apenas tu

Saudosa, velha, apegada, vontade apertada, pés gelados: sou eu. Encolhida nas cobertas. Ouvidos cheios de vento…e te imagino inquieto, menino e rotineiro: a mesma coisa sem ser, – viajante,  vigilante… Os filhos nos viram/reviram pelo avesso: e te ocupas.  Metódico e lírico ao mesmo tempo /poeta. Remexes no passado e te inquietas.  E te deslumbra o presente/ o agora todo solto, leve, apenas tu… Beth Mattos – abril de 2019 Torres

Chapéuzinho vermelho

Outra vez, é a última vez que te escrevo meu amado querido, a última vez que te digo, fala comigo, volta.

Teu silencio pesa, volta para me dizeres que vais definitivamente embora, não acredito. Precisas ir. Explica tudo outra vez, devagar.

Enquanto dizes e repetes eu te cuido

ou te devoro: sou o lobo mau, sou a chapeuzinho vermelho perdida na tua floresta, eu te devoro. Elizabeth M.B.Mattos – abril – Torres

aquele que mais amei

Você me perguntou, num rasco de sinceridade, qual o homem que mais amei, desejei. Quem o escolhido, o querido? Eu respondo. Aquele que não tive. Idealizei. Escritor, pintor, escultor, ator, jornalista, músico: os fantasmas. Em que momento amei? Quando não quis ser sogra, amiga ou confidente. Confessei. Sedução perigosa: tudo querer e nada possuir, puro desejo. Inquietude ou distração. Da arte, um templo. Não respirei, enfiei as mãos na terra: eu ainda penso em você. Distraído, medroso, ousou, e viveu… Saudade! O beijo, a certeza de que era/foi/ será sempre, amor. Não repartir ou respirar. Queria e tanto! Sem ousar. Eu confessei o desejo de amar… Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2019 – Torres

solidez

 

escondida no brinquedo

Espiar olhar, divagar devagar, não saber. Dormir. O desejo ardido de querer! Que o tempo me segure/prenda amoleça…E volte. Vontade de saber. E te querer! Sim, tu disseste, eu guardei: saber viver, obrigatório (obrigação a ser assumida) para quem amou,sofreu, e perdeu. Solidão não. Isso deve ser a tal solidez!

Elizabeth M.B.Mattos – abril de 2019 – Torres

vinho e chuvisco

escondida no brinquedo

Chuvisco. Vinho tinto. Não posso colher os cogumelos… imagem perfeita a colheita. Memória. Hora e sabor: na manteiga com alho, delícia! Massa caseira, queijo e sonolência, ainda não é inverno. Alma italiana. Ah! Berinjelas! Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2019 – Torres

lado errado do amor

Tu me fizeste sofrer.  O lado sombrio, errado de ser… Nasceste dolorido, desencontrado. Tu me fizeste sofrer: eu te perdoo.

Tu me fizeste amar o amor desgovernado, desmedido. Cuidadoso, cauteloso. Amei o azul… Tu me fizeste sofrer: eu não te perdoo. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2019 – Torres

presença camuflada no boné

lágrima

Tristeza picada. Sorriso inquieto, voz travada. Questão resolvida. Outras corretas questões presentes. Importante energia. Necessária.

Por que se esgueirar? Enterrar passado… Passado necessário: não amputação. Também eu me perco. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2019

 

 

 

estrangulamento

Esta memória (redução de pena/ punição) estremece a alma. Penso: o mal, o mal: o honesto, honesto. O justo, injusto. O particular /o coletivo se estrangula… E vai se escoando num particular de ganância! E o planeta sobrevive… Crime, violência roubo/espoliação, morte na carência, impunidade e vergonha.

E.M.B.Mattos – abril de 2019

Dor do corpo e dor da ideia marcam forte, ia-voava reto tão forte como todo o amor e raiva de ódio. Vai mar…

“Conforme pensei em Diadorim. Só pensava era nele.[…] Com meu amigo Diadorim me abraçava, sentimento meu voava reto para ele…  Ai, arre, mas: que esta minha boca não tem ordem nenhuma.[…] Dor de copo e dor de ideia marcam forte, tão forte como o todo amor e raiva e ódio. Vai mar…[…] o mais importante e bonito do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.” Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas

Quero de volta as minhas janelas para o mar… Quero de volta tua fala, teu olhar, teu beijo de ontem. O abraço de hoje. Eu te quero de volta para ficar… E nunca sei como te explicar. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2018 – Tu levaste contigo os amores passados. Por que não te deixas ficar tranquilo nos meus braços? Eu quero! Eu quero que fiques, meu querido! Elizabeth M.B. Mattos

Quero de volta as janelas por onde o mar se debruçava esmeralda. Quero te abraçar pelas costas. Se vens me ver e me dizer/falar, não te deixo ir, nem voltar… lembras quando eras tu e eu?