Envelhecer, perder pedaços e não encontrar bordas! E perder referências… O filtro. Memória apertada. Lapsos e estranhezas! Envelhecer surpreende. Reconheço o corpo, cada músculo. Os ossos conversam. E o tempo grita! Não sei responder. Pensar exagero. Olhar/ver assusta. O que nunca enxerguei aparece, e reconheço. O nunca imaginado existe e se exibe. Dois anos, três anos e eu era tão menina! Beth Elizabeth M. B. Mattos ainda em Torres 2019
A Leste do Sol e a Oeste da Lua
Este lugar existe, estou acomodada nele. Acordo com o sol deslumbrado. Eu me vejo no espelho deste tempo longo, esticado… E me dou conta que não existe ninguém, nem mesmo na sombra da minha imaginação, não importa. Fico invisível! Se arrumo os cabelos, se o vestido se ajusta, e ou as unhas perfeitas feitas, igual desapareço. Não existe ninguém, imaginar não faz sentido, imaginar é fugir. Longa e ajustada despedida do que foi… A música! Existem os contos / histórias… Esta sou eu. Beth Mattos em dezembro de 2019, em Torres.
A leste do sol e a oeste da lua. A localização geográfica sugere um reino sobrenatural, uma região misteriosa distinta da realidade cotidiana, especialmente porque o sol nasce no leste. “Era uma vez um camponês muito pobre. Seus filhos eram tantos que ele não tinham nem roupa bastante para lhes dar. Todos eram crianças bonitas, mas a mais bonita era a filha caçula, que era de uma beleza infinita. Em muitos contos de fadas a beleza de uma das filhas encerra a promessa de atenuar a situação econômica angustiante de uma família.”
E o peso da urgência pode ser desesperador. A beleza pode ser a marca de uma gorda infelicidade que se espalha preguiçosa, e depois, inútil. Não é assim?
“Numa noite de quinta-feira, quando o outona já ia tarde, o tempo estava tempestuoso e uma escuridão pavorosa reinava lá fora. Apartada do mundo, trancada nesta escuridão, os sonhos nos acordam e a surpresa da vida me agarra. A chuva caía com tanta força e o vento soprava tão furiosamente que as paredes da cabana tremiam. Todos estavam sentados ao pé do fogo, ocupados com uma coisa ou outra. Foi então que, de repente, ouviram – se três pancadinhas na janela. Assim como o sete, o três é um número privilegiado nos contos de fadas: três porquinhos, três ursos, três tarefas e, neste caso, três pancadinhas na vidraça. […] Quer me dar sua filha mais nova em casamento? Se o fizer, torná – lo – ei tão rico quanto agora é pobre,…Ogros e pretendentes animais sempre almejam a caçula das três filhas, talvez porque, num tempo passado, a mais jovem numa família era, com toda probabilidade, a mais atraente, já que as irmãs mais velhas disponíveis geralmente não tinham conseguido se casar, por uma razão ou por outra.”
E o estranhamente destas narrativas dos contos repetem a vida / indicam a trilha. Estes malfadados e desastrosos casamentos que roubam as possibilidades de aventurar-se na vida. Velha, desesperançada deste / neste tempo de envelhecer dou -me conta que esta tal desperança sempre existiu, dentro ou fora. Casamentos e fazer audaciosos. Construir e produzir me atropelou do mesmo jeito. Queremos no sonho o impossível do querer. Estou a ler contos de fadas. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – ainda em Torres
Este conto norueguês foi publicado pela primeira vez em inglês em 1849. Uma variante de A Bela e a Fera, foi inspirado por Eros e Psique. Longo e cheio de voltas não poderia transcrevê – lo. Apenas deixar a vontade de viajar nos detalhes e percalços do amor. A Leste do Sol e a Oeste da Lua foi escrito por Peter Christen Asbjornsen e Jorgen Moe
caminhar
Vamos caminhar para entender o porquê de ser assim a vida, retalhada, incompleta e dolorida. Beth Mattos / dezembro de 2019, ainda em Torres
juntos, com certeza
24 de dezembro de 2019 – estranhamento pendente, não sei explicar. A memória se espreguiça confusa, ora lembro, ora esqueço. E neste jogo vou a me dar conta do tempo como se fosse um hoje disfarçado, e ao mesmo tempo tão real! Palpável. Esquisitice de outro mundo a despedida: um presépio, uma árvore de Natal. Velas acesas. Quero tudo outra vez, quero tudo de volta! Aqui é Natal! A mãe e o pai, a tia Joana lindos nas vestes natalinas, especiais. Olhos verdes arregalados do Roberto. Anita enrolada no bom gosto da elegância festiva. As pratas e os cristais. Pacotes com fitas coloridas, e as flores. O perfume. Na fantasia da memória todos alegres. Na casa da Magda o Papai Noel vai descer com o grande saco de presentes, e vai dizer como nos comportamos durante aquele ano… Nunca o reconhecemos, intuímos, mas não temos certeza, igual sentimos certo temor. Depois, na rua Marquês de Pinedo, a Frigga tocará piano, e cantaremos Noite Feliz! O Moog rodeado dos netos, e a casa iluminada, enfeitada com guirlandas. A mesa com a toalha cor de rosa e seu bordado de ramos. Caixa de música e o riso de crianças. É Natal! Eu estou em casa. E hoje tão longe! Silêncio de passarinho acordando, e quase frio neste amanhecer. Separados! E com certeza juntos! Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres


A carne
“Mas com todos os demônios, como me sinto ausente diante de mim mesmo! Serei eu um outro!” Francisco Brennand
esculpir e pintar
Vou pintar de alegria a janela, esculpir aquela porta, e o vento me trará jasmins… Vou descer os degraus com cuidado, vou rezar Ave Maria e Santo Anjo. Vou pedir para voltares. Vou me deixar ficar triste sem chorar! Que este ano se apresse para sair. Mergulho no mar, abro os olhos no fundo. Chamo a Magda, competimos nas braçadas, depois vamos comer pastéis e sonhos, e vemos filmes, não dormimos, rimos de nós duas, tanto tempo! Vou lavar a louça, e também os copos, a comida está pronta. Ah! Estou com fome! Por isso não durmo, invento. Querido, porque não me perdoas, e vens me abraçar… Estou atrasada para o amor, fiz tudo errado, fiz certo… Quebro os copos, todos. Esvazio gavetas, e a música, francês… Sou tão atrapalhada! Perdoa! Beth Mattos cansada em dezembro.Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – tanto quero dizer para não guardar dor e aperto! Vou comer pão com manteiga, café com leite, e será demais… Saudade tenho de ti. Beth Mattos dezembro de 2019.

Luiza M. Domingues

Depois do painel repetido e repetido e repetido de fotos da história, não aparecem os meninos, esqueci as irmãs o pai e a mãe e a tia Joana e os amados todos, possíveis e impossíveis de fotografar. Avalanche e tanta história! Beth Mattos 2019 / Torres no calor e no cansaço atropelado, Fernando, por favor, perdoa.
sempre o SE condicional
Se tu viesses me ver. Se tu viesses me ver eu te surpreenderia no beijo sem palavra. Surpreenderia com beijo a tua presença surpresa…
Depois, constrangidos e silenciosos, ficaríamos no abraço, sem conversa.
Se o beijo caminhasse, iríamos sorrir no gosto apressado de ir e voltar, ficar.
Se tu viesses me ver, iríamos caminhar…
Tuas mãos nas minhas mãos. Sem palavras.
Se tu viesses me ver, talvez fôssemos ao mar. Elizabeth M.B. Mattos 2019
MISHIMA : visão do vazio
Enquanto envelheço devagar e quieta Devagar e quieto passa o dia. E eu vou a me despedir da leitura, do filho, do tempo, do dia. A leitura na conversa. O Real na ficção.
“As únicas palavras comoventes foram pronunciadas pela mãe, quando ela acolhe os visitantes que vieram prestar suas homenagens. ‘ Não lamentem por ele. Pela primeira vez na sua vida, ele fez o que desejava fazer.’ Ela exagerava sem dúvida, mas o próprio Mishima escrevera em julho de 1969: ‘ Quando revivo no pensamento os últimos 25 anos, seu vazio me enche de espanto. Mal posso dizer ter vivido.’ Mesmo na vida mais deslumbrante e mais satisfeita, aquilo que se quer realmente fazer quase nunca é realizado, e das profundezas das alturas do Vazio, aquilo que foi, e aquilo que não foi, parecem igualmente miragens ou sonhos.” (p.125) Marguerite Yourcenar, Mishima ou A visão do Vazio. A alma se rasga… “Morra em pensamento a cada manhã, e não mais temerás a morte.” Hagakure, tratado japonês do século XVIII.
Algumas pessoas ficam/estão/retornam porque as trago de volta. E outras seguem / desaparecem porque não penso mais nelas. Mágica de ir e vir… Eu gosto. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres
Duva Tavares: “Tua sensibilidade, teu ‘diário’ e teu sorriso cativam. Bom te conhecer! São entrecortados, às vezes, parecem soluços, uma toada tricotada, rendada, pontilhado, parece bilro.”Um alento, e um sorriso. Presente de Natal. Obrigada Duva.
fúria do amor
“Não há como se defender dele, quando chega, toma a casa; a amada para o amado e esse para ela são o Deus verdadeiro” Paulo Hecker Filho afirma, apresentação de A Celestina de Fernando de Rojas […] ” E o amor só quer o amor; recusa não se completar sexualmente. […] a obra é uma reprimenda aos enamorados, embora toda ela diga sim ao amor. E o ao amor que existe, não o que se sonha, o amor falível, na dependência de mentiras, situação social, dinheiro, ameaçado pelo acasos e os riscos de estar vivo.”
Despedida completa: da fantasia para a vida real. Vez que outra me reconheço num olhar, e ali mora o perigo, ou a vida. Também nas palavras e no gesto. E volto ao Francisco Brennand e seu derradeiro esforço de fechar o círculo com o Diário – O Nome do Livro. Deixa um rastro de aprendizado/esforço e genialidade. E claro, se espicaça em relações e em citações: “O certo é que a carne é um luxo, inspirando cobiças ameaçadoras, daí porque é tão difícil abordar esse tema com sucesso, pois a maior parte das vezes acabamos dominados pelo convencional por medo do abismo. […] Uma vez mais me desligo e volto atrás. A retratação é a seguinte: não é absolutamente verdadeiro que as leituras de juventude sejam mais completas e eficientes do que aquelas realizadas na maturidade ou mesmo na velhice. Espero muito em breve abordar o assunto com mais precisão. Tanto como eu, o pobre conde Tolstói esteve envolvido numa luta sem fim com as mulheres: ‘Nenhuma bulha, mas tudo é anormal e angustioso. Sem calma’.” (p.280)
Amanhece. Preciso voltar a dormir. Os passarinhos acordaram. O cinzento da manhã se veste de branco, deve ser o esforço de purificação. O dia se acorda e o laborioso se inflama: tanto a ser feito! Não terminei de dobrar as roupas, nem de levar a louça, nem terminei a leitura. Camille Claudel grita e desespera na liberdade de amar Rodin. Carta de Camille: “…é realmente forte demais!… E me condenar a prisão perpétua para que eu não reclame!
Tudo isso no fundo sai do cérebro de Rodin. Ele só tinha uma ideia, a de que ele morrendo eu tomasse impulso como artista e me tornasse maior do que ele: ele precisava manter – me em suas garras depois de morto, como em vida. Era preciso que eu fosse infeliz com ele morto como o fui com ele vivo. Ele venceu em tudo, ponto por ponto, pois, quanto a ser infeliz, de fato o sou!… Eu me aborreço muito com esta…escravidão..” (Carta do Asilo, p. 317) Anne Delbée Camille Cladel, uma mulher